coisas dessa vida

Minha vida continua oscilando gigantescamente. Minha semana passada foi maravilhosa: fui ao Rio de Janeiro com a equipe, participar do Primeiro Encontro Nacional dos Consultórios na Rua. As experiências e as trocas foram incríveis; vivi momentos fantásticos, ouvi e aprendi com muita gente incrível, me emocionei.

Voltei do Rio direto para Joinville. Esse final de semana, meu irmão casou, e foi tudo lindo, emocionante e divertidíssimo.

Hoje, fui bruscamente jogada na vida real. E a vida real tem sido muito difícil pra mim nas últimas semanas. Não se passa um dia no trabalho em que eu não saia muito chateada ou estressada com algum ocorrido. Há situações que sugam minhas energias. E, com grande frequência, sinto-me acuada, sem soluções, de mãos atadas.

Talvez a frase que eu mais use para contar algo do meu trabalho é: “Eu realmente não sei o que fazer”. E, pasmem vocês, mas os atendimentos em si tem sido a parte mais fácil de ser médica, ultimamente.

Fizemos algumas reflexões sobre nossas vidas e o rumo que queremos dar a elas, eu e Nikolas, por esses dias. Tenho pensado muito na minha pequenez de ser humano, na insignificância da minha existência e no quanto essa consciência pode ser libertadora. Se sou tão pequena num gigantesco Universo, se há tanta coisa que simplesmente vai acontecer sem que eu possa controlar… Então, tanto faz que decisões vou tomar quanto ao meu futuro. A Terra vai ser engolida pelo Sol de qualquer jeito daqui uns milhares de anos. Antes disso, ela vai passar por uma nova Era do Gelo à qual talvez o ser humano nem sobreviva. Que diferença faz então, por exemplo, que residência eu vou fazer? Frente à enormidade dos eventos inevitáveis que vão envolver esse pequeno e minúsculo planeta, que representa essa minha escolha? Vou dizer pra vocês o que ela representa:

NA-DA.

Tanto faz. Posso simplesmente escolher uma qualquer, a que me dê mais conforto e qualidade de vida de preferência, pois a verdade, mesmo, é que eu vou morrer, os anos vão passar e esses poucos anos da minha vida simplesmente não representam nada para o panorama geral.

E juro que escrevo isso feliz e aliviada. Pode parecer pessimismo, mas não é.

Eu vou morrer, gente. E vai ser logo – pelo menos em comparação com a escala de tempo na qual o Universo funciona. Tenho de conseguir experimentar a vida antes disso e desencanar um pouco de tanto superego.

PS:VAITODOMUNDOASSISTIRCOSMOS,RÁPIDO!

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o dia da mulher

O dia da mulher, pra mim, é sempre um dia de reflexões. É um dia de pensar em tudo que envolver “ser mulher”. Isso começou tão cedo na minha vida que eu já nem me lembro mais – no dia do meu nascimento, provavelmente.
 
“Ser mulher” não é apenas um pequeno detalhe, mas algo que permeia todas as minhas experiências.
 
Quando eu era pequena e gostava de jogar bola, por exemplo, a todo momento eu tinha de “provar que jogava bem”, pois cada menino diferente que entrava na quadra costumava fazer comentários do tipo:
– Pode chutar no gol, ela é menina! (quando eu estava jogando como goleira)
– Vocês podem ficar com um a mais, no time de vocês tem uma menina.
– Por ali! Passa por ela que ela é menina!
E demais “obviedades” relacionadas ao fato de eu “ser uma menina” e, portanto, é CLARO que eu jogava mal, não é mesmo? Então, o outro time se organizava para passar por mim, que enquanto menina, era com certeza o elo fraco do time.
 
E frequentemente, quem jogava no mesmo time que eu não me passava a bola – pois, é claro, ninguém quer passar a bola para a menina, já que a menina irá perder a bola e prejudicar o time. Então, quando eu tinha raramente a chance de encostar na bola, eu NÃO PODIA ERRAR. Eu tinha de jogar perfeitamente, ou ficaria a ver navios o jogo todo.
 
Então, todo novo jogo com alguém diferente sempre foi um desafio para mim, no qual eu tinha de provar que sabia jogar. Eu ficava nervosa, ansiosa para mostrar o que sabia fazer e não conseguia “jogar só pela diversão”. Eu jogava pelo meu orgulho. Jogava para me provar.
 
Depois que eu conseguia mostrar que não jogava feito uma toupeira, as reações variavam: alguns ficavam surpresos; outros ficavam com raiva. Coisa que também costumava acontecer quando os meninos perdiam a bola para mim era me acusar de tê-los machucado, pois “menina é tudo caneleira”. Ou seja, para eu tirar a bola deles sendo menina, só mesmo quebrando as regras, não é mesmo? Somente os chutando na canela. Mesmo que isso não tivesse acontecido.
 
Isso tudo passava na minha cabeça durante um inocente jogo de futebol entre outras crianças de 9 ou 10 anos. Eu fui crescendo e convivendo com outras coisas relacionadas a”ser mulher” muito mais fortes, tristes e perigosas do que essa.
Vejam bem, essa “historinha” sobre jogar futebol na infância é uma metáfora sobre o que foi crescer sendo uma mulher. ISSO é socialização feminina. Do mesmo jeitinho que aconteceu no futebol aconteceu em todas as áreas da minha vida. Você deve imaginar como me deixa puta dizerem que feministas “se vitimizam” quando você foi julgada automaticamente como inferior ao longo de toda sua vida, e tudo que o feminismo fez foi me fazer enxergar que isso acontece – e que isso acontece por eu ser uma mulher.
Um dia eu tomei consciência de que a experiência de crescer “como uma mulher” estava emaranhada em mim de um modo tão forte, que todo o meu funcionamento emocional foi influenciado por isso. Todo. Ser mulher, ser tratada como uma mulher, crescer como alguém do sexo feminino faz parte de cada segundo do meu dia. Faz parte de cada segundo do meu dia me provar enquanto pessoa, encontrar o meu espaço, provar que minha capacidade não é inferior. PERCEBER que isso acontece não é, nem de longe, me vitimizar – é reconhecer minhas especificidades, reconhecer minha história, reconhecer que os motivos de tantas coisas terem acontecido na minha vida é… Eu ter nascido com um aparelho reprodutor feminino. E isso acontecer não é questão de opinião. É UM FATO. Se não acontece com você não significa que não aconteça com ninguém. 
As pessoas me limitam por eu ser mulher. Isso está fora do meu controle.
As pessoas me tratam diferente por eu ser mulher. Isso não é culpa minha.
As pessoas me colocam numa posição inferior (automaticamente!) por eu ser mulher. Não sou EU quem me vitimizo ou diminuo.
E tudo isso fez parte do que eu sou ao longo de toda a minha vida. E eu sei que fará parte de toda minha vida continuar provando o contrário (às vezes é tão cansativo!).
Todos os dias 08 de março eu sou dominada por uma gigantesca vontade de chorar.

dona flor e seus dois maridos

Gosto tanto de ti – oh! voz de celeste acento dentro dela a ressoar -, com amor tamanho que para te ver e te tomar nos braços, rompi o não e outra vez eu sou. Mas não queiras que eu seja ao mesmo tempo Vadinho e Teodoro, pois não posso. Só posso ser Vadinho e só tenho amor para te dar, o resto todo de que necessitas quem te dá é ele; a casa própria, a fidelidade conjugal, o respeito, a ordem, a consideração e a segurança. Quem te dá é ele, pois o seu amor é feito dessas coisas nobres (e cacetes) e delas todas necessitas para ser feliz. Também de meu amor precisas para ser feliz, desse amor de impurezas, errado e toro, devasso e ardente, que te faz sofrer. Amor tão grande que resiste à minha vida desastrada, tão grande que depois de não ser voltei a ser e aqui estou. Para te dar alegreia, sofrimento e gozo aqui estou. Mas não para permanecer contigo, ser tua companhia, teu atento esposo, para te guardar constância, para te levar de visita, para o dia certo do cinema e a hora exata de dormir – para isso não, meu bem. Isso é com meu nobre colega de chibiu, e melhor jamais encontrarás. Eu sou marido da pobre dona Flor, aquele que vai acordar tua ânsia e morder teu respeito humano. Ele é tua face matinal, eu sou tua noite, o amante para o qual não tens nem jeito nem coragem. Somos teus dois maridos, tuas duas faces, teu sim, teu não. Para ser feliz, precisar de nós dois. Quando era eu só, tinhas meu amor e te faltava tudo, como sofrias! Quando foi só ele, tinhas de um tudo, nada te faltava, sofrias ainda mais. Agora, sim, és dona Flor inteira como deves ser.

“Dona Flor e seus dois maridos”, esse livro maravilhoso, metáfora lindamente escrita e construída. Um livro sobre equilíbrios, sobre extremos, sobre a personalidade humana.

Em tudo na vida precisamos da rebeldia e da ordem: nos relacionamentos, na vida profissional, no nosso íntimo… Em todos nós há essa briga, essa busca. Vivendo só de ordem, organização, planejamento, como poderemos ser felizes? A vida se torna morna, monótona… Só de bagunças, riscos e  imprevistos, como sobreviver?

Dona Flor atinge seu equilíbrio e sua felicidade quanto aceita que precisa e merece ambos. Merece um marido fiel, acolhedor, que a cuide. Não merece passar a vida sofrendo por um marido que a ama mas não a respeita, que a fere constantemente. Quando deixa morrer o primeiro marido e aceita viver a vida tranquila e mansa, ela sente a falta da paixão, da inconstância, das surpresas do primeiro. E sofre, e culpa-se, e se contorce em negação aos seus desejos.

Depois de tanto sofrimento, ela enfim cede e aceita que também precisa e também pode, apesar dos julgamentos alheios, atender aos seus anseios e desejos, buscar o que a faz sentir viva…

Dona Flor, tão humana! Jorge Amado a constrói sem julgamentos, descreve seus dramas e contextos de modo que você sente, em cada palavra, as dores da personagem.

Não só no amor, mas na vida: que a gente compreenda sempre que precisa de ordem e caos – não se vive de apenas um deles

crianças

Todos os dias, eu espero minha carona num local próximo a uma escola.

Todos os dias, para um ônibus ali em frente. E, todos os dias, a mulher desce antes e chama, impaciente, o garotinho, parada na porta. Ele sempre:

– Volta pra buscar a mochila que esqueceu no banco;

– Volta pra dar tchau pro motorista;

– Quer descer os enormes degraus (enormes para ele) do ônibus, sem ajuda, sob os olhares impacientes e apelos da mãe.

A cena invariavelmente termina com a mãe puxando-o do último degrau, por um braço, e ele sacudindo as perninhas. Ela diz que o motorista não pode ficar esperando, que tem de sair logo. Tão logo ela o põe no chão, ele sai pulando ou correndo alegremente.

 

Os únicos chatos e impacientes dessa cena são os adultos. A criança não está incomodada com o tempo. Ela poderia levar o tempo que for para descer o degrau do ônibus, porque até assim ela está se divertindo.

 

Hoje, cheguei ao leito de uma das pacientes que acompanho, uma garotinha de 3 anos. Quando me aproximei do berço, ela se levantou, veio para a borda próxima de onde eu estava e abriu os bracinhos.

– Quer dar um “upa”, filha?! Perguntou a mãe dela.

– Upa, ela disse, e me envolveu com os bracinhos fofos.

Obviamente retribuí, abraçando-a, e beijando-lhe a testa. Ela sorriu.

Mais tarde, eu quis, no exame físico, fazer oroscopia. Mas ela me retrucou:

– Eu já tô cansada.

No dia em que a vi pela primeira vez, ela me disse com toda espontaneidade, quando lhe prometi não machucá-la durante o exame, que estava assustada. Pudera! Primeira internação na vida.

 

Os que mais apresentam dificuldade de demonstrar o que sentem e pensam são os adultos. As crianças são espontâneas e sinceras, na maior parte das vezes. Elas não disfarçam o que são e não tem vergonha do que sentem.

 

Evoluímos em algumas coisas, quando crescemos, mas também involuímos em tantas outras…

do destino

Eu não sei se cada um de nós tem um destino… Ou se só flutuamos sem rumo como numa brisa. Mas eu acho que talvez sejam os dois. Eu acho que as duas coisas acontecem ao mesmo tempo.

 

Assisti Forest Gump, ontem. É um filme lindíssimo (pois é… não, eu ainda não tinha visto)!

O que eu acho, Forest, é que você tem razão.

como eu vejo o mundo

Eu adoro fotografia. Nunca fiz nenhum curso, mas acho fantástico e tenho profunda admiração pela profissão e pela arte.

Vez ou outra dou sorte e tiro fotos das quais gosto muito. Não tenho onde postá-las, então resolvi reunir aqui, no meu blog. Sei que ele não é a melhor ferramenta do mundo pra postar fotos, mas é que eu quero juntar num lugar só tudo o que me representa. Então é isso.

Pra começar, uma foto que representa um momento muito comum:

Minha costumeira xícara de café, companheira fiel de pensamentos, palavras e estudos.