rotina

Acho que, na verdade, vou sentir saudades. De cruzar o Mercado Público toda manhã, quando ainda vazio e meio na penumbra; ver o movimento dos trabalhadores se organizando pra começar o dia, o largo da Alfândega ainda vazio e silencioso.

Entrar no prédio e dar um bom dia sorridente para a moça que sempre está no balcão; entrar no elevador onde, geralmente, a senhora que faz a limpeza já está limpando as paredes. Eu pergunto se posso pegar uma carona, ela diz que sim, conversamos amenidades. Ela vem comigo até o décimo andar, que é onde eu trabalho, e nos despedimos desejando bom dia e bom trabalho uma para a outra.

Quando entro no corredor da clínica, já sinto o cheiro do café recém-feito. Se olhar pra trás, a grande janela de vidro do fim do corredor mostra o mar, com as montanhas azuladas no fundo.

Abro a porta da clínica, mais uma vez cumprimento com um bom dia, caminho até o consultório. Abro as cortinas e lá está a vista de todos os dias: a beira mar, a ponte Hercílio Luz, as ruas grandes e movimentadas de Florianópolis. Todos os dias essa paisagem me deixa encantada. Abro então as janelas, e o ar fresquinho da manhã entra na sala.

Visto meu jaleco, pego meus pertences de trabalho na gaveta, pego a xícara que deixei em cima da mesa na véspera e caminho com ela até a jarra de café sem açúcar, que invariamente me espera antes de ser colocada na garrafa. Preparo meu café, volto para o consultório e começo a atender.

No mínimo 50 pessoas completamente diferentes sentam na cadeira à minha frente todos os dias. Algumas são tranquilas, rápidas e objetivas, quase não se fazem notar. Outras tem histórias pra contar – e é fascinante ouvir tantas histórias todos os dias. O mundo é gigante, coisas que nem imaginamos acontecem nele todos os dias. Todo dia é uma lição.

Há dias em que estou bem e consigo lidar com tudo maravilhosamente. Saio do trabalho com aquela ótima sensação de dever cumprido. Há dias, no entanto, em que lidar com tanta coisa é difícil. Faz parte da vida, faz parte da profissão, faz parte do fardo de ser uma pessoa.

Na última hora do dia, geralmente, o movimento diminui. O clima na clínica fica tranquilo; sem não há ninguém, conversamos amenidades. Quando fecha meu horário, despeço-me abanando as mãos acima da cabeça.

Ganho a rua; nesse horário, as ruas do centro estão tomadas de gente. No meio da multidão, caminho até o terminal e pego meu ônibus. É um momento tranquilo do dia. Observo as pessoas, leio meus livros, às vezes tomo um café.

E sigo pra minha casa. No outro dia, tudo igual.

Com o tempo, tudo isso se torna tão comum que, se a gente não prestar atenção, perde a graça. Mas hoje eu parei pra pensar, pra prestar atenção… É o que acontece quando sinto vontade de escrever sobre algo.

Talvez, dessas coisas é que seja feita a vida

dos meus rastros e das minhas mudanças

Eu tenho uma mania engraçada: às vezes, entro aqui no blog e começo a ler posts meus dos anos anteriores do mesmo mês em que estou. Estou aqui sentada lendo posts de abril de 2016, 2015, 2014, 2013, 2012, 2011 e 2010…

 

Fico orgulhosa: como eu mudei! Caramba… Quantos pesos ficaram pra trás! Eu ainda me acho meio desgraçadinha da cabeça, mas eu deveria ter mais paciência comigo mesma, que já foi muito pior. Hahahahaha

Hoje sou uma pessoa muito mais leve do que era há uns anos atrás. Algumas frustrações, caras quebradas, terapias e Nikolas depois, minha vida emocional e meus relacionamentos são OUTRA VIBE. Totalmente. Que coisa bem maravilhosa! Dá vontade até de voltar lá atrás e dizer para aquela Paula: “sossega, criatura! pra quê tá sofrendo com isso? pra quê tanta culpa, tanto drama, tanta cobrança? larga de mão e fica de boas…”

Enfim, eu sei bem que ela tinha seus motivos. E ela aprendeu e mudou, isso que importa.

Mas imaginem vocês que eu era o tipo de pessoa que achava que tinha de ter a vida toda certa e planejada. Queria ter plano de curto, médio e longo prazo, pra até 10 anos. Hoje em dia eu não sei nem o que vou fazer ano que vem… Mal sei o que estarei fazendo mês que vem, na verdade. Aprendi que a vida é inconstante mesmo e que não adianta ficar tentando controlar as coisas.

Eu queria seguir o roteiro, fazer “tudo direito”, ter um bom emprego, trabalhar muito, casar, ter 4 filhos. ATÉ PARECE KKKKKKKK 4 FILHOS! Socorro… Ainda bem que eu comecei a fazer aquele interessante exercício de me perguntar o que EU realmente quero e separar isso do que eu acho que as pessoas querem de mim. Foi um processo longo e difícil esse, de descobrir o que EU queria pra minha vida e o que EU gostava. Aí eu descobri que nem filho eu quero ter. Pelo menos agora eu não quero nunca ter. Quem sabe, né?

Eu também fui o tipo de pessoa que achava que podia prometer eternidade nos meus relacionamentos. E nem digo só de relacionamentos românticos. Eu tinha plena certeza e confiança de que algumas pessoas JAMAIS sairiam da minha vida. De que não havia vida sem elas. Mas, né? Mais uma vez a vida ensinou: ninguém é insubstituível, existe vida antes e depois de qualquer pessoa. Olha quanta gente já entrou e saiu! Pra que ficar tentando adivinhar quem vai ficar e quem não? Deixa o movimento. Deixa as pessoas virem, ficarem o quanto quiserem, irem embora quando algo levar embora. A gente sempre se diverte no meio do caminho, aprende umas coisas e segue a vida sem drama e sem rancor.

E os significados que eu colocava nas coisas? Vishe… Via significado em tudo. Hoje em dia acho a vida tão menos complicada e confusa. (menos confusa, não melhor, vejam bem. eu continuo achando que a vida é uma merda, só acho que ela é o que é, não tem nada de significado ou mensagem subliminar escondida por trás das coisas). Ter propósito na vida é uma coisa muito legal, mas às vezes isso acaba complicando coisas que não são complicadas e confundindo coisas que não são confusas. Às vezes a vida só é uma merda mesmo, e pronto. Ou só é legal mesmo, e pronto.

Mas o que eu acho que mais mudou, de tudo isso, é minha forma de me relacionar com as pessoas. Me tornar uma pessoa mais assertiva foi um processo enooooooooooorme de longo e cansativo. Eu era uma criatura maluca: me autossacrificava pelas pessoas, achava que tinha que ser assim; aí as pessoas não faziam o mesmo por mim, que elas não são obrigadas; aí eu chorava, me sentindo sozinha, abandonada e sem amparo; aí isso desencadeava conflitos; aí eu me sentia culpada, um lixo de ser humano; aí eu me autossacrificava pelas pessoas de novo pra tentar compensar isso tudo; etc etc etc etc. Percebem o drama? Aí eu fiz terapia a primeira vez e me tornei consciente disso e comecei a mudar. Mas, gente, é tão difícil mudar algo TÃO enraizado! Tipo, esse foi o jeito que eu aprendi a me relacionar desde criança. Mudar um hábito de vinte anos é uma trabalheira. Aos poucos fui mudando. O auge da mudança foi quando uma criatura abençoada pelos céus entrou na minha vida.

Aprendi com o Nikolas, na prática, o que é um relacionamento saudável. E, gente, quecoisamarlindadessemundo é um relacionamento saudável. Nikolas é, aparentemente sem esforço algum, a pessoa mais assertiva que eu conheço. Ele é tipo um paciente modelo de terapia cognitivo comportamental. Ele tipo É a PERSONIFICAÇÃO da terapia cognitivo comportamental (só que ele nunca precisou fazer terapia pra isso, o desgraçado). Aprendi que dá pra se relacionar simplesmente falando o que a gente pensa e sente. Que se estivermos aflitos, em dúvida ou achando que o outro está achando algo, a gente chega e pergunta. Aí a gente resolve tudo com 5 minutos de conversa. Se um erra, o outro fala que ficou chateado, o primeiro pede desculpas, o segundo perdoa, e fim. Simples assim. Relacionamentos podem ser simples. Extremamente simples.

Com a simplicidade em lidar com relacionamentos vários, veio como consequência fácil uma crescente sensação de liberdade e ausência de preocupação com a opinião alheia a meu respeito. Tipo, por mais clichê que isso possa parecer.. Genuinamente não me preocupo mais da mesma forma com a opinião das pessoas sobre quem eu sou. Pois consigo concluir sempre, de forma bastante racional, que isso simplesmente não faz diferença na minha vida de força prática.

Quer dizer, as expectativas que as pessoas colocam sobre mim são um problema delas, não meu. Elas que lidem com isso, portanto. Vez ou outra, se você convive comigo, eu vou te decepcionar. Desculpa. É o que as pessoas fazem. O que posso prometer é que vou me arrepender e sentir muito (mas não me martirizar).

Assim como as expectativas que eu coloco nas pessoas são problema meu. Então eu simplesmente comecei a me responsabilizar por elas e lidar com elas. E a me irritar, decepcionar e entristecer muito menos com as pessoas.

Eu também espero muito menos das pessoas hoje em dia, consequentemente, mas é o preço, né não?

Não que eu tenha conseguido mudar tudo isso 100%. O que eu sou é uma complexa construção de uma pitada de genética e um mundo de ambientes e acontecimentos. Eu tenho mecanismos profundos e marcantes demais, que provavelmente vão fazer parte de mim pelo resto da minha vida. Coisas que eu vou continuar driblando.

O legal é que todo dia faço uma descoberta nova a meu respeito, encontro um jeito novo de melhorar e lidar melhor com minhas questões. Eu ainda estou tentando lidar melhor com minha ansiedade, com minha sensação constante de não ser boa ou capaz o suficiente, de ser uma farsa – mas vamos lá, estou caminhando e me esforçando pra melhorar isso também.

Enfim. Eu poderia continuar escrevendo, mas seria um texto infinito. Não dá pra mensurar o tanto de mudanças que ocorrem numa pessoa. E as mudanças vão continuar acontecendo, certeza. Ano que vem olharei pra trás e pensarei “caralho, olha só como eu era ano passado! como pode? ainda bem que eu mudei”

O importante é que essa sensação de “ainda bem que eu mudei” continue presente, sempre

sei que continuo sumida

Tenho trabalhado umas 11 horas por dia. Entro às 07 horas no trabalho, saio às 18h. Peguei todos os horários possíveis na clínica em que trabalho e agarro as oportunidades todas, por um motivo: a viagem do ano que vem.

Precisamos ter dinheiro suficiente para a preparação, para o durante e uma reserva para depois. E ter dinheiro suficiente exige esse esforço. Então, já que é o jeito agora, é o que tenho feito.

Não tem sido tão ruim. Estou aprendendo a levar. Eu, felizmente, gosto demais do meu trabalho, gosto demais de passar o dia conversando com as pessoas.

Chego em casa no fim da tarde, descanso um pouco e vou para a academia. Pra me manter saudável e ativa, para ser menos atingida pela altitude ao longo da viagem e para poder me aventurar em trekkings ao longo dela também.

Termino meu dia às 22h, mais ou menos.

Mesmo nos horários vagos, Nikolas e eu estamos frequentemente conversando, decidindo, fazendo e resolvendo coisas relacionadas à viagem. Tem o carro, o trailer, o planejamento, as finanças pra manter em ordem (não adianta a gente se matar trabalhando e torrar o dinheiro todo, né?).

Como vocês podem ver, minha rotina toda gira em torno da viagem. É ela meu objetivo na vida agora. Eu foco nisso todos os dias, pra continuar atendendo feliz, sorridente e atensiosa com as pessoas.

Ter um objetivo coloca tudo em outra perscpectiva, né?

As coisas estão começando a sair do plano das ideias e tomar forma.

Em junho de 2016, no mais tardar, estarei partindo para passar 6 meses conhecendo a América do Sul.

Mal posso esperar!

do tricô para a vida

Dia desses, vi uma foto na internet de uma polaina de tricô. Decidi, imediatamente, que queria uma. E decidi que queria fazê-la. Portanto, dei uma pesquisada, olhei uns vídeos, achei que parecia super fácil, dirigi-me até uma loja, comprei o material necessário e voltei para casa, muito alegre.

Vocês vão estranhar o que vou dizer agora, mas tenho aprendido grandes lições com o tricô. É uma excelente metáfora para a vida, esta atividade. Por exemplo: assim como a vida, tricô parece muito fácil. Você vê os outros fazendo e pensa “nossa, mas isso aí eu vou fazer plantando bananeira”. Até que você começa.

Você assiste o primeiro vídeo super motivada, o que ensina a colocar a linha na agulha. Se bate um pouco, mas tudo bem. Logo está conseguindo fazer – e super rápido até, olha! Sente-se, então, muito inteligente e autoconfiante. Não caia nessa armadilha: sempre que você se sente muito inteligente e autoconfiante, a vida (ou os pontos de tricô) estão apenas aguardando para te provar o contrário.

Você começa a fazer o primeiro ponto e simplesmente não consegue entender como algo que parecia tão fácil pode causar tantas dúvidas e dar um nó na sua cabeça. É só uma linha enrolada numa agulha! Não pode ser tão difícil! Finalmente você consegue fazer um ponto ou outro. Uma carreira. Duas… Será que está certo, isso? Você não sabe se está fazendo certo ou não. Nunca fez aquilo. Como será que é com as outras pessoas? Passam a mesma dificuldade? Você se sente meio tapada.

Não demorará a constatar que seu tricô está um completo desastre. Você desmancha e faz de novo, perguntando-se onde pode estar errando. Muda um detalhe do ponto. Faz mais um pouco, constata um erro, desmancha tudo. Começa de novo. Constata outro erro, desmancha tudo. Começa de novo.

Enfim, muitos ajustes e estudos depois, finalmente você consegue. Faz o ponto corretamente! Faz três carreiras, estão bonitas! Ocorre algo interessante, então, que é o medo de encostar na agulha, começar a fazer e estragar tudo mais uma vez. Até porque, toda vez que você erra, tem de desmanchar tudo o que já foi feito. A possibilidade de erro gera ansiedade. Dessa vez está dando certo, você já está estragando a linha de tanto desmanchar o trabalho todo. Não pode errar. Não pode errar.

Mas você erra. A vida (e o tricô) é assim, né?

O que resta é pesquisar um jeito de desmanchar só um pedaço, e não o trabalho todo. Você aprende, então, a arrumar o que tinha errado e continuar de onde estava certo. Depois disso, a ansiedade em encostar na agulha e fazer merda some.

Finalmente o tricô (e a vida) começam a render!

 

PS: em breve, terei lindas polainas que usarei todos os dias, pra compensar o trabalho do cacete que estão dando.

o que eu acho que quero realmente

ser psicoterapeuta. não há nada no mundo que me fascina mais do que desvendar a mente humana

nunca houve.

talvez seja esse o meu caminho

eu acho que quero que seja… não foi a inclinação que sempre tive? a característica que me destacava?

qual era o conteúdo dos livros que eu procurava na biblioteca, quando queria passar o tempo na hora do almoço? quais eram minhas aulas favoritas, que atividades extras eu fazia só pelo prazer de me aproximar de um tema? que outro aluno da medicina participava voluntariamente das palestras todas da semana acadêmica de psicologia?

sempre isso… sempre!

terapia

Voltei pra terapia. Comecei hoje.

Da outra vez, fiz cognitivo-comportamental. Agora, to indo pra Gestalt.

A terapeuta é DE.MAIS.

Na sessão de hoje – coitada – derrubei um caminhão de ansiedades em uma hora e meia. Ela captou várias coisas, questionou várias coisas… Foi maravilhoso. Ela diz que estou precisando de um tempo meu, um tempo de autocuidado. Ela tem razão. Quem cuida precisa ser cuidado.

Semana que vem tem mais.

Saí de lá, entrei no carro e, depois de muitas semanas, pela primeira vez me senti relaxada.

Calma: eu sei que terapia não é fácil. E sei que, quando a gente começa, a terapia movimenta muita coisa na gente e a tendência é até que a gente fique meio mal. Mas o que me fez ficar aliviada e relaxada foi ter esperança. De que, agora, estou escalando o poço, e não me afundando nele.

Segunda tenho psiquiatra. A psicóloga falou que é certo que serei medicada, e me chamou a atenção para alguns efeitos que o uso de medicação pode ter em como vou lidar emocionalmente com as coisas e que são importantes de eu ficar atenta. Ela também já me deu uns toques que foram extremamente úteis e que são de aplicação até meio imediata. Tomei algumas decisões, depois de hoje, que me trouxeram um enorme alívio.

Ganhei tarefinhas pra semana que vem. São elas: colocar limites nas pessoas e situações que me tem sugado; e pensar nos erros que já cometi, que eles serão debatidos e analisados semana que vem.

São esses meus problemas desde sempre, né? Achar que tenho de fazer TUDO por TODAS as pessoas SEMPRE e que não posso errar NUNCA, jamais, e que meus erros são inadmissíveis. Esses problemas me trazem um sofrimento gigantesco há muito tempo. É hora de enfrentar isso aí.

O engraçado é observar como eles são os mesmos desde a primeira vez em que fiz terapia, mas que agora, com outra abordagem, são tratados de maneiras diferentes. Estou achando interessante. Tudo isso é aprendizado. Eu penso em como estarei melhora daqui uns meses de terapia, no quanto terei evoluído, aprendido e me tornado um ser humano melhor… E isso me preenche de felicidade.

Eu não vinha sendo feliz.

vamos desabafar um pouquinho

Continuo não estando na vibe de abrir muito o que venho passando. O que é engraçado pra mim, pessoa que sempre escreve e fala sobre tudo que sente. Mas não tenho tido vontade.

Resumirei pra vocês: tenho tido crises de ansiedade. Crises mesmo: palpitação, aperto no peito, sudorese, dor epigástrica, náuseas, inapetência… O pacote completo. Nas crises, tenho medos de “perder o controle sobre mim mesma ou sobre meus sintomas” e tudo mais. Coisas que eu estudava na faculdade e agora vejo acontecerem em mim (é tão diferente ler numa página de livro e viver…).

Quando acontecem? Começaram acontecendo de manhã, na hora de ir pro trabalho, e no começo da tarde, na hora de voltar do almoço pro trabalho. Agora chegaram num ponto em que os sintomas estão quase constantes, com exacerbação ainda nestes horários do dia. Os sintomas são desconfortáveis, prejudicam minha qualidade de vida, meu sono e, consequentemente, a qualidade do meu trabalho. O que é muito difícil pra mim, pessoa que se cobra pra fazer sempre o melhor, sempre com perfeição. E aí ver minha qualidade de trabalho prejudicada me deixa ainda mais ansiosa. E… tcharam! Temos um ciclo.

Quando me dei conta de que tinha caído nesse ciclo terrível, corri pra procurar ajuda (como comentei em outro post).

Os motivos pra isso acontecer são muitos, e talvez eu ainda não tenha plena consciência de todos eles. Provável que a terapia vá escavar mais um tanto de coisas enterradas nessa alma que vos escreve.

Mas é engraçado: na última vez da minha vida em que estive mal a ponto de procurar esse tipo de ajuda, eu estava desesperada e simplesmente perdida. Dessa vez, a crise anterior já me ensinou a lidar com o sofrimento psíquico de forma um pouco mais paciente e tranquila. Estou sofrendo, mas estou sofrendo relativamente tranquila. É estranho isso? Pois é como me sinto.

Talvez por saber que as crises me ensinam um tantão de coisas e fazem crescer meu autoconhecimento a níveis incomparáveis. Sofrimento é uma enorme oportunidade de crescimento e desenvolvimento, especialmente quando utilizamos das ferramentas corretas parar lidar com ele. Eu sei que tenho capacidade de aprender muito com o sofrimento pelo qual passo hoje. E que, estando mais uma vez bem e forte, poderei usar desse aprendizado para ajudar outras pessoas em sofrimentos parecidos.

É parte da beleza da vida, não é? Este monte de sentimentos e confusões…

 

meu cabelo pixie

Nunca mais vou deixar o cabelo crescer. Sério. Que corte mais maravilhoso!!!!!!!!!

Dá uma liberdade na vida…

Tô até com vontade de cortar mais ainda da próxima vez. Quem sabe uma hora dessas eu não cumpro a ameaça de anos e raspo? Né? Por que não?

Não é toda mulher que é obrigada a gostar de cultivar um cabelão, que incomoda horrores e gasta tempo. Realmente não é do meu feitio ficar me preocupando se o cabelo está fora do lugar, com frizz, ou ficar acordando cedo todo santo dia pra fazer chapinha, escovar todos os dias, passar esse e aquele creme, fazer hidratação o tempo todo etc. etc. etc. Se já passei por fases em que tentei me adaptar a essa vida? Com certeza. Que mulher nunca, né? Mas no fim das contas me pegava prendendo o cabelo num coque pra esconder ele, quase todo dia.

 

Só que agora eu descobri que isso não é pra mim, e nem precisa ser! :)

Eu ter nascido com sistema reprodutor feminino não me obriga a ter cabelo assim ou assado. Eu tenho é que ter o cabelo (e o resto do corpo!) que me permita ser o mais feliz possível todos os dias.

cortei o cabelo

Há um tempo eu vinha me apaixonando cada vez mais por cabelos cada vez mais curtos. E vinha cortando o meu cada vez um pouco mais. Mas sempre deixava crescer de novo…

Estava com as madeixas próximas ao ombro. Aí, bateu a louca e resolvi cortar. Decidi ontem, ontem mesmo fui, para não perder a coragem. Cortei num pixie com uma franja mais alongada. Guardei as madeixas para doá-las. Deu um tantão!

Ceis acham que foi fácil? Foi nada! Sentada na cadeira, pronta para cortar, com o cabelo todo amarradinho em elásticos, tremi quando senti a tesoura passando por ele.

Não é engraçado como nos apegamos a coisas supérfluas na vida? Cabelo é coisa tão dinâmica. Cresce, cai, você corta, cresce de novo, você colore, depois corta fora… E cabelo significa o que, afinal de contas, né?

Para grande parte das mulheres, o cabelo está intimamente ligado à autoestima. Passei anos e mais anos brigando com o meu. Anos e anos me preocupando com ele, ao invés de me divertir com ele.

Então, sentada na cadeira, pensei: “mesmo que não dê certo, preciso fazer isso. preciso fazer isso para desapegar do significado que esse monte de pelos que crescem na minha cabeça tem. para desapegar do meu ego e da necessidade de ‘ser bonita’ nos moldes das outras pessoas. para desligar minha autoestima da minha imagem corporal… para provar pra mim mesma que isso não importa. o que importa na vida é viver, arriscar, fazer o que a gente tem vontade. e não perder tempo e energia dessa vida já tão pouca me dedicando a uma massa de cabelos que, depois que eu morrer, vai virar poeira.”

Respirei fundo e segurei uma mecha de cabelo nas mãos, sorrindo. Como pode isso ter tanto significado? Pois é…

Que sensação de leveza, meu Deus! Sentir o vento bater na nuca. Não ter cabelo voando na cara. Não me preocupar de o vento bagunçar. Uma sensação, assim, de poder, sabe? Poder sobre mim mesma. Satisfação comigo mesma. De ter atingido um nível de autoconfiança inédito na minha vida: a ponto de não ligar absolutamente para a opinião alheia. As pessoas me acharem bonita ou não simplesmente não importa! Isso tira um peso da gente. Isso tira tantas limitações de cima da gente. Poder sobre mim mesma, sim… Pois nossa obrigação de “sermos bonitas sempre” nos controla. Dá poder aos outros sobre nós, o arranca de nossas mãos.

Pois eu tomei o meu de volta. E agora ele é só meu, de mais ninguém.

Na rua, já notando os olhares das pessoas, eu sorri. CARA, isso vai ser muito divertido!

 

o dia da mulher

O dia da mulher, pra mim, é sempre um dia de reflexões. É um dia de pensar em tudo que envolver “ser mulher”. Isso começou tão cedo na minha vida que eu já nem me lembro mais – no dia do meu nascimento, provavelmente.
 
“Ser mulher” não é apenas um pequeno detalhe, mas algo que permeia todas as minhas experiências.
 
Quando eu era pequena e gostava de jogar bola, por exemplo, a todo momento eu tinha de “provar que jogava bem”, pois cada menino diferente que entrava na quadra costumava fazer comentários do tipo:
– Pode chutar no gol, ela é menina! (quando eu estava jogando como goleira)
– Vocês podem ficar com um a mais, no time de vocês tem uma menina.
– Por ali! Passa por ela que ela é menina!
E demais “obviedades” relacionadas ao fato de eu “ser uma menina” e, portanto, é CLARO que eu jogava mal, não é mesmo? Então, o outro time se organizava para passar por mim, que enquanto menina, era com certeza o elo fraco do time.
 
E frequentemente, quem jogava no mesmo time que eu não me passava a bola – pois, é claro, ninguém quer passar a bola para a menina, já que a menina irá perder a bola e prejudicar o time. Então, quando eu tinha raramente a chance de encostar na bola, eu NÃO PODIA ERRAR. Eu tinha de jogar perfeitamente, ou ficaria a ver navios o jogo todo.
 
Então, todo novo jogo com alguém diferente sempre foi um desafio para mim, no qual eu tinha de provar que sabia jogar. Eu ficava nervosa, ansiosa para mostrar o que sabia fazer e não conseguia “jogar só pela diversão”. Eu jogava pelo meu orgulho. Jogava para me provar.
 
Depois que eu conseguia mostrar que não jogava feito uma toupeira, as reações variavam: alguns ficavam surpresos; outros ficavam com raiva. Coisa que também costumava acontecer quando os meninos perdiam a bola para mim era me acusar de tê-los machucado, pois “menina é tudo caneleira”. Ou seja, para eu tirar a bola deles sendo menina, só mesmo quebrando as regras, não é mesmo? Somente os chutando na canela. Mesmo que isso não tivesse acontecido.
 
Isso tudo passava na minha cabeça durante um inocente jogo de futebol entre outras crianças de 9 ou 10 anos. Eu fui crescendo e convivendo com outras coisas relacionadas a”ser mulher” muito mais fortes, tristes e perigosas do que essa.
Vejam bem, essa “historinha” sobre jogar futebol na infância é uma metáfora sobre o que foi crescer sendo uma mulher. ISSO é socialização feminina. Do mesmo jeitinho que aconteceu no futebol aconteceu em todas as áreas da minha vida. Você deve imaginar como me deixa puta dizerem que feministas “se vitimizam” quando você foi julgada automaticamente como inferior ao longo de toda sua vida, e tudo que o feminismo fez foi me fazer enxergar que isso acontece – e que isso acontece por eu ser uma mulher.
Um dia eu tomei consciência de que a experiência de crescer “como uma mulher” estava emaranhada em mim de um modo tão forte, que todo o meu funcionamento emocional foi influenciado por isso. Todo. Ser mulher, ser tratada como uma mulher, crescer como alguém do sexo feminino faz parte de cada segundo do meu dia. Faz parte de cada segundo do meu dia me provar enquanto pessoa, encontrar o meu espaço, provar que minha capacidade não é inferior. PERCEBER que isso acontece não é, nem de longe, me vitimizar – é reconhecer minhas especificidades, reconhecer minha história, reconhecer que os motivos de tantas coisas terem acontecido na minha vida é… Eu ter nascido com um aparelho reprodutor feminino. E isso acontecer não é questão de opinião. É UM FATO. Se não acontece com você não significa que não aconteça com ninguém. 
As pessoas me limitam por eu ser mulher. Isso está fora do meu controle.
As pessoas me tratam diferente por eu ser mulher. Isso não é culpa minha.
As pessoas me colocam numa posição inferior (automaticamente!) por eu ser mulher. Não sou EU quem me vitimizo ou diminuo.
E tudo isso fez parte do que eu sou ao longo de toda a minha vida. E eu sei que fará parte de toda minha vida continuar provando o contrário (às vezes é tão cansativo!).
Todos os dias 08 de março eu sou dominada por uma gigantesca vontade de chorar.