livros

Terminei de ler “O Primo Basílio”, do Eça de Queirós, ontem.

Que livro tão cheio de humanidade!

Penso, às vezes, que uma parte significativa da minha sensibilidade e da minha empatia vem dos livros. Eu a exercito fora deles, é muito óbvio (e ela não valeria nada se ficasse restrita aos meus momentos lendo); mas os livros que gosto de ler, em geral, tem muito disso. Mostrar diversas faces dos seres humanos e dos seus sofrimentos. Mostrar vários lados de uma mesma história. E acho, de verdade, que os livros que leio me ajudam a lembrar, sempre, de aceitar a humanidade que me cerca

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o que eu acho que quero realmente

ser psicoterapeuta. não há nada no mundo que me fascina mais do que desvendar a mente humana

nunca houve.

talvez seja esse o meu caminho

eu acho que quero que seja… não foi a inclinação que sempre tive? a característica que me destacava?

qual era o conteúdo dos livros que eu procurava na biblioteca, quando queria passar o tempo na hora do almoço? quais eram minhas aulas favoritas, que atividades extras eu fazia só pelo prazer de me aproximar de um tema? que outro aluno da medicina participava voluntariamente das palestras todas da semana acadêmica de psicologia?

sempre isso… sempre!

céu, frio, e essas coisas todas

Vocês tinham que ver o céu aqui em Floripa nesse momento. Está todo em mil cores: azul, azul claro, cinza, branco, amarelo, laranja, vermelho… Acho que um céu de fim de tarde é uma das minhas coisas favoritas na vida. Outra delas é tomar café no frio. Que sensação sublime de conforto!

Só eu que acho o céu mais bonito no inverno? Pois acho… Quando esfria, instantaneamente o céu fica mais intenso, mais vivo.

Sou doida pelo frio. Fico logo mais feliz, me sinto mais viva, mais sensível, mais criativa, sei lá que que acontece comigo. Frio me dá uma imensa vontade de escrever, e é engraçado também que me faz a cabeça borbulhar de um jeito maravilhosamente intenso. Pode ser a quantidade de café que eu tomo, também, que quadruplica.

Mas este ano, há uma nova sensação ligada ao frio que é a preocupação com meus pacientes. Que Deus proteja os moradores de rua todos, pra que não fiquem sem casaquinhos e cobertores. Você, pessoa que me lê, ajuda aqui! Não deixa os moradores de rua passarem frio, tá bem? Vamos todos levar cobertores no carro e, quando acharmos um deles, entregamos o cobertor. Se não tivermos cobertores ou se não tivermos carro para carregar cobertores junto, a gente volta pra casa, ou a gente compra, depois a gente volta lá e entrega. Estamos combinados? Então tá!!

uma força

a vida é amiga da arte, é a parte que o sol me ensinou
o sol que atravessa essa estrada que nunca passou

por isso uma força me leva a cantar… por isso essa força estranha
por isso é que eu canto, não posso parar
por isso essa voz tamaaaaaanhaaaaaa

 

e a coisa mais certa de todas as coisas
não vale um caminho sob o sol
e o sol sobre a estrada, é o sol sobre a estrada, é o sol

por isso uma força me leva a cantaaaaarrrr

não posso parar

dona flor e seus dois maridos

Gosto tanto de ti – oh! voz de celeste acento dentro dela a ressoar -, com amor tamanho que para te ver e te tomar nos braços, rompi o não e outra vez eu sou. Mas não queiras que eu seja ao mesmo tempo Vadinho e Teodoro, pois não posso. Só posso ser Vadinho e só tenho amor para te dar, o resto todo de que necessitas quem te dá é ele; a casa própria, a fidelidade conjugal, o respeito, a ordem, a consideração e a segurança. Quem te dá é ele, pois o seu amor é feito dessas coisas nobres (e cacetes) e delas todas necessitas para ser feliz. Também de meu amor precisas para ser feliz, desse amor de impurezas, errado e toro, devasso e ardente, que te faz sofrer. Amor tão grande que resiste à minha vida desastrada, tão grande que depois de não ser voltei a ser e aqui estou. Para te dar alegreia, sofrimento e gozo aqui estou. Mas não para permanecer contigo, ser tua companhia, teu atento esposo, para te guardar constância, para te levar de visita, para o dia certo do cinema e a hora exata de dormir – para isso não, meu bem. Isso é com meu nobre colega de chibiu, e melhor jamais encontrarás. Eu sou marido da pobre dona Flor, aquele que vai acordar tua ânsia e morder teu respeito humano. Ele é tua face matinal, eu sou tua noite, o amante para o qual não tens nem jeito nem coragem. Somos teus dois maridos, tuas duas faces, teu sim, teu não. Para ser feliz, precisar de nós dois. Quando era eu só, tinhas meu amor e te faltava tudo, como sofrias! Quando foi só ele, tinhas de um tudo, nada te faltava, sofrias ainda mais. Agora, sim, és dona Flor inteira como deves ser.

“Dona Flor e seus dois maridos”, esse livro maravilhoso, metáfora lindamente escrita e construída. Um livro sobre equilíbrios, sobre extremos, sobre a personalidade humana.

Em tudo na vida precisamos da rebeldia e da ordem: nos relacionamentos, na vida profissional, no nosso íntimo… Em todos nós há essa briga, essa busca. Vivendo só de ordem, organização, planejamento, como poderemos ser felizes? A vida se torna morna, monótona… Só de bagunças, riscos e  imprevistos, como sobreviver?

Dona Flor atinge seu equilíbrio e sua felicidade quanto aceita que precisa e merece ambos. Merece um marido fiel, acolhedor, que a cuide. Não merece passar a vida sofrendo por um marido que a ama mas não a respeita, que a fere constantemente. Quando deixa morrer o primeiro marido e aceita viver a vida tranquila e mansa, ela sente a falta da paixão, da inconstância, das surpresas do primeiro. E sofre, e culpa-se, e se contorce em negação aos seus desejos.

Depois de tanto sofrimento, ela enfim cede e aceita que também precisa e também pode, apesar dos julgamentos alheios, atender aos seus anseios e desejos, buscar o que a faz sentir viva…

Dona Flor, tão humana! Jorge Amado a constrói sem julgamentos, descreve seus dramas e contextos de modo que você sente, em cada palavra, as dores da personagem.

Não só no amor, mas na vida: que a gente compreenda sempre que precisa de ordem e caos – não se vive de apenas um deles

o relacionamento

Toda gratidão do universo por você existir na minha vida. Todos os seus detalhes e peculiaridades me apaixonam. A sua capacidade de me surpreender o tempo todo me encanta. A nossa facilidade em funcionar faz bem pra minha autoestima, me faz te admirar cada vez mais e faz a vida parecer mais leve… E ainda tem as pessoas que conheci por sua causa. Quanta gente linda, meu deus!

sobre ser médica do consultório na rua

Encontrei o emprego dos meus sonhos. Tô nisso há uma semana, mas não quero nunca mais fazer outra coisa. É tão incrível! Não tem rotina. Tem ligação com os pacientes, tem tempo para os pacientes, tem atender os pacientes no seu ambiente. Tem viver fora da caixinha. Tem atenção integral à saúde. Tem equipe maravilhosa atuando junta, de verdade. Tem aprendizado diário com histórias de vida “fora do padrão”.

 

Tô realizada.

 

 

as últimas (ou as primeiras?) reflexões

Hoje é o dia pelo qual eu esperei cerca de 8 anos (desde que comecei a sonhar com medicina).

Eu não fui daquelas que quis medicina desde criança. Na verdade, nunca tinha nem mesmo me passado pela cabeça fazer medicina, até o terceirão. Eu passei a infância inteira querendo fazer veterinária. Já sabia até a faculdade.

Aí veio o ensino médio, aquela fase cheia de dúvidas. E eu já não sabia o que queria da minha vida, não sabia mais no que eu era boa, pelo que eu poderia me apaixonar… Não queria fazer “uma coisa qualquer”: queria fazer AQUELA coisa, para a qual eu nasci.

E, não sabendo que isso não existe ( e que é tudo uma questão de escolhas) eu me torturava quanto a fazer “a escolha certa”.

Fiz curso técnico em análises clínicas e, tendo concluído, estagiei num laboratório que ficava dentro de uma maternidade. Eu comecei dentro do laboratório, mesmo; e aos poucos fui pegando mão para coletar sangue. Com o tempo, eu fui liberada para fazer as “rondas” – que era quando o técnico saia do laboratório e ia coletar sangue pelo hospital.

Foi aí que eu descobri o que fazia o tempo voar, meu coração pulsar e um sorriso aparecer facilmente no meu rosto.

Eu caminhava pelos corredores, pedia licença às pacientes, me apresentava, conversava, explicava… E tentava fazer tudo isso da forma mais amorosa possível. O retorno veio: elogiavam minha “mão levinha” e meu cuidado. Não era nenhum esforço para mim. Na verdade, eu apenas não conseguiria fazer diferente.

Certa feita, um amigo, ouvindo de mim relatos do trabalho no laboratório, comentou “Você deveria fazer medicina. Seria uma médica foda”. E eu, que já vinha reparando nos médicos que via no hospital, comecei a deixar essa sementinha chamada “medicina” crescer no meu coração…

Uma noite, enquanto passava pelo pré-parto, eu vi uma médica ajudando uma paciente, em trabalho de parto, a caminhar até a sala. Ela dizia “você vai conhecer o seu bebê!” e segurava sua mão. A cena me marcou… E, mais do que me marcar, fez nascer em mim o seguinte pensamento:

“É isso aí que eu quero fazer. Cuidar das pessoas”.

Acontece que eu tinha medo de duas coisas:

1) Achava que não tinha capacidade para ser médica;

2) Tinha medo de “não ter vida”.

Sentia necessidade de conversar com um médico sobre isso. E, não tendo nenhum médico dentre família e amigos, marquei uma consulta com o médico com o qual eu mais tinha vínculo: meu pediatra.

Lá estava eu, 17 anos na cara, sentada na sala de espera do pediatra. Ele riu quando entrei e expliquei a razão de ter vindo. E aí, ele começou a me falar sobre medicina. Sobre como foi pra ele… Sobre como tudo tinha seu tempo, e como realmente era difícil conciliar uma vida pessoal, porém possível.

Foi nesse dia aí. Eu saí do consultório e fui direto para o cursinho. Chegando lá, anunciei para os colegas:

– Decidi. Quero medicina.

O problema, agora, era passar no vestibular… Eu não achava que conseguiria, então formulava “planos B”: fono, enfermagem… Eu não conseguia considerar muito que iria passar.

Só que aconteceu. A vida tem dessas surpresas, desses caminhos que a gente não entende direito e não consegue acreditar. Eu passei. Eu concluí o curso. Eu estou me tornando médica.

Eu, que achava que não conseguiria “ver alguém todo aberto na minha frente”. Eu, que jamais conseguiria passar no vestibular – imagina, tão concorrido. Eu, que tinha medo de “não ter vida”.

E tive os seis anos de vida mais intensos de todos!

E, hoje a noite, minha família vai chegar para comemorar tudo isso comigo ao longo de três dias maravilhosos.

Eu nunca estive tão feliz!

ai ele disse…

geralmente as pessoas que fazem medicina para “salvar as pessoas” o fazem porque precisam salvar algo dentro delas mesmas

Toda terça a tarde temos uma espécie de reunião com um professor de psicologia. Sentamos em grupo e… Falamos. Ele recomenda livros, nós lemos, conversamos sobre o que lemos, misturamos com a nossa vida e de repente estamos falando dos nossos dramas e dos dramas do universo inteiro. É sempre instigante e saio com a mente inquieta. Foi um dia interessante, hoje. O professor costuma dizer que espera “fazer barulho na gente”, e consegue toda vez. Saio de lá com a mente num turbilhão.

Saí para correr, depois de chegar em casa com a cabeça fervendo. Quando corro, deixo meus pensamentos passearem livremente de uma forma que não consigo fazer em outras situações. E fico apenas a observá-los, admirá-los.

Então, enquanto corria e observava o mar, tive subitamente o insight sobre as razões que me levaram a escolher medicina. Quero dizer a vocês que elas não são nem um pouco nobres. Incluem coisas tipo ter dentro de mim uma criança sedenta por atenção e tals. Felizmente (muito felizmente, na verdade), não sou um ser superior que resolveu abdicar de sua felicidade para salvar ninguém.

Também não tenho mais a ilusão de “salvar vidas”, que a medicina não chegou nesse nível, não. A gente não salva ninguém. A gente não “cura doenças”. Nós, quando conseguimos, tratamos. Ajudamos e consolamos quando possível. Mas nós não temos poder de salvar ninguém! As pessoas alucinam demais sobre o que é a medicina… E não é nada disso que passa na novela ou nos filmes.

Chega o momento em que é preciso admitir isso e fico muito feliz de ter conseguido alcançar essa sinceridade comigo mesma antes da formatura. Se faço medicina pois sou tão altruísta e especial que resolvi dedicar tanto de mim para “salvar vidas” e “curar doenças”, estou em outro patamar, acima dos outros. Essa visão coloca uma barreira entre nós e os pacientes. Mas se compreendo que escolhi medicina por razões bastante egoístas ou até infantis, e que meu “poder” enquanto médico é uma completa ilusão, eu volto a ser igual.

É libertador ser apenas um ser humano!

Aliás, longe de isso diminuir minha paixão ou dedicação pela profissão que escolhi; na verdade, acho que o fantástico da vida é isso: transformarmos nossas dores, frustrações e infantilidades em coisas melhores. Em coisas bonitas. Crescimento, resiliência!