as sem-razões do amor

Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.

 

quando me faltam umas palavras eu leio poemas do drummond <3

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da ignorância

Moralmente, é tão condenável não querer saber se uma coisa é verdade ou não, desde que ela nos dê prazer, quanto não querer saber como conseguimos o dinheiro, desde que ele esteja na nossa mão.

É desanimador descobrir a corrupção e a incompetência governamentais, por exemplo, mas será melhor não saber a respeito? A que interesses a ignorância serve? Se nós, humanos, temos uma propensão hereditária a odiar estranho, o único antídoto não é o autoconhecimento? Se ansiamos por acreditar que as estrelas se levantam e se põem para nós, que somos a razão da existência do Universo, a ciência nos presta um desserviço esvaziando nossa presunção?

 

Carl Sagan. Gênio. Sou tão fã que meus olhos chegam ficar cheios de lágrimas.

livros

Terminei de ler “O Primo Basílio”, do Eça de Queirós, ontem.

Que livro tão cheio de humanidade!

Penso, às vezes, que uma parte significativa da minha sensibilidade e da minha empatia vem dos livros. Eu a exercito fora deles, é muito óbvio (e ela não valeria nada se ficasse restrita aos meus momentos lendo); mas os livros que gosto de ler, em geral, tem muito disso. Mostrar diversas faces dos seres humanos e dos seus sofrimentos. Mostrar vários lados de uma mesma história. E acho, de verdade, que os livros que leio me ajudam a lembrar, sempre, de aceitar a humanidade que me cerca

o que a vida nos ensina

O senhor… Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior. É o que a vida me ensinou. Isso que me alegra, montão.

 

Trecho clássico de “Grande Sertão: Veredas”, do João Guimarães Rosa, que passou pelos meus olhos hoje, mais uma vez. Eita livro bonito!

o bem

Viver é muito perigoso… Querer o bem com demais força, de incerto jeito, pode já estar sendo se querendo o mal, por principiar. Esses homens! Todos puxavam o mundo para si, para o concertar consertado. Mas cada um só vê e entende as coisas dum seu modo.

(Grande Sertão: Veredas – João Guimarães Rosa)

Quando queremos “o bem” a todo custo, esse bem que queremos não é o que nós mesmos entendemos por bem? O bem conforme nossa visão de mundo e conforme nossa cultura. É o nosso bem, o bem que é bom para nós, o bem que nos deixa confortáveis, que nos favorece. O nosso conceito de bem, será, é o mesmo conceito de bem para todos? Querer o bem excessivamente é colocar uma expectativa irreal em cima das pessoas… E as expectativas que colocamos em cima dos outros são o que a não ser puro egoísmo?

dona flor e seus dois maridos

Gosto tanto de ti – oh! voz de celeste acento dentro dela a ressoar -, com amor tamanho que para te ver e te tomar nos braços, rompi o não e outra vez eu sou. Mas não queiras que eu seja ao mesmo tempo Vadinho e Teodoro, pois não posso. Só posso ser Vadinho e só tenho amor para te dar, o resto todo de que necessitas quem te dá é ele; a casa própria, a fidelidade conjugal, o respeito, a ordem, a consideração e a segurança. Quem te dá é ele, pois o seu amor é feito dessas coisas nobres (e cacetes) e delas todas necessitas para ser feliz. Também de meu amor precisas para ser feliz, desse amor de impurezas, errado e toro, devasso e ardente, que te faz sofrer. Amor tão grande que resiste à minha vida desastrada, tão grande que depois de não ser voltei a ser e aqui estou. Para te dar alegreia, sofrimento e gozo aqui estou. Mas não para permanecer contigo, ser tua companhia, teu atento esposo, para te guardar constância, para te levar de visita, para o dia certo do cinema e a hora exata de dormir – para isso não, meu bem. Isso é com meu nobre colega de chibiu, e melhor jamais encontrarás. Eu sou marido da pobre dona Flor, aquele que vai acordar tua ânsia e morder teu respeito humano. Ele é tua face matinal, eu sou tua noite, o amante para o qual não tens nem jeito nem coragem. Somos teus dois maridos, tuas duas faces, teu sim, teu não. Para ser feliz, precisar de nós dois. Quando era eu só, tinhas meu amor e te faltava tudo, como sofrias! Quando foi só ele, tinhas de um tudo, nada te faltava, sofrias ainda mais. Agora, sim, és dona Flor inteira como deves ser.

“Dona Flor e seus dois maridos”, esse livro maravilhoso, metáfora lindamente escrita e construída. Um livro sobre equilíbrios, sobre extremos, sobre a personalidade humana.

Em tudo na vida precisamos da rebeldia e da ordem: nos relacionamentos, na vida profissional, no nosso íntimo… Em todos nós há essa briga, essa busca. Vivendo só de ordem, organização, planejamento, como poderemos ser felizes? A vida se torna morna, monótona… Só de bagunças, riscos e  imprevistos, como sobreviver?

Dona Flor atinge seu equilíbrio e sua felicidade quanto aceita que precisa e merece ambos. Merece um marido fiel, acolhedor, que a cuide. Não merece passar a vida sofrendo por um marido que a ama mas não a respeita, que a fere constantemente. Quando deixa morrer o primeiro marido e aceita viver a vida tranquila e mansa, ela sente a falta da paixão, da inconstância, das surpresas do primeiro. E sofre, e culpa-se, e se contorce em negação aos seus desejos.

Depois de tanto sofrimento, ela enfim cede e aceita que também precisa e também pode, apesar dos julgamentos alheios, atender aos seus anseios e desejos, buscar o que a faz sentir viva…

Dona Flor, tão humana! Jorge Amado a constrói sem julgamentos, descreve seus dramas e contextos de modo que você sente, em cada palavra, as dores da personagem.

Não só no amor, mas na vida: que a gente compreenda sempre que precisa de ordem e caos – não se vive de apenas um deles

Dinheiro e instrução não nos libertam facilmente da secular lavagem cerebral da nossa cultura. Passivamente ninguém derruba paredes limitadoras. E o preconceito (a “cultura”) nos diz que ser ativo é coisa de homem. Que devemos ser gentis, conciliadoras, agradáveis, sedutoras, despertar no homem sentimentos de posse e proteção, controlar constantemente os filhos para mostrar o quanto somos dedicadas.

Em suma, precisamos mostrar que merecemos afeto.

Somos criadas em função do hipotético príncipe salvador que decidirá – e terá de gerir, ainda que lhe custe – o nosso futuro. E naturalmente vai nos tratar como crianças. Seremos sempre as despossuídas, sem espaço nem força de decisão. Seremos dos pais, depois do marido, dos filhos e dos netos.

Para nós sobrará o canto da mesa da sala de jantar quando quisermos escrever, o computador do filho quando nos arriscarmos pela Internet, o sofá com as outras mulheres nos jantares de casais.

 

Lia Luft em “Perdas e Ganhos”.

Fica claro pra mim, nessas leituras e encontros, a razão pela qual eu me sentia tão deslocada e não-mulher há alguns anos. Nem sempre sou gentil, não sou nada conciliadora, nem sedutora e nunca procurei (e acho que, se um dia tivesse tentado, não conseguiria) despertar sentimento de posse em homem algum. E eu quero e sou ativa. Essa aqui é a minha vida, pelamor.

E eu não sou de ninguém não, viu?