não há como negar

Meu negócio é saúde pública, mesmo. Não tem jeito. Meu coração pertence a ela. Meus olhos brilham para ela. Meu sorriso se abre para ela. É uma paixão arrebatadora e inegável!

Anúncios

“não somos lixo”

Não somos lixo.

Não somos lixo e nem bicho.

Somos humanos.

Se na rua estamos é porque nos desencontramos.

Não somos bicho e nem lixo.

Nós somos anjos, não somos o mal.

Nós somos arcanjos no juízo final.

Nós pensamos e agimos, calamos e gritamos.

Ouvimos o silêncio cortante dos que afirmam serem santos.

Não somos lixo.

Será que temos alegria? Às vezes sim…

Temos com certeza o pranto, a embriaguez,

A lucidez dos sonhos da filosofia.

Não somos profanos, somos humanos.

Somos filósofos que escrevem

Suas memórias nos universos diversos urbanos.

A selva capitalista joga seus chacais sobre nós.

Não somos bicho nem lixo, temos voz.

Por dentro da caótica selva, somos vistos como fantasmas.

Existem aqueles que se assustam.

Não somos mortos, estamos vivos.

Andamos em labirintos.

Depende de nossos instintos.

Somos humanos nas ruas, não somos lixo.

Carlos Eduardo (Cadu), Morador de rua em Salvador.

O poema acima está no começo do Manual sobre cuidado à saúde junto à população de rua.

E sabem o que? A partir de hoje, oficialmente, eu sou médica do projeto “Consultório de rua”!

acostumando

Completei uma semana de trabalho.

A ansiedade tem diminuído bastante. Estou me habituando à rotina, ao local, à equipe… E o principal, a atuar como médica.

Estou descobrindo mais algumas coisas sobre mim mesma, a esse respeito: sou bastante exigente com o processo todo. Gosto de fazer anamneses completas, ouvir o paciente e tirar suas dúvidas e falar de suas ansiedades; de fazer exames físicos detalhados; de registrar no prontuário de forma completa e organizada; gosto de escrever encaminhamentos bem explicados; gosto de solicitar exames apenas quando há indicação precisa; gosto de prescrever medicamentos conforme as diretrizes/cadernos de atenção básica. O primeiro problema é que tudo isso demanda tempo, de modo que é difícil fazer uma consulta minha durar menos de 30 minutos. O segundo problema é que isso demandado muuuito estudo.

Mas, de qualquer forma, tenho conseguido manter boas condutas até o momento (acredito), tenho sido franca com os pacientes quando minha inexperiência me limita (admitindo quando não tenho experiência com um determinado assunto ou não sei de algo – e até agora ninguém demonstrou se incomodar com isso), e tenho aprendido como nunca antes!

Os dias que se passaram desde 16/07/2015 tem sido os mais intensos da minha vida, eu acho. E também de intenso crescimento!

SIM!

Dezenas de nãos depois, sexta passada, eu ouvi um sim! Fui contratada como médica de ESF em uma Unidade Básica de Saúde. Foi uma correria de burocracias; documentos, abertura de conta, ir para um lado e para outro. E a euforia! E a ansiedade!

Hoje foi meu primeiro dia de trabalho. Estava ansiosa ontem a noite… E estava um pouco nervosa hoje de manhã. Quanto chamei o primeiro paciente  (Seu Antonio! Duvido que um dia vá esquecer esse nome), sentia tremer por dentro, mas me esforcei para transparecer calma.

Expliquei para todos os pacientes, hoje, que sou a médica nova da Unidade, que ainda estou me adaptando e que talvez eu tenha de tirar dúvidas com a equipe ou me atrapalhe em alguma coisa. Nenhum deles se chateou com isso! Todos sorriam e disseram que claro, é normal ficar meio perdida no começo.

Foi um dia lindo, lindo. Ainda não abriram agenda pra mim; então, o volume de atendimentos foi pequeno (atendi só acolhimentos). Mas é indescritível a sensação de estar ali, atuando, realizando o sonho de ser médica (agora sim!). Só ouvi coisas bonitas: “tomara que você fique, que você é maravilhosa!”; “Deus te abençoe, doutora!”; e um deles, depois de eu dizer que queria vê-lo em breve: “que ótimo! vai ser um prazer!”.

A população estava sem médico a tempos, e parece ter uma enorme carência por atenção nesse sentido. Fiz tão pouquinho, e senti tanta gratidão.

E, felizmente, meu medo de não ser boa o suficiente está começando a diminuir. A facilidade em me relacionar eu já sabia que tinha. Quanto à parte técnica… Saber tudo, ninguém jamais saberá; mas quem se importa vai atrás, estuda e aprende. Como eu fiz hoje. Eu me importo. Me importo muito!

Acho, sinceramente, que hoje foi um dos dias mais felizes da minha vida.

o concurso

Já cansada de ligar para prefeituras, estou estudando para o concurso que farei no domingo.

Concluí, é claro, que não vai dar tempo de estudar tudo em três dias (!)

Decidi, então, focar o estudo em coisas que não costumava atentar na faculdade, e resolver o restante da prova na raça e na base das lembranças que espero ter mantido comigo ao longo de seis anos estudando.

Cêis nem sabem que coisa mais linda é a lei 8080 de 1990! Já conhecia, já tinha passado os olhos, mas nunca tinha parado para ler com atenção e fazer resumos sobre ela, e refletir sobre quão linda ela é.

Pois bem, ela é fantástica.

Imagine você um sistema de saúde com acesso Universal (todo no país, todos! podem ser atendidos por ele); com assistência Integral à saúde da pessoa; que preserva a Autonomia de cada paciente; um atendimento feito com Igualdade, ou seja, sem preconceitos e privilégios; em que o paciente tem o direito a ser informado sobre sua saúde e sobre o que os serviços lhe oferecem; em que se usa de Epidemiologia, ou seja, ciência, para definir prioridades; em que a Comunidade pode e deve participar; que funciona por regiões, e em que a União, os Estados e Municípios devem unir suas forças e recursos para fazer ele funcionar; e que, em todos os níveis de assistência, em todas as complexidades, exista capacidade de resolução. Imagine você.

Lindo demais, não é?

Eu acredito e sonho que um dia a prática será tão linda quanto é a lei…