fiz minha lição de casa

há mais de um ano eu tive uma crise de pânico no trabalho e voltei pra terapia depois de um tempo sem. eu estava exausta, me sentindo sugada, desiludida e me sentindo extremamente solitária na trajetória da minha profissão.

naquela época, minha psicóloga me falou algo que me deixou meio transtornada por vários dias. ela disse que eu tinha de virar uma chave na minha cabeça: parar de pensar sempre no que os outros esperavam de mim e começar a fazer o que eu queria. completamente perdida, olhei pra ela e disse “mas as coisas se misturaram tanto na minha cabeça que eu acho que simplesmente não sei o que eu quero”.

“você vai ter de começar a tentar… você tem de praticar”, ela respondeu.

e várias sessões depois daquela ela me ajudou a desfazer os nós que minha cabeça tinha feito, misturando sempre o que eu realmente queria com o que eu achava que as pessoas queriam de mim. o que ela mais me perguntou naquelas sessões foi “e você, paula, quer fazer o que?”

 

pois bem… eu fiz a lição de casa. comecei a me perguntar com sinceridade o que eu faria se pudesse escolher sem a influência de ninguém. tipo, simplesmente qual era a coisa que eu tinha vontade na hora. transformei isso num hábito. mesmo quando eu não posso saber o que quero, gosto de estar ciente do que é que estou deixando de fazer.

e aqui estamos nós: depois de vários anos com todo mundo achando que eu seria psiquiatra ou médica de família, e que seria ótima nisso (modéstia à parte, provavelmente seria mesmo) eu finalmente me inscrevi na residência:

 

 

e eu vou fazer patologia

 

KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK

vocês não sabem o quanto eu tenho me divertido contando isso pras pessoas. todo mundo me olha como se eu tivesse ficado completamente maluca. mas, o que é melhor ainda, depois de eu explicar os motivos todo mundo me apoia. <3

(às vezes a gente acha que precisa agradar mas na real as pessoas nem tão esperando ser agradadas naquela situação em específico)

 

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coisas dessa vida

Minha vida continua oscilando gigantescamente. Minha semana passada foi maravilhosa: fui ao Rio de Janeiro com a equipe, participar do Primeiro Encontro Nacional dos Consultórios na Rua. As experiências e as trocas foram incríveis; vivi momentos fantásticos, ouvi e aprendi com muita gente incrível, me emocionei.

Voltei do Rio direto para Joinville. Esse final de semana, meu irmão casou, e foi tudo lindo, emocionante e divertidíssimo.

Hoje, fui bruscamente jogada na vida real. E a vida real tem sido muito difícil pra mim nas últimas semanas. Não se passa um dia no trabalho em que eu não saia muito chateada ou estressada com algum ocorrido. Há situações que sugam minhas energias. E, com grande frequência, sinto-me acuada, sem soluções, de mãos atadas.

Talvez a frase que eu mais use para contar algo do meu trabalho é: “Eu realmente não sei o que fazer”. E, pasmem vocês, mas os atendimentos em si tem sido a parte mais fácil de ser médica, ultimamente.

Fizemos algumas reflexões sobre nossas vidas e o rumo que queremos dar a elas, eu e Nikolas, por esses dias. Tenho pensado muito na minha pequenez de ser humano, na insignificância da minha existência e no quanto essa consciência pode ser libertadora. Se sou tão pequena num gigantesco Universo, se há tanta coisa que simplesmente vai acontecer sem que eu possa controlar… Então, tanto faz que decisões vou tomar quanto ao meu futuro. A Terra vai ser engolida pelo Sol de qualquer jeito daqui uns milhares de anos. Antes disso, ela vai passar por uma nova Era do Gelo à qual talvez o ser humano nem sobreviva. Que diferença faz então, por exemplo, que residência eu vou fazer? Frente à enormidade dos eventos inevitáveis que vão envolver esse pequeno e minúsculo planeta, que representa essa minha escolha? Vou dizer pra vocês o que ela representa:

NA-DA.

Tanto faz. Posso simplesmente escolher uma qualquer, a que me dê mais conforto e qualidade de vida de preferência, pois a verdade, mesmo, é que eu vou morrer, os anos vão passar e esses poucos anos da minha vida simplesmente não representam nada para o panorama geral.

E juro que escrevo isso feliz e aliviada. Pode parecer pessimismo, mas não é.

Eu vou morrer, gente. E vai ser logo – pelo menos em comparação com a escala de tempo na qual o Universo funciona. Tenho de conseguir experimentar a vida antes disso e desencanar um pouco de tanto superego.

PS:VAITODOMUNDOASSISTIRCOSMOS,RÁPIDO!

meu cabelo pixie

Nunca mais vou deixar o cabelo crescer. Sério. Que corte mais maravilhoso!!!!!!!!!

Dá uma liberdade na vida…

Tô até com vontade de cortar mais ainda da próxima vez. Quem sabe uma hora dessas eu não cumpro a ameaça de anos e raspo? Né? Por que não?

Não é toda mulher que é obrigada a gostar de cultivar um cabelão, que incomoda horrores e gasta tempo. Realmente não é do meu feitio ficar me preocupando se o cabelo está fora do lugar, com frizz, ou ficar acordando cedo todo santo dia pra fazer chapinha, escovar todos os dias, passar esse e aquele creme, fazer hidratação o tempo todo etc. etc. etc. Se já passei por fases em que tentei me adaptar a essa vida? Com certeza. Que mulher nunca, né? Mas no fim das contas me pegava prendendo o cabelo num coque pra esconder ele, quase todo dia.

 

Só que agora eu descobri que isso não é pra mim, e nem precisa ser! :)

Eu ter nascido com sistema reprodutor feminino não me obriga a ter cabelo assim ou assado. Eu tenho é que ter o cabelo (e o resto do corpo!) que me permita ser o mais feliz possível todos os dias.

cortei o cabelo

Há um tempo eu vinha me apaixonando cada vez mais por cabelos cada vez mais curtos. E vinha cortando o meu cada vez um pouco mais. Mas sempre deixava crescer de novo…

Estava com as madeixas próximas ao ombro. Aí, bateu a louca e resolvi cortar. Decidi ontem, ontem mesmo fui, para não perder a coragem. Cortei num pixie com uma franja mais alongada. Guardei as madeixas para doá-las. Deu um tantão!

Ceis acham que foi fácil? Foi nada! Sentada na cadeira, pronta para cortar, com o cabelo todo amarradinho em elásticos, tremi quando senti a tesoura passando por ele.

Não é engraçado como nos apegamos a coisas supérfluas na vida? Cabelo é coisa tão dinâmica. Cresce, cai, você corta, cresce de novo, você colore, depois corta fora… E cabelo significa o que, afinal de contas, né?

Para grande parte das mulheres, o cabelo está intimamente ligado à autoestima. Passei anos e mais anos brigando com o meu. Anos e anos me preocupando com ele, ao invés de me divertir com ele.

Então, sentada na cadeira, pensei: “mesmo que não dê certo, preciso fazer isso. preciso fazer isso para desapegar do significado que esse monte de pelos que crescem na minha cabeça tem. para desapegar do meu ego e da necessidade de ‘ser bonita’ nos moldes das outras pessoas. para desligar minha autoestima da minha imagem corporal… para provar pra mim mesma que isso não importa. o que importa na vida é viver, arriscar, fazer o que a gente tem vontade. e não perder tempo e energia dessa vida já tão pouca me dedicando a uma massa de cabelos que, depois que eu morrer, vai virar poeira.”

Respirei fundo e segurei uma mecha de cabelo nas mãos, sorrindo. Como pode isso ter tanto significado? Pois é…

Que sensação de leveza, meu Deus! Sentir o vento bater na nuca. Não ter cabelo voando na cara. Não me preocupar de o vento bagunçar. Uma sensação, assim, de poder, sabe? Poder sobre mim mesma. Satisfação comigo mesma. De ter atingido um nível de autoconfiança inédito na minha vida: a ponto de não ligar absolutamente para a opinião alheia. As pessoas me acharem bonita ou não simplesmente não importa! Isso tira um peso da gente. Isso tira tantas limitações de cima da gente. Poder sobre mim mesma, sim… Pois nossa obrigação de “sermos bonitas sempre” nos controla. Dá poder aos outros sobre nós, o arranca de nossas mãos.

Pois eu tomei o meu de volta. E agora ele é só meu, de mais ninguém.

Na rua, já notando os olhares das pessoas, eu sorri. CARA, isso vai ser muito divertido!

 

ai ele disse…

geralmente as pessoas que fazem medicina para “salvar as pessoas” o fazem porque precisam salvar algo dentro delas mesmas

Toda terça a tarde temos uma espécie de reunião com um professor de psicologia. Sentamos em grupo e… Falamos. Ele recomenda livros, nós lemos, conversamos sobre o que lemos, misturamos com a nossa vida e de repente estamos falando dos nossos dramas e dos dramas do universo inteiro. É sempre instigante e saio com a mente inquieta. Foi um dia interessante, hoje. O professor costuma dizer que espera “fazer barulho na gente”, e consegue toda vez. Saio de lá com a mente num turbilhão.

Saí para correr, depois de chegar em casa com a cabeça fervendo. Quando corro, deixo meus pensamentos passearem livremente de uma forma que não consigo fazer em outras situações. E fico apenas a observá-los, admirá-los.

Então, enquanto corria e observava o mar, tive subitamente o insight sobre as razões que me levaram a escolher medicina. Quero dizer a vocês que elas não são nem um pouco nobres. Incluem coisas tipo ter dentro de mim uma criança sedenta por atenção e tals. Felizmente (muito felizmente, na verdade), não sou um ser superior que resolveu abdicar de sua felicidade para salvar ninguém.

Também não tenho mais a ilusão de “salvar vidas”, que a medicina não chegou nesse nível, não. A gente não salva ninguém. A gente não “cura doenças”. Nós, quando conseguimos, tratamos. Ajudamos e consolamos quando possível. Mas nós não temos poder de salvar ninguém! As pessoas alucinam demais sobre o que é a medicina… E não é nada disso que passa na novela ou nos filmes.

Chega o momento em que é preciso admitir isso e fico muito feliz de ter conseguido alcançar essa sinceridade comigo mesma antes da formatura. Se faço medicina pois sou tão altruísta e especial que resolvi dedicar tanto de mim para “salvar vidas” e “curar doenças”, estou em outro patamar, acima dos outros. Essa visão coloca uma barreira entre nós e os pacientes. Mas se compreendo que escolhi medicina por razões bastante egoístas ou até infantis, e que meu “poder” enquanto médico é uma completa ilusão, eu volto a ser igual.

É libertador ser apenas um ser humano!

Aliás, longe de isso diminuir minha paixão ou dedicação pela profissão que escolhi; na verdade, acho que o fantástico da vida é isso: transformarmos nossas dores, frustrações e infantilidades em coisas melhores. Em coisas bonitas. Crescimento, resiliência!

mais relatos sobre o que a vida tem sido

Meu blog se transformou num punhado de relatos. Mas é que tem sido tudo tão intenso… Que sinto urgência em escrever sobre. Por precisar descarregar um pouco de tanta carga emocional, por ter medo de esquecer, pra reler depois e sentir saudades…

Minha pré-banca correu conforme o esperado: muitas correções a fazer até a banca; porém, embora muitas, são correções estéticas, pontuais, nada de muito estrutural. Recebemos elogios ao trabalho num geral (modéstia a parte, o trabalho é mesmo lindo e sou apaixonada por ele).

Amanhã, começo do fim: primeiro dia do último estágio. Porém, é meu estágio optativo, que farei num lugar que escolhi, com uma equipe ótima, professor que adoro e área que amo (medicina familiar e comunitária!).

Tive um final de semana de descanso, finalmente! Foi ótimo. Dormir bastante, tomar cafés, vinhos e cervejas, cantar, passear, aproveitar a companhia linda do namorado. Todos esses, o último em especial, tem uma capacidade surpreendente de me encher de paz e tranquilidade.

Cheguei em casa hoje, após o último dia de estágio de clínica médica e comi umas 5 ou 6 fatias de pão enquanto assistia “The Big Bang Theory”.

O valor desses momentos de ócio é gigantescamente maior quando você é privado deles por muito tempo…

Quando penso no que está para me acontecer nos próximos dias, sou tomada de uma gigantesca empolgação. Muitas coisas especiais, empolgantes e importantes estão pra acontecer. Na minha vida profissional e pessoal. Tudo é muito lindo. É tanta felicidade junta que chega a encher meus olhos de lágrimas.

Eu esperei muito por esses momentos.

Depois, vi que estava errado ficar só esperando esses momentos e vivi muito tudo o que passei até chegar aqui.

Tem sido tudo tão fantástico.

Sou tão grata.

Que vida linda, meu Deus.

Obrigada, obrigada, obrigada!

da angústia de hoje

Ai, essas convenções que aprisionam…

Ai, essas coisas que os seres humanos inventam pra inflar o ego! Pra ser centro, pra ser notado, pra se sentir especial…

Se você olhar atentamente para as convenções, verá que elas são algo próximo de uma trapaça. Isso: trata-se de as pessoas quererem trapacear a vida, para que ela não lhes pregue as peças que prega em todo mundo. Baseiam-se numa ilusão: de que tudo será eternamente perfeito dali em diante, sem explicação racional alguma…

Mas não vai ser. E a vida não vai te poupar. É assim que ela é.

Então que tal a gente encarar tudo de maneira menos artificial, menos expositiva… E mais sincera?

tenho pensado muito e não vejo motivo nenhum nisso tudo

mais uma razão para felicidade

you can drive all night

looking for the answers in the pouring rain

you wanna find peace of mind

looking for the answer

if we could find a reason, a reason to change

looking for the answer

if you can find a reason, a reason to say

standing in the pouring rain

Depois de tantos anos procurando diretamente por respostas… tenho me concentrado, nessa fase da vida, em perguntar mais, e perguntar diferente

(mudar as perguntas altera completamente o sentido das respostas)

Tem sido libertador me permitir não saber!

Agora vejo o mundo de uma forma que jamais poderia se não questionasse tanto. E é bonito…

a corrida

Há pouco mais de três semanas, tenho saído regularmente (três vezes por semana, mais especificamente) para correr à beira mar.

Durante a corrida, deixo meu pensamento solto. Ele passeia por onde quer; imagino, devaneio, monto e desmonto teorias, escrevo textos e textos mentalmente. Questiono o mundo, faço autoterapia, e até amo em pensamento todas as pessoas que estão longe de mim.

Além disso, também é um momento de me concentrar no meu corpo, suas posturas, reações e sentidos. O controle da respiração, do ritmo da corrida, a queimação muscular – levo tudo ao limite. Estico. Levo mais adiante. Concentro-me no meu próprio corpo como não faço em todo o resto do tempo.

Ao fim da corrida, sinto-me leve, viva e liberta duas vezes: física e mentalmente.