as sem-razões do amor

Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.

 

quando me faltam umas palavras eu leio poemas do drummond <3

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o bem

Viver é muito perigoso… Querer o bem com demais força, de incerto jeito, pode já estar sendo se querendo o mal, por principiar. Esses homens! Todos puxavam o mundo para si, para o concertar consertado. Mas cada um só vê e entende as coisas dum seu modo.

(Grande Sertão: Veredas – João Guimarães Rosa)

Quando queremos “o bem” a todo custo, esse bem que queremos não é o que nós mesmos entendemos por bem? O bem conforme nossa visão de mundo e conforme nossa cultura. É o nosso bem, o bem que é bom para nós, o bem que nos deixa confortáveis, que nos favorece. O nosso conceito de bem, será, é o mesmo conceito de bem para todos? Querer o bem excessivamente é colocar uma expectativa irreal em cima das pessoas… E as expectativas que colocamos em cima dos outros são o que a não ser puro egoísmo?

dona flor e seus dois maridos

Gosto tanto de ti – oh! voz de celeste acento dentro dela a ressoar -, com amor tamanho que para te ver e te tomar nos braços, rompi o não e outra vez eu sou. Mas não queiras que eu seja ao mesmo tempo Vadinho e Teodoro, pois não posso. Só posso ser Vadinho e só tenho amor para te dar, o resto todo de que necessitas quem te dá é ele; a casa própria, a fidelidade conjugal, o respeito, a ordem, a consideração e a segurança. Quem te dá é ele, pois o seu amor é feito dessas coisas nobres (e cacetes) e delas todas necessitas para ser feliz. Também de meu amor precisas para ser feliz, desse amor de impurezas, errado e toro, devasso e ardente, que te faz sofrer. Amor tão grande que resiste à minha vida desastrada, tão grande que depois de não ser voltei a ser e aqui estou. Para te dar alegreia, sofrimento e gozo aqui estou. Mas não para permanecer contigo, ser tua companhia, teu atento esposo, para te guardar constância, para te levar de visita, para o dia certo do cinema e a hora exata de dormir – para isso não, meu bem. Isso é com meu nobre colega de chibiu, e melhor jamais encontrarás. Eu sou marido da pobre dona Flor, aquele que vai acordar tua ânsia e morder teu respeito humano. Ele é tua face matinal, eu sou tua noite, o amante para o qual não tens nem jeito nem coragem. Somos teus dois maridos, tuas duas faces, teu sim, teu não. Para ser feliz, precisar de nós dois. Quando era eu só, tinhas meu amor e te faltava tudo, como sofrias! Quando foi só ele, tinhas de um tudo, nada te faltava, sofrias ainda mais. Agora, sim, és dona Flor inteira como deves ser.

“Dona Flor e seus dois maridos”, esse livro maravilhoso, metáfora lindamente escrita e construída. Um livro sobre equilíbrios, sobre extremos, sobre a personalidade humana.

Em tudo na vida precisamos da rebeldia e da ordem: nos relacionamentos, na vida profissional, no nosso íntimo… Em todos nós há essa briga, essa busca. Vivendo só de ordem, organização, planejamento, como poderemos ser felizes? A vida se torna morna, monótona… Só de bagunças, riscos e  imprevistos, como sobreviver?

Dona Flor atinge seu equilíbrio e sua felicidade quanto aceita que precisa e merece ambos. Merece um marido fiel, acolhedor, que a cuide. Não merece passar a vida sofrendo por um marido que a ama mas não a respeita, que a fere constantemente. Quando deixa morrer o primeiro marido e aceita viver a vida tranquila e mansa, ela sente a falta da paixão, da inconstância, das surpresas do primeiro. E sofre, e culpa-se, e se contorce em negação aos seus desejos.

Depois de tanto sofrimento, ela enfim cede e aceita que também precisa e também pode, apesar dos julgamentos alheios, atender aos seus anseios e desejos, buscar o que a faz sentir viva…

Dona Flor, tão humana! Jorge Amado a constrói sem julgamentos, descreve seus dramas e contextos de modo que você sente, em cada palavra, as dores da personagem.

Não só no amor, mas na vida: que a gente compreenda sempre que precisa de ordem e caos – não se vive de apenas um deles

da arte da terapêutica

Certa vez, ouvi o desabafo de um professor:

“Trabalho na linha de frente há muitos anos. Ano após ano, é merda atrás de merda. É triste, viu? Você não fica triste pelo paciente. Você fica triste por você mesmo. O triste é saber que, amanhã, pode ser você.”

Hoje, leio o trecho abaixo, ainda do “Psicossomática e suas interfaces”:

“Não se envolva com o paciente”, “É preciso ter sangue frio”, “Para aprender é assim mesmo”, “São apenas corpos”,”Se você ficar sofrendo a cada morte de paciente, você não aguenta e larga a medicina”. Estes são alguns dos elementos introjetados para se atravessar o batismo de fogo, um verdadeiro ritual de iniciação na Medicina, que poderá ser responsável, no futuro, por relações mortas entre paciente e terapeuta.

(…) Mostrando a presença do papel do médico como o Senhor da Vida e da Morte; revelando também a fragilidade do médico em lidar com um paciente que lembra a sua própria finitude, a sua humanidade. (…) Ele nos convida a pensar a nossa morte, ou melhor, na nossa vida, nossos planos, sonhos.

É fato que a morte, no contexto hospitalar, simboliza o fracasso, rompe o poder, retira os profissionais do Olimpo. É comum o relato de profissionais que afirmam se sentirem impotentes diante do paciente incurável: “não tenho nada a fazer”. Diante disso, a negação, o distanciamento, é muitas vezes a resposta para não lidar com o sentimento de fragilidade, com a reflexão sobre a própria finitude. Os pacientes à morte são uma ameaça ao poder médico.

Eu tenho falado tanto, nesse blog, sobre como nossos problemas estão dentro de nós mesmos.

Não é só o sofrimento do paciente que me faz sofrer. Também é, é claro; exercito empatia o máximo que posso e é dificílimo me aproximar do sofrimento das pessoas.

Mas não é só.

A relação que o médico tem com a morte e o sofrimento é o ponto crucial para o modo como ele irá lidar (ou não) com o sofrimento e a morte de seus pacientes.

Porém, tendo sido cultualmente estimulados a negarem a morte e a esconderem o sofrimento, de que modo serão capazes de se aproximar do sofrimento de alguém? De alguém que os fará lembrar que eles também podem sofrer, e que também irão morrer? Eles não querem. Portanto, distanciam-se. Pensam-se diferentes. Imaginam-se superiores… Estão acima da morte, estão acima do sofrimento, estão acima da condição de humanidade.

Quem não se vê como humano, quem não é capaz de admitir a própria fragilidade… Será incapaz de lidar com a fragilidade dos outros.

Pois temos dificuldade de lidar com o meio externo quando ele atinge algo que, internamente, não lidamos bem. E isso tem ficado cada vez mais óbvio para mim.

Então, as coisas finalmente estão ficando claras pra mim. Eu posso me aproximar. Posso ser lembrada do sofrimento e da morte. Posso ser lembrada da fragilidade humana… Posso permanecer ao lado dos meus pacientes.

Mas, pra isso, tenho de aprender a lidar e aceitar com meu próprio sofrimento e com a minha própria morte – que, cedo ou tarde, vai chegar.

da arte, da razão e da medicina

A produção de conhecimento, como resultado exclusivo da razão, a busca pelo ideal ascético e a negação da influência dos sentimentos, das emoções, nas construções que fazemos da realidade, exigem revisão.

Cabe a pergunta: e na Medicina, qual foi o lugar encontrado para a razão e a paixão?

Luz (1988) nos responde apontando que a medicina apenas exprime e ilustra, com radicalidade, um processo de racionalidade amplo que atingiu o Ocidente desde o classicismo grego, mais crescentemente com o capitalismo moderno.

A separação entre ciência e arte, sob o predomínio da primeira, a expulsão do Deu Dionísio (paixão) do nosso cosmos e o enaltecimento do Deus Apolo (razão) contaminam a Medicina de forma hegemônica no Ocidente, sendo responsável por um tipo de racionalidade que desloca do saber sobre o doente para o saber sobre a doença.

Trecho de “Psicossomática e suas interfaces – o processo silencioso do adoecimento”

Livro lindo

distanciamento crítico

Merleau-Ponty coloca que na verdade sabemos aquilo que a interrogação pura não deve ser; o que será só o saberemos tentando. O encontro é indubitável, pois sem ele não nos proporíamos nenhuma questão. Não temos que interpretá-la, de entrada, seja como uma inclusão naquilo que existe, seja como conclusão daquilo que é em nós. Uma intervenção do profissional da saúde junto ao paciente terá efeitos inatingíveis pela percepção, ou seja, é algo que se tornará real apenas quando de sua efetivação.

Dessa forma, o encontro permeado pelo distanciamento crítico do profissional da saúde certamente será um encontro onde a dor do paciente será uma interrogação e nunca uma projeção feita a partir do contato realizado com outros pacientes em outros momentos e circunstâncias. Será uma descoberta, uma inclusão naquilo que existe, ou ainda, como conclusão daquilo que se transforma em nós mesmos diante de cada encontro e contato existencial e experienciado ao longo da vida.

Ao expor o seu sofrimento, o paciente não apenas revela a sua dor, mas também a sua configuração de valores, ou até mesmo a maneira como toca tangencialmente o seu próprio universo perceptivo. Embora não possamos abarcar a totalidade de sua dor no dimensionamento daquilo que ele sente, ainda assim temos como compreendê-lo em sua configuração de desespero. Torno esse encontro decididamente humano, em que a dor tangível na relação será aliviada, não apenas pela sua compreensão, mas também, e principalmente, pelo aspecto humano e humanitário que esse encontro apresentará.

(…)

De outra parte, ter-se a conformidade de que, embora se viva em um contato estreito com a dor e o desespero humano, ainda assim é preciso manter o desempenho profissional que nos permite atuar em condições tão adversas

Ainda do “Psicossomática e suas interfaces”.