da ignorância

Moralmente, é tão condenável não querer saber se uma coisa é verdade ou não, desde que ela nos dê prazer, quanto não querer saber como conseguimos o dinheiro, desde que ele esteja na nossa mão.

É desanimador descobrir a corrupção e a incompetência governamentais, por exemplo, mas será melhor não saber a respeito? A que interesses a ignorância serve? Se nós, humanos, temos uma propensão hereditária a odiar estranho, o único antídoto não é o autoconhecimento? Se ansiamos por acreditar que as estrelas se levantam e se põem para nós, que somos a razão da existência do Universo, a ciência nos presta um desserviço esvaziando nossa presunção?

 

Carl Sagan. Gênio. Sou tão fã que meus olhos chegam ficar cheios de lágrimas.

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coisas dessa vida

Minha vida continua oscilando gigantescamente. Minha semana passada foi maravilhosa: fui ao Rio de Janeiro com a equipe, participar do Primeiro Encontro Nacional dos Consultórios na Rua. As experiências e as trocas foram incríveis; vivi momentos fantásticos, ouvi e aprendi com muita gente incrível, me emocionei.

Voltei do Rio direto para Joinville. Esse final de semana, meu irmão casou, e foi tudo lindo, emocionante e divertidíssimo.

Hoje, fui bruscamente jogada na vida real. E a vida real tem sido muito difícil pra mim nas últimas semanas. Não se passa um dia no trabalho em que eu não saia muito chateada ou estressada com algum ocorrido. Há situações que sugam minhas energias. E, com grande frequência, sinto-me acuada, sem soluções, de mãos atadas.

Talvez a frase que eu mais use para contar algo do meu trabalho é: “Eu realmente não sei o que fazer”. E, pasmem vocês, mas os atendimentos em si tem sido a parte mais fácil de ser médica, ultimamente.

Fizemos algumas reflexões sobre nossas vidas e o rumo que queremos dar a elas, eu e Nikolas, por esses dias. Tenho pensado muito na minha pequenez de ser humano, na insignificância da minha existência e no quanto essa consciência pode ser libertadora. Se sou tão pequena num gigantesco Universo, se há tanta coisa que simplesmente vai acontecer sem que eu possa controlar… Então, tanto faz que decisões vou tomar quanto ao meu futuro. A Terra vai ser engolida pelo Sol de qualquer jeito daqui uns milhares de anos. Antes disso, ela vai passar por uma nova Era do Gelo à qual talvez o ser humano nem sobreviva. Que diferença faz então, por exemplo, que residência eu vou fazer? Frente à enormidade dos eventos inevitáveis que vão envolver esse pequeno e minúsculo planeta, que representa essa minha escolha? Vou dizer pra vocês o que ela representa:

NA-DA.

Tanto faz. Posso simplesmente escolher uma qualquer, a que me dê mais conforto e qualidade de vida de preferência, pois a verdade, mesmo, é que eu vou morrer, os anos vão passar e esses poucos anos da minha vida simplesmente não representam nada para o panorama geral.

E juro que escrevo isso feliz e aliviada. Pode parecer pessimismo, mas não é.

Eu vou morrer, gente. E vai ser logo – pelo menos em comparação com a escala de tempo na qual o Universo funciona. Tenho de conseguir experimentar a vida antes disso e desencanar um pouco de tanto superego.

PS:VAITODOMUNDOASSISTIRCOSMOS,RÁPIDO!

o bem

Viver é muito perigoso… Querer o bem com demais força, de incerto jeito, pode já estar sendo se querendo o mal, por principiar. Esses homens! Todos puxavam o mundo para si, para o concertar consertado. Mas cada um só vê e entende as coisas dum seu modo.

(Grande Sertão: Veredas – João Guimarães Rosa)

Quando queremos “o bem” a todo custo, esse bem que queremos não é o que nós mesmos entendemos por bem? O bem conforme nossa visão de mundo e conforme nossa cultura. É o nosso bem, o bem que é bom para nós, o bem que nos deixa confortáveis, que nos favorece. O nosso conceito de bem, será, é o mesmo conceito de bem para todos? Querer o bem excessivamente é colocar uma expectativa irreal em cima das pessoas… E as expectativas que colocamos em cima dos outros são o que a não ser puro egoísmo?

vínculo

“Vínculo exige perseverança e permanência, estabilidade que gera segurança, previsibilidade mesmo nos desafios que enfrentamos no dia a dia do trabalho e do viver. Vínculo revela conhecimento e reconhecimento. Não estranheza, mas pertença! Só quem pertence ao nosso mundo de significados estabelece vínculos conosco, e só assim estabelecemos vínculos com o outro.”

Esse Manual é a coisa mais linda do mundo de se ler.

ai ele disse…

geralmente as pessoas que fazem medicina para “salvar as pessoas” o fazem porque precisam salvar algo dentro delas mesmas

Toda terça a tarde temos uma espécie de reunião com um professor de psicologia. Sentamos em grupo e… Falamos. Ele recomenda livros, nós lemos, conversamos sobre o que lemos, misturamos com a nossa vida e de repente estamos falando dos nossos dramas e dos dramas do universo inteiro. É sempre instigante e saio com a mente inquieta. Foi um dia interessante, hoje. O professor costuma dizer que espera “fazer barulho na gente”, e consegue toda vez. Saio de lá com a mente num turbilhão.

Saí para correr, depois de chegar em casa com a cabeça fervendo. Quando corro, deixo meus pensamentos passearem livremente de uma forma que não consigo fazer em outras situações. E fico apenas a observá-los, admirá-los.

Então, enquanto corria e observava o mar, tive subitamente o insight sobre as razões que me levaram a escolher medicina. Quero dizer a vocês que elas não são nem um pouco nobres. Incluem coisas tipo ter dentro de mim uma criança sedenta por atenção e tals. Felizmente (muito felizmente, na verdade), não sou um ser superior que resolveu abdicar de sua felicidade para salvar ninguém.

Também não tenho mais a ilusão de “salvar vidas”, que a medicina não chegou nesse nível, não. A gente não salva ninguém. A gente não “cura doenças”. Nós, quando conseguimos, tratamos. Ajudamos e consolamos quando possível. Mas nós não temos poder de salvar ninguém! As pessoas alucinam demais sobre o que é a medicina… E não é nada disso que passa na novela ou nos filmes.

Chega o momento em que é preciso admitir isso e fico muito feliz de ter conseguido alcançar essa sinceridade comigo mesma antes da formatura. Se faço medicina pois sou tão altruísta e especial que resolvi dedicar tanto de mim para “salvar vidas” e “curar doenças”, estou em outro patamar, acima dos outros. Essa visão coloca uma barreira entre nós e os pacientes. Mas se compreendo que escolhi medicina por razões bastante egoístas ou até infantis, e que meu “poder” enquanto médico é uma completa ilusão, eu volto a ser igual.

É libertador ser apenas um ser humano!

Aliás, longe de isso diminuir minha paixão ou dedicação pela profissão que escolhi; na verdade, acho que o fantástico da vida é isso: transformarmos nossas dores, frustrações e infantilidades em coisas melhores. Em coisas bonitas. Crescimento, resiliência!

tcc

A análise do conteúdo pode ser definida como um conjunto de instrumentos metodológicos que se presta a analisar diferentes fontes de conteúdo. Quanto a interpretação, a análise de conteúdo transita entre dois polos: o rigor da objetividade e a fecundidade da subjetividade. É uma técnica refinada, que exige do pesquisador, disciplina, dedicação, paciência e tempo. Faz-se necessário também, certo grau de intuição, imaginação e criatividade, sobretudo na definição das categorias de análise. Jamais esquecendo, do rigor e da ética, que são fatores essenciais (FREITAS, CUNHA, & MOSCAROLA, 1997).

essazora da vida e o tcc quer me exigir paciência e tempo… hahahahaha

vou usar da intuição e imaginação, que não me faltam, pra inventar paciência e tempo onde não tem

das (minhas) razões para ser impossível não amar medicina

Ao término da consulta, eu acompanhei o senhorzinho até a porta. Segurava seu ombro enquanto me despedia, e então, por fim, ele me disse:

– Obrigada pelo sorriso!

E se foi…

Não foi: “obrigada pela receita”, nem “obrigada pela explicação sobre a minha doença”, nem “obrigada pelo diagnóstico”. Foi: obrigada pelo sorriso.

Em que momento maravilhoso da minha vida ser feliz passou a ser um modo de viver para os outros?

da arte da terapêutica

Certa vez, ouvi o desabafo de um professor:

“Trabalho na linha de frente há muitos anos. Ano após ano, é merda atrás de merda. É triste, viu? Você não fica triste pelo paciente. Você fica triste por você mesmo. O triste é saber que, amanhã, pode ser você.”

Hoje, leio o trecho abaixo, ainda do “Psicossomática e suas interfaces”:

“Não se envolva com o paciente”, “É preciso ter sangue frio”, “Para aprender é assim mesmo”, “São apenas corpos”,”Se você ficar sofrendo a cada morte de paciente, você não aguenta e larga a medicina”. Estes são alguns dos elementos introjetados para se atravessar o batismo de fogo, um verdadeiro ritual de iniciação na Medicina, que poderá ser responsável, no futuro, por relações mortas entre paciente e terapeuta.

(…) Mostrando a presença do papel do médico como o Senhor da Vida e da Morte; revelando também a fragilidade do médico em lidar com um paciente que lembra a sua própria finitude, a sua humanidade. (…) Ele nos convida a pensar a nossa morte, ou melhor, na nossa vida, nossos planos, sonhos.

É fato que a morte, no contexto hospitalar, simboliza o fracasso, rompe o poder, retira os profissionais do Olimpo. É comum o relato de profissionais que afirmam se sentirem impotentes diante do paciente incurável: “não tenho nada a fazer”. Diante disso, a negação, o distanciamento, é muitas vezes a resposta para não lidar com o sentimento de fragilidade, com a reflexão sobre a própria finitude. Os pacientes à morte são uma ameaça ao poder médico.

Eu tenho falado tanto, nesse blog, sobre como nossos problemas estão dentro de nós mesmos.

Não é só o sofrimento do paciente que me faz sofrer. Também é, é claro; exercito empatia o máximo que posso e é dificílimo me aproximar do sofrimento das pessoas.

Mas não é só.

A relação que o médico tem com a morte e o sofrimento é o ponto crucial para o modo como ele irá lidar (ou não) com o sofrimento e a morte de seus pacientes.

Porém, tendo sido cultualmente estimulados a negarem a morte e a esconderem o sofrimento, de que modo serão capazes de se aproximar do sofrimento de alguém? De alguém que os fará lembrar que eles também podem sofrer, e que também irão morrer? Eles não querem. Portanto, distanciam-se. Pensam-se diferentes. Imaginam-se superiores… Estão acima da morte, estão acima do sofrimento, estão acima da condição de humanidade.

Quem não se vê como humano, quem não é capaz de admitir a própria fragilidade… Será incapaz de lidar com a fragilidade dos outros.

Pois temos dificuldade de lidar com o meio externo quando ele atinge algo que, internamente, não lidamos bem. E isso tem ficado cada vez mais óbvio para mim.

Então, as coisas finalmente estão ficando claras pra mim. Eu posso me aproximar. Posso ser lembrada do sofrimento e da morte. Posso ser lembrada da fragilidade humana… Posso permanecer ao lado dos meus pacientes.

Mas, pra isso, tenho de aprender a lidar e aceitar com meu próprio sofrimento e com a minha própria morte – que, cedo ou tarde, vai chegar.

pequena (grande) constatação

tenho sido a cada dia mais e mais feliz, completa e realizada com a minha vida

quanto mais feliz, completa e realizada tenho sido com a minha vida…

menos tenho me importado com a opinião dos outros a respeito dela.

e longe de isso me tornar egoísta ou me afastar das pessoas!

na verdade…

isso tem me feito sentir cada vez menos: rancor, raiva, impaciência, etc.

e cada vez mais: gratidão, amor, paz, plenitude, etc.

(conclusão: eu me preocupava demais pensando que “nunca era suficiente para os outros”, que os outros “sempre esperavam o pior de mim”, e coisas semelhantes, mas… a verdade é que eu dava valor demais à opinião alheia pela insegurança que causava não me bastar. estava em mim, não nas outras pessoas, a solução. gratidão liberta…)