da trajetória

Pela manhã, recebi minha nota da prova de cirurgia (8,32) e, sendo assim, descobri também que fui aprovada.  Lá se vai o temido estágio mais difícil de todos (a primeira parte dele – nos encontramos novamente no 12°  período).

Hoje a tarde, indo pra casa depois do ambulatório de otorrino, dei de cara com os calouros que saiam do anatômico.

Comecei a pensar no tanto de coisa que já passei, nessa faculdade…

A adaptação do primeiro período, tão difícil. Aprender e aceitar que a medicina ia exigir 100% de mim, começar a abrir mão dos finais de semana, feriados, amigos, diversões; habituar a morar sozinha numa cidade estranha. Ficar longe da família à qual eu era tão apegada. As primeiras provas! A primeira prova de anatomia, de ossos, e o meu sucesso (9, a maior nota da sala), fruto de dedicação e tranquilidade. Acertar o osso esfenoide na radiografia por pura dedução, questão essa que ninguém mais acertou! Nesse sentido, acho que a convivência no curso de medicina me fez mal: nunca fui do tipo que fica nervosa com nada. Nunca fiquei nervosa em prova nenhuma antes da faculdade, nem mesmo no vestibular. A novela da ansiedade começou na segunda prova de anatomia, a prova de músculos (e o resultado do nervosismo foi um decepcionante 5). Isso é algo que estou tentando retomar: a autoconfiança na minha inteligência (que alimentei ao longo de toda vida estudantil, por sempre ter sido considerada “CDF” pelos colegas e uma das melhores alunas pelos professores).

Mas, de uma forma geral, cresci tanto! As longas horas dissecando, e descobrir que tinha talento empunhando um bisturi (minhas dissecações eram frequentemente elogiadas pelo detalhismo, perfeccionismo e habilidade). A semiologia, os primeiros passos dentro do hospital, a felicidade do primeiro jaleco e o primeiro esteto. Aquela vergonha de vesti-los, por não me considerar digna o suficiente para tanto. A primeira anamnese! Faltou tudo. Ficou péssima. Era uma senhorinha poliqueixosa, que largou sobre a cama sua sacola de remédios, e eu fiquei totalmente perdida na história.  A segunda anamnese, novo desastre: um senhor, alcoolista, que não queria papo e falava super baixo. Como não conseguia ouvi-lo, ajoelhei-me na beira do leito pra ficar mais próxima. A professora veio chamar minha atenção, pois aquilo era “meio esquisito”…

Coisas que só a inocência de uma caloura, mesmo.

E aí, o início do ciclo clínico. Lembro-me de que foi aí que começou a bater o desespero de “não sei nada!! será que serei uma boa médica?”. Conversava com os professores, frequentava mais ambulatórios do que precisava. Pegava livros enormes, escrevia resumos. Tardes inteiras estudando… Horas e mais horas, e quantas xícaras de café! Passou a farmaco. Quantos feriados decorando medicamentos… Achando que jamais saberia.

Chegou o oitavo período, aquele, de que falavam pra gente desde o primeiro. O temido, o reprovador, o que deixava todo mundo doido. Foram tantos dias sem descanso, tantas semanas emendadas  uma na outra, que eu ficava perdida no tempo – se era segunda, sexta ou domingo, tanto fazia. Os dias eram todos iguais. E eu passei por ele. Ficávamos tão doidos estudando, que quando saíamos juntos… Foi o período mais louco da minha vida. O paradoxo: nunca estudei tanto, mas também nunca bebi tanto. A Paula-que-detesta-baladas-e-festas-da-medicina não suportou a pressão. E foi. E não se arrepende (a vida tem dessas fases). O pouco tempo de vida social que tivemos foi muito intenso. Tinha de ser.

 

E aí… O tão sonhado internato. Que me fez reafirmar meu amor gigantesco pela profissão que escolhi. A cada dia me identifico e apaixono mais. Os primeiros pacientes, o carinho com que retribuem a atenção. Nesse pouco tempo atendendo, já recebi beijos de senhorinhas no PS, já fui convidada a tomar café na casa de pacientes que atendi no hospital, já fui elogiada, já ouvi muitos “muito obrigada!”. Já ouvi coisas desagradáveis também, afinal, gente doente não está de bom humor. Mas a oportunidade que a medicina me dá de conhecer pessoas e viver por elas é fantástica. Nesse exato momento, pensar nisso tudo enche meu peito de uma sensação de paz tão grande, tão profunda, que tenho certeza de que, só por isso, minha existência já não foi em vão.

Eu não poderia ter feito outra escolha.

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um café antes do plantão

Estou aqui sentada com minha xícara de café me preparando para o plantão noturno de 12 horas que vou encarar no PS daqui a pouco. O primeiro plantão do semestre, primeiro do ano. Rola uma certa nostalgia: meu primeiro plantão da vida foi neste mesmo lugar e me pego lembrando da sensação que é sair de um plantão sentindo-se útil.

Está fresco e nublado, e o vento invade minha janela bagunçando impiedosamente todas as pilhas de papéis que tem aguentado minhas confissões e pensamentos ao longo dessa semana (nunca vi pessoa pra dividir tanto de si com folhas…)

Como sempre são os dias na medicina, essas duas últimas semanas tem sido muito intensas – e a tendência é continuar. Pra uma pessoa que não se agrada muito da constância e do tédio, tenho cada vez mais certeza do quanto acertei escolhendo a medicina. É incrível como ela me emociona e me alegra cada dia mais. E fico impressionada como sou apaixonada por isso.

De repente, me percebo intensamente sentimental. E gosto: é como se estivesse muito mais viva.

E aí eu peço pra que Papai do céu me carregue pela mão enquanto eu estiver atendendo, hoje. Que, embora eu não tenha meu CRM e não possa tratar, eu possa aprender, consolar, aliviar o sofrimento e fazer alguma diferença. Que linda é essa possibilidade! Tenho imensa gratidão por poder cercar minha vida disso.

Tudo isso, pra mim, é amor.

2013

Todos os fins de ano eu escrevo aqui no blog sobre o que espero do ano que está por vir e falo um pouco sobre o ano que passou. Esse ano ainda não tinha conseguido fazer isso, tantas foram as andanças dos últimos dias (todas ótimas; 2014 começa bem).

Ano passado, eu reclamei de 2012. Fiquei desapontada. E aí, em 2013, eu escrevi este post e também este.

Eu estava com medo do que viria. Lembro-me de, na madrugada do dia primeiro de janeiro, quando deitei na cama e comecei a pensar no que me aguardava, sentir o coração palpitar. Eu orei e pedi ajuda. Disse que não conseguiria sozinha. Que Ele não podia me deixar sozinha.

Com poucas expectativas concretas para o ano, coloquei como objetivos para 2013 me tornar mais paciente, tolerante e exercitar o poder de aceitação… Por que eu em parte já sabia e em parte já planejava alguns acontecimentos de 2013. E por que não sabia se podia esperar mais do que isso.

Mas… 2013 foi um ano importantíssimo pra mim. Surpreendente em diversos sentidos. O principal deles, o principal presente que 2013 me deixou, foi lançar alicerces sólidos em assuntos muito importantes da minha vida. 2013 foi um ano de definir muita coisa sobre mim. Foi um ano de pensar e escolher de forma consciente que tipo de pessoa eu queria me tornar e que tipo de relacionamentos eu queria construir. E agir de acordo com isso. Eu o fiz de forma disciplinada o ano todo e estou orgulhosa disso. Eu só não imaginei que essas coisas poderiam passar de desejo para realização tão rápido!

E foi nisso que 2013 me surpreendeu. Na efetividade. Nos acontecimentos. Meu poder de aceitação não duplicou nem triplicou nem quadruplicou. Foi alguma coisa de quintuplicar pra cima. Quanto aos meus níveis de tolerância, não os posso nem mesmo medir, de tanto que cresceram em comparação ao que eram. E, por fim, a dona paciência, mais difícil dos três. Ainda travamos batalhas aqui e ali, mas ela vem crescendo numa linha constantemente ascendente, embora não tão acentuada. Aprendi a viver devagar, a viver para o momento, a não ficar pensando demais no indefinido e indecifrável futuro. Continuo me tornando a médica que decidi ser, a pessoa que decidi ser e cultivando relacionamentos que me ajudam nesses processos e aos quais posso contribuir também (pode-se resumir isso tudo em: decidi exercitar amor).

E quantos relacionamentos incríveis mantive em 2013! E quantos recuperei! E, é claro, que lindo foi construir relacionamentos novos em 2013, com os quais aprendi tanto. Relacionamentos de todos os tipos. Por fim, a maior surpresa de todas: um relacionamento afetivo de uma espécie que eu não esperava ter tão cedo.

Enfim. Pode-se dizer que foi um ano muito bem aproveitado. Aprendi a ser feliz de outras formas que não as que estava habituada. Aprendi a amar melhor. E percebi que estou indo muito bem nessa coisa doida chamada vida.

da mutação

Hoje me dei conta do quanto sou mutante e isso me deixou meio cansada. É um pouco cansativo o processo de auto-conhecimento quando o objeto de estudo não para quieto um segundo.

Eu olho as fotos e leio os textos, e quase não me reconheço no que vejo, tamanha mudança. A cada dia percebo que vou me tornando um pouco menos o que sou hoje e tornando numa coisa nova… Inteiramente nova, e…

É que a vida tem tanto aprendizado e eu quero tanto absorvê-lo, que é assustador o quanto eu

nossa.

Difícil até descrever. O que eu sei é que eu mudo muito conforme o muito que aprendo; e fico tentando me pescar no meio disso tudo pra ter algum ponto de apoio e segurança, algum canto de mim que eu possa chamar de “isso eu sou, isso nunca mudou”.

E o que nunca muda é a gratidão que sinto pelas pessoas que por mim passaram. Do aprendizado e mutação muito devo a elas. Pelas coisas boas e pelas ruins também. Aliás, pelas ruins principalmente!

Obrigada a você que já me magoou alguma vez.

(e será que depois disso tudo eu ainda sou a mesma?)

do orkut

Não sei que que me deu, resolvi olhar meu orkut. Curiosidade de lembrar como era, talvez.

Cara… Ainda bem que a gente cresce. Ainda bem.

Fiquei pelo menos uma meia hora fuçando perfis antigos, meus e de amigos. Que coisa esquisita. Às vezes, tenho a impressão de que já não sou a mesma pessoa… De que aquela Paula foi alguém que conheci bem e até aprendi a compreender, mas que já não existe mais.

Mas não pude evitar de sentir inveja do fato de que eu era absolutamente inocente em diversos aspectos, de modo que conseguia viver uma felicidade quase romântica.

Hoje vejo que ela não passava de uma ilusão minha…

é triste, mas é real. e não é saudável evitar a realidade, não é?

2012

Então…

Olá, 2012!

Você começou muito bem. Minha família estava toda por perto. Rimos, brindamos, estouramos fogos.

É aquela velha história: quando um ano se vai, a gente faz um balanço do ano anterior. Afinal, queremos aprender com os erros.

2011 foi um ano estranho para mim, em diversos sentidos. No final de 2010, teve início a pior fase da minha vida, que eu costumo chamar de “a grande crise”. Foi um período terrível… E foi nesse período que 2011 começou. O começo do ano foi péssimo pra mim. Mas 2011 me obrigou a lutar contra aquilo, e tive em troca o maior aprendizado de toda a minha vida, o maior período de crescimento. Um período crucial para a minha vida toda. Eu nunca vou esquecer 2011 e o que ele me trouxe, e hoje sou grata por tudo o que me aconteceu. Soltei-me de amarras que me prendiam há muitos anos; muita coisa ficou pra trás, e hoje sou uma pessoa mais leve, mais forte e mais verdadeira.

Portanto, quando olho para 2012, vejo um ano que só pode ser fantástico. Não espero nada menos de 2012 que isso: um ano fantástico, de ainda mais crescimento, projetos novos e continuação de projetos antigos que são minha paixão, de mais construção de vida e futuro.

Estou feliz. Estou muito feliz! Que venha 2012!

do preparar-se para o natal

As matérias de quinta e sexta já terminaram. Portanto, embarquei rumo a Joinville quarta a tarde.

 

A sensação de estar em Joinville em dias de semana já me faz sentir em clima de férias, embora eu tenha muito o que estudar- provas de cirurgia e diagnóstico por imagem na semana que vem.

Mas o melhor de tudo, foi termos arrumado nosso pinheirinho. Tirar as caixas empoeiradas do sótão, tirar os enfeites, decorar a árvore, vê-la ficando brilhante e colorida. Acordar no dia seguinte, descer as escadas e deparar-me com ela… Ah! Fiquei me perguntando por que era tudo tão mais empolgante quando eu era criança.

Acho que era por que eu esperava bem mais. Eu ia me preparando para a alegria daquele dia e, então, poucas coisas eram capazes de estragá-la.

Este ano estou tentando aplicar o mesmo princípio. Esperar pelo Natal, ansiar por ele, imaginar como será lindo. Observar a árvore decorada e admirar-me com ela. Tirar pequenos momentos e ficar simplesmente olhando para ela, achando-a bonita. Todas as coisas que a gente faz quando é criança e perde o costume depois.

E, claro. Preparar meu coração para comemorar a vinda da pessoa que revolucinou totalmente a minha vida, e a quem devo minha felicidade, e cujas palavras transformaram minha visão de mundo – e me guiam continuamente.

 

Olha… E não é que esse negócio de preparação funciona?! Já estou sentindo meu coração como que queimando e pulsando, cá dentro de mim!

das coisas esquisitas que a vida tem

Estranho pensar que você pode ter, num certo momento da vida, alguém em quem confia completamente, conta tudo a respeito de sua vida, vê com frequência, sabe tudo a respeito da pessoa também, e… E aí, numa dessas peripécias (aí, acho que nunca tinha usado essa palavra antes!) da vida, chega um dia em que você lembra dessa pessoa e se dá conta que não lembra mais da voz dela.

A vida tem dessas coisas.

estranho

Estranho, mesmo, é só se dar conta de como algumas coisas mudaram na sua vida quando já faz muito tempo que isso aconteceu.

As pessoas vão. Demorou muito pra eu perceber isso. Doeu muito, também. Mas é realmente estranho quando você ama alguém, e costumava conviver com esse alguém, e aí um dia, por alguma razão – a vida tem dessas coisas – essa pessoa começa a se afastar e, logo, logo, será um completo estranho.

Eu não queria que acontecesse. O que nós nos deixamos fazer?