o buraco

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Correndo contra o vento e tentando encontrar o ângulo certo. Weeeeeee!

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da ignorância

Moralmente, é tão condenável não querer saber se uma coisa é verdade ou não, desde que ela nos dê prazer, quanto não querer saber como conseguimos o dinheiro, desde que ele esteja na nossa mão.

É desanimador descobrir a corrupção e a incompetência governamentais, por exemplo, mas será melhor não saber a respeito? A que interesses a ignorância serve? Se nós, humanos, temos uma propensão hereditária a odiar estranho, o único antídoto não é o autoconhecimento? Se ansiamos por acreditar que as estrelas se levantam e se põem para nós, que somos a razão da existência do Universo, a ciência nos presta um desserviço esvaziando nossa presunção?

 

Carl Sagan. Gênio. Sou tão fã que meus olhos chegam ficar cheios de lágrimas.

ai ele disse…

geralmente as pessoas que fazem medicina para “salvar as pessoas” o fazem porque precisam salvar algo dentro delas mesmas

Toda terça a tarde temos uma espécie de reunião com um professor de psicologia. Sentamos em grupo e… Falamos. Ele recomenda livros, nós lemos, conversamos sobre o que lemos, misturamos com a nossa vida e de repente estamos falando dos nossos dramas e dos dramas do universo inteiro. É sempre instigante e saio com a mente inquieta. Foi um dia interessante, hoje. O professor costuma dizer que espera “fazer barulho na gente”, e consegue toda vez. Saio de lá com a mente num turbilhão.

Saí para correr, depois de chegar em casa com a cabeça fervendo. Quando corro, deixo meus pensamentos passearem livremente de uma forma que não consigo fazer em outras situações. E fico apenas a observá-los, admirá-los.

Então, enquanto corria e observava o mar, tive subitamente o insight sobre as razões que me levaram a escolher medicina. Quero dizer a vocês que elas não são nem um pouco nobres. Incluem coisas tipo ter dentro de mim uma criança sedenta por atenção e tals. Felizmente (muito felizmente, na verdade), não sou um ser superior que resolveu abdicar de sua felicidade para salvar ninguém.

Também não tenho mais a ilusão de “salvar vidas”, que a medicina não chegou nesse nível, não. A gente não salva ninguém. A gente não “cura doenças”. Nós, quando conseguimos, tratamos. Ajudamos e consolamos quando possível. Mas nós não temos poder de salvar ninguém! As pessoas alucinam demais sobre o que é a medicina… E não é nada disso que passa na novela ou nos filmes.

Chega o momento em que é preciso admitir isso e fico muito feliz de ter conseguido alcançar essa sinceridade comigo mesma antes da formatura. Se faço medicina pois sou tão altruísta e especial que resolvi dedicar tanto de mim para “salvar vidas” e “curar doenças”, estou em outro patamar, acima dos outros. Essa visão coloca uma barreira entre nós e os pacientes. Mas se compreendo que escolhi medicina por razões bastante egoístas ou até infantis, e que meu “poder” enquanto médico é uma completa ilusão, eu volto a ser igual.

É libertador ser apenas um ser humano!

Aliás, longe de isso diminuir minha paixão ou dedicação pela profissão que escolhi; na verdade, acho que o fantástico da vida é isso: transformarmos nossas dores, frustrações e infantilidades em coisas melhores. Em coisas bonitas. Crescimento, resiliência!

diálogo interior…

Ante o infinito,
Cismo e medito.
Mas vou pensando
E interrogando.

Dialogo a esmo
Comigo mesmo.

— Tudo convida
A amar a vida.

— E amar se deve
A um bem tão breve?

A vida é bela
No que revela…

— Mas como existe
O homem tão triste?

— A vida é a luta
Divina e bruta.

— Onde o heroísmo:
Páramo ou abismo?

— A vida encerra
Os bens da terra.

— Se esses dons temos,
Por que sofremos?

— A vida inquieta
É a mais completa.

— Mas por que a alma
Aspira à calma?

— A vida é intensa
Para quem pensa.

— E onde a esperança,
Que não descansa?

— A vida é pura
Quando há ventura.

— E por que sinto
A ânsia do instinto?

— A vida é chama,
Que apura e inflama.

— Por que a resumo
Em névoa e fumo?

— A vida é a glória
Sempre ilusória.

— Mas como é insano
O sonho humano?

— A eterna esfinge
Ninguém atinge…

— Que reticências
Nas existências!

Alberto da Costa e Silva.

sobre saber (ou não) pelo que vivemos

― Toda resistência é inútil!

― Ah, não me canse ― disse Ford. Torceu-se todo até poder encarar o guarda.

Teve uma ideia.

― Você realmente gosta disso?

O vogon parou de repente, e uma expressão de imensa estupidez lentamente esboçou-se em seu rosto. ― Se eu gosto disso? ― disse ele, com sua voz tonitruante. ― Como assim?

― Quero dizer ― explicou Ford ― , isso é uma vida satisfatória pra você?

O vogon levantou os olhos para o teto baixo de aço, e suas sobrancelhas quase passaram uma por cima da outra. A boca entreabriu-se. Por fim, disse:

― Bem, o horário é bom…

― Também, tem que ser ― concordou Ford. Arthur revirou a cabeça para olhar para Ford.

― Ford, que diabo você está fazendo? ― sussurrou ele, espantado.

― Nada, estou só tentando entender o mundo ao meu redor, está bem? ― respondeu. ― Então, quer dizer que o horário é bom?

O vogon olhou-o, e nas profundezas turvas de sua mente alguns pensamentos começaram a formar-se, pesadamente.

― É ― disse ele ― , mas agora que você falou nisso, a maior parte do tempo é um saco. Tirando a parte de gritar, que gosto muito. ― Encheu os pulmões e urrou: ― Toda resistência…

― Sei, sei ― interrompeu Ford mais que depressa ― , você é bom nisso, já deu pra perceber. Mas se a maior parte do tempo é um saco ― disse, lentamente, dando tempo para que suas palavras fossem bem entendidas ― , então por que você continua nessa? Por quê? Por causa das garotas? O uniforme de couro? O machismo da coisa? Ou é só por que você acha um desafio interessante enfrentar o tédio imbecilizante desse trabalho? Arthur olhava para um e para outro, sem entender nada.

― Ah… ― disse o guarda ― ah… ah… sei não. Acho que eu faço isso só pra… só por fazer, sabe. A titia me disse que trabalhar como guarda de espaçonave é uma boa carreira para um rapaz vogon, sabe, o uniforme, a pistola de raio paralisante na cintura, o tédio imbecilizante…

― Está vendo, Arthur? ― disse Ford, como quem chegou à conclusão de uma argumentação. ― E você que pensava que estava na pior?

Mas Arthur continuava pensando que estava na pior. Além da questão desagradável com seu planeta, o guarda vogon estava estrangulando-o, e a idéia de ser jogado no espaço também não lhe agradava, muito.

― Tente entender o problema dele ― insistiu Ford. ― Coitado do rapaz, o trabalho dele é só marchar de um lado pro outro, jogar gente pra fora da nave…

― E gritar ― acrescentou o guarda.

― E gritar, claro ― acrescentou Ford, dando tapinhas condescendentes no braço gordo apertado em torno de seu pescoço. ― Mas… Ele nem sabe por que faz o que faz!

 

(Mais uma de “O Guia do Mochileiro das Galáxias”)

do momento, da aceitação, do amor, da felicidade (e de mim)

Essa coisa de viver o momento exige muita concentração/sensibilidade. Há um tempo atrás eu descobri essa felicidade tranquila, cheia de paz e intensa; mas ela só veio, a muito custo, quando me concentrei nela inteiramente. Ela exige tudo de você! Ela não é facilmente atingida e, talvez, isso seja parte de sua beleza, de seu mistério. Mas o engraçado é que ela sempre exigiu muito menos de estímulos externos que de mim mesma. Embora estímulos externos possam ser facilitadores do processo. E outra coisa a respeito dela é que sempre está intensamente envolvida com dois sentimentos: amor e gratidão.

Eu tenho 22 anos. Não sei muita coisa a respeito da vida. Mas de uma coisa eu sei: não há nada que faça uma pessoa mais feliz que amor. E não falo do ideal de amor romântico, que tanta gente busca a qualquer preço, de forma angustiada; falo do amor como um todo, em todas as suas mais variadas formas. E o amor é o maior substrato para a gratidão. Amor é a melhor forma de viver o momento. E incluo nisso o amor próprio, que é tão importante pois sustenta de forma saudável todas as outras expressões de amor. Quando nos amamos e valorizamos, ficamos livres da necessidade de retorno, e então o amor aos outros tem mais liberdade para acontecer. Quando nos amamos e cuidamos, temos mais equilíbrio emocional para a doação, o altruísmo e a abnegação.

Outra coisa que aprendi sobre a vida ao longo de 22 anos é o poder positivo da aceitação. Aceitação liberta do peso do passado, das mágoas, da saudade dolorosa. Ficam as boas lembranças. Aceitar o que é e não pode ser ao invés de ficar se perguntando: “e se…?”. Nada adianta. O que é, é. O que já foi não é mais e estar intensamente e de forma concentrada nesse momento, de novo, se faz necessário.

do óbvio

Uma das coisas que Ford Prefect jamais conseguiu entender em relação aos seres humanos era seu hábito de afirmar e repetir continuamente o óbvio mais óbvio, coisas do tipo Está um belo dia, ou Como você é alto, ou Ah, meu Deus, você caiu num poço de dez metros de profundidade, você está bem?. De início, Ford elaborou uma teoria para explicar esse estranho comportamento. Se os seres humanos não ficarem constantemente utilizando seus lábios ― pensou ele ― , eles grudam e não abrem mais. Após pensar e observar por alguns meses, abandonou essa teoria em favor de outra: se eles não ficarem constantemente exercitando seus lábios ― pensou ele ― , seus cérebros começam a funcionar. Depois de algum tempo, abandonou também esta teoria, por achá-la demasiadamente cínica, e concluiu que, na verdade, gostava muito dos seres humanos. Contudo, sempre ficava muitíssimo preocupado ao constatar como era imenso o número de coisas que eles desconheciam.

 

Douglas Adams em “O Guia do Mochileiro das Galáxias”