Como assim, “O peixe que comia estrelas”?

A curiosa história do peixe que comia estrelas

Essa é uma daquelas histórias que dispensam a lógica. Ela só existe por que foi imaginada, e apenas isto já é suficiente para torná-la real – essas histórias imaginadas são as melhores, posto que não exigem explicações e nem precisam seguir o óbvio, são livres, e portanto mais completas. Ainda que, vez ou outra, meio absurdas. Mas histórias imaginadas não foram feitas para os normais, e os loucos não as questionam, fazem parte delas.

Ela começa na profundidade misteriosa de um oceano qualquer. Nesse oceano qualquer, havia um peixe qualquer entre tantos outros, com uma singela diferença que mudou seu rumo: era azul com pintinhas laranjadas. Muitas pintas laranjadas espalhadas por seu corpo azul-marinho. E, quando fazia sol, elas refletiam a luz que lhes chegava. Fosse por inveja, fosse por o acharem esquisito mesmo, virou alvo de piadas dos seres marinhos que povoavam aquele oceano. Como não tinha amigos com quem dispensar horas conversando, dispensava as horas de conversa consigo mesmo. Por pouco falar, muito pensava, e ao mesmo tempo em que se amava por ser capaz de pensar com tamanha profundidade, se odiava por não ter aparência aceitável no meio social. Não era deprimido por ser capaz de sentir, mas a tristeza e a solidão o assolavam sempre que estava rodeado de outros peixes.

-Que estranho peixe sou eu, ele pensava, por me sentir tão sozinho quando em meio a multidão.

Quando a multidão ia embora, ele se reencontrava consigo mesmo, e então se sentia alegre outra vez.

-Mas isto não é felicidade plena. Eu quero a felicidade plena e, para tanto, preciso me relacionar. Como poderei fazê-lo, possuindo em meu corpo estas manchas tão horríveis? Preciso livrar-me delas, resolveu ele.

Nadou observando atentamente para ver se encontrava um algo qualquer que ajudasse a se livrar de todo aquele incômodo alaranjado.

Encontrou algumas algas, e tentou enrolar em seu corpo, de modo a esconder o que não devia ser visto. Mas os outros peixes riram, achando-o ridículo, e além do mais, elas se soltaram.

Espremeu uma anêmona e encontrou nela estranha substância colorida. Passou por sobre o laranja, na tentativa de pintá-lo. Mas os outros peixes riram, achando-o ridículo, e além do mais, a estranha substância escorreu.

Parou em frente a uma pedra, e esfregou-se vigorosamente nela, na tentativa de lixar sua pele e torná-la de cor uniforme. Mas machucou-se, sentiu dor, e parou num canto qualquer.

– Não posso me livrar disso, concluiu. Que fazer, então, para ser aceito?

Pensou e pensou. Resolveu que, talvez, se fingisse não possuir pintas alaranjadas, os outros peixes não as perceberiam. Saiu, então, nadando oceano afora para tentar encontrar alguém com quem conversar. Mas percebeu que aquilo não funcionaria quando, ao passar por outros dois peixes, eles gritaram:

– E aí, esquisitão? Vai aonde desse jeito? Tá com catapora?

O pobre peixe, então, abaixou a cabeça e nadou rápido, para longe, onde pudesse ficar sozinho. “Jamais serei feliz assim. Preciso ir para um lugar onde ter um corpo que reflita feixes de luz não seja assim tão ruim.”

Escurecia. O peixe se pôs a olhar para todos os lados, a fim de encontrar um lugar para onde ir. E então, de repente, ocorreu-lhe de olhar para… Cima! E ele olhou. E viu uns pontinhos brilhantes se destacando naquele escuro. “Eu tenho que ir para lá!”.

E pegou o primeiro ônibus para a lua.

(Lembrem-se, essa não é uma história que faça sentido, e não interessa se não há ônibus para a lua saindo do fundo do oceano. No fim, tudo o que conta é a imaginação do próprio peixe).

A lua era grande e brilhante. O peixe viu que ela refletia a luz do sol. Ele também estava cintilando. Mas ele não era como a lua. Ele era como que um mini-céu, escuro com pontinhos cintilantes, tais como estrelas.

O peixe saiu, feliz, a flutuar pelo céu. Percebeu que o céu não brilhava por si, mas possuía estrelas que ardiam em seus brilhos e tornavam o céu tão bonito. O peixe, igualmente, não brilhava por si, mas possuía pintas alaranjadas em seu corpo que eram capazes de cintilar, se tivessem como arder em seus brilhos. E que combustível arrumarei para minhas pintas-estrelas?, perguntou-se o peixe.

E devorou uma estrela.

Doeu-lhe, por uns segundos. Mas depois, ele passou a brilhar como nunca.

E sentindo falta do oceano, voltou para lá.

Agora, já não importava mais se os outros peixes gostavam dele ou não, ou se o achavam esquisito: ele era um mini-céu, e gostava disso. Seu brilho iluminava o oceano escuro, à noite. Ele até ajudou peixes perdidos a encontrarem novamente o rumo de suas casas, iluminando para eles o caminho. Mesmo os peixes que, outrora, riram dele.

Ele não se importava; os peixes eram assim mesmo. Tinham memória fraca e pouca percepção para se colocar no lugar de peixes menos favorecidos.

Vez ou outra, a luz enfraquecia e o pequeno peixe tinha de pegar outro ônibus para a lua, engolir uma estrela, doer-se um pouco disso, e então voltar para o oceano. Mas ele não se importava; agora ele não tinha uma vida vã. O peixe que comia estrelas vivia para ajudar os outros. E sabia que só tinha alcançado a isso pois, por algum tempo, tivera que sofrer para, assim, buscar seu lugar no mundo.

E ele se encontrou.

The End.

(História de autoria de Paula Schmidlin, a escritora desse blog)

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