minha cabeça é muito doida

estou lendo 3 livros ao mesmo tempo, todos completamente diversos entre si

aqui deitada na cama, lendo a cada 10 minutos umas páginas de cada um deles

ao mesmo tempo, escuto música e, volta e meia, cantarolo junto

meus pensamentos passeiam facilmente entre todas essas atividades, flutuam em reflexões sobre todos os assuntos – os trechos dos livros, as letras e melodias das músicas – alegres de serem alimentados de coisas aleatórias

 

minha alma sobrevive e se sente plena de momentos como esses

frente fria

a frente fria trouxe com ela o meu tipo de dia favorito: dias de céu bem azul sem nuvens, com muito vento. esses dias me deixam automaticamente feliz, não importa o que esteja acontecendo.

por exemplo: estou resfriada. passei o dia tossindo, espirrando e tendo de assoar o nariz a cada 5 minutos. isso não é nada agradável quando você passa o dia atendendo várias pessoas. mas eu não estava nem dando bola. pedia desculpas aos paciente e continuava atendendo alegremente – hoje não há uma nuvem no céu e está frio, portanto nada pode acabar com o meu dia!

depois do almoço vegano no meu restaurante favorito, me dei ao luxo de um capuccino italiano. sentei num muro, sob a sombra de uma árvore, em pleno centro de Floripa. e, sorvendo vagarosamente golinhos de capuccino, passei 20 minutos simplesmente olhando para cima.

no fim da tarde, já em casa, eu fiz algo que é uma das minhas coisas favoritas em todo o universo e que, por uma série de motivos se tornou difícil e raro: sentei na varanda com meu livro do momento (“terras do sem fim”, do maravilhoso e favorito jorge amado) e fiquei simplesmente.. lendo e tomando sol.

é uma atividade, essa, que me preenche de inimaginável prazer. o vento frio, o sol morninho, as teias em que jorge amado nos enrola com seus fascinantes personagens e suas complexas personalidades.

vez ou outras erguia os olhos do livro, olhava para a frente, observava o céu mais um pouco.

escrevo, agora, tomada de uma tremenda sensação de paz. uma sensação de que nada pode dar errado, já que é tão simples e de fácil alcance a felicidade.

rotina

Acho que, na verdade, vou sentir saudades. De cruzar o Mercado Público toda manhã, quando ainda vazio e meio na penumbra; ver o movimento dos trabalhadores se organizando pra começar o dia, o largo da Alfândega ainda vazio e silencioso.

Entrar no prédio e dar um bom dia sorridente para a moça que sempre está no balcão; entrar no elevador onde, geralmente, a senhora que faz a limpeza já está limpando as paredes. Eu pergunto se posso pegar uma carona, ela diz que sim, conversamos amenidades. Ela vem comigo até o décimo andar, que é onde eu trabalho, e nos despedimos desejando bom dia e bom trabalho uma para a outra.

Quando entro no corredor da clínica, já sinto o cheiro do café recém-feito. Se olhar pra trás, a grande janela de vidro do fim do corredor mostra o mar, com as montanhas azuladas no fundo.

Abro a porta da clínica, mais uma vez cumprimento com um bom dia, caminho até o consultório. Abro as cortinas e lá está a vista de todos os dias: a beira mar, a ponte Hercílio Luz, as ruas grandes e movimentadas de Florianópolis. Todos os dias essa paisagem me deixa encantada. Abro então as janelas, e o ar fresquinho da manhã entra na sala.

Visto meu jaleco, pego meus pertences de trabalho na gaveta, pego a xícara que deixei em cima da mesa na véspera e caminho com ela até a jarra de café sem açúcar, que invariamente me espera antes de ser colocada na garrafa. Preparo meu café, volto para o consultório e começo a atender.

No mínimo 50 pessoas completamente diferentes sentam na cadeira à minha frente todos os dias. Algumas são tranquilas, rápidas e objetivas, quase não se fazem notar. Outras tem histórias pra contar – e é fascinante ouvir tantas histórias todos os dias. O mundo é gigante, coisas que nem imaginamos acontecem nele todos os dias. Todo dia é uma lição.

Há dias em que estou bem e consigo lidar com tudo maravilhosamente. Saio do trabalho com aquela ótima sensação de dever cumprido. Há dias, no entanto, em que lidar com tanta coisa é difícil. Faz parte da vida, faz parte da profissão, faz parte do fardo de ser uma pessoa.

Na última hora do dia, geralmente, o movimento diminui. O clima na clínica fica tranquilo; sem não há ninguém, conversamos amenidades. Quando fecha meu horário, despeço-me abanando as mãos acima da cabeça.

Ganho a rua; nesse horário, as ruas do centro estão tomadas de gente. No meio da multidão, caminho até o terminal e pego meu ônibus. É um momento tranquilo do dia. Observo as pessoas, leio meus livros, às vezes tomo um café.

E sigo pra minha casa. No outro dia, tudo igual.

Com o tempo, tudo isso se torna tão comum que, se a gente não prestar atenção, perde a graça. Mas hoje eu parei pra pensar, pra prestar atenção… É o que acontece quando sinto vontade de escrever sobre algo.

Talvez, dessas coisas é que seja feita a vida

dos meus rastros e das minhas mudanças

Eu tenho uma mania engraçada: às vezes, entro aqui no blog e começo a ler posts meus dos anos anteriores do mesmo mês em que estou. Estou aqui sentada lendo posts de abril de 2016, 2015, 2014, 2013, 2012, 2011 e 2010…

 

Fico orgulhosa: como eu mudei! Caramba… Quantos pesos ficaram pra trás! Eu ainda me acho meio desgraçadinha da cabeça, mas eu deveria ter mais paciência comigo mesma, que já foi muito pior. Hahahahaha

Hoje sou uma pessoa muito mais leve do que era há uns anos atrás. Algumas frustrações, caras quebradas, terapias e Nikolas depois, minha vida emocional e meus relacionamentos são OUTRA VIBE. Totalmente. Que coisa bem maravilhosa! Dá vontade até de voltar lá atrás e dizer para aquela Paula: “sossega, criatura! pra quê tá sofrendo com isso? pra quê tanta culpa, tanto drama, tanta cobrança? larga de mão e fica de boas…”

Enfim, eu sei bem que ela tinha seus motivos. E ela aprendeu e mudou, isso que importa.

Mas imaginem vocês que eu era o tipo de pessoa que achava que tinha de ter a vida toda certa e planejada. Queria ter plano de curto, médio e longo prazo, pra até 10 anos. Hoje em dia eu não sei nem o que vou fazer ano que vem… Mal sei o que estarei fazendo mês que vem, na verdade. Aprendi que a vida é inconstante mesmo e que não adianta ficar tentando controlar as coisas.

Eu queria seguir o roteiro, fazer “tudo direito”, ter um bom emprego, trabalhar muito, casar, ter 4 filhos. ATÉ PARECE KKKKKKKK 4 FILHOS! Socorro… Ainda bem que eu comecei a fazer aquele interessante exercício de me perguntar o que EU realmente quero e separar isso do que eu acho que as pessoas querem de mim. Foi um processo longo e difícil esse, de descobrir o que EU queria pra minha vida e o que EU gostava. Aí eu descobri que nem filho eu quero ter. Pelo menos agora eu não quero nunca ter. Quem sabe, né?

Eu também fui o tipo de pessoa que achava que podia prometer eternidade nos meus relacionamentos. E nem digo só de relacionamentos românticos. Eu tinha plena certeza e confiança de que algumas pessoas JAMAIS sairiam da minha vida. De que não havia vida sem elas. Mas, né? Mais uma vez a vida ensinou: ninguém é insubstituível, existe vida antes e depois de qualquer pessoa. Olha quanta gente já entrou e saiu! Pra que ficar tentando adivinhar quem vai ficar e quem não? Deixa o movimento. Deixa as pessoas virem, ficarem o quanto quiserem, irem embora quando algo levar embora. A gente sempre se diverte no meio do caminho, aprende umas coisas e segue a vida sem drama e sem rancor.

E os significados que eu colocava nas coisas? Vishe… Via significado em tudo. Hoje em dia acho a vida tão menos complicada e confusa. (menos confusa, não melhor, vejam bem. eu continuo achando que a vida é uma merda, só acho que ela é o que é, não tem nada de significado ou mensagem subliminar escondida por trás das coisas). Ter propósito na vida é uma coisa muito legal, mas às vezes isso acaba complicando coisas que não são complicadas e confundindo coisas que não são confusas. Às vezes a vida só é uma merda mesmo, e pronto. Ou só é legal mesmo, e pronto.

Mas o que eu acho que mais mudou, de tudo isso, é minha forma de me relacionar com as pessoas. Me tornar uma pessoa mais assertiva foi um processo enooooooooooorme de longo e cansativo. Eu era uma criatura maluca: me autossacrificava pelas pessoas, achava que tinha que ser assim; aí as pessoas não faziam o mesmo por mim, que elas não são obrigadas; aí eu chorava, me sentindo sozinha, abandonada e sem amparo; aí isso desencadeava conflitos; aí eu me sentia culpada, um lixo de ser humano; aí eu me autossacrificava pelas pessoas de novo pra tentar compensar isso tudo; etc etc etc etc. Percebem o drama? Aí eu fiz terapia a primeira vez e me tornei consciente disso e comecei a mudar. Mas, gente, é tão difícil mudar algo TÃO enraizado! Tipo, esse foi o jeito que eu aprendi a me relacionar desde criança. Mudar um hábito de vinte anos é uma trabalheira. Aos poucos fui mudando. O auge da mudança foi quando uma criatura abençoada pelos céus entrou na minha vida.

Aprendi com o Nikolas, na prática, o que é um relacionamento saudável. E, gente, quecoisamarlindadessemundo é um relacionamento saudável. Nikolas é, aparentemente sem esforço algum, a pessoa mais assertiva que eu conheço. Ele é tipo um paciente modelo de terapia cognitivo comportamental. Ele tipo É a PERSONIFICAÇÃO da terapia cognitivo comportamental (só que ele nunca precisou fazer terapia pra isso, o desgraçado). Aprendi que dá pra se relacionar simplesmente falando o que a gente pensa e sente. Que se estivermos aflitos, em dúvida ou achando que o outro está achando algo, a gente chega e pergunta. Aí a gente resolve tudo com 5 minutos de conversa. Se um erra, o outro fala que ficou chateado, o primeiro pede desculpas, o segundo perdoa, e fim. Simples assim. Relacionamentos podem ser simples. Extremamente simples.

Com a simplicidade em lidar com relacionamentos vários, veio como consequência fácil uma crescente sensação de liberdade e ausência de preocupação com a opinião alheia a meu respeito. Tipo, por mais clichê que isso possa parecer.. Genuinamente não me preocupo mais da mesma forma com a opinião das pessoas sobre quem eu sou. Pois consigo concluir sempre, de forma bastante racional, que isso simplesmente não faz diferença na minha vida de força prática.

Quer dizer, as expectativas que as pessoas colocam sobre mim são um problema delas, não meu. Elas que lidem com isso, portanto. Vez ou outra, se você convive comigo, eu vou te decepcionar. Desculpa. É o que as pessoas fazem. O que posso prometer é que vou me arrepender e sentir muito (mas não me martirizar).

Assim como as expectativas que eu coloco nas pessoas são problema meu. Então eu simplesmente comecei a me responsabilizar por elas e lidar com elas. E a me irritar, decepcionar e entristecer muito menos com as pessoas.

Eu também espero muito menos das pessoas hoje em dia, consequentemente, mas é o preço, né não?

Não que eu tenha conseguido mudar tudo isso 100%. O que eu sou é uma complexa construção de uma pitada de genética e um mundo de ambientes e acontecimentos. Eu tenho mecanismos profundos e marcantes demais, que provavelmente vão fazer parte de mim pelo resto da minha vida. Coisas que eu vou continuar driblando.

O legal é que todo dia faço uma descoberta nova a meu respeito, encontro um jeito novo de melhorar e lidar melhor com minhas questões. Eu ainda estou tentando lidar melhor com minha ansiedade, com minha sensação constante de não ser boa ou capaz o suficiente, de ser uma farsa – mas vamos lá, estou caminhando e me esforçando pra melhorar isso também.

Enfim. Eu poderia continuar escrevendo, mas seria um texto infinito. Não dá pra mensurar o tanto de mudanças que ocorrem numa pessoa. E as mudanças vão continuar acontecendo, certeza. Ano que vem olharei pra trás e pensarei “caralho, olha só como eu era ano passado! como pode? ainda bem que eu mudei”

O importante é que essa sensação de “ainda bem que eu mudei” continue presente, sempre

tanta gente buzinando esqueceu de andar

veio ao mundo por engano

eu vim passeaaaarrr

 

 

disseram que a vida nesse lugar
depende da temperatura do ar
televisão, teto solar para ver
cerveja e cama para sobreviveeeeerrrr

mas vai ficar tudo certo – já está ficando

Cheguei na clínica, hoje cedo, e conversei com uma colega para ela ficar com uns horários meus, pra eu trabalhar menos. Aí, falei uns necessários e libertadores nãos que eu não vinha dizendo. Quando saí pra almoçar, o clima estava ótimo, o sol quentinho e um vento fresco, e encontrei um sebo numa calçada (coisas de Floripa…). Lá, sob o sol, dois exemplares de Jorge Amado, antigos, de capa dura. “Moço.. Vou levar esses dois”. O movimento da clínica estava suuuper fraco, insuficiente para as duas médicas que estavam lá. A administradora da clínica ligou dizendo que a agenda estava bem vazia e que, se eu quisesse ir pra casa… Quis, né?! Vim pra casa, fiz Yoga no meio da sala, meditei. Fiz uma xícara de café. Corri meus olhos pelas linhas de “Terras do Sem Fim”. E aí, finalmente, depois de tanto tempo, tive vontade de sentar, ouvir músicas aleatórias e escrever. Coisa boa escrever e ouvir músicas aleatórias, meu Deus.

apenas o momento presente importa… é preciso aprender a ser feliz com o que se tem agora

não espero acabar tão sério

 

não tenha medo

largue o emprego

(vivendo à vista

pagando em prestação)