a gratidão

Diálogo com um paciente, jovem, em situação de rua.

– Você é médica?

– Isso mesmo.

– Agradeça por isso. Eu não tive chance de estudar…

(sobre como às vezes esquecemos de ser gratos por coisas que são “normais” pra gente, mas não tão normais assim fora do nosso universo)

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das (minhas) razões para ser impossível não amar medicina

Ao término da consulta, eu acompanhei o senhorzinho até a porta. Segurava seu ombro enquanto me despedia, e então, por fim, ele me disse:

– Obrigada pelo sorriso!

E se foi…

Não foi: “obrigada pela receita”, nem “obrigada pela explicação sobre a minha doença”, nem “obrigada pelo diagnóstico”. Foi: obrigada pelo sorriso.

Em que momento maravilhoso da minha vida ser feliz passou a ser um modo de viver para os outros?

mais momentos de outro (longo) dia

(os dias no PS são sempre de intensidade, mesmo nos dias menos movimentados. parece até que vivo várias vidas dentro daquelas 12 horas… e talvez viva, mesmo!)

cena 1

Paciente com obstrução intestinal baixa, com vômitos fecaloides incoercíveis. Peço à enfermagem para passar a sonda nasogástrica; enfermagem permite. No momento em que introduzo a ponta da sonda no nariz da paciente, ela segura minha mão e não permite que eu continue. Conversamos com a paciente, orientamos; tento novamente. Infelizmente, não sou capaz de vencer a resistência que o simples toque da mão dela no meu punho faz. Antes que eu continue, além disso, paciente torna a vomitar, enchendo a sala (apinhada de outros pacientes) de um odor fétido. Enfermagem pede, com o olhar, que eu deixe para a próxima. Imediatamente, eu cedo. A gente tem de saber a hora de não tentar mais… Especialmente quando se trata do corpo de um ser humano. Rapidamente lido com os sentimentos de frustração por não ter conseguido e de repulsa que o odor da sala causava – e também rapidamente os processo e supero. Às vezes é difícil ser apenas uma acadêmica, tão inexperiente para tantas coisas; mas faz parte, e todo bom médico já o foi um dia.

(ando trabalhando bastante nos sentimentos de frustração e autocrítica, pontos nos quais costumava ser bastante severa comigo mesma)

cena 2

Paciente jovem, masculino, chega para suturar o dedo indicador da mão direita. Converso com ele e com o médico da sala, o qual me orienta a fazer a sutura. Viro-me para preparar o material; quando volto a ele, vejo que está jogando “Clash of Clans” no celular – que, aliás, eu também jogo. Não pensei muito antes de me ver perguntando “Você está jogando Clash, é?” e ele abriu um sorriso divertido: “Você joga?”. Conversamos animadamente enquanto eu suturava o dedo dele.

No fim das contas, depois que o liberei ele esqueceu o celular em cima da maca. Sai correndo pelos corredores com o celular na mão, atrás dele. Topei com ele no corredor, voltando da saída, depois de ter se dado falta. “Teu jogo, cara!!!” Gargalhou.

cena 3

Senhora de 93 anos chega após queda da própria altura, com suspeita de fratura de colo de fêmur. Chego ao lado da maca para conversar com ela; após alguns minutos de conversa, ela, muito simpática, já tinha conquistado a mim e a todas as pessoas da sala de trauma. Em determinado momento, ela pega minha mão e eu seguro sua mãozinha fofa e enrugada dentro das minhas. Conversamos longamente – dei sorte de a sala estar vazia – e ela me contou sobre como era independente, orgulhosa.

Minha vontade era colocá-la num potinho e levá-la comigo, para sentir esperança nos momentos em que me sentir chateada com a humanidade.

cena 4

Atendo uma suspeita de apendicite e sento-me à mesa para escrever a anamnese. Escrevo, mais ou menos: “paciente apresentando, há tantos dias, dor periumbilical de moderada intensidade, acompanhada de náuseas. Há tantas horas, evolui com localização em FID (fossa ilíaca direita), aumento progressivo da intensidade e vômitos”, etc.

Depois de ter escrito mais ou menos isso, fiquei refletindo sobre como me parecia meio poético escrever uma anamnese. Que coisa bonita. Não o sofrimento do paciente, é claro; mas a sonoridade das palavras. Refleti sobre como fazemos arte com sofrimento, e que engraçado seria considerar anamnese uma arte no sentido de captar e transcrever os sentimentos e acontecimentos e…

cena 5

Muitas outras cenas depois, deixo o hospital. Tiro o jaleco, na recepção, sentindo que a Paula acadêmica de medicina ficou lá atrás, e agora vai tranquila para o lar. Que sensação gostosa de missão cumprida. Novamente, sou tomada de imensa gratidão aos pacientes que me emprestaram um pedacinho deles ao longo dessas horas, para que eu aprendesse, repartisse, crescesse e tudo o mais. A vida me pareceu linda, poética e maravilhosa.

Algumas horas depois, é claro, eu me largava exausta na minha cama, agradecendo, também, por finalmente poder descansar!

uma lição de empatia – no ônibus

O ônibus chegou, vazio. O ponto de ônibus, no entanto, estava lotado; nós, os passageiros, no amontoamos na porta, para passar pela catraca. O cobrador, pacientemente, utilizava o sistema da empresa para imprimir e entregar as passagens de cada um. O processo, no entanto, era super lento, e o ônibus ficou um tempão parado esperando as pessoas conseguirem entrar.

Nisso, um dos passageiros pergunta ao cobrador:

– Quem foi que colocou esse negócio aí?

– Ah, a empresa…

– Mas eles explicaram o porquê de fazer desse jeito? Se demora tanto e dá tanto trabalho?

– Não falaram, não.

– Hum. Deve ser por que não pegam ônibus!

 

Eis uma verdade natural: a única forma de entender completamente uma situação é passando por ela. Ouvir relatos não é o suficiente; apenas estando na pele de quem passa. Por isso jamais seremos conhecedores absolutos da vida e do universo:pois estamos presos ao corpo e ao contexto nos quais nascemos. E, por isso, pode-se adquirir maturidade emocional com a experiência: pois quanto mais vivemos (reparem que eu disse mais, e não por maior tempo), com mais situações diferentes e mais contextos nós entramos em contato.

Há, no entanto, uma interessante forma de ter alguma ideia do que é passar por uma determinada situação: tendo sensibilidade e… Amando!

Explico: não acontece que, quando amamos alguém, somos mais sensíveis à sua dor? O amor tem o poder de nos aproximar de uma realidade que não é a nossa. Às vezes, como até nosso amor é imperfeito, nem tendo alguém que se ama por perto pra enxergar; por isso incluo a sensibilidade e o olhar atento. Quando amamos alguém que sofre, por alguma razão, a situação não é nossa, mas nos é próxima. Ah, se todo branco amasse um negro! Ah, se toda família tivesse um homossexual! Ah, se todo homem visse alguma das mulheres que ama passando medo ou vergonha por causa de uma cantada na rua, ou sendo vítima de algum abuso! E se, os tendo por perto, dedicassem empatia, ouvidos, esforço, estudo e dedicação para promover mudança…

A informação muda o mundo.

O amor muda o mundo.

Mas, sozinhos, nenhum dos dois muda nada!

crianças

Todos os dias, eu espero minha carona num local próximo a uma escola.

Todos os dias, para um ônibus ali em frente. E, todos os dias, a mulher desce antes e chama, impaciente, o garotinho, parada na porta. Ele sempre:

– Volta pra buscar a mochila que esqueceu no banco;

– Volta pra dar tchau pro motorista;

– Quer descer os enormes degraus (enormes para ele) do ônibus, sem ajuda, sob os olhares impacientes e apelos da mãe.

A cena invariavelmente termina com a mãe puxando-o do último degrau, por um braço, e ele sacudindo as perninhas. Ela diz que o motorista não pode ficar esperando, que tem de sair logo. Tão logo ela o põe no chão, ele sai pulando ou correndo alegremente.

 

Os únicos chatos e impacientes dessa cena são os adultos. A criança não está incomodada com o tempo. Ela poderia levar o tempo que for para descer o degrau do ônibus, porque até assim ela está se divertindo.

 

Hoje, cheguei ao leito de uma das pacientes que acompanho, uma garotinha de 3 anos. Quando me aproximei do berço, ela se levantou, veio para a borda próxima de onde eu estava e abriu os bracinhos.

– Quer dar um “upa”, filha?! Perguntou a mãe dela.

– Upa, ela disse, e me envolveu com os bracinhos fofos.

Obviamente retribuí, abraçando-a, e beijando-lhe a testa. Ela sorriu.

Mais tarde, eu quis, no exame físico, fazer oroscopia. Mas ela me retrucou:

– Eu já tô cansada.

No dia em que a vi pela primeira vez, ela me disse com toda espontaneidade, quando lhe prometi não machucá-la durante o exame, que estava assustada. Pudera! Primeira internação na vida.

 

Os que mais apresentam dificuldade de demonstrar o que sentem e pensam são os adultos. As crianças são espontâneas e sinceras, na maior parte das vezes. Elas não disfarçam o que são e não tem vergonha do que sentem.

 

Evoluímos em algumas coisas, quando crescemos, mas também involuímos em tantas outras…

canetas

Há dois fatores: uso muito canetas e perco muito canetas.

Uso muito por que uma das razões da existência da medicina é o preenchimento de papéis inúteis e/ou confusos que ninguém jamais lerá, por que ao estudar faço muitos resumos à mão (gravo melhor) e, por fim, escrevo por lazer, passatempo ou necessidade em cadernos e folhas diversos que carrego em bolsos variados.

Portanto, adoro canetas, mas elas são um bem escasso na minha vida.

Caminho pelo hospital, preencho um papel e perco uma na bancada. Faço plantão no PS, no meio de alguma corrida largo em cima da mesa de um consultório e jamais reencontro. Ou elas acabam (já acabei com incontáveis canetas desde o início da faculdade).

 

Hoje, depois depois de semanas de necessidade, finalmente consegui sair do ambulatório em horário comercial e encontrar uma papelaria aberta. Tem uma na frente de casa, mas quando saio ainda está fechada e quando volto já fechou.

Escolhi a caneta de minha preferência (azul, esferográfica, simples, ponta fina), ao custo de 1,50 a unidade. Segue diálogo com a vendedora:

– Olá. Vou levar dessas. Aceitam cartão?

– Bom, até aceitamos, mas só acima de 10 reais…

– Aham. Vou levar sete.

– Canetas?!

– Isso.

 

A vendedora fixou o olhar em mim por alguns segundos – talvez pensando “vai revender” – e aí pegou o cartão da minha mão e realizou a operação.

Saí faceira pela rua, sentindo-me extremamente feliz em ter um estoque de canetas.

Quanta coisa tola faz feliz, né?

professores da medicina e da vida

Algumas pessoas tem realmente o poder de transformar o dia – e, por que não? a vida! – das pessoas ao seu redor.

É o caso desse professor. Ele chega sorrindo, cumprimenta-nos desejando que o dia seja feliz, faz piadas o tempo inteiro e não perde uma oportunidade de explicar. Seja o quadro clínico, seja sobre a burocracia do sistema de saúde, seja sobre a vida. E hoje ele nos disse, rindo:

– Bom humor é tudo – nas horas certas, é claro. A melhor coisa que existe é viver!

 

É isso!

Então, de repente, a resposta: humor!

É assim que se lida com esse tanto de coisa. No meio da piada em que imitava outro médico, entre as gargalhadas, a afirmação que trouxe a resposta que eu procurava. Se esse mestre lida com humor e é tão respeitado por todos, de colegas de profissão a pacientes, deve funcionar.

Eu cheguei em casa e por um instante o desânimo quis me bater a porta. Mas eu lembrei, sorrindo: a melhor coisa que existe é viver!

 

a medicina nos deixando doidas

Três amigas. Estávamos voltando para casa, às 22:30h, depois de uma loooonga tarde estudando.

Uma delas comenta:

– Meu Deus. Eu preciso lavar o meu cabelo. Não dá mais pra ficar desse jeito! Meus piolhos vão ter hipercolesterolemia.

– Ih. Será que tem triglicerídeos junto? Por que se tiverem uma puta hipertrigliceridemia podem fazer uma pancreatite…

– Do jeito que bebe, é mais fácil fazer uma pancreatite alcoólica!

– Ultimamente, com essa prova?!

– É…

(num diálogo rápido, um resumo do que uma prova de cirurgia faz com a gente: falta de autocuidado, ausência de vida social e a matéria rodando na cabeça all the time)