o motivo

em síntese: vou fazer patologia porque resolvi assumir que tenho uma alma nerd meio introspectiva que não quer lidar com outros seres humanos todo o tempo

 


desenvolvendo o tema:

talvez seja uma informação que soe desencontrada aqui, já que tudo o que escrevi nesse blog sobre minha relação com a profissão e os pacientes diz o contrário. e, na verdade, não, eu não passei esse tempo todo mentindo para vocês! eu realmente sou fascinada pelos seres humanos. apaixonada, muitas vezes. eles me despertam compaixão, tenho habilidade em acolher seu sofrimento, faço vínculo com pacientes muito, MUITO facilmente. na verdade, ter um bom relacionamento médico-paciente é uma das coisas mais fáceis do mundo pra mim.

PORÉM

quando me permiti ser bem sincera comigo mesma, concluí que sempre me senti aliviada em estar no meu quarto estudando. sempre preferi os livros. sempre preferi o microscópio. uma das partes mais maravilhosas da faculdade pra mim foi a dissecação. ali estava um cadáver, que eu podia explorar empunhando um bisturi, e que me deixava fascinada e de olhos brilhando. eu poderia passar horas sozinha no anatômico, dissecando, sem ver o tempo passar. em silêncio… eu, no meu mundo.

o consultório me deixa exausta. eu gosto de lidar com gente e ouvir suas histórias, mas só as cinco primeiras gentes que eu atendo no dia. depois disso, quero café, silêncio e isolamento social. e o problema é que atender 5 pessoas por dia não pagará minhas contas – e, no mundo real, é importante poder pagar as contas.

sou louca por gente, mas em outro formato, entendem? com hora marcada, tempo limitado e obrigação de tantos pacientes por dia, não.

pra ser bem franca, também assumi e lidei com o fato de que tem uma coisa de ego nisso aí de ser O MÉDICO de alguém. todo mundo sempre me disse o quanto eu sou humana. sempre fui elogiada pelos pacientes por ser gentil, amável, atenciosa. e me envaideci disso, e investi ainda mais energia nisso para alimentar ainda mais minha vaidade. é bem atraente para nosso lado narcisista CUIDAR de outro ser humano, SALVAR outro ser humano, oferecer a alguém o conhecimento que alivia seu sofrimento. talvez por isso tanta gente passe anos no cursinho até entrar na faculdade de medicina. e depois enfrente 6 anos de doenças mentais e exaustão pra chegar na formatura.

mas o preço foi alto pra mim: não importa quão boa eu seja em fazer exatamente o que os outros esperam de mim, o gasto energético para fazer isso é enorme. eu fico esgotada ao final de cada dia de trabalho. quando voltei de viagem, não fiquei chateada de ter voltado. não fiquei chateada de ter viajado menos. mas fiquei DESESPERADA de ter de voltar para o consultório.

o dia em que considerei a patologia pela primeira vez foi um dos momentos em que mais me senti… aliviada. me encontrando na medicina. finalmente. eu, sendo eu, assumindo características que não correspondem ao esteriótipo do maravilhoso médico salvador de vidas, que abdica de si mesmo em prol dos outros. abri mão de ser PAULA, A MARAVILHOSA E BONDOSA MÉDICA QUE SALVARÁ A TODOS E SERÁ A MELHOR MÉDICA DO MUNDO AO CONTRÁRIO DESSES MÉDICOS QUE NÃO ATENDEM NINGUÉM DIREITO E ASSIM ELA SERÁ AMADA POR TODOS porém viverá exausta e imersa em culpa e autocobranças

e decidi ser: PAULA, UMA PESSOA MUITO FELIZ

 

 

 

(ps: esse é um post de autodescoberta. não é uma crítica aos demais médicos – só pra deixar bem claro)

 

 

 

 

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fiz minha lição de casa

há mais de um ano eu tive uma crise de pânico no trabalho e voltei pra terapia depois de um tempo sem. eu estava exausta, me sentindo sugada, desiludida e me sentindo extremamente solitária na trajetória da minha profissão.

naquela época, minha psicóloga me falou algo que me deixou meio transtornada por vários dias. ela disse que eu tinha de virar uma chave na minha cabeça: parar de pensar sempre no que os outros esperavam de mim e começar a fazer o que eu queria. completamente perdida, olhei pra ela e disse “mas as coisas se misturaram tanto na minha cabeça que eu acho que simplesmente não sei o que eu quero”.

“você vai ter de começar a tentar… você tem de praticar”, ela respondeu.

e várias sessões depois daquela ela me ajudou a desfazer os nós que minha cabeça tinha feito, misturando sempre o que eu realmente queria com o que eu achava que as pessoas queriam de mim. o que ela mais me perguntou naquelas sessões foi “e você, paula, quer fazer o que?”

 

pois bem… eu fiz a lição de casa. comecei a me perguntar com sinceridade o que eu faria se pudesse escolher sem a influência de ninguém. tipo, simplesmente qual era a coisa que eu tinha vontade na hora. transformei isso num hábito. mesmo quando eu não posso saber o que quero, gosto de estar ciente do que é que estou deixando de fazer.

e aqui estamos nós: depois de vários anos com todo mundo achando que eu seria psiquiatra ou médica de família, e que seria ótima nisso (modéstia à parte, provavelmente seria mesmo) eu finalmente me inscrevi na residência:

 

 

e eu vou fazer patologia

 

KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK

vocês não sabem o quanto eu tenho me divertido contando isso pras pessoas. todo mundo me olha como se eu tivesse ficado completamente maluca. mas, o que é melhor ainda, depois de eu explicar os motivos todo mundo me apoia. <3

(às vezes a gente acha que precisa agradar mas na real as pessoas nem tão esperando ser agradadas naquela situação em específico)

 

sobre lidar com a ansiedade

vocês lembram que um dos objetivos que eu tinha viajando era aprender a lidar melhor com minha ansiedade?

pois fico feliz em relatar que… funcionou! o mais engraçado: não tive de me esforçar. apenas foi uma habilidade que eu TIVE de desenvolver e, quando me dei conta, já o tinha feito.

ainda tenho meus momentos de fraqueza, mas voltei da viagem muito mais tranquila e relaxada com a vida. a vida faz o que quer, afinal de contas. ansiedade é produto de uma inútil tentativa de controle; de tentar antecipar situações e imaginar soluções por  medo de não poder resolvê-las.

 

fatos:

  1. as merdas acontecem o tempo inteiro, não importa o quanto a gente tente se preparar
  2. quando elas acontecerem a gente vai ter de simplesmente lidar com elas pq, sério, que outra opção a gente ter a não ser lidar com as merdas que acontecem na vida?
  3. a gente faz sempre o melhor que pode e oferece o que tem… depois disso a vida segue pq é isso que ela faz. ela segue. ela continua.
  4. tudo o que você sofreu tentando antever as coisas vai ser completamente inútil

o negócio é simplesmente ir vivendo, meus amigos. vai vivendo e vai resolvendo. vai vivendo e vai vendo o que dá pra fazer. eu não diria nem “um dia de cada vez” e sim: um momento por vez

as melhores pessoas do mundo

nós somos as melhores pessoas do mundo. eu acho, pelo menos. e tomando por base o que vivemos até aqui. a gente sempre dá um jeito. a gente sempre se vira. a gente sempre resolve. a gente sempre melhora. quando um desanima, o outro ajuda. a gente enxerga coisas boas nos cantos mais obscuros. a gente avalia tudo, juntos, e sempre consegue extrair o melhor do que a vida mostra pra gente. e, melhor ainda, eu acho que a gente sempre extrai o melhor um do outro. nosso relacionamento é essa coisa inacreditavelmente bem sucedida, eu acho, pois é uma maravilhosa mistura do melhor de cada um. e a gente se reinventa o tempo inteiro… a gente se reinventa quantas vezes precisar!

 

o retorno

meu último post foi em maio. estamos em outubro! esses cinco meses me transformaram em outra pessoa.

bom, cinco meses é muito tempo… sempre seremos outras pessoas daqui cinco meses. mas nesses cinco meses, especificamente, vivi muitas experiências novas, grandes e transformadoras.

por exemplo, larguei tudo o que estava fazendo na minha vida (inclusive o emprego) e passei três meses viajando com meu marido: uruguai, argentina e chile. nesse tempo, moramos num trailer. era pra termos passado outros três viajando, mas recebemos uma notícia que nos fez voltar correndo para o brasil.

agora, de volta há pouco mais de um mês, tentamos nos reorganizar, reorganizar os planos, as ideias, os sonhos. a vida é isso, afinal: um grande caos que exige que a gente mude todo tempo.

que bom. mudar é bom.

tenho pensado muito em várias coisas, tenho tido muita vontade de escrever. escrever me ajuda a lidar com o meu caos interno (que é, pensando bem, sempre um desafio muito maior do que lidar com o caos externo).

tudo isso pra dizer que estou de volta aqui também, neste blog. eu acho.

 

minha cabeça é muito doida

estou lendo 3 livros ao mesmo tempo, todos completamente diversos entre si

aqui deitada na cama, lendo a cada 10 minutos umas páginas de cada um deles

ao mesmo tempo, escuto música e, volta e meia, cantarolo junto

meus pensamentos passeiam facilmente entre todas essas atividades, flutuam em reflexões sobre todos os assuntos – os trechos dos livros, as letras e melodias das músicas – alegres de serem alimentados de coisas aleatórias

 

minha alma sobrevive e se sente plena de momentos como esses