a corrida

Há pouco mais de três semanas, tenho saído regularmente (três vezes por semana, mais especificamente) para correr à beira mar.

Durante a corrida, deixo meu pensamento solto. Ele passeia por onde quer; imagino, devaneio, monto e desmonto teorias, escrevo textos e textos mentalmente. Questiono o mundo, faço autoterapia, e até amo em pensamento todas as pessoas que estão longe de mim.

Além disso, também é um momento de me concentrar no meu corpo, suas posturas, reações e sentidos. O controle da respiração, do ritmo da corrida, a queimação muscular – levo tudo ao limite. Estico. Levo mais adiante. Concentro-me no meu próprio corpo como não faço em todo o resto do tempo.

Ao fim da corrida, sinto-me leve, viva e liberta duas vezes: física e mentalmente.

das (minhas) razões para ser impossível não amar medicina

Ao término da consulta, eu acompanhei o senhorzinho até a porta. Segurava seu ombro enquanto me despedia, e então, por fim, ele me disse:

– Obrigada pelo sorriso!

E se foi…

Não foi: “obrigada pela receita”, nem “obrigada pela explicação sobre a minha doença”, nem “obrigada pelo diagnóstico”. Foi: obrigada pelo sorriso.

Em que momento maravilhoso da minha vida ser feliz passou a ser um modo de viver para os outros?

pequena turbulência no meio da calmaria

Como não dá pra ser só felicidade, o acaso resolveu brindar meu final de semana com uma pereba. Nada surpreendente, considerando que passo a maior parte do meu tempo dentro de um hospital…

Mas o bagulho tá tenso: passei o dia de cama, à base de pequenos goles de água, ondansetrona e gelatina. Há 35 horas sem uma refeição de verdade, mas ainda assim, não sinto fome, só enjoo. Mal estar, febre, dores no corpo, o pacote completo. Mesmo estando meio zonza e irritável, tentei me manter paciente e evitar pensamentos muito negativos. O que basicamente consistiu, na verdade, de evitar pensar demais em qualquer coisa.

Não consegui sair pra correr, nem ver meus amigos, nem para procurar um vestido de formatura, nem para nenhuma das trezentas coisas legais que eu tinha imaginado fazer esse final de semana. Mas também, antes ficar doente podendo ficar em casa largada na cama, que tendo de me aguentar em pé atendendo outras pessoas ao longo de todo dia. Podia ser muito pior. Podia ser na véspera da prova, por exemplo.

Então, não vamos reclamar, né?

De todo modo, a família tem sido muito compreensiva, e também é bom ser cuidada de vez em quando. Pode parecer bobo, mas você só dá o devido valor à gelatina feita por sua mãe pra que você consiga digerir alguma coisa, quando você já ficou doente sozinha muitas vezes, e não teve ninguém pra fazer gelatina pra você.

Ficar doente também é um lembrete de como ficamos frágeis e bobos, e emocionalmente instáveis, e tudo o mais… Um lembrete sempre importante para uma futura médica. Nunca é agradável ficar doente, por mais que seja “só uma virose” ou coisa assim. Que eu esteja atenta a nunca subestimar uma queixa…

Mas vamos dormir, né? Espero eu, para acordar melhor amanhã!

mais momentos de outro (longo) dia

(os dias no PS são sempre de intensidade, mesmo nos dias menos movimentados. parece até que vivo várias vidas dentro daquelas 12 horas… e talvez viva, mesmo!)

cena 1

Paciente com obstrução intestinal baixa, com vômitos fecaloides incoercíveis. Peço à enfermagem para passar a sonda nasogástrica; enfermagem permite. No momento em que introduzo a ponta da sonda no nariz da paciente, ela segura minha mão e não permite que eu continue. Conversamos com a paciente, orientamos; tento novamente. Infelizmente, não sou capaz de vencer a resistência que o simples toque da mão dela no meu punho faz. Antes que eu continue, além disso, paciente torna a vomitar, enchendo a sala (apinhada de outros pacientes) de um odor fétido. Enfermagem pede, com o olhar, que eu deixe para a próxima. Imediatamente, eu cedo. A gente tem de saber a hora de não tentar mais… Especialmente quando se trata do corpo de um ser humano. Rapidamente lido com os sentimentos de frustração por não ter conseguido e de repulsa que o odor da sala causava – e também rapidamente os processo e supero. Às vezes é difícil ser apenas uma acadêmica, tão inexperiente para tantas coisas; mas faz parte, e todo bom médico já o foi um dia.

(ando trabalhando bastante nos sentimentos de frustração e autocrítica, pontos nos quais costumava ser bastante severa comigo mesma)

cena 2

Paciente jovem, masculino, chega para suturar o dedo indicador da mão direita. Converso com ele e com o médico da sala, o qual me orienta a fazer a sutura. Viro-me para preparar o material; quando volto a ele, vejo que está jogando “Clash of Clans” no celular – que, aliás, eu também jogo. Não pensei muito antes de me ver perguntando “Você está jogando Clash, é?” e ele abriu um sorriso divertido: “Você joga?”. Conversamos animadamente enquanto eu suturava o dedo dele.

No fim das contas, depois que o liberei ele esqueceu o celular em cima da maca. Sai correndo pelos corredores com o celular na mão, atrás dele. Topei com ele no corredor, voltando da saída, depois de ter se dado falta. “Teu jogo, cara!!!” Gargalhou.

cena 3

Senhora de 93 anos chega após queda da própria altura, com suspeita de fratura de colo de fêmur. Chego ao lado da maca para conversar com ela; após alguns minutos de conversa, ela, muito simpática, já tinha conquistado a mim e a todas as pessoas da sala de trauma. Em determinado momento, ela pega minha mão e eu seguro sua mãozinha fofa e enrugada dentro das minhas. Conversamos longamente – dei sorte de a sala estar vazia – e ela me contou sobre como era independente, orgulhosa.

Minha vontade era colocá-la num potinho e levá-la comigo, para sentir esperança nos momentos em que me sentir chateada com a humanidade.

cena 4

Atendo uma suspeita de apendicite e sento-me à mesa para escrever a anamnese. Escrevo, mais ou menos: “paciente apresentando, há tantos dias, dor periumbilical de moderada intensidade, acompanhada de náuseas. Há tantas horas, evolui com localização em FID (fossa ilíaca direita), aumento progressivo da intensidade e vômitos”, etc.

Depois de ter escrito mais ou menos isso, fiquei refletindo sobre como me parecia meio poético escrever uma anamnese. Que coisa bonita. Não o sofrimento do paciente, é claro; mas a sonoridade das palavras. Refleti sobre como fazemos arte com sofrimento, e que engraçado seria considerar anamnese uma arte no sentido de captar e transcrever os sentimentos e acontecimentos e…

cena 5

Muitas outras cenas depois, deixo o hospital. Tiro o jaleco, na recepção, sentindo que a Paula acadêmica de medicina ficou lá atrás, e agora vai tranquila para o lar. Que sensação gostosa de missão cumprida. Novamente, sou tomada de imensa gratidão aos pacientes que me emprestaram um pedacinho deles ao longo dessas horas, para que eu aprendesse, repartisse, crescesse e tudo o mais. A vida me pareceu linda, poética e maravilhosa.

Algumas horas depois, é claro, eu me largava exausta na minha cama, agradecendo, também, por finalmente poder descansar!

alívio

Tive uma primeira semana de aulas difícil.

Eu tinha me colocado aquele desafio, de me concentrar na minha evolução enquanto médica; de ir preparando a mente e o corpo para a formatura, muito mais do que preparando festa ou vestido. Como eu mencionei no post anterior, o que espero desse semestre é desabrochar.

Bom, e aí, tudo deu errado, a semana toda. Hahaha.

Ok, não tudo, mas muitas coisas deram errado. As coisas teoricamente mais importantes deram errado – tipo a minha matrícula, que fui descobrir ao terceiro dia de aulas que havia sido cancelada no sistema, de modo que eu estaria, tecnicamente, reprovada por faltas. Não por ter realmente faltado, mas por não constar no sistema.

Outras coisas foram acontecendo ao redor disso, e estes dias foram uma loucura.

Fico feliz em anunciar que, embora tenha realmente me estressado e ficado triste e preocupada com a situação, acredito que isso tenha se transformado num terreno fértil para a coisa toda do crescimento. É claro que consegui ir resolver todos os itens, um a um, de modo que, neste momento, vos escrevo com tudo tranquilo, outra vez.

Mas algumas coisas me saltaram aos olhos. É impressionante como poucas pessoas realmente conseguem se importar com os problemas dos outros. E é desesperador quando as pessoas que podem resolver o problema parecem não estar nem aí pra ele. Por outro lado, devo meu sono no meio dessa confusão às pessoas que se importaram. Tanto quanto aos diretamente envolvidos quanto à resolução dos problemas; quanto aos que me emprestaram seus ouvidos e sua atenção.

Toda minha admiração aos que se importam!! E investirei toda minha energia para me tornar cada vez mais uma pessoa dessas. Tive de receber ajuda, e as pessoas que me ajudaram o fizeram muito mais por boa vontade que por pura obrigação.

Prestei atenção de dedicar completamente a ajuda que pudesse às pessoas que me procuraram com pequenos favores, ao longo dessa semana, quando observei isso. Fosse uma informação na rua, um número de telefone de um conhecido, fosse a dor de um paciente no PS, fosse a chateação de um colega. Eu me permiti me importar. Isso é, ao mesmo tempo, gratidão pelos que sempre se importam comigo, e profunda e genuína vontade de facilitar a vida dos outros – reconhecendo o efeito tão positivo que isso teve pra mim.

Não posso prometer ao Universo ser uma médica que se importe o tempo inteiro, sempre; afinal, sou humana. Posso ter meus desencontros, chateações, distrações. Não serei um ser humano inferior por isso – pelo contrário, tenho de ter a ciência de que isso irá ocorrer. Mas posso prometer a mim mesma que farei esse esforço o máximo que puder.

o último primeiro

Hoje foi meu último primeiro dia de faculdade.

Confesso: não estava animada. Terei um semestre muito, muito difícil pela frente. Tenho muita coisa pra crescer, pra desenvolver. Sou “quase médica” e tenho de amadurecer essa ideia e essa postura. Nada fácil… E bem assustador. Muita responsabilidade pra alguém que, boa parte do tempo, tem dificuldade de admitir pra si mesma que já é – que esquisito – “adulta”. “Mulher”. Será um exercício diário. Será cansativo. Exigirá o meu máximo.

E, bem, estava bem gostoso viajar, conhecer lugares e pessoas novos, filosofar sobre o universo, escrever, ler, ouvir música, passar um tempo com a família, grudar no namorado e tals. Dormir bastante, pegar praia, andar descalça, usar saia, vestido e biquíni. Deixar o cabelo solto. Comer o que desse vontade nos horários que me desse vontade. Enfim…

E né que o dia foi um saco? Reuniões iniciais do internato pela manhã, como sempre. Aula teórica a tarde, com direito a professor de cirurgia atrasando, como sempre, outra aula sendo cancelada em cima da hora e agendada para outro dia dessa semana, a notícia de que tenho caso clínico pra fazer e apresentar até sexta. Enfim… Essas coisas da vida acadêmica, que me cansam. Esse tal de ter de se provar pros outros o tempo inteiro, ter de ler o que mandam, e não o que me interessa, de ter de agir conforme o roteiro. Todo esse controle, essa cobrança e essa exigência pelo qual tenho de passar, que a vida é assim.

Passei o dia meio chateada, deprimida e refletindo sobre essa sensação de inadequação que tenho, novamente, a cada início de semestre. Sinto-me deslocada entre os colegas, pouco capaz de estar ali, insuficiente para as exigências da profissão.

Por outro lado, incapaz de ter escolhido outra coisa… E certa do meu amor pela profissão e do meu interesse pelos pacientes.

Muitos conflitos para um primeiro dia. Todos eles foram assim; o último continuou sendo.

Ao fim do dia, cheguei em casa e tive coisas a organizar, listas de tarefas a fazer, e logo comecei a agir. Agora, resolvi tirar esse tempo pra pensar. É que o foco desse semestre é o meu crescimento como médica. Tenho um objetivo muito claro: ao fim de cinco meses, passar pela noite da sabedoria como a melhor médica que eu puder ser. Isso é um desafio em tantos sentidos diferentes que nem sei por onde começar.

Para ser uma boa médica, tenho de ser boa tecnicamente. Terei de estudar muito, dedicar-me, ser impecavelmente disciplinada, organizada, responsável e compromissada.

Para ser uma boa médica, tenho de estar bem disposta e, portanto, cuidando de meu sono, alimentação e saúde. Quando melhor eu me sentir, melhor desempenharei minhas funções.

E, para ser uma boa médica, eu tenho de trabalhar meu emocional. Tenho um milhão de questões emocionais a serem amplamente trabalhadas, esse semestre, e elas são o maior desafio de todos. A primeira, minha confiança (no caso, a ausência dela) em mim mesma. De nada adiantará ser boa tecnicamente, se não for autoconfiante o suficiente para com a minha conduta. E eu tenho completa noção de que autoconfiança não é, nunca foi, o meu forte. Tenho trabalhado esse problema muito lentamente, mas ele é gigantesco dentro de mim, e me faz viver sempre com um pedacinho de mim dentro da concha, dentro da casca… Um broto apavorado de desabrochar. Tenho diversos outros, mas este é o maior deles. Eu tenho um cérebro funcionante e uma sensibilidade para com o sofrimento. Tenho paciência com os pacientes, gosto de conversar com eles e compreendo a importância de ter com eles um relacionamento no estilo “profissionalismo afetivo”. Tenho características dentro de mim que, se trabalhadas, podem me ajudar a me tornar uma boa médica.

Mas tenho isso: me sinto sempre incapaz e inadequada, ainda que esconda isso num cantinho. Tenho um-pouco-lidado-um-pouco-ignorado isso, ao londo de cinco anos e meio. E agora, chega. Chega de transformar isso num ciclo de desânimo e de culpar os outros, pensando comigo mesma “as pessoas me subestimam tanto!!”.

Todos esses pensamentos a respeito de tudo o que preciso trabalhar ao longo do semestre, me fizeram acordar. Subitamente, fiquei animada e cheia de vontade. Eu tenho um desafio: em mim mesma!

2015 é o meu ano. É o ano da minha vida, até o momento. Tem tudo pra ser. Mas precisa da minha atitude. Preciso, e vou, desabrochar. Vai ser lento e gradual, vai ser doloroso; mas vai ser aprendizado, vai ser crescimento e vai ser felicidade.

E vai ser lindo!

Let’s do it!!!

sempre a saudade

Parece que o tempo que passo com você nunca é suficiente.

Lá se foi você, mais um final de semana depois.

Mas eu queria você aqui. Tento lutar contra esse sentimento (de querer algo que não é possível, pelo menos agora), mas é tão difícil! E logo desisto. É quase irresistível esse faz-de-conta de que voltaria pra casa e você estaria lá.

E me perguntaria se consegui devolver o filme. Eu diria que sim, e você me diria pra parar e cortaria o fio sobrando da minha blusa. E colocaria pra dentro a etiqueta, que eu sou desligada e deixei pra fora outra vez. E eu te abraçaria, perguntando se você queria uma cerveja, e você diria que sim. Eu iria propor que a gente assistisse “Breaking Bad” e você toparia; e aí, eu faria a pipoca que compramos no mercado (apesar de você não gostar). Nós sentaríamos no sofá, abraçados, e eu faria carinho na sua mão enquanto assistisse (que você retribuiria). De vez em quando, um dos dois beijaria a testa ou a bochecha do outro. Ao final do episódio, trocaríamos comentários animados a respeito, filosofando sobre as coisas que nos chamaram a atenção. Quem sabe nós planejássemos algo da nossa viagem; quem sabe ficássemos conversando e rindo por mais algumas horas; quem sabe… Quem sabe a gente inventasse algum programa completamente aleatório e inesperado. Mas não importa o que fizéssemos, eu olharia encantada para o seu rosto, o tempo todo, e me deixaria hipnotizar por cada sorriso (aquele, de que eu gosto, principalmente), e teria vontade de dizer que te amo a cada 2 segundos, e estaria rindo, e seria divertido, e eu te abraçaria e cutucaria “pra aproveitar enquanto posso”.

E tudo isso seria sensacional, apesar da simplicidade dos acontecimentos, já que você estaria aqui.

E eu estaria tomada daquela sensação de que a vida é maravilhosa e tenho muita sorte, que sempre me cerca quando você está comigo. E eu estaria tranquila, relaxada e feliz, como costumo estar quando você está perto.

Não é que não esteja feliz agora, também. Estou. As férias foram lindas, o final de semana foi lindo, amanhã começo o último semestre de faculdade da minha vida (se a vida continuar nesse curso, ao menos). Mas fico sentimental quando você vai. Aquela sensação de vazio. Caramba, como isso tem ficado mais doloroso… Pensei que, com o tempo, eu treinaria pra ser forte e essa bola na garganta fosse desaparecer – mas não… Só fica mais e mais difícil, a cada despedida.

E aqui estou eu no apartamento vazio, outra vez, sentindo meu coração doer ao arrumar os vestígios das últimas experiências culinárias, garrafas de cerveja, xícaras de café, travesseiros no sofá, livros e rabiscos da programação da viagem…

Mas sabendo que tenho de me distrair. É o jeito.

lá vai mais um

… e lá se foi mais uma prova. São apenas mais 4 para que eu seja médica. Em uma semana, me despeço de mais um estágio, o de Ginecologia e Obstetrícia, e inicio o último estágio do décimo primeiro período – mais um de Medicina de Família e Comunidade. Aproxima-se o último semestre do curso…

Às vezes, mal consigo acreditar que serei médica tão logo! Sinto-me cada pouquinho mais confiante de que tenho plena capacidade de exercer essa função.

Eu cresci e evoluí tanto desde o começo do internato!

Nem há como falar do começo do curso: quase não me reconheço como a mesma pessoa. Sou uma Paula absurdamente diferente da que pisou no anatômico pela primeira vez, no primeiro período.

Que a vida continue me conduzindo por caminhos de crescimento, evolução e amor