rotina

Acho que, na verdade, vou sentir saudades. De cruzar o Mercado Público toda manhã, quando ainda vazio e meio na penumbra; ver o movimento dos trabalhadores se organizando pra começar o dia, o largo da Alfândega ainda vazio e silencioso.

Entrar no prédio e dar um bom dia sorridente para a moça que sempre está no balcão; entrar no elevador onde, geralmente, a senhora que faz a limpeza já está limpando as paredes. Eu pergunto se posso pegar uma carona, ela diz que sim, conversamos amenidades. Ela vem comigo até o décimo andar, que é onde eu trabalho, e nos despedimos desejando bom dia e bom trabalho uma para a outra.

Quando entro no corredor da clínica, já sinto o cheiro do café recém-feito. Se olhar pra trás, a grande janela de vidro do fim do corredor mostra o mar, com as montanhas azuladas no fundo.

Abro a porta da clínica, mais uma vez cumprimento com um bom dia, caminho até o consultório. Abro as cortinas e lá está a vista de todos os dias: a beira mar, a ponte Hercílio Luz, as ruas grandes e movimentadas de Florianópolis. Todos os dias essa paisagem me deixa encantada. Abro então as janelas, e o ar fresquinho da manhã entra na sala.

Visto meu jaleco, pego meus pertences de trabalho na gaveta, pego a xícara que deixei em cima da mesa na véspera e caminho com ela até a jarra de café sem açúcar, que invariamente me espera antes de ser colocada na garrafa. Preparo meu café, volto para o consultório e começo a atender.

No mínimo 50 pessoas completamente diferentes sentam na cadeira à minha frente todos os dias. Algumas são tranquilas, rápidas e objetivas, quase não se fazem notar. Outras tem histórias pra contar – e é fascinante ouvir tantas histórias todos os dias. O mundo é gigante, coisas que nem imaginamos acontecem nele todos os dias. Todo dia é uma lição.

Há dias em que estou bem e consigo lidar com tudo maravilhosamente. Saio do trabalho com aquela ótima sensação de dever cumprido. Há dias, no entanto, em que lidar com tanta coisa é difícil. Faz parte da vida, faz parte da profissão, faz parte do fardo de ser uma pessoa.

Na última hora do dia, geralmente, o movimento diminui. O clima na clínica fica tranquilo; sem não há ninguém, conversamos amenidades. Quando fecha meu horário, despeço-me abanando as mãos acima da cabeça.

Ganho a rua; nesse horário, as ruas do centro estão tomadas de gente. No meio da multidão, caminho até o terminal e pego meu ônibus. É um momento tranquilo do dia. Observo as pessoas, leio meus livros, às vezes tomo um café.

E sigo pra minha casa. No outro dia, tudo igual.

Com o tempo, tudo isso se torna tão comum que, se a gente não prestar atenção, perde a graça. Mas hoje eu parei pra pensar, pra prestar atenção… É o que acontece quando sinto vontade de escrever sobre algo.

Talvez, dessas coisas é que seja feita a vida

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