o motivo

em síntese: vou fazer patologia porque resolvi assumir que tenho uma alma nerd meio introspectiva que não quer lidar com outros seres humanos todo o tempo

 


desenvolvendo o tema:

talvez seja uma informação que soe desencontrada aqui, já que tudo o que escrevi nesse blog sobre minha relação com a profissão e os pacientes diz o contrário. e, na verdade, não, eu não passei esse tempo todo mentindo para vocês! eu realmente sou fascinada pelos seres humanos. apaixonada, muitas vezes. eles me despertam compaixão, tenho habilidade em acolher seu sofrimento, faço vínculo com pacientes muito, MUITO facilmente. na verdade, ter um bom relacionamento médico-paciente é uma das coisas mais fáceis do mundo pra mim.

PORÉM

quando me permiti ser bem sincera comigo mesma, concluí que sempre me senti aliviada em estar no meu quarto estudando. sempre preferi os livros. sempre preferi o microscópio. uma das partes mais maravilhosas da faculdade pra mim foi a dissecação. ali estava um cadáver, que eu podia explorar empunhando um bisturi, e que me deixava fascinada e de olhos brilhando. eu poderia passar horas sozinha no anatômico, dissecando, sem ver o tempo passar. em silêncio… eu, no meu mundo.

o consultório me deixa exausta. eu gosto de lidar com gente e ouvir suas histórias, mas só as cinco primeiras gentes que eu atendo no dia. depois disso, quero café, silêncio e isolamento social. e o problema é que atender 5 pessoas por dia não pagará minhas contas – e, no mundo real, é importante poder pagar as contas.

sou louca por gente, mas em outro formato, entendem? com hora marcada, tempo limitado e obrigação de tantos pacientes por dia, não.

pra ser bem franca, também assumi e lidei com o fato de que tem uma coisa de ego nisso aí de ser O MÉDICO de alguém. todo mundo sempre me disse o quanto eu sou humana. sempre fui elogiada pelos pacientes por ser gentil, amável, atenciosa. e me envaideci disso, e investi ainda mais energia nisso para alimentar ainda mais minha vaidade. é bem atraente para nosso lado narcisista CUIDAR de outro ser humano, SALVAR outro ser humano, oferecer a alguém o conhecimento que alivia seu sofrimento. talvez por isso tanta gente passe anos no cursinho até entrar na faculdade de medicina. e depois enfrente 6 anos de doenças mentais e exaustão pra chegar na formatura.

mas o preço foi alto pra mim: não importa quão boa eu seja em fazer exatamente o que os outros esperam de mim, o gasto energético para fazer isso é enorme. eu fico esgotada ao final de cada dia de trabalho. quando voltei de viagem, não fiquei chateada de ter voltado. não fiquei chateada de ter viajado menos. mas fiquei DESESPERADA de ter de voltar para o consultório.

o dia em que considerei a patologia pela primeira vez foi um dos momentos em que mais me senti… aliviada. me encontrando na medicina. finalmente. eu, sendo eu, assumindo características que não correspondem ao esteriótipo do maravilhoso médico salvador de vidas, que abdica de si mesmo em prol dos outros. abri mão de ser PAULA, A MARAVILHOSA E BONDOSA MÉDICA QUE SALVARÁ A TODOS E SERÁ A MELHOR MÉDICA DO MUNDO AO CONTRÁRIO DESSES MÉDICOS QUE NÃO ATENDEM NINGUÉM DIREITO E ASSIM ELA SERÁ AMADA POR TODOS porém viverá exausta e imersa em culpa e autocobranças

e decidi ser: PAULA, UMA PESSOA MUITO FELIZ

 

 

 

(ps: esse é um post de autodescoberta. não é uma crítica aos demais médicos – só pra deixar bem claro)

 

 

 

 

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fiz minha lição de casa

há mais de um ano eu tive uma crise de pânico no trabalho e voltei pra terapia depois de um tempo sem. eu estava exausta, me sentindo sugada, desiludida e me sentindo extremamente solitária na trajetória da minha profissão.

naquela época, minha psicóloga me falou algo que me deixou meio transtornada por vários dias. ela disse que eu tinha de virar uma chave na minha cabeça: parar de pensar sempre no que os outros esperavam de mim e começar a fazer o que eu queria. completamente perdida, olhei pra ela e disse “mas as coisas se misturaram tanto na minha cabeça que eu acho que simplesmente não sei o que eu quero”.

“você vai ter de começar a tentar… você tem de praticar”, ela respondeu.

e várias sessões depois daquela ela me ajudou a desfazer os nós que minha cabeça tinha feito, misturando sempre o que eu realmente queria com o que eu achava que as pessoas queriam de mim. o que ela mais me perguntou naquelas sessões foi “e você, paula, quer fazer o que?”

 

pois bem… eu fiz a lição de casa. comecei a me perguntar com sinceridade o que eu faria se pudesse escolher sem a influência de ninguém. tipo, simplesmente qual era a coisa que eu tinha vontade na hora. transformei isso num hábito. mesmo quando eu não posso saber o que quero, gosto de estar ciente do que é que estou deixando de fazer.

e aqui estamos nós: depois de vários anos com todo mundo achando que eu seria psiquiatra ou médica de família, e que seria ótima nisso (modéstia à parte, provavelmente seria mesmo) eu finalmente me inscrevi na residência:

 

 

e eu vou fazer patologia

 

KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK

vocês não sabem o quanto eu tenho me divertido contando isso pras pessoas. todo mundo me olha como se eu tivesse ficado completamente maluca. mas, o que é melhor ainda, depois de eu explicar os motivos todo mundo me apoia. <3

(às vezes a gente acha que precisa agradar mas na real as pessoas nem tão esperando ser agradadas naquela situação em específico)

 

rotina

Acho que, na verdade, vou sentir saudades. De cruzar o Mercado Público toda manhã, quando ainda vazio e meio na penumbra; ver o movimento dos trabalhadores se organizando pra começar o dia, o largo da Alfândega ainda vazio e silencioso.

Entrar no prédio e dar um bom dia sorridente para a moça que sempre está no balcão; entrar no elevador onde, geralmente, a senhora que faz a limpeza já está limpando as paredes. Eu pergunto se posso pegar uma carona, ela diz que sim, conversamos amenidades. Ela vem comigo até o décimo andar, que é onde eu trabalho, e nos despedimos desejando bom dia e bom trabalho uma para a outra.

Quando entro no corredor da clínica, já sinto o cheiro do café recém-feito. Se olhar pra trás, a grande janela de vidro do fim do corredor mostra o mar, com as montanhas azuladas no fundo.

Abro a porta da clínica, mais uma vez cumprimento com um bom dia, caminho até o consultório. Abro as cortinas e lá está a vista de todos os dias: a beira mar, a ponte Hercílio Luz, as ruas grandes e movimentadas de Florianópolis. Todos os dias essa paisagem me deixa encantada. Abro então as janelas, e o ar fresquinho da manhã entra na sala.

Visto meu jaleco, pego meus pertences de trabalho na gaveta, pego a xícara que deixei em cima da mesa na véspera e caminho com ela até a jarra de café sem açúcar, que invariamente me espera antes de ser colocada na garrafa. Preparo meu café, volto para o consultório e começo a atender.

No mínimo 50 pessoas completamente diferentes sentam na cadeira à minha frente todos os dias. Algumas são tranquilas, rápidas e objetivas, quase não se fazem notar. Outras tem histórias pra contar – e é fascinante ouvir tantas histórias todos os dias. O mundo é gigante, coisas que nem imaginamos acontecem nele todos os dias. Todo dia é uma lição.

Há dias em que estou bem e consigo lidar com tudo maravilhosamente. Saio do trabalho com aquela ótima sensação de dever cumprido. Há dias, no entanto, em que lidar com tanta coisa é difícil. Faz parte da vida, faz parte da profissão, faz parte do fardo de ser uma pessoa.

Na última hora do dia, geralmente, o movimento diminui. O clima na clínica fica tranquilo; sem não há ninguém, conversamos amenidades. Quando fecha meu horário, despeço-me abanando as mãos acima da cabeça.

Ganho a rua; nesse horário, as ruas do centro estão tomadas de gente. No meio da multidão, caminho até o terminal e pego meu ônibus. É um momento tranquilo do dia. Observo as pessoas, leio meus livros, às vezes tomo um café.

E sigo pra minha casa. No outro dia, tudo igual.

Com o tempo, tudo isso se torna tão comum que, se a gente não prestar atenção, perde a graça. Mas hoje eu parei pra pensar, pra prestar atenção… É o que acontece quando sinto vontade de escrever sobre algo.

Talvez, dessas coisas é que seja feita a vida

dos meus rastros e das minhas mudanças

Eu tenho uma mania engraçada: às vezes, entro aqui no blog e começo a ler posts meus dos anos anteriores do mesmo mês em que estou. Estou aqui sentada lendo posts de abril de 2016, 2015, 2014, 2013, 2012, 2011 e 2010…

 

Fico orgulhosa: como eu mudei! Caramba… Quantos pesos ficaram pra trás! Eu ainda me acho meio desgraçadinha da cabeça, mas eu deveria ter mais paciência comigo mesma, que já foi muito pior. Hahahahaha

Hoje sou uma pessoa muito mais leve do que era há uns anos atrás. Algumas frustrações, caras quebradas, terapias e Nikolas depois, minha vida emocional e meus relacionamentos são OUTRA VIBE. Totalmente. Que coisa bem maravilhosa! Dá vontade até de voltar lá atrás e dizer para aquela Paula: “sossega, criatura! pra quê tá sofrendo com isso? pra quê tanta culpa, tanto drama, tanta cobrança? larga de mão e fica de boas…”

Enfim, eu sei bem que ela tinha seus motivos. E ela aprendeu e mudou, isso que importa.

Mas imaginem vocês que eu era o tipo de pessoa que achava que tinha de ter a vida toda certa e planejada. Queria ter plano de curto, médio e longo prazo, pra até 10 anos. Hoje em dia eu não sei nem o que vou fazer ano que vem… Mal sei o que estarei fazendo mês que vem, na verdade. Aprendi que a vida é inconstante mesmo e que não adianta ficar tentando controlar as coisas.

Eu queria seguir o roteiro, fazer “tudo direito”, ter um bom emprego, trabalhar muito, casar, ter 4 filhos. ATÉ PARECE KKKKKKKK 4 FILHOS! Socorro… Ainda bem que eu comecei a fazer aquele interessante exercício de me perguntar o que EU realmente quero e separar isso do que eu acho que as pessoas querem de mim. Foi um processo longo e difícil esse, de descobrir o que EU queria pra minha vida e o que EU gostava. Aí eu descobri que nem filho eu quero ter. Pelo menos agora eu não quero nunca ter. Quem sabe, né?

Eu também fui o tipo de pessoa que achava que podia prometer eternidade nos meus relacionamentos. E nem digo só de relacionamentos românticos. Eu tinha plena certeza e confiança de que algumas pessoas JAMAIS sairiam da minha vida. De que não havia vida sem elas. Mas, né? Mais uma vez a vida ensinou: ninguém é insubstituível, existe vida antes e depois de qualquer pessoa. Olha quanta gente já entrou e saiu! Pra que ficar tentando adivinhar quem vai ficar e quem não? Deixa o movimento. Deixa as pessoas virem, ficarem o quanto quiserem, irem embora quando algo levar embora. A gente sempre se diverte no meio do caminho, aprende umas coisas e segue a vida sem drama e sem rancor.

E os significados que eu colocava nas coisas? Vishe… Via significado em tudo. Hoje em dia acho a vida tão menos complicada e confusa. (menos confusa, não melhor, vejam bem. eu continuo achando que a vida é uma merda, só acho que ela é o que é, não tem nada de significado ou mensagem subliminar escondida por trás das coisas). Ter propósito na vida é uma coisa muito legal, mas às vezes isso acaba complicando coisas que não são complicadas e confundindo coisas que não são confusas. Às vezes a vida só é uma merda mesmo, e pronto. Ou só é legal mesmo, e pronto.

Mas o que eu acho que mais mudou, de tudo isso, é minha forma de me relacionar com as pessoas. Me tornar uma pessoa mais assertiva foi um processo enooooooooooorme de longo e cansativo. Eu era uma criatura maluca: me autossacrificava pelas pessoas, achava que tinha que ser assim; aí as pessoas não faziam o mesmo por mim, que elas não são obrigadas; aí eu chorava, me sentindo sozinha, abandonada e sem amparo; aí isso desencadeava conflitos; aí eu me sentia culpada, um lixo de ser humano; aí eu me autossacrificava pelas pessoas de novo pra tentar compensar isso tudo; etc etc etc etc. Percebem o drama? Aí eu fiz terapia a primeira vez e me tornei consciente disso e comecei a mudar. Mas, gente, é tão difícil mudar algo TÃO enraizado! Tipo, esse foi o jeito que eu aprendi a me relacionar desde criança. Mudar um hábito de vinte anos é uma trabalheira. Aos poucos fui mudando. O auge da mudança foi quando uma criatura abençoada pelos céus entrou na minha vida.

Aprendi com o Nikolas, na prática, o que é um relacionamento saudável. E, gente, quecoisamarlindadessemundo é um relacionamento saudável. Nikolas é, aparentemente sem esforço algum, a pessoa mais assertiva que eu conheço. Ele é tipo um paciente modelo de terapia cognitivo comportamental. Ele tipo É a PERSONIFICAÇÃO da terapia cognitivo comportamental (só que ele nunca precisou fazer terapia pra isso, o desgraçado). Aprendi que dá pra se relacionar simplesmente falando o que a gente pensa e sente. Que se estivermos aflitos, em dúvida ou achando que o outro está achando algo, a gente chega e pergunta. Aí a gente resolve tudo com 5 minutos de conversa. Se um erra, o outro fala que ficou chateado, o primeiro pede desculpas, o segundo perdoa, e fim. Simples assim. Relacionamentos podem ser simples. Extremamente simples.

Com a simplicidade em lidar com relacionamentos vários, veio como consequência fácil uma crescente sensação de liberdade e ausência de preocupação com a opinião alheia a meu respeito. Tipo, por mais clichê que isso possa parecer.. Genuinamente não me preocupo mais da mesma forma com a opinião das pessoas sobre quem eu sou. Pois consigo concluir sempre, de forma bastante racional, que isso simplesmente não faz diferença na minha vida de força prática.

Quer dizer, as expectativas que as pessoas colocam sobre mim são um problema delas, não meu. Elas que lidem com isso, portanto. Vez ou outra, se você convive comigo, eu vou te decepcionar. Desculpa. É o que as pessoas fazem. O que posso prometer é que vou me arrepender e sentir muito (mas não me martirizar).

Assim como as expectativas que eu coloco nas pessoas são problema meu. Então eu simplesmente comecei a me responsabilizar por elas e lidar com elas. E a me irritar, decepcionar e entristecer muito menos com as pessoas.

Eu também espero muito menos das pessoas hoje em dia, consequentemente, mas é o preço, né não?

Não que eu tenha conseguido mudar tudo isso 100%. O que eu sou é uma complexa construção de uma pitada de genética e um mundo de ambientes e acontecimentos. Eu tenho mecanismos profundos e marcantes demais, que provavelmente vão fazer parte de mim pelo resto da minha vida. Coisas que eu vou continuar driblando.

O legal é que todo dia faço uma descoberta nova a meu respeito, encontro um jeito novo de melhorar e lidar melhor com minhas questões. Eu ainda estou tentando lidar melhor com minha ansiedade, com minha sensação constante de não ser boa ou capaz o suficiente, de ser uma farsa – mas vamos lá, estou caminhando e me esforçando pra melhorar isso também.

Enfim. Eu poderia continuar escrevendo, mas seria um texto infinito. Não dá pra mensurar o tanto de mudanças que ocorrem numa pessoa. E as mudanças vão continuar acontecendo, certeza. Ano que vem olharei pra trás e pensarei “caralho, olha só como eu era ano passado! como pode? ainda bem que eu mudei”

O importante é que essa sensação de “ainda bem que eu mudei” continue presente, sempre

sei que continuo sumida

Tenho trabalhado umas 11 horas por dia. Entro às 07 horas no trabalho, saio às 18h. Peguei todos os horários possíveis na clínica em que trabalho e agarro as oportunidades todas, por um motivo: a viagem do ano que vem.

Precisamos ter dinheiro suficiente para a preparação, para o durante e uma reserva para depois. E ter dinheiro suficiente exige esse esforço. Então, já que é o jeito agora, é o que tenho feito.

Não tem sido tão ruim. Estou aprendendo a levar. Eu, felizmente, gosto demais do meu trabalho, gosto demais de passar o dia conversando com as pessoas.

Chego em casa no fim da tarde, descanso um pouco e vou para a academia. Pra me manter saudável e ativa, para ser menos atingida pela altitude ao longo da viagem e para poder me aventurar em trekkings ao longo dela também.

Termino meu dia às 22h, mais ou menos.

Mesmo nos horários vagos, Nikolas e eu estamos frequentemente conversando, decidindo, fazendo e resolvendo coisas relacionadas à viagem. Tem o carro, o trailer, o planejamento, as finanças pra manter em ordem (não adianta a gente se matar trabalhando e torrar o dinheiro todo, né?).

Como vocês podem ver, minha rotina toda gira em torno da viagem. É ela meu objetivo na vida agora. Eu foco nisso todos os dias, pra continuar atendendo feliz, sorridente e atensiosa com as pessoas.

Ter um objetivo coloca tudo em outra perscpectiva, né?

As coisas estão começando a sair do plano das ideias e tomar forma.

Em junho de 2016, no mais tardar, estarei partindo para passar 6 meses conhecendo a América do Sul.

Mal posso esperar!

do tricô para a vida

Dia desses, vi uma foto na internet de uma polaina de tricô. Decidi, imediatamente, que queria uma. E decidi que queria fazê-la. Portanto, dei uma pesquisada, olhei uns vídeos, achei que parecia super fácil, dirigi-me até uma loja, comprei o material necessário e voltei para casa, muito alegre.

Vocês vão estranhar o que vou dizer agora, mas tenho aprendido grandes lições com o tricô. É uma excelente metáfora para a vida, esta atividade. Por exemplo: assim como a vida, tricô parece muito fácil. Você vê os outros fazendo e pensa “nossa, mas isso aí eu vou fazer plantando bananeira”. Até que você começa.

Você assiste o primeiro vídeo super motivada, o que ensina a colocar a linha na agulha. Se bate um pouco, mas tudo bem. Logo está conseguindo fazer – e super rápido até, olha! Sente-se, então, muito inteligente e autoconfiante. Não caia nessa armadilha: sempre que você se sente muito inteligente e autoconfiante, a vida (ou os pontos de tricô) estão apenas aguardando para te provar o contrário.

Você começa a fazer o primeiro ponto e simplesmente não consegue entender como algo que parecia tão fácil pode causar tantas dúvidas e dar um nó na sua cabeça. É só uma linha enrolada numa agulha! Não pode ser tão difícil! Finalmente você consegue fazer um ponto ou outro. Uma carreira. Duas… Será que está certo, isso? Você não sabe se está fazendo certo ou não. Nunca fez aquilo. Como será que é com as outras pessoas? Passam a mesma dificuldade? Você se sente meio tapada.

Não demorará a constatar que seu tricô está um completo desastre. Você desmancha e faz de novo, perguntando-se onde pode estar errando. Muda um detalhe do ponto. Faz mais um pouco, constata um erro, desmancha tudo. Começa de novo. Constata outro erro, desmancha tudo. Começa de novo.

Enfim, muitos ajustes e estudos depois, finalmente você consegue. Faz o ponto corretamente! Faz três carreiras, estão bonitas! Ocorre algo interessante, então, que é o medo de encostar na agulha, começar a fazer e estragar tudo mais uma vez. Até porque, toda vez que você erra, tem de desmanchar tudo o que já foi feito. A possibilidade de erro gera ansiedade. Dessa vez está dando certo, você já está estragando a linha de tanto desmanchar o trabalho todo. Não pode errar. Não pode errar.

Mas você erra. A vida (e o tricô) é assim, né?

O que resta é pesquisar um jeito de desmanchar só um pedaço, e não o trabalho todo. Você aprende, então, a arrumar o que tinha errado e continuar de onde estava certo. Depois disso, a ansiedade em encostar na agulha e fazer merda some.

Finalmente o tricô (e a vida) começam a render!

 

PS: em breve, terei lindas polainas que usarei todos os dias, pra compensar o trabalho do cacete que estão dando.

o que eu acho que quero realmente

ser psicoterapeuta. não há nada no mundo que me fascina mais do que desvendar a mente humana

nunca houve.

talvez seja esse o meu caminho

eu acho que quero que seja… não foi a inclinação que sempre tive? a característica que me destacava?

qual era o conteúdo dos livros que eu procurava na biblioteca, quando queria passar o tempo na hora do almoço? quais eram minhas aulas favoritas, que atividades extras eu fazia só pelo prazer de me aproximar de um tema? que outro aluno da medicina participava voluntariamente das palestras todas da semana acadêmica de psicologia?

sempre isso… sempre!

terapia

Voltei pra terapia. Comecei hoje.

Da outra vez, fiz cognitivo-comportamental. Agora, to indo pra Gestalt.

A terapeuta é DE.MAIS.

Na sessão de hoje – coitada – derrubei um caminhão de ansiedades em uma hora e meia. Ela captou várias coisas, questionou várias coisas… Foi maravilhoso. Ela diz que estou precisando de um tempo meu, um tempo de autocuidado. Ela tem razão. Quem cuida precisa ser cuidado.

Semana que vem tem mais.

Saí de lá, entrei no carro e, depois de muitas semanas, pela primeira vez me senti relaxada.

Calma: eu sei que terapia não é fácil. E sei que, quando a gente começa, a terapia movimenta muita coisa na gente e a tendência é até que a gente fique meio mal. Mas o que me fez ficar aliviada e relaxada foi ter esperança. De que, agora, estou escalando o poço, e não me afundando nele.

Segunda tenho psiquiatra. A psicóloga falou que é certo que serei medicada, e me chamou a atenção para alguns efeitos que o uso de medicação pode ter em como vou lidar emocionalmente com as coisas e que são importantes de eu ficar atenta. Ela também já me deu uns toques que foram extremamente úteis e que são de aplicação até meio imediata. Tomei algumas decisões, depois de hoje, que me trouxeram um enorme alívio.

Ganhei tarefinhas pra semana que vem. São elas: colocar limites nas pessoas e situações que me tem sugado; e pensar nos erros que já cometi, que eles serão debatidos e analisados semana que vem.

São esses meus problemas desde sempre, né? Achar que tenho de fazer TUDO por TODAS as pessoas SEMPRE e que não posso errar NUNCA, jamais, e que meus erros são inadmissíveis. Esses problemas me trazem um sofrimento gigantesco há muito tempo. É hora de enfrentar isso aí.

O engraçado é observar como eles são os mesmos desde a primeira vez em que fiz terapia, mas que agora, com outra abordagem, são tratados de maneiras diferentes. Estou achando interessante. Tudo isso é aprendizado. Eu penso em como estarei melhora daqui uns meses de terapia, no quanto terei evoluído, aprendido e me tornado um ser humano melhor… E isso me preenche de felicidade.

Eu não vinha sendo feliz.

vamos desabafar um pouquinho

Continuo não estando na vibe de abrir muito o que venho passando. O que é engraçado pra mim, pessoa que sempre escreve e fala sobre tudo que sente. Mas não tenho tido vontade.

Resumirei pra vocês: tenho tido crises de ansiedade. Crises mesmo: palpitação, aperto no peito, sudorese, dor epigástrica, náuseas, inapetência… O pacote completo. Nas crises, tenho medos de “perder o controle sobre mim mesma ou sobre meus sintomas” e tudo mais. Coisas que eu estudava na faculdade e agora vejo acontecerem em mim (é tão diferente ler numa página de livro e viver…).

Quando acontecem? Começaram acontecendo de manhã, na hora de ir pro trabalho, e no começo da tarde, na hora de voltar do almoço pro trabalho. Agora chegaram num ponto em que os sintomas estão quase constantes, com exacerbação ainda nestes horários do dia. Os sintomas são desconfortáveis, prejudicam minha qualidade de vida, meu sono e, consequentemente, a qualidade do meu trabalho. O que é muito difícil pra mim, pessoa que se cobra pra fazer sempre o melhor, sempre com perfeição. E aí ver minha qualidade de trabalho prejudicada me deixa ainda mais ansiosa. E… tcharam! Temos um ciclo.

Quando me dei conta de que tinha caído nesse ciclo terrível, corri pra procurar ajuda (como comentei em outro post).

Os motivos pra isso acontecer são muitos, e talvez eu ainda não tenha plena consciência de todos eles. Provável que a terapia vá escavar mais um tanto de coisas enterradas nessa alma que vos escreve.

Mas é engraçado: na última vez da minha vida em que estive mal a ponto de procurar esse tipo de ajuda, eu estava desesperada e simplesmente perdida. Dessa vez, a crise anterior já me ensinou a lidar com o sofrimento psíquico de forma um pouco mais paciente e tranquila. Estou sofrendo, mas estou sofrendo relativamente tranquila. É estranho isso? Pois é como me sinto.

Talvez por saber que as crises me ensinam um tantão de coisas e fazem crescer meu autoconhecimento a níveis incomparáveis. Sofrimento é uma enorme oportunidade de crescimento e desenvolvimento, especialmente quando utilizamos das ferramentas corretas parar lidar com ele. Eu sei que tenho capacidade de aprender muito com o sofrimento pelo qual passo hoje. E que, estando mais uma vez bem e forte, poderei usar desse aprendizado para ajudar outras pessoas em sofrimentos parecidos.

É parte da beleza da vida, não é? Este monte de sentimentos e confusões…

 

meu cabelo pixie

Nunca mais vou deixar o cabelo crescer. Sério. Que corte mais maravilhoso!!!!!!!!!

Dá uma liberdade na vida…

Tô até com vontade de cortar mais ainda da próxima vez. Quem sabe uma hora dessas eu não cumpro a ameaça de anos e raspo? Né? Por que não?

Não é toda mulher que é obrigada a gostar de cultivar um cabelão, que incomoda horrores e gasta tempo. Realmente não é do meu feitio ficar me preocupando se o cabelo está fora do lugar, com frizz, ou ficar acordando cedo todo santo dia pra fazer chapinha, escovar todos os dias, passar esse e aquele creme, fazer hidratação o tempo todo etc. etc. etc. Se já passei por fases em que tentei me adaptar a essa vida? Com certeza. Que mulher nunca, né? Mas no fim das contas me pegava prendendo o cabelo num coque pra esconder ele, quase todo dia.

 

Só que agora eu descobri que isso não é pra mim, e nem precisa ser! :)

Eu ter nascido com sistema reprodutor feminino não me obriga a ter cabelo assim ou assado. Eu tenho é que ter o cabelo (e o resto do corpo!) que me permita ser o mais feliz possível todos os dias.