do tricô para a vida

Dia desses, vi uma foto na internet de uma polaina de tricô. Decidi, imediatamente, que queria uma. E decidi que queria fazê-la. Portanto, dei uma pesquisada, olhei uns vídeos, achei que parecia super fácil, dirigi-me até uma loja, comprei o material necessário e voltei para casa, muito alegre.

Vocês vão estranhar o que vou dizer agora, mas tenho aprendido grandes lições com o tricô. É uma excelente metáfora para a vida, esta atividade. Por exemplo: assim como a vida, tricô parece muito fácil. Você vê os outros fazendo e pensa “nossa, mas isso aí eu vou fazer plantando bananeira”. Até que você começa.

Você assiste o primeiro vídeo super motivada, o que ensina a colocar a linha na agulha. Se bate um pouco, mas tudo bem. Logo está conseguindo fazer – e super rápido até, olha! Sente-se, então, muito inteligente e autoconfiante. Não caia nessa armadilha: sempre que você se sente muito inteligente e autoconfiante, a vida (ou os pontos de tricô) estão apenas aguardando para te provar o contrário.

Você começa a fazer o primeiro ponto e simplesmente não consegue entender como algo que parecia tão fácil pode causar tantas dúvidas e dar um nó na sua cabeça. É só uma linha enrolada numa agulha! Não pode ser tão difícil! Finalmente você consegue fazer um ponto ou outro. Uma carreira. Duas… Será que está certo, isso? Você não sabe se está fazendo certo ou não. Nunca fez aquilo. Como será que é com as outras pessoas? Passam a mesma dificuldade? Você se sente meio tapada.

Não demorará a constatar que seu tricô está um completo desastre. Você desmancha e faz de novo, perguntando-se onde pode estar errando. Muda um detalhe do ponto. Faz mais um pouco, constata um erro, desmancha tudo. Começa de novo. Constata outro erro, desmancha tudo. Começa de novo.

Enfim, muitos ajustes e estudos depois, finalmente você consegue. Faz o ponto corretamente! Faz três carreiras, estão bonitas! Ocorre algo interessante, então, que é o medo de encostar na agulha, começar a fazer e estragar tudo mais uma vez. Até porque, toda vez que você erra, tem de desmanchar tudo o que já foi feito. A possibilidade de erro gera ansiedade. Dessa vez está dando certo, você já está estragando a linha de tanto desmanchar o trabalho todo. Não pode errar. Não pode errar.

Mas você erra. A vida (e o tricô) é assim, né?

O que resta é pesquisar um jeito de desmanchar só um pedaço, e não o trabalho todo. Você aprende, então, a arrumar o que tinha errado e continuar de onde estava certo. Depois disso, a ansiedade em encostar na agulha e fazer merda some.

Finalmente o tricô (e a vida) começam a render!

 

PS: em breve, terei lindas polainas que usarei todos os dias, pra compensar o trabalho do cacete que estão dando.

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livros

Terminei de ler “O Primo Basílio”, do Eça de Queirós, ontem.

Que livro tão cheio de humanidade!

Penso, às vezes, que uma parte significativa da minha sensibilidade e da minha empatia vem dos livros. Eu a exercito fora deles, é muito óbvio (e ela não valeria nada se ficasse restrita aos meus momentos lendo); mas os livros que gosto de ler, em geral, tem muito disso. Mostrar diversas faces dos seres humanos e dos seus sofrimentos. Mostrar vários lados de uma mesma história. E acho, de verdade, que os livros que leio me ajudam a lembrar, sempre, de aceitar a humanidade que me cerca

a paz de fora, a bagunça de dentro

 

tô aqui sentada na sacada de casa tomando café e fazendo uma fotossíntese. o dia está realmente lindo. o mar está um espelho. maria está deitadinha aqui nas minhas pernas, tomando um sol junto comigo. tenho de dizer que meu ideal de vida atualmente é esse: ficar escrevendo na sacada de casa enquanto vejo o movimento. hahahaha

um observador desavisado pensaria que sou a mais tranquila das pessoas nesse exato momento. mas, assim. aqui, do lado de dentro, há um caos interno que está difícil de ser controlado. lidar com sentimentos e tentar compreender eles é um troço que, te dizer… que difícil.

e não conseguir me sentir feliz (apesar de ter momentos de felicidade) é uma coisa realmente complicada. desesperança, talvez, seja uma das piores coisas que pode acometer um ser humano. eu tenho tido esses momentos. às vezes, a vontade é jogar a toalha mesmo. desistir. mas, de certa forma, não tenho essa opção… então, continuemos, aos trancos e barrancos mesmo, do jeito que der.

não há crescimento sem crise. é ruim estar passando por tudo isso, mas é bom o fato de que, a cada crise que tenho, eu saio melhor.

céu, frio, e essas coisas todas

Vocês tinham que ver o céu aqui em Floripa nesse momento. Está todo em mil cores: azul, azul claro, cinza, branco, amarelo, laranja, vermelho… Acho que um céu de fim de tarde é uma das minhas coisas favoritas na vida. Outra delas é tomar café no frio. Que sensação sublime de conforto!

Só eu que acho o céu mais bonito no inverno? Pois acho… Quando esfria, instantaneamente o céu fica mais intenso, mais vivo.

Sou doida pelo frio. Fico logo mais feliz, me sinto mais viva, mais sensível, mais criativa, sei lá que que acontece comigo. Frio me dá uma imensa vontade de escrever, e é engraçado também que me faz a cabeça borbulhar de um jeito maravilhosamente intenso. Pode ser a quantidade de café que eu tomo, também, que quadruplica.

Mas este ano, há uma nova sensação ligada ao frio que é a preocupação com meus pacientes. Que Deus proteja os moradores de rua todos, pra que não fiquem sem casaquinhos e cobertores. Você, pessoa que me lê, ajuda aqui! Não deixa os moradores de rua passarem frio, tá bem? Vamos todos levar cobertores no carro e, quando acharmos um deles, entregamos o cobertor. Se não tivermos cobertores ou se não tivermos carro para carregar cobertores junto, a gente volta pra casa, ou a gente compra, depois a gente volta lá e entrega. Estamos combinados? Então tá!!

coisas dessa vida

Minha vida continua oscilando gigantescamente. Minha semana passada foi maravilhosa: fui ao Rio de Janeiro com a equipe, participar do Primeiro Encontro Nacional dos Consultórios na Rua. As experiências e as trocas foram incríveis; vivi momentos fantásticos, ouvi e aprendi com muita gente incrível, me emocionei.

Voltei do Rio direto para Joinville. Esse final de semana, meu irmão casou, e foi tudo lindo, emocionante e divertidíssimo.

Hoje, fui bruscamente jogada na vida real. E a vida real tem sido muito difícil pra mim nas últimas semanas. Não se passa um dia no trabalho em que eu não saia muito chateada ou estressada com algum ocorrido. Há situações que sugam minhas energias. E, com grande frequência, sinto-me acuada, sem soluções, de mãos atadas.

Talvez a frase que eu mais use para contar algo do meu trabalho é: “Eu realmente não sei o que fazer”. E, pasmem vocês, mas os atendimentos em si tem sido a parte mais fácil de ser médica, ultimamente.

Fizemos algumas reflexões sobre nossas vidas e o rumo que queremos dar a elas, eu e Nikolas, por esses dias. Tenho pensado muito na minha pequenez de ser humano, na insignificância da minha existência e no quanto essa consciência pode ser libertadora. Se sou tão pequena num gigantesco Universo, se há tanta coisa que simplesmente vai acontecer sem que eu possa controlar… Então, tanto faz que decisões vou tomar quanto ao meu futuro. A Terra vai ser engolida pelo Sol de qualquer jeito daqui uns milhares de anos. Antes disso, ela vai passar por uma nova Era do Gelo à qual talvez o ser humano nem sobreviva. Que diferença faz então, por exemplo, que residência eu vou fazer? Frente à enormidade dos eventos inevitáveis que vão envolver esse pequeno e minúsculo planeta, que representa essa minha escolha? Vou dizer pra vocês o que ela representa:

NA-DA.

Tanto faz. Posso simplesmente escolher uma qualquer, a que me dê mais conforto e qualidade de vida de preferência, pois a verdade, mesmo, é que eu vou morrer, os anos vão passar e esses poucos anos da minha vida simplesmente não representam nada para o panorama geral.

E juro que escrevo isso feliz e aliviada. Pode parecer pessimismo, mas não é.

Eu vou morrer, gente. E vai ser logo – pelo menos em comparação com a escala de tempo na qual o Universo funciona. Tenho de conseguir experimentar a vida antes disso e desencanar um pouco de tanto superego.

PS:VAITODOMUNDOASSISTIRCOSMOS,RÁPIDO!

da morte – e sua quase sempre inesperada chegada

Hoje recebi a notícia de falecimento de uma paciente com a qual eu tinha muito vínculo. Foi uma das que primeiro atendi, e a encontrei diversas vezes fora do meu horário de trabalho. Ela sempre me reconhecia, me apresentava como “a minha médica”, me chamava pelo nome.

Essa é a primeira vez que perco uma paciente. Ela faleceu no hospital, ainda não sei bem sob quais circunstâncias.

Fiquei abalada com a notícia. Passei o dia esquisita. Não apenas pela morte em si – embora a morte seja sempre triste. Mas por saber que ela morreu sozinha. Sem familiar por perto, sem um rosto conhecido ao seu lado, nem que fosse da equipe de saúde que a atendia.

Tenho certeza de que jamais vou esquecer dessa paciente. Nem de seu nome completo, nem de seu jeitinho peculiar de caminhar, nem do seu óculos de sol redondo e miudinho. Nem do vínculo que tínhamos.

Mas a vida é assim: quando nos arriscamos a nos apegar às pessoas, nos arriscamos a sofrer por elas. É provável que eu sofra sempre por meus pacientes. E também é provável que jamais eu me arrependa disso.

cortei o cabelo

Há um tempo eu vinha me apaixonando cada vez mais por cabelos cada vez mais curtos. E vinha cortando o meu cada vez um pouco mais. Mas sempre deixava crescer de novo…

Estava com as madeixas próximas ao ombro. Aí, bateu a louca e resolvi cortar. Decidi ontem, ontem mesmo fui, para não perder a coragem. Cortei num pixie com uma franja mais alongada. Guardei as madeixas para doá-las. Deu um tantão!

Ceis acham que foi fácil? Foi nada! Sentada na cadeira, pronta para cortar, com o cabelo todo amarradinho em elásticos, tremi quando senti a tesoura passando por ele.

Não é engraçado como nos apegamos a coisas supérfluas na vida? Cabelo é coisa tão dinâmica. Cresce, cai, você corta, cresce de novo, você colore, depois corta fora… E cabelo significa o que, afinal de contas, né?

Para grande parte das mulheres, o cabelo está intimamente ligado à autoestima. Passei anos e mais anos brigando com o meu. Anos e anos me preocupando com ele, ao invés de me divertir com ele.

Então, sentada na cadeira, pensei: “mesmo que não dê certo, preciso fazer isso. preciso fazer isso para desapegar do significado que esse monte de pelos que crescem na minha cabeça tem. para desapegar do meu ego e da necessidade de ‘ser bonita’ nos moldes das outras pessoas. para desligar minha autoestima da minha imagem corporal… para provar pra mim mesma que isso não importa. o que importa na vida é viver, arriscar, fazer o que a gente tem vontade. e não perder tempo e energia dessa vida já tão pouca me dedicando a uma massa de cabelos que, depois que eu morrer, vai virar poeira.”

Respirei fundo e segurei uma mecha de cabelo nas mãos, sorrindo. Como pode isso ter tanto significado? Pois é…

Que sensação de leveza, meu Deus! Sentir o vento bater na nuca. Não ter cabelo voando na cara. Não me preocupar de o vento bagunçar. Uma sensação, assim, de poder, sabe? Poder sobre mim mesma. Satisfação comigo mesma. De ter atingido um nível de autoconfiança inédito na minha vida: a ponto de não ligar absolutamente para a opinião alheia. As pessoas me acharem bonita ou não simplesmente não importa! Isso tira um peso da gente. Isso tira tantas limitações de cima da gente. Poder sobre mim mesma, sim… Pois nossa obrigação de “sermos bonitas sempre” nos controla. Dá poder aos outros sobre nós, o arranca de nossas mãos.

Pois eu tomei o meu de volta. E agora ele é só meu, de mais ninguém.

Na rua, já notando os olhares das pessoas, eu sorri. CARA, isso vai ser muito divertido!

 

o bem

Viver é muito perigoso… Querer o bem com demais força, de incerto jeito, pode já estar sendo se querendo o mal, por principiar. Esses homens! Todos puxavam o mundo para si, para o concertar consertado. Mas cada um só vê e entende as coisas dum seu modo.

(Grande Sertão: Veredas – João Guimarães Rosa)

Quando queremos “o bem” a todo custo, esse bem que queremos não é o que nós mesmos entendemos por bem? O bem conforme nossa visão de mundo e conforme nossa cultura. É o nosso bem, o bem que é bom para nós, o bem que nos deixa confortáveis, que nos favorece. O nosso conceito de bem, será, é o mesmo conceito de bem para todos? Querer o bem excessivamente é colocar uma expectativa irreal em cima das pessoas… E as expectativas que colocamos em cima dos outros são o que a não ser puro egoísmo?

o dia da mulher

O dia da mulher, pra mim, é sempre um dia de reflexões. É um dia de pensar em tudo que envolver “ser mulher”. Isso começou tão cedo na minha vida que eu já nem me lembro mais – no dia do meu nascimento, provavelmente.
 
“Ser mulher” não é apenas um pequeno detalhe, mas algo que permeia todas as minhas experiências.
 
Quando eu era pequena e gostava de jogar bola, por exemplo, a todo momento eu tinha de “provar que jogava bem”, pois cada menino diferente que entrava na quadra costumava fazer comentários do tipo:
– Pode chutar no gol, ela é menina! (quando eu estava jogando como goleira)
– Vocês podem ficar com um a mais, no time de vocês tem uma menina.
– Por ali! Passa por ela que ela é menina!
E demais “obviedades” relacionadas ao fato de eu “ser uma menina” e, portanto, é CLARO que eu jogava mal, não é mesmo? Então, o outro time se organizava para passar por mim, que enquanto menina, era com certeza o elo fraco do time.
 
E frequentemente, quem jogava no mesmo time que eu não me passava a bola – pois, é claro, ninguém quer passar a bola para a menina, já que a menina irá perder a bola e prejudicar o time. Então, quando eu tinha raramente a chance de encostar na bola, eu NÃO PODIA ERRAR. Eu tinha de jogar perfeitamente, ou ficaria a ver navios o jogo todo.
 
Então, todo novo jogo com alguém diferente sempre foi um desafio para mim, no qual eu tinha de provar que sabia jogar. Eu ficava nervosa, ansiosa para mostrar o que sabia fazer e não conseguia “jogar só pela diversão”. Eu jogava pelo meu orgulho. Jogava para me provar.
 
Depois que eu conseguia mostrar que não jogava feito uma toupeira, as reações variavam: alguns ficavam surpresos; outros ficavam com raiva. Coisa que também costumava acontecer quando os meninos perdiam a bola para mim era me acusar de tê-los machucado, pois “menina é tudo caneleira”. Ou seja, para eu tirar a bola deles sendo menina, só mesmo quebrando as regras, não é mesmo? Somente os chutando na canela. Mesmo que isso não tivesse acontecido.
 
Isso tudo passava na minha cabeça durante um inocente jogo de futebol entre outras crianças de 9 ou 10 anos. Eu fui crescendo e convivendo com outras coisas relacionadas a”ser mulher” muito mais fortes, tristes e perigosas do que essa.
Vejam bem, essa “historinha” sobre jogar futebol na infância é uma metáfora sobre o que foi crescer sendo uma mulher. ISSO é socialização feminina. Do mesmo jeitinho que aconteceu no futebol aconteceu em todas as áreas da minha vida. Você deve imaginar como me deixa puta dizerem que feministas “se vitimizam” quando você foi julgada automaticamente como inferior ao longo de toda sua vida, e tudo que o feminismo fez foi me fazer enxergar que isso acontece – e que isso acontece por eu ser uma mulher.
Um dia eu tomei consciência de que a experiência de crescer “como uma mulher” estava emaranhada em mim de um modo tão forte, que todo o meu funcionamento emocional foi influenciado por isso. Todo. Ser mulher, ser tratada como uma mulher, crescer como alguém do sexo feminino faz parte de cada segundo do meu dia. Faz parte de cada segundo do meu dia me provar enquanto pessoa, encontrar o meu espaço, provar que minha capacidade não é inferior. PERCEBER que isso acontece não é, nem de longe, me vitimizar – é reconhecer minhas especificidades, reconhecer minha história, reconhecer que os motivos de tantas coisas terem acontecido na minha vida é… Eu ter nascido com um aparelho reprodutor feminino. E isso acontecer não é questão de opinião. É UM FATO. Se não acontece com você não significa que não aconteça com ninguém. 
As pessoas me limitam por eu ser mulher. Isso está fora do meu controle.
As pessoas me tratam diferente por eu ser mulher. Isso não é culpa minha.
As pessoas me colocam numa posição inferior (automaticamente!) por eu ser mulher. Não sou EU quem me vitimizo ou diminuo.
E tudo isso fez parte do que eu sou ao longo de toda a minha vida. E eu sei que fará parte de toda minha vida continuar provando o contrário (às vezes é tão cansativo!).
Todos os dias 08 de março eu sou dominada por uma gigantesca vontade de chorar.

dona flor e seus dois maridos

Gosto tanto de ti – oh! voz de celeste acento dentro dela a ressoar -, com amor tamanho que para te ver e te tomar nos braços, rompi o não e outra vez eu sou. Mas não queiras que eu seja ao mesmo tempo Vadinho e Teodoro, pois não posso. Só posso ser Vadinho e só tenho amor para te dar, o resto todo de que necessitas quem te dá é ele; a casa própria, a fidelidade conjugal, o respeito, a ordem, a consideração e a segurança. Quem te dá é ele, pois o seu amor é feito dessas coisas nobres (e cacetes) e delas todas necessitas para ser feliz. Também de meu amor precisas para ser feliz, desse amor de impurezas, errado e toro, devasso e ardente, que te faz sofrer. Amor tão grande que resiste à minha vida desastrada, tão grande que depois de não ser voltei a ser e aqui estou. Para te dar alegreia, sofrimento e gozo aqui estou. Mas não para permanecer contigo, ser tua companhia, teu atento esposo, para te guardar constância, para te levar de visita, para o dia certo do cinema e a hora exata de dormir – para isso não, meu bem. Isso é com meu nobre colega de chibiu, e melhor jamais encontrarás. Eu sou marido da pobre dona Flor, aquele que vai acordar tua ânsia e morder teu respeito humano. Ele é tua face matinal, eu sou tua noite, o amante para o qual não tens nem jeito nem coragem. Somos teus dois maridos, tuas duas faces, teu sim, teu não. Para ser feliz, precisar de nós dois. Quando era eu só, tinhas meu amor e te faltava tudo, como sofrias! Quando foi só ele, tinhas de um tudo, nada te faltava, sofrias ainda mais. Agora, sim, és dona Flor inteira como deves ser.

“Dona Flor e seus dois maridos”, esse livro maravilhoso, metáfora lindamente escrita e construída. Um livro sobre equilíbrios, sobre extremos, sobre a personalidade humana.

Em tudo na vida precisamos da rebeldia e da ordem: nos relacionamentos, na vida profissional, no nosso íntimo… Em todos nós há essa briga, essa busca. Vivendo só de ordem, organização, planejamento, como poderemos ser felizes? A vida se torna morna, monótona… Só de bagunças, riscos e  imprevistos, como sobreviver?

Dona Flor atinge seu equilíbrio e sua felicidade quanto aceita que precisa e merece ambos. Merece um marido fiel, acolhedor, que a cuide. Não merece passar a vida sofrendo por um marido que a ama mas não a respeita, que a fere constantemente. Quando deixa morrer o primeiro marido e aceita viver a vida tranquila e mansa, ela sente a falta da paixão, da inconstância, das surpresas do primeiro. E sofre, e culpa-se, e se contorce em negação aos seus desejos.

Depois de tanto sofrimento, ela enfim cede e aceita que também precisa e também pode, apesar dos julgamentos alheios, atender aos seus anseios e desejos, buscar o que a faz sentir viva…

Dona Flor, tão humana! Jorge Amado a constrói sem julgamentos, descreve seus dramas e contextos de modo que você sente, em cada palavra, as dores da personagem.

Não só no amor, mas na vida: que a gente compreenda sempre que precisa de ordem e caos – não se vive de apenas um deles