8M

Não tem nada de feliz no dia 8 de março. Sério.
 
Nem historicamente (pensando nos acontecimentos que levaram à sua existência), nem hoje.
 
Mas é um dia de pensar, ler, estudar, refletir.
Hoje eu passei o dia com esse cansaço do que “ser mulher” significa. Cansada das campanhas publicitárias, cansada das piadinhas machistas (elas não são engraçadas. parem. aqui é 2017, não 1950). Cansada dessa sensação de ter de provar minha capacidade e meu intelecto o tempo inteiro, já que muita gente ainda não me leva a sério pq eu sou mulher. Estou o tempo inteiro tentando provar que “sou mulher, mas entendo desse assunto” ou “sou mulher, mas tenho capacidade de fazer tal coisa”. Pior, ozomi ainda ficam tipo “nossa, não é com qualquer mulher que dá pra falar desse assunto” Como se fôssemos um bando de imbecis que, de vez em quando, fala uma coisa legal que preste.
 
Cansada desse medo que se tornou uma rotina na minha vida, que está presente todo.santo.dia; esse medo de ser abusada, estuprada e humilhada; desse hábito de andar na rua sempre olhando pra todos os lados ao mesmo tempo, pensando sempre em rotas de fuga e com medo de não conseguir gritar alto o suficiente caso precise chamar por ajuda. Até tenho medos de assalto. Até tenho medos de, sei lá, ser agredida ou levar um tiro num deles. Mas eu tenho PAVOR, HORROR a ser invadida. É CEM VEZES PIOR. Cansada de ser humilhada por cantadas imbecis na rua, responder (pq eu não consigo mais ficar quieta) e ainda ser xingada de volta como se fosse minha obrigação responder com educação a esse tipo de coisa.
 
Aliás, até no trabalho tenho de ouvir gracinhas. Inclusive, às vezes, tenho de ouvir grosserias e questionamentos que eu tenho certeza que um médico homem branco barbudo não ouviria.
 
Mas eu ainda sou privilegiada. Há nesse mundão de meu Deus dificuldades muito maiores. E eles também me deixam cansada.
Cansada de sofrer pelo sofrimento de tantas mulheres no Brasil. É de chorar, gente. É de chorar inconsolavelmente. Quando você se permite acessar esse universo e se aproximar de mulheres e, pasmem, MENINAS estupradas, espancadas, abusadas, humilhadas, subjugadas… POR SEREM MULHERES. Mulheres mantidas em regime de quase escravidão sem nenhum direito trabalhista em trabalhos domésticos, acabando com a própria saúde, ou mesmo desempregadas, ou ganhando muito menos e tento de sustentar sozinhas um filho que o genitor simplesmente abandonou. Cansada de saber que elas procuram ajuda e não recebem. Cansada de me sentir impotente frente a tanto sofrimento. Dói. Dói muito.
 
Cansada. Cansada de explicar as mesmas coisas 500 vezes pra gente que não tá nem aí pras dores alheias. Cansada de ouvir os mesmos argumentos clichês/senso comum 3000 vezes. Cansada de ver tanto sofrimento e ouvir machinho arrogante dizendo que é mimimi. É DOSE, MINHA GENTE. É DOSE! Injustiça é uma coisa difícil de engolir. Falta de empatia também. Dói. Dói lá na alma. Faz a gente chorar.
 
Cansada, cansada.
 
Às vezes dá vontade de simplesmente jogar a toalha.
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meu cabelo pixie

Nunca mais vou deixar o cabelo crescer. Sério. Que corte mais maravilhoso!!!!!!!!!

Dá uma liberdade na vida…

Tô até com vontade de cortar mais ainda da próxima vez. Quem sabe uma hora dessas eu não cumpro a ameaça de anos e raspo? Né? Por que não?

Não é toda mulher que é obrigada a gostar de cultivar um cabelão, que incomoda horrores e gasta tempo. Realmente não é do meu feitio ficar me preocupando se o cabelo está fora do lugar, com frizz, ou ficar acordando cedo todo santo dia pra fazer chapinha, escovar todos os dias, passar esse e aquele creme, fazer hidratação o tempo todo etc. etc. etc. Se já passei por fases em que tentei me adaptar a essa vida? Com certeza. Que mulher nunca, né? Mas no fim das contas me pegava prendendo o cabelo num coque pra esconder ele, quase todo dia.

 

Só que agora eu descobri que isso não é pra mim, e nem precisa ser! :)

Eu ter nascido com sistema reprodutor feminino não me obriga a ter cabelo assim ou assado. Eu tenho é que ter o cabelo (e o resto do corpo!) que me permita ser o mais feliz possível todos os dias.

da friendzone

“Friendzone”: termo inventado por homens com dor de cotovelo para culpar e demonizar mulheres que não quiseram se relacionar romanticamente com eles.

 

Quando é o oposto, ou seja, um cara “rejeitando” a mulher e eles continuarem se relacionamento como amigos, ela é que é a trouxa que não percebe que ele não quer nada com ela. Agora homem ser rejeitado, não pode! Aí a mulher é que é uma megera, colocou o pobre coitado na friendzone, coração de pedra, etc.

Coisa engraçada isso, né?

Homens, parem que tá feio! Vamos aprender a lidar com rejeição de forma mais madura, tá bem? Ninguém é obrigada.

cortei o cabelo

Há um tempo eu vinha me apaixonando cada vez mais por cabelos cada vez mais curtos. E vinha cortando o meu cada vez um pouco mais. Mas sempre deixava crescer de novo…

Estava com as madeixas próximas ao ombro. Aí, bateu a louca e resolvi cortar. Decidi ontem, ontem mesmo fui, para não perder a coragem. Cortei num pixie com uma franja mais alongada. Guardei as madeixas para doá-las. Deu um tantão!

Ceis acham que foi fácil? Foi nada! Sentada na cadeira, pronta para cortar, com o cabelo todo amarradinho em elásticos, tremi quando senti a tesoura passando por ele.

Não é engraçado como nos apegamos a coisas supérfluas na vida? Cabelo é coisa tão dinâmica. Cresce, cai, você corta, cresce de novo, você colore, depois corta fora… E cabelo significa o que, afinal de contas, né?

Para grande parte das mulheres, o cabelo está intimamente ligado à autoestima. Passei anos e mais anos brigando com o meu. Anos e anos me preocupando com ele, ao invés de me divertir com ele.

Então, sentada na cadeira, pensei: “mesmo que não dê certo, preciso fazer isso. preciso fazer isso para desapegar do significado que esse monte de pelos que crescem na minha cabeça tem. para desapegar do meu ego e da necessidade de ‘ser bonita’ nos moldes das outras pessoas. para desligar minha autoestima da minha imagem corporal… para provar pra mim mesma que isso não importa. o que importa na vida é viver, arriscar, fazer o que a gente tem vontade. e não perder tempo e energia dessa vida já tão pouca me dedicando a uma massa de cabelos que, depois que eu morrer, vai virar poeira.”

Respirei fundo e segurei uma mecha de cabelo nas mãos, sorrindo. Como pode isso ter tanto significado? Pois é…

Que sensação de leveza, meu Deus! Sentir o vento bater na nuca. Não ter cabelo voando na cara. Não me preocupar de o vento bagunçar. Uma sensação, assim, de poder, sabe? Poder sobre mim mesma. Satisfação comigo mesma. De ter atingido um nível de autoconfiança inédito na minha vida: a ponto de não ligar absolutamente para a opinião alheia. As pessoas me acharem bonita ou não simplesmente não importa! Isso tira um peso da gente. Isso tira tantas limitações de cima da gente. Poder sobre mim mesma, sim… Pois nossa obrigação de “sermos bonitas sempre” nos controla. Dá poder aos outros sobre nós, o arranca de nossas mãos.

Pois eu tomei o meu de volta. E agora ele é só meu, de mais ninguém.

Na rua, já notando os olhares das pessoas, eu sorri. CARA, isso vai ser muito divertido!

 

o dia da mulher

O dia da mulher, pra mim, é sempre um dia de reflexões. É um dia de pensar em tudo que envolver “ser mulher”. Isso começou tão cedo na minha vida que eu já nem me lembro mais – no dia do meu nascimento, provavelmente.
 
“Ser mulher” não é apenas um pequeno detalhe, mas algo que permeia todas as minhas experiências.
 
Quando eu era pequena e gostava de jogar bola, por exemplo, a todo momento eu tinha de “provar que jogava bem”, pois cada menino diferente que entrava na quadra costumava fazer comentários do tipo:
– Pode chutar no gol, ela é menina! (quando eu estava jogando como goleira)
– Vocês podem ficar com um a mais, no time de vocês tem uma menina.
– Por ali! Passa por ela que ela é menina!
E demais “obviedades” relacionadas ao fato de eu “ser uma menina” e, portanto, é CLARO que eu jogava mal, não é mesmo? Então, o outro time se organizava para passar por mim, que enquanto menina, era com certeza o elo fraco do time.
 
E frequentemente, quem jogava no mesmo time que eu não me passava a bola – pois, é claro, ninguém quer passar a bola para a menina, já que a menina irá perder a bola e prejudicar o time. Então, quando eu tinha raramente a chance de encostar na bola, eu NÃO PODIA ERRAR. Eu tinha de jogar perfeitamente, ou ficaria a ver navios o jogo todo.
 
Então, todo novo jogo com alguém diferente sempre foi um desafio para mim, no qual eu tinha de provar que sabia jogar. Eu ficava nervosa, ansiosa para mostrar o que sabia fazer e não conseguia “jogar só pela diversão”. Eu jogava pelo meu orgulho. Jogava para me provar.
 
Depois que eu conseguia mostrar que não jogava feito uma toupeira, as reações variavam: alguns ficavam surpresos; outros ficavam com raiva. Coisa que também costumava acontecer quando os meninos perdiam a bola para mim era me acusar de tê-los machucado, pois “menina é tudo caneleira”. Ou seja, para eu tirar a bola deles sendo menina, só mesmo quebrando as regras, não é mesmo? Somente os chutando na canela. Mesmo que isso não tivesse acontecido.
 
Isso tudo passava na minha cabeça durante um inocente jogo de futebol entre outras crianças de 9 ou 10 anos. Eu fui crescendo e convivendo com outras coisas relacionadas a”ser mulher” muito mais fortes, tristes e perigosas do que essa.
Vejam bem, essa “historinha” sobre jogar futebol na infância é uma metáfora sobre o que foi crescer sendo uma mulher. ISSO é socialização feminina. Do mesmo jeitinho que aconteceu no futebol aconteceu em todas as áreas da minha vida. Você deve imaginar como me deixa puta dizerem que feministas “se vitimizam” quando você foi julgada automaticamente como inferior ao longo de toda sua vida, e tudo que o feminismo fez foi me fazer enxergar que isso acontece – e que isso acontece por eu ser uma mulher.
Um dia eu tomei consciência de que a experiência de crescer “como uma mulher” estava emaranhada em mim de um modo tão forte, que todo o meu funcionamento emocional foi influenciado por isso. Todo. Ser mulher, ser tratada como uma mulher, crescer como alguém do sexo feminino faz parte de cada segundo do meu dia. Faz parte de cada segundo do meu dia me provar enquanto pessoa, encontrar o meu espaço, provar que minha capacidade não é inferior. PERCEBER que isso acontece não é, nem de longe, me vitimizar – é reconhecer minhas especificidades, reconhecer minha história, reconhecer que os motivos de tantas coisas terem acontecido na minha vida é… Eu ter nascido com um aparelho reprodutor feminino. E isso acontecer não é questão de opinião. É UM FATO. Se não acontece com você não significa que não aconteça com ninguém. 
As pessoas me limitam por eu ser mulher. Isso está fora do meu controle.
As pessoas me tratam diferente por eu ser mulher. Isso não é culpa minha.
As pessoas me colocam numa posição inferior (automaticamente!) por eu ser mulher. Não sou EU quem me vitimizo ou diminuo.
E tudo isso fez parte do que eu sou ao longo de toda a minha vida. E eu sei que fará parte de toda minha vida continuar provando o contrário (às vezes é tão cansativo!).
Todos os dias 08 de março eu sou dominada por uma gigantesca vontade de chorar.

dia da mulher

O dia da mulher me deixa meio melancólica. Primeiro, pelas dificuldades que eu mesmo passo por ser mulher, pelas irritações e tristezas do dia-a-dia.

E, aí… Penso nas milhões de mulheres ainda menos afortunadas que eu; vítimas de todo tipo de violência e opressão. Que enfrentam tanto sofrimento pelo simples fato de terem nascido mulheres.

Penso nas mulheres negras, que tem de lidar com tanto preconceito. Tanto mais do que eu, que já me irrito com os preconceitos machistas todos os dias.

Penso nas mulheres pobres; nas mulheres em desespero por gestações indesejadas; nas vítimas de estupro e abusos; nas mulheres vítimas de violência doméstica e que não tem como abandonar seus companheiros violentos.

Penso nas meninas que crescem sem serem empoderadas, sem perceberem que poderiam ir tão além.

Ainda há tanto a fazer! Tanta luta, tanto trabalho.

Fico tão triste pela falta de empatia que as pessoas costumam ter com a história dessas mulheres. Fecho os olhos e desejo com todas as forças que, um dia, eu possa fazer mais. Tomara que no futuro eu possa contribuir para melhorar a vida delas de alguma forma.

uma lição de empatia – no ônibus

O ônibus chegou, vazio. O ponto de ônibus, no entanto, estava lotado; nós, os passageiros, no amontoamos na porta, para passar pela catraca. O cobrador, pacientemente, utilizava o sistema da empresa para imprimir e entregar as passagens de cada um. O processo, no entanto, era super lento, e o ônibus ficou um tempão parado esperando as pessoas conseguirem entrar.

Nisso, um dos passageiros pergunta ao cobrador:

– Quem foi que colocou esse negócio aí?

– Ah, a empresa…

– Mas eles explicaram o porquê de fazer desse jeito? Se demora tanto e dá tanto trabalho?

– Não falaram, não.

– Hum. Deve ser por que não pegam ônibus!

 

Eis uma verdade natural: a única forma de entender completamente uma situação é passando por ela. Ouvir relatos não é o suficiente; apenas estando na pele de quem passa. Por isso jamais seremos conhecedores absolutos da vida e do universo:pois estamos presos ao corpo e ao contexto nos quais nascemos. E, por isso, pode-se adquirir maturidade emocional com a experiência: pois quanto mais vivemos (reparem que eu disse mais, e não por maior tempo), com mais situações diferentes e mais contextos nós entramos em contato.

Há, no entanto, uma interessante forma de ter alguma ideia do que é passar por uma determinada situação: tendo sensibilidade e… Amando!

Explico: não acontece que, quando amamos alguém, somos mais sensíveis à sua dor? O amor tem o poder de nos aproximar de uma realidade que não é a nossa. Às vezes, como até nosso amor é imperfeito, nem tendo alguém que se ama por perto pra enxergar; por isso incluo a sensibilidade e o olhar atento. Quando amamos alguém que sofre, por alguma razão, a situação não é nossa, mas nos é próxima. Ah, se todo branco amasse um negro! Ah, se toda família tivesse um homossexual! Ah, se todo homem visse alguma das mulheres que ama passando medo ou vergonha por causa de uma cantada na rua, ou sendo vítima de algum abuso! E se, os tendo por perto, dedicassem empatia, ouvidos, esforço, estudo e dedicação para promover mudança…

A informação muda o mundo.

O amor muda o mundo.

Mas, sozinhos, nenhum dos dois muda nada!

Dinheiro e instrução não nos libertam facilmente da secular lavagem cerebral da nossa cultura. Passivamente ninguém derruba paredes limitadoras. E o preconceito (a “cultura”) nos diz que ser ativo é coisa de homem. Que devemos ser gentis, conciliadoras, agradáveis, sedutoras, despertar no homem sentimentos de posse e proteção, controlar constantemente os filhos para mostrar o quanto somos dedicadas.

Em suma, precisamos mostrar que merecemos afeto.

Somos criadas em função do hipotético príncipe salvador que decidirá – e terá de gerir, ainda que lhe custe – o nosso futuro. E naturalmente vai nos tratar como crianças. Seremos sempre as despossuídas, sem espaço nem força de decisão. Seremos dos pais, depois do marido, dos filhos e dos netos.

Para nós sobrará o canto da mesa da sala de jantar quando quisermos escrever, o computador do filho quando nos arriscarmos pela Internet, o sofá com as outras mulheres nos jantares de casais.

 

Lia Luft em “Perdas e Ganhos”.

Fica claro pra mim, nessas leituras e encontros, a razão pela qual eu me sentia tão deslocada e não-mulher há alguns anos. Nem sempre sou gentil, não sou nada conciliadora, nem sedutora e nunca procurei (e acho que, se um dia tivesse tentado, não conseguiria) despertar sentimento de posse em homem algum. E eu quero e sou ativa. Essa aqui é a minha vida, pelamor.

E eu não sou de ninguém não, viu?