aí ela me disse… (V)

– E essa crise de ansiedade de sábado? Me fala sobre ela.

– Olha… Não sei. Foi do nada, assim.

– Não, não. Do nada, não. Nunca é do nada. Pode ir me contando o que você estava fazendo…

Rimos. Comecei a pensar. Fui contando para ela a situação na qual a crise se desenrolou. Enquanto eu contava, ela apenas me ouvia atentamente, até que ela encontrou, aparentemente, o que procurava.

Ela sorriu, se ajeitou na cadeira (como fazem os psicólogos quando encontram o que procuram) e repetiu uma de minhas frases pausadamente:

– “Estava ali sem saber o que fazer”… Você vê? A ansiedade é resultado de um conflito.

Eu fiquei olhando para ela.

Eu sempre tenho de saber o que fazer? Sempre tenho de fazer algo, caso contrário a desgraça é iminente?

o que eu acho que quero realmente

ser psicoterapeuta. não há nada no mundo que me fascina mais do que desvendar a mente humana

nunca houve.

talvez seja esse o meu caminho

eu acho que quero que seja… não foi a inclinação que sempre tive? a característica que me destacava?

qual era o conteúdo dos livros que eu procurava na biblioteca, quando queria passar o tempo na hora do almoço? quais eram minhas aulas favoritas, que atividades extras eu fazia só pelo prazer de me aproximar de um tema? que outro aluno da medicina participava voluntariamente das palestras todas da semana acadêmica de psicologia?

sempre isso… sempre!

aí ela me disse…(IV)

– Paula, quero que você pense numa coisa ao longo dessa semana. Isso que você me contou demonstra uma dinâmica sua. De reagir sempre de acordo com o desejo do outro, para atingir as expectativas do outro. O que eu quero que você preste atenção é: o que você quer? O que você sente?

A pergunta que devolvi a ela foi envolvida numa espécie de súplica:

– Mas… Eu não sei. Acho que isso de certa forma se tornou um hábito tão forte, é algo tão automático, que eu não sei direito…

Eu sorriu docemente:

– Que você não sabe o que você quer? Mas está aí. Você só tem de aprender a ler os sinais. Eles estão aí…

Mais tarde, contando da sessão para o Nikolas, ele comentou comigo que, ao que parece, todos os meus problemas e minhas questões terminam nisso. Giram em torno disso. Concordei. Acho até que minha dificuldade em aceitar meus erros se deve a isso: o que me causa dor é não atender às expectativas das outras pessoas. E o que me gratifica enquanto ser humano é atender expectativas das outras pessoas.

Quando eu não faço o que as pessoas esperam, quando não as surpreendo positivamente, quando não faço o suficiente por elas… eu sofro. E sinto que falhei. Que não sou suficiente. Que sou uma péssima pessoa. Que sou egoísta.

Que não sou suficiente…

daí quem disse fui eu

– Sim, com certeza. E eu não busco isso só na profissão. Eu sempre me aproximei das pessoas que aparentavam fragilidade, dos “excluídos” das turmas na escola… Fiz trabalho social por muitos anos. Eu acho que me sinto responsável. Acho que tem uma coisa de culpa por me sentir muito privilegiada… E saber que as pessoas sofrem. Se eu, privilegiada, não ajudar as pessoas que estão sofrendo (que eu identifico como não privilegiadas), estarei sendo egoísta!

E aí a tirada dela, com um leve, bem leve, quase imperceptível tom de ironia na voz:

– Bastante cristão, isso, não é?

Eu ri. Rimos juntas.

– Sim… Sou nascida e criada dentro de uma família bastante religiosa, e…

 

(e aí as culpas me cercam por todos os lados. pois duvido muito que Cristo estaria de acordo com isso!)

aí ela me disse… (III)

– Mas, Paula… Você escolheu isso, não é? Escolheu fazer medicina, que já é uma profissão de bastante doação, de muita exigência, de cuidado às pessoas… E, não bastando escolher medicina, você escolheu o trabalho mais difícil, com a população de mais fragilidade. Por que será que você sempre busca isso? Não fazemos nossas escolhas ao acaso. Algo nisso deve te alimentar

 

né que ela tá certa

aí ela me disse…

– Quando você já vai para uma determinada experiência com a expectativa de que tudo corra com perfeição, você não se entrega à experiência… Não se permite simplesmente ir percebendo como você se sente, conectar espontaneamente as informações e buscar soluções criativas.

Meus olhos chegaram a brilhar: era isso.

– Ai… Eu queria tanto ser assim! Queria tanto ser mais criativa, mais espontanea. Isso se reflete em tantas áreas da minha vida…

– Paula – começou ela, se ajeitando na cadeira – vou ser realista com você. Eu não sei se algum dia você vai conseguir ser assim. Você passou muitos anos vivendo em um padrão muito rígido e controlado. Mas acredito – e aí ela sorriu – que você pode trabalhar isso e melhorar muito, com certeza!

Fiquei feliz e triste com essa constatação. Eu tenho dentro de mim esse desejo. Gigantesco. Agora percebo que eu já o vinha buscando.

Marido me sugeriu que eu busque me expressar mais artisticamente. Achei uma sugestão genial. Vamos tentar, né? Ficar parada me lamentando por não ter nascido espontânea não vai me levar a lugar algum…