“não somos lixo”

Não somos lixo.

Não somos lixo e nem bicho.

Somos humanos.

Se na rua estamos é porque nos desencontramos.

Não somos bicho e nem lixo.

Nós somos anjos, não somos o mal.

Nós somos arcanjos no juízo final.

Nós pensamos e agimos, calamos e gritamos.

Ouvimos o silêncio cortante dos que afirmam serem santos.

Não somos lixo.

Será que temos alegria? Às vezes sim…

Temos com certeza o pranto, a embriaguez,

A lucidez dos sonhos da filosofia.

Não somos profanos, somos humanos.

Somos filósofos que escrevem

Suas memórias nos universos diversos urbanos.

A selva capitalista joga seus chacais sobre nós.

Não somos bicho nem lixo, temos voz.

Por dentro da caótica selva, somos vistos como fantasmas.

Existem aqueles que se assustam.

Não somos mortos, estamos vivos.

Andamos em labirintos.

Depende de nossos instintos.

Somos humanos nas ruas, não somos lixo.

Carlos Eduardo (Cadu), Morador de rua em Salvador.

O poema acima está no começo do Manual sobre cuidado à saúde junto à população de rua.

E sabem o que? A partir de hoje, oficialmente, eu sou médica do projeto “Consultório de rua”!

o defeito que sustenta o prédio inteiro

Todo mundo tem. Aquele defeito insuportável que ao mesmo tempo sustenta o que você tem de melhor.

Eu tenho. E tenho andado muito pensativa, principalmente desde que me formei, sobre ele.

Sou uma pessoa absurdamente sensível.

Chego a quase sentir o cheiro de uma pessoa sofrendo a quilômetros de distância de mim. Tenho imensa facilidade em compreender os sentimentos e reações das pessoas. E imensa facilidade em ultrapassar a barreira das pessoas mais fechadas e desvendar a razão de serem o que são, e descobrir suas histórias. Tenho uma grande aptidão para “ler” os sentimentos das pessoas e lidar com eles. É a qualidade minha de que mais gosto, e ela foi construída ao longo de anos e mais anos. Não é algo de agora. Foi, ao mesmo tempo, fruto de uma história pessoal de algum sofrimento e fruto de um exercício exaustivo e constante.

A história pessoal foi o que me fez abrir os olhos, primeiro, para pessoas com sofrimentos parecidos com os meus. E, com o passar dos anos, para pessoas com sofrimentos diversos, e muitos deles muito maiores do que eu jamais conseguiria imaginar sozinha.

Aí aconteceu que eu me dei conta de quanto meus sofrimentos eram pequenininhos em comparação com o de alguns grupos de pessoas, e isso deu sequência ao exercício exaustivo para entender as pessoas, com todas as suas complexidades. É um exercício que continuo fazendo, dia após dia, e posso afirmar com certeza que se tornou meu propósito de vida (embora de forma meio involuntária): desenvolver minha empatia e meu amor pelas pessoas. Não julgar, não tirar conclusões precipitadas, conseguir me colocar no lugar das pessoas mais difíceis, olhar o mundo como elas olham, e não conforme o que eu acredito.

Só que, por mais bonito que isso possa soar, é motivado por algo nada nobre, que é meu imenso sentimento de culpa por ter uma vida tão boa, enquanto há tanta gente sofrendo por aí. Bem como alimentar uma criança interior ávida por afeto e atenção (pois todos tem uma criança que não conseguiu crescer ainda dentro de si).

Essa minha característica também desencadeia uma séria perturbadora de defeitos. Minha imensa sensibilidade me torna algo instável emocionalmente – posso estar perfeitamente feliz numa manhã de domingo, e aí subitamente me tornar sombria e triste por ter visto alguém na rua em situação vulnerável. Me torna explosiva e eternamente indignada, pois vejo e absorvo todo o sofrimento ao meu redor, todos os dias, e todo o sofrimento que vejo me dói, e isso vai crescendo e acumulando dentro de mim até escapar por alguma porta no caminho: um rio de lágrimas, um surto de raiva, uma discussão fervorosa. A Paula sendo “ativista”, “chata”, implicando com as piadas das pessoas, fazendo cara feia para certos comentários, ficando brava, levando tudo a sério. Me torna inquieta, teimosa, cheia de “opiniões fortes” das quais tenho imensa dificuldade em abrir mão. Certas coisas, pra mim, não questão de opinião, e eu fico chateada quando não concordam comigo em alguns pontos – que considero cruciais. Mas, por outro lado, e se não forem?

Tenho atitudes nesta linha por acreditar que essa “luta” pode aliviar a vida das pessoas que estão em maior sofrimento do que as outras. Que basta eu ir “mudando a opinião” de alguns grupos de pessoas, e aí isso poderia se alastrar e causar mudanças maiores com o tempo. Mas e se não mudar? E se a vida não aliviar pra quem sofre? E se não tiver solução? E se eu nem tiver razão? (e considerar isso me causa uma dor que vocês nem imaginam) E se, independente das minhas indignações, o mundo simplesmente continuar sendo uma merda? Afinal de contas, somos todos seres humanos, e continuaremos nos fazendo sofrer continuamente. É o que somos, não conseguirmos evitar isso. Eu mesma faço outras pessoas sofrerem. Mas, também, como não ficar indignada com um sofrimento que presencio e sinto de forma tão constante e real? Como não acreditar no que acredito, como não manter minhas convicções diante do que vivencio todos os dias?

Ainda não descobri estes equilíbrios todos. A minha briga interna atual tem sido conseguir manter minha sensibilidade e, ao mesmo tempo, lidar com os problemas que ela ocasiona. Não tem sido nada fácil. Serenidade não é bem uma característica minha. Também não tenho lá muita habilidade em abstrair de questões quando me envolvo com elas.

O que vou fazer? Continuar tentando

(por via das dúvidas, hoje a tarde vou ligar para a psicóloga… são tempos, definitivamente, de retomar a terapia)

ando sentimental

São dias de estar à flor da pele. Não tenho tentado bloquear o sentimento… Estou apenas observando, me deixando sentir.

A paciente está sentada na cadeira à minha frente falando sobre como, depois do câncer, ela “acordou pra vida”. “Claro que o câncer foi ruim que eu podia ter morrido, né? Mas por outro lado foi bom. Eu me dei conta de que eu não estava vivendo. Depois do câncer, eu acordei. Antes eu não saía de casa, só queria saber de limpar a casa, não fazia nada.” E aí ela segue me contando sobre como ela começou a dançar, e como ama dançar, e sobre como adora andar de ônibus na janela pra sentir o vento bater no rosto.

Sim, eu tinha dezenas de pacientes pra atender depois dela. Mas fiquei ali sentada, ouvindo. Aprendendo.

Antes de ela deixar o consultório, nos abraçamos forte, como duas amigas que há tempos não se viam. Fechei a porta e sequei as lágrimas que brotavam no cantinho dos olhos.

Estou no semáforo e vejo um senhor, de cerca de 60 anos, vendendo coisas no sinal. Ele tem um olhar cansado e um andar vacilante. Sinto uma profunda compaixão pela situação dele. A chuva fina caindo e aquele senhor, que a essa altura da vida deveria estar tranquilo, de pé, no meio da tarde, no meio dos carros. Meu coração dói. Sinto-me mal por estar no conforto de um carro, indo para minha casa confortável. Sinto, novamente, uma lágrima percorrer meu rosto e cair no meu colo.

Estou olhando o Facebook, casualmente, e surge um vídeo de um grupo feminista. Ele mostra uma multidão de mulheres segurando cartazes, gritando em coro: “Pela vida! O corpo é nosso! É nossa escolha! É pela vida das mulheres!” contra o PL 5069. Sinto um arrepio percorrer o meu corpo.

Orgulho! Orgulho dessas mulheres que foram à rua! Como queria estar lá, gritando junto!

Choro enquanto assisto. Repeti o vídeo várias vezes.

Pela vida das mulheres! Pois ninguém mais se importa conosco, a não ser nós mesmas. Homem nenhum está interessado em que tenhamos autonomia sobre nosso corpo. Homem nenhum está interessado no sofrimento que passamos por não termos essa autonomia – muito menos Eduardo Cunha e sua corja.

Essa vida, cheia de seus sofrimentos, cheia de suas coisas. Tão cheia de complexidades.

Me fez lembrar Drummond:

“Mundo, vasto mundo
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo, vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.”

Pois se não há solução pra esse sofrimento todo, vamos transformar parte dele em amor e arte

pois é difícil ser recém formada

Hoje, em mais de um momento me senti a pior médica do mundo.

Um deles foi no final de manhã. Após uma manhã relativamente bem sucedida de atendimentos, chegou uma senhora que cortou a mão com uma jarra de vidro. Dei uma examinada e constatei que seria necessário dar uns dois pontinhos.

A enfermeira me ajudou a prepara o material para a sutura. Começo. Dali a pouco, chega a segunda enfermeira, espiando o que eu estava fazendo. Comecei a ficar tensa, com duas pessoas paradas ao redor me olhando. Dali a mais um pouco, entra ainda o outro médico, mais experiente, para olhar também.

Eram só dois pontinhos.

Mas fiquei nervosa com a plateia e me atrapalhei. Consegui concluir o trabalho, mas acho que ficou evidente para todos na sala o meu nervosismo e atrapalho. Senti-me envergonhada.

Já na segunda consulta da tarde, mal havia me recuperado da vergonha do final da manhã, chega um senhor com dor abdominal já há 15 dias, que já havia passado por médicos e hospitais mil. Trouxe uma sacola de exames e outra de remédios. Na sacola de exames: ultrassom, tomografia, endoscopia digestiva alta… Na sacola de remédios, nem poderia descrever; mas todos os medicamentos possíveis estavam lá. Pensei: “vou começar tudo de novo e fazer uma boa anamnese e exame físico”. Fiz isso. Foram 40 minutos de consulta, nos quais me esforcei genuinamente para compreender o problema e ajudar o paciente.

Terminei a consulta admitindo para ele que não sabia o que dizer.

É muito difícil ser recém formada. É um desafio constante, diário, isso de aprender a ser médica. Lidar com as frustrações, com a complexidade que é o ser humano, com a complexidade que é a parte técnica da medicina. É tanta pressão, tanto medo de não ser boa o suficiente. Espera-se que você seja capaz de resolver tudo, que saiba tudo sempre, que jamais vacile.

Está difícil ser recém formada. Mas não tenho outra opção.

acostumando

Completei uma semana de trabalho.

A ansiedade tem diminuído bastante. Estou me habituando à rotina, ao local, à equipe… E o principal, a atuar como médica.

Estou descobrindo mais algumas coisas sobre mim mesma, a esse respeito: sou bastante exigente com o processo todo. Gosto de fazer anamneses completas, ouvir o paciente e tirar suas dúvidas e falar de suas ansiedades; de fazer exames físicos detalhados; de registrar no prontuário de forma completa e organizada; gosto de escrever encaminhamentos bem explicados; gosto de solicitar exames apenas quando há indicação precisa; gosto de prescrever medicamentos conforme as diretrizes/cadernos de atenção básica. O primeiro problema é que tudo isso demanda tempo, de modo que é difícil fazer uma consulta minha durar menos de 30 minutos. O segundo problema é que isso demandado muuuito estudo.

Mas, de qualquer forma, tenho conseguido manter boas condutas até o momento (acredito), tenho sido franca com os pacientes quando minha inexperiência me limita (admitindo quando não tenho experiência com um determinado assunto ou não sei de algo – e até agora ninguém demonstrou se incomodar com isso), e tenho aprendido como nunca antes!

Os dias que se passaram desde 16/07/2015 tem sido os mais intensos da minha vida, eu acho. E também de intenso crescimento!

cansada

É maravilhoso ser médica, mas está puxado, também.

Dedico 100% do que posso nas consultas (mesmo que, por enquanto, ainda sejam poucas). Depois, estudo avidamente para revisar cada conduta minha. Estou aprendendo muito, mas ainda é um período de um pouco de ansiedade, um pouco de insegurança e muita carga emocional (sempre, né? medicina é carga emocional de tamanho progressivamente maior, a começar pelo momento em que você decide fazer).

Cheguei em casa cansada. Tomei banho, jantei e me dei conta de que tenho uma apostila de ACLS para ler. E tenho de ler ela até quarta que vem. Assimilando bem as informações, inclusive.

Sinto-me exausta. Precisando do final de semana, para relaxar e ter um pouco de tranquilidade!

SIM!

Dezenas de nãos depois, sexta passada, eu ouvi um sim! Fui contratada como médica de ESF em uma Unidade Básica de Saúde. Foi uma correria de burocracias; documentos, abertura de conta, ir para um lado e para outro. E a euforia! E a ansiedade!

Hoje foi meu primeiro dia de trabalho. Estava ansiosa ontem a noite… E estava um pouco nervosa hoje de manhã. Quanto chamei o primeiro paciente  (Seu Antonio! Duvido que um dia vá esquecer esse nome), sentia tremer por dentro, mas me esforcei para transparecer calma.

Expliquei para todos os pacientes, hoje, que sou a médica nova da Unidade, que ainda estou me adaptando e que talvez eu tenha de tirar dúvidas com a equipe ou me atrapalhe em alguma coisa. Nenhum deles se chateou com isso! Todos sorriam e disseram que claro, é normal ficar meio perdida no começo.

Foi um dia lindo, lindo. Ainda não abriram agenda pra mim; então, o volume de atendimentos foi pequeno (atendi só acolhimentos). Mas é indescritível a sensação de estar ali, atuando, realizando o sonho de ser médica (agora sim!). Só ouvi coisas bonitas: “tomara que você fique, que você é maravilhosa!”; “Deus te abençoe, doutora!”; e um deles, depois de eu dizer que queria vê-lo em breve: “que ótimo! vai ser um prazer!”.

A população estava sem médico a tempos, e parece ter uma enorme carência por atenção nesse sentido. Fiz tão pouquinho, e senti tanta gratidão.

E, felizmente, meu medo de não ser boa o suficiente está começando a diminuir. A facilidade em me relacionar eu já sabia que tinha. Quanto à parte técnica… Saber tudo, ninguém jamais saberá; mas quem se importa vai atrás, estuda e aprende. Como eu fiz hoje. Eu me importo. Me importo muito!

Acho, sinceramente, que hoje foi um dos dias mais felizes da minha vida.

o primeiro paciente II

Mencionou casualmente, no dia seguinte à melhora do quadro clínico, que haviam surgido umas “bolinhas vermelhas” no rosto.

Só que eu não estava mais lá para ver pessoalmente; por foto também não apareceu. Passei o dia angustiada: meu Deus! Será que deixei passar alguma coisa? Fiz alguma coisa errada. Ai, não. Será que são petéquias? Será que… E saí pesquisando coisas. E enchi ele de perguntas o dia inteiro, e fiquei o tempo todo mandando “como você tá?”, até ele encher o saco.

Ele continua bem, na real. Não aconteceu nada. Aparentemente, não deixei passar nada, não. Mas é que… Imagina!

Devo ser a médica mais preocupada do mundo. Ai, ai.