yoga

Comecei a fazer Yoga por indicação da minha psicóloga, depois que tive Síndrome do Pânico. Ela disse que seria importante eu fazer alguma atividade que me ajudasse a retomar o controle do meu corpo.

Tem sido fantástico. A Yoga, além do controle corporal, também ensina sobre a vida. Ajudou a reduzir drasticamente meus níveis de ansiedade que, desde o início da faculdade de medicina, só faziam crescer e tomar conta de mim.

Na última aula, professor explicou que, a cada postura, o mais importante não é ultrapassar os limites do seu corpo, e sim, se sentir estável no presente momento. Antes de passar para a postura seguinte (geralmente mais difícil que a anterior), você deve se sentir estável no lugar em que está.

 

Fiquei pensando sobre como grande parte da minha ansiedade se deve a dar passos grandes, que eu sempre acho que são  passos que eu “tenho de dar” ou coisas que eu “tenho de fazer” sem que, no entanto, esteja me sentindo suficientemente estável e equilibrada no passo anterior.

Acho que é um dos primeiros momentos na minha vida, o que estou vivendo agora, em que estou me permitindo ficar estável, me recuperar, equilibrar, viver em um ritmo que não o de passar rápido de um ponto a outro fazendo coisas só pra preencher o check list de coisas que tem de ser feitas nessa vida.

Acho que é isso: tenho de aprender a estar tranquila agora antes de pensar no futuro

a psicóloga me falou pra pensar sobre minha relação com meus erros

Quando comecei a namorar o Nikolas, ele me chamou a atenção para o tanto de vezes que eu pedia desculpas por coisas bobas. Ele disse algo como “que tal você começar a me pedir desculpas só quando realmente tiver feito alguma coisa?” (eu concordei e quase respondi “é verdade, desculpa” – pra vocês verem a que ponto a coisa chega).

Às vezes, também, quando eu pedia desculpa por alguma coisa fora do meu controle, ele respondia me mostrando o óbvio: “Você não precisa pedir desculpas por uma coisa que não pode controlar”.

Eu demorei pra acostumar com isso, que pra mim era muito natural me culpar por tudo. E aí que as pessoas jogavam as culpas pra cima de mim de uma vez, que eu aceitava todas, né? E quem é que não gosta de ter, nessa vida, alguém pra culpar? Pois eu era (sou?) exatamente o depósito de culpa de que as pessoas precisavam.

Eu sofro com meus erros. Sofro demais. Fico me culpando, remoendo. Só que aí, quando a psicóloga falou que teríamos de nos aproximar deles, e eu parei em casa com calma para pensar alguns erros que já cometi, percebi uma coisa engraçada:

Meus erros não são enormes, absurdos ou grotescos. Na verdade, eles são bem normaizinhos e bem ok. Bem o tipo de coisa que a gente conta pra alguém e a pessoa diz “quem nunca, né?”

Né…

Quem diria, mas não sou um monstro

aí ela me disse…

– Quando você já vai para uma determinada experiência com a expectativa de que tudo corra com perfeição, você não se entrega à experiência… Não se permite simplesmente ir percebendo como você se sente, conectar espontaneamente as informações e buscar soluções criativas.

Meus olhos chegaram a brilhar: era isso.

– Ai… Eu queria tanto ser assim! Queria tanto ser mais criativa, mais espontanea. Isso se reflete em tantas áreas da minha vida…

– Paula – começou ela, se ajeitando na cadeira – vou ser realista com você. Eu não sei se algum dia você vai conseguir ser assim. Você passou muitos anos vivendo em um padrão muito rígido e controlado. Mas acredito – e aí ela sorriu – que você pode trabalhar isso e melhorar muito, com certeza!

Fiquei feliz e triste com essa constatação. Eu tenho dentro de mim esse desejo. Gigantesco. Agora percebo que eu já o vinha buscando.

Marido me sugeriu que eu busque me expressar mais artisticamente. Achei uma sugestão genial. Vamos tentar, né? Ficar parada me lamentando por não ter nascido espontânea não vai me levar a lugar algum…

vamos desabafar um pouquinho

Continuo não estando na vibe de abrir muito o que venho passando. O que é engraçado pra mim, pessoa que sempre escreve e fala sobre tudo que sente. Mas não tenho tido vontade.

Resumirei pra vocês: tenho tido crises de ansiedade. Crises mesmo: palpitação, aperto no peito, sudorese, dor epigástrica, náuseas, inapetência… O pacote completo. Nas crises, tenho medos de “perder o controle sobre mim mesma ou sobre meus sintomas” e tudo mais. Coisas que eu estudava na faculdade e agora vejo acontecerem em mim (é tão diferente ler numa página de livro e viver…).

Quando acontecem? Começaram acontecendo de manhã, na hora de ir pro trabalho, e no começo da tarde, na hora de voltar do almoço pro trabalho. Agora chegaram num ponto em que os sintomas estão quase constantes, com exacerbação ainda nestes horários do dia. Os sintomas são desconfortáveis, prejudicam minha qualidade de vida, meu sono e, consequentemente, a qualidade do meu trabalho. O que é muito difícil pra mim, pessoa que se cobra pra fazer sempre o melhor, sempre com perfeição. E aí ver minha qualidade de trabalho prejudicada me deixa ainda mais ansiosa. E… tcharam! Temos um ciclo.

Quando me dei conta de que tinha caído nesse ciclo terrível, corri pra procurar ajuda (como comentei em outro post).

Os motivos pra isso acontecer são muitos, e talvez eu ainda não tenha plena consciência de todos eles. Provável que a terapia vá escavar mais um tanto de coisas enterradas nessa alma que vos escreve.

Mas é engraçado: na última vez da minha vida em que estive mal a ponto de procurar esse tipo de ajuda, eu estava desesperada e simplesmente perdida. Dessa vez, a crise anterior já me ensinou a lidar com o sofrimento psíquico de forma um pouco mais paciente e tranquila. Estou sofrendo, mas estou sofrendo relativamente tranquila. É estranho isso? Pois é como me sinto.

Talvez por saber que as crises me ensinam um tantão de coisas e fazem crescer meu autoconhecimento a níveis incomparáveis. Sofrimento é uma enorme oportunidade de crescimento e desenvolvimento, especialmente quando utilizamos das ferramentas corretas parar lidar com ele. Eu sei que tenho capacidade de aprender muito com o sofrimento pelo qual passo hoje. E que, estando mais uma vez bem e forte, poderei usar desse aprendizado para ajudar outras pessoas em sofrimentos parecidos.

É parte da beleza da vida, não é? Este monte de sentimentos e confusões…

 

da morte – e sua quase sempre inesperada chegada

Hoje recebi a notícia de falecimento de uma paciente com a qual eu tinha muito vínculo. Foi uma das que primeiro atendi, e a encontrei diversas vezes fora do meu horário de trabalho. Ela sempre me reconhecia, me apresentava como “a minha médica”, me chamava pelo nome.

Essa é a primeira vez que perco uma paciente. Ela faleceu no hospital, ainda não sei bem sob quais circunstâncias.

Fiquei abalada com a notícia. Passei o dia esquisita. Não apenas pela morte em si – embora a morte seja sempre triste. Mas por saber que ela morreu sozinha. Sem familiar por perto, sem um rosto conhecido ao seu lado, nem que fosse da equipe de saúde que a atendia.

Tenho certeza de que jamais vou esquecer dessa paciente. Nem de seu nome completo, nem de seu jeitinho peculiar de caminhar, nem do seu óculos de sol redondo e miudinho. Nem do vínculo que tínhamos.

Mas a vida é assim: quando nos arriscamos a nos apegar às pessoas, nos arriscamos a sofrer por elas. É provável que eu sofra sempre por meus pacientes. E também é provável que jamais eu me arrependa disso.

o que a vida nos ensina

O senhor… Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior. É o que a vida me ensinou. Isso que me alegra, montão.

 

Trecho clássico de “Grande Sertão: Veredas”, do João Guimarães Rosa, que passou pelos meus olhos hoje, mais uma vez. Eita livro bonito!

dona flor e seus dois maridos

Gosto tanto de ti – oh! voz de celeste acento dentro dela a ressoar -, com amor tamanho que para te ver e te tomar nos braços, rompi o não e outra vez eu sou. Mas não queiras que eu seja ao mesmo tempo Vadinho e Teodoro, pois não posso. Só posso ser Vadinho e só tenho amor para te dar, o resto todo de que necessitas quem te dá é ele; a casa própria, a fidelidade conjugal, o respeito, a ordem, a consideração e a segurança. Quem te dá é ele, pois o seu amor é feito dessas coisas nobres (e cacetes) e delas todas necessitas para ser feliz. Também de meu amor precisas para ser feliz, desse amor de impurezas, errado e toro, devasso e ardente, que te faz sofrer. Amor tão grande que resiste à minha vida desastrada, tão grande que depois de não ser voltei a ser e aqui estou. Para te dar alegreia, sofrimento e gozo aqui estou. Mas não para permanecer contigo, ser tua companhia, teu atento esposo, para te guardar constância, para te levar de visita, para o dia certo do cinema e a hora exata de dormir – para isso não, meu bem. Isso é com meu nobre colega de chibiu, e melhor jamais encontrarás. Eu sou marido da pobre dona Flor, aquele que vai acordar tua ânsia e morder teu respeito humano. Ele é tua face matinal, eu sou tua noite, o amante para o qual não tens nem jeito nem coragem. Somos teus dois maridos, tuas duas faces, teu sim, teu não. Para ser feliz, precisar de nós dois. Quando era eu só, tinhas meu amor e te faltava tudo, como sofrias! Quando foi só ele, tinhas de um tudo, nada te faltava, sofrias ainda mais. Agora, sim, és dona Flor inteira como deves ser.

“Dona Flor e seus dois maridos”, esse livro maravilhoso, metáfora lindamente escrita e construída. Um livro sobre equilíbrios, sobre extremos, sobre a personalidade humana.

Em tudo na vida precisamos da rebeldia e da ordem: nos relacionamentos, na vida profissional, no nosso íntimo… Em todos nós há essa briga, essa busca. Vivendo só de ordem, organização, planejamento, como poderemos ser felizes? A vida se torna morna, monótona… Só de bagunças, riscos e  imprevistos, como sobreviver?

Dona Flor atinge seu equilíbrio e sua felicidade quanto aceita que precisa e merece ambos. Merece um marido fiel, acolhedor, que a cuide. Não merece passar a vida sofrendo por um marido que a ama mas não a respeita, que a fere constantemente. Quando deixa morrer o primeiro marido e aceita viver a vida tranquila e mansa, ela sente a falta da paixão, da inconstância, das surpresas do primeiro. E sofre, e culpa-se, e se contorce em negação aos seus desejos.

Depois de tanto sofrimento, ela enfim cede e aceita que também precisa e também pode, apesar dos julgamentos alheios, atender aos seus anseios e desejos, buscar o que a faz sentir viva…

Dona Flor, tão humana! Jorge Amado a constrói sem julgamentos, descreve seus dramas e contextos de modo que você sente, em cada palavra, as dores da personagem.

Não só no amor, mas na vida: que a gente compreenda sempre que precisa de ordem e caos – não se vive de apenas um deles

SIM!

Dezenas de nãos depois, sexta passada, eu ouvi um sim! Fui contratada como médica de ESF em uma Unidade Básica de Saúde. Foi uma correria de burocracias; documentos, abertura de conta, ir para um lado e para outro. E a euforia! E a ansiedade!

Hoje foi meu primeiro dia de trabalho. Estava ansiosa ontem a noite… E estava um pouco nervosa hoje de manhã. Quanto chamei o primeiro paciente  (Seu Antonio! Duvido que um dia vá esquecer esse nome), sentia tremer por dentro, mas me esforcei para transparecer calma.

Expliquei para todos os pacientes, hoje, que sou a médica nova da Unidade, que ainda estou me adaptando e que talvez eu tenha de tirar dúvidas com a equipe ou me atrapalhe em alguma coisa. Nenhum deles se chateou com isso! Todos sorriam e disseram que claro, é normal ficar meio perdida no começo.

Foi um dia lindo, lindo. Ainda não abriram agenda pra mim; então, o volume de atendimentos foi pequeno (atendi só acolhimentos). Mas é indescritível a sensação de estar ali, atuando, realizando o sonho de ser médica (agora sim!). Só ouvi coisas bonitas: “tomara que você fique, que você é maravilhosa!”; “Deus te abençoe, doutora!”; e um deles, depois de eu dizer que queria vê-lo em breve: “que ótimo! vai ser um prazer!”.

A população estava sem médico a tempos, e parece ter uma enorme carência por atenção nesse sentido. Fiz tão pouquinho, e senti tanta gratidão.

E, felizmente, meu medo de não ser boa o suficiente está começando a diminuir. A facilidade em me relacionar eu já sabia que tinha. Quanto à parte técnica… Saber tudo, ninguém jamais saberá; mas quem se importa vai atrás, estuda e aprende. Como eu fiz hoje. Eu me importo. Me importo muito!

Acho, sinceramente, que hoje foi um dos dias mais felizes da minha vida.

as últimas (ou as primeiras?) reflexões

Hoje é o dia pelo qual eu esperei cerca de 8 anos (desde que comecei a sonhar com medicina).

Eu não fui daquelas que quis medicina desde criança. Na verdade, nunca tinha nem mesmo me passado pela cabeça fazer medicina, até o terceirão. Eu passei a infância inteira querendo fazer veterinária. Já sabia até a faculdade.

Aí veio o ensino médio, aquela fase cheia de dúvidas. E eu já não sabia o que queria da minha vida, não sabia mais no que eu era boa, pelo que eu poderia me apaixonar… Não queria fazer “uma coisa qualquer”: queria fazer AQUELA coisa, para a qual eu nasci.

E, não sabendo que isso não existe ( e que é tudo uma questão de escolhas) eu me torturava quanto a fazer “a escolha certa”.

Fiz curso técnico em análises clínicas e, tendo concluído, estagiei num laboratório que ficava dentro de uma maternidade. Eu comecei dentro do laboratório, mesmo; e aos poucos fui pegando mão para coletar sangue. Com o tempo, eu fui liberada para fazer as “rondas” – que era quando o técnico saia do laboratório e ia coletar sangue pelo hospital.

Foi aí que eu descobri o que fazia o tempo voar, meu coração pulsar e um sorriso aparecer facilmente no meu rosto.

Eu caminhava pelos corredores, pedia licença às pacientes, me apresentava, conversava, explicava… E tentava fazer tudo isso da forma mais amorosa possível. O retorno veio: elogiavam minha “mão levinha” e meu cuidado. Não era nenhum esforço para mim. Na verdade, eu apenas não conseguiria fazer diferente.

Certa feita, um amigo, ouvindo de mim relatos do trabalho no laboratório, comentou “Você deveria fazer medicina. Seria uma médica foda”. E eu, que já vinha reparando nos médicos que via no hospital, comecei a deixar essa sementinha chamada “medicina” crescer no meu coração…

Uma noite, enquanto passava pelo pré-parto, eu vi uma médica ajudando uma paciente, em trabalho de parto, a caminhar até a sala. Ela dizia “você vai conhecer o seu bebê!” e segurava sua mão. A cena me marcou… E, mais do que me marcar, fez nascer em mim o seguinte pensamento:

“É isso aí que eu quero fazer. Cuidar das pessoas”.

Acontece que eu tinha medo de duas coisas:

1) Achava que não tinha capacidade para ser médica;

2) Tinha medo de “não ter vida”.

Sentia necessidade de conversar com um médico sobre isso. E, não tendo nenhum médico dentre família e amigos, marquei uma consulta com o médico com o qual eu mais tinha vínculo: meu pediatra.

Lá estava eu, 17 anos na cara, sentada na sala de espera do pediatra. Ele riu quando entrei e expliquei a razão de ter vindo. E aí, ele começou a me falar sobre medicina. Sobre como foi pra ele… Sobre como tudo tinha seu tempo, e como realmente era difícil conciliar uma vida pessoal, porém possível.

Foi nesse dia aí. Eu saí do consultório e fui direto para o cursinho. Chegando lá, anunciei para os colegas:

– Decidi. Quero medicina.

O problema, agora, era passar no vestibular… Eu não achava que conseguiria, então formulava “planos B”: fono, enfermagem… Eu não conseguia considerar muito que iria passar.

Só que aconteceu. A vida tem dessas surpresas, desses caminhos que a gente não entende direito e não consegue acreditar. Eu passei. Eu concluí o curso. Eu estou me tornando médica.

Eu, que achava que não conseguiria “ver alguém todo aberto na minha frente”. Eu, que jamais conseguiria passar no vestibular – imagina, tão concorrido. Eu, que tinha medo de “não ter vida”.

E tive os seis anos de vida mais intensos de todos!

E, hoje a noite, minha família vai chegar para comemorar tudo isso comigo ao longo de três dias maravilhosos.

Eu nunca estive tão feliz!