so come over

just be patient and

dont worry

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frente fria

a frente fria trouxe com ela o meu tipo de dia favorito: dias de céu bem azul sem nuvens, com muito vento. esses dias me deixam automaticamente feliz, não importa o que esteja acontecendo.

por exemplo: estou resfriada. passei o dia tossindo, espirrando e tendo de assoar o nariz a cada 5 minutos. isso não é nada agradável quando você passa o dia atendendo várias pessoas. mas eu não estava nem dando bola. pedia desculpas aos paciente e continuava atendendo alegremente – hoje não há uma nuvem no céu e está frio, portanto nada pode acabar com o meu dia!

depois do almoço vegano no meu restaurante favorito, me dei ao luxo de um capuccino italiano. sentei num muro, sob a sombra de uma árvore, em pleno centro de Floripa. e, sorvendo vagarosamente golinhos de capuccino, passei 20 minutos simplesmente olhando para cima.

no fim da tarde, já em casa, eu fiz algo que é uma das minhas coisas favoritas em todo o universo e que, por uma série de motivos se tornou difícil e raro: sentei na varanda com meu livro do momento (“terras do sem fim”, do maravilhoso e favorito jorge amado) e fiquei simplesmente.. lendo e tomando sol.

é uma atividade, essa, que me preenche de inimaginável prazer. o vento frio, o sol morninho, as teias em que jorge amado nos enrola com seus fascinantes personagens e suas complexas personalidades.

vez ou outras erguia os olhos do livro, olhava para a frente, observava o céu mais um pouco.

escrevo, agora, tomada de uma tremenda sensação de paz. uma sensação de que nada pode dar errado, já que é tão simples e de fácil alcance a felicidade.

rotina

Acho que, na verdade, vou sentir saudades. De cruzar o Mercado Público toda manhã, quando ainda vazio e meio na penumbra; ver o movimento dos trabalhadores se organizando pra começar o dia, o largo da Alfândega ainda vazio e silencioso.

Entrar no prédio e dar um bom dia sorridente para a moça que sempre está no balcão; entrar no elevador onde, geralmente, a senhora que faz a limpeza já está limpando as paredes. Eu pergunto se posso pegar uma carona, ela diz que sim, conversamos amenidades. Ela vem comigo até o décimo andar, que é onde eu trabalho, e nos despedimos desejando bom dia e bom trabalho uma para a outra.

Quando entro no corredor da clínica, já sinto o cheiro do café recém-feito. Se olhar pra trás, a grande janela de vidro do fim do corredor mostra o mar, com as montanhas azuladas no fundo.

Abro a porta da clínica, mais uma vez cumprimento com um bom dia, caminho até o consultório. Abro as cortinas e lá está a vista de todos os dias: a beira mar, a ponte Hercílio Luz, as ruas grandes e movimentadas de Florianópolis. Todos os dias essa paisagem me deixa encantada. Abro então as janelas, e o ar fresquinho da manhã entra na sala.

Visto meu jaleco, pego meus pertences de trabalho na gaveta, pego a xícara que deixei em cima da mesa na véspera e caminho com ela até a jarra de café sem açúcar, que invariamente me espera antes de ser colocada na garrafa. Preparo meu café, volto para o consultório e começo a atender.

No mínimo 50 pessoas completamente diferentes sentam na cadeira à minha frente todos os dias. Algumas são tranquilas, rápidas e objetivas, quase não se fazem notar. Outras tem histórias pra contar – e é fascinante ouvir tantas histórias todos os dias. O mundo é gigante, coisas que nem imaginamos acontecem nele todos os dias. Todo dia é uma lição.

Há dias em que estou bem e consigo lidar com tudo maravilhosamente. Saio do trabalho com aquela ótima sensação de dever cumprido. Há dias, no entanto, em que lidar com tanta coisa é difícil. Faz parte da vida, faz parte da profissão, faz parte do fardo de ser uma pessoa.

Na última hora do dia, geralmente, o movimento diminui. O clima na clínica fica tranquilo; sem não há ninguém, conversamos amenidades. Quando fecha meu horário, despeço-me abanando as mãos acima da cabeça.

Ganho a rua; nesse horário, as ruas do centro estão tomadas de gente. No meio da multidão, caminho até o terminal e pego meu ônibus. É um momento tranquilo do dia. Observo as pessoas, leio meus livros, às vezes tomo um café.

E sigo pra minha casa. No outro dia, tudo igual.

Com o tempo, tudo isso se torna tão comum que, se a gente não prestar atenção, perde a graça. Mas hoje eu parei pra pensar, pra prestar atenção… É o que acontece quando sinto vontade de escrever sobre algo.

Talvez, dessas coisas é que seja feita a vida

dos meus rastros e das minhas mudanças

Eu tenho uma mania engraçada: às vezes, entro aqui no blog e começo a ler posts meus dos anos anteriores do mesmo mês em que estou. Estou aqui sentada lendo posts de abril de 2016, 2015, 2014, 2013, 2012, 2011 e 2010…

 

Fico orgulhosa: como eu mudei! Caramba… Quantos pesos ficaram pra trás! Eu ainda me acho meio desgraçadinha da cabeça, mas eu deveria ter mais paciência comigo mesma, que já foi muito pior. Hahahahaha

Hoje sou uma pessoa muito mais leve do que era há uns anos atrás. Algumas frustrações, caras quebradas, terapias e Nikolas depois, minha vida emocional e meus relacionamentos são OUTRA VIBE. Totalmente. Que coisa bem maravilhosa! Dá vontade até de voltar lá atrás e dizer para aquela Paula: “sossega, criatura! pra quê tá sofrendo com isso? pra quê tanta culpa, tanto drama, tanta cobrança? larga de mão e fica de boas…”

Enfim, eu sei bem que ela tinha seus motivos. E ela aprendeu e mudou, isso que importa.

Mas imaginem vocês que eu era o tipo de pessoa que achava que tinha de ter a vida toda certa e planejada. Queria ter plano de curto, médio e longo prazo, pra até 10 anos. Hoje em dia eu não sei nem o que vou fazer ano que vem… Mal sei o que estarei fazendo mês que vem, na verdade. Aprendi que a vida é inconstante mesmo e que não adianta ficar tentando controlar as coisas.

Eu queria seguir o roteiro, fazer “tudo direito”, ter um bom emprego, trabalhar muito, casar, ter 4 filhos. ATÉ PARECE KKKKKKKK 4 FILHOS! Socorro… Ainda bem que eu comecei a fazer aquele interessante exercício de me perguntar o que EU realmente quero e separar isso do que eu acho que as pessoas querem de mim. Foi um processo longo e difícil esse, de descobrir o que EU queria pra minha vida e o que EU gostava. Aí eu descobri que nem filho eu quero ter. Pelo menos agora eu não quero nunca ter. Quem sabe, né?

Eu também fui o tipo de pessoa que achava que podia prometer eternidade nos meus relacionamentos. E nem digo só de relacionamentos românticos. Eu tinha plena certeza e confiança de que algumas pessoas JAMAIS sairiam da minha vida. De que não havia vida sem elas. Mas, né? Mais uma vez a vida ensinou: ninguém é insubstituível, existe vida antes e depois de qualquer pessoa. Olha quanta gente já entrou e saiu! Pra que ficar tentando adivinhar quem vai ficar e quem não? Deixa o movimento. Deixa as pessoas virem, ficarem o quanto quiserem, irem embora quando algo levar embora. A gente sempre se diverte no meio do caminho, aprende umas coisas e segue a vida sem drama e sem rancor.

E os significados que eu colocava nas coisas? Vishe… Via significado em tudo. Hoje em dia acho a vida tão menos complicada e confusa. (menos confusa, não melhor, vejam bem. eu continuo achando que a vida é uma merda, só acho que ela é o que é, não tem nada de significado ou mensagem subliminar escondida por trás das coisas). Ter propósito na vida é uma coisa muito legal, mas às vezes isso acaba complicando coisas que não são complicadas e confundindo coisas que não são confusas. Às vezes a vida só é uma merda mesmo, e pronto. Ou só é legal mesmo, e pronto.

Mas o que eu acho que mais mudou, de tudo isso, é minha forma de me relacionar com as pessoas. Me tornar uma pessoa mais assertiva foi um processo enooooooooooorme de longo e cansativo. Eu era uma criatura maluca: me autossacrificava pelas pessoas, achava que tinha que ser assim; aí as pessoas não faziam o mesmo por mim, que elas não são obrigadas; aí eu chorava, me sentindo sozinha, abandonada e sem amparo; aí isso desencadeava conflitos; aí eu me sentia culpada, um lixo de ser humano; aí eu me autossacrificava pelas pessoas de novo pra tentar compensar isso tudo; etc etc etc etc. Percebem o drama? Aí eu fiz terapia a primeira vez e me tornei consciente disso e comecei a mudar. Mas, gente, é tão difícil mudar algo TÃO enraizado! Tipo, esse foi o jeito que eu aprendi a me relacionar desde criança. Mudar um hábito de vinte anos é uma trabalheira. Aos poucos fui mudando. O auge da mudança foi quando uma criatura abençoada pelos céus entrou na minha vida.

Aprendi com o Nikolas, na prática, o que é um relacionamento saudável. E, gente, quecoisamarlindadessemundo é um relacionamento saudável. Nikolas é, aparentemente sem esforço algum, a pessoa mais assertiva que eu conheço. Ele é tipo um paciente modelo de terapia cognitivo comportamental. Ele tipo É a PERSONIFICAÇÃO da terapia cognitivo comportamental (só que ele nunca precisou fazer terapia pra isso, o desgraçado). Aprendi que dá pra se relacionar simplesmente falando o que a gente pensa e sente. Que se estivermos aflitos, em dúvida ou achando que o outro está achando algo, a gente chega e pergunta. Aí a gente resolve tudo com 5 minutos de conversa. Se um erra, o outro fala que ficou chateado, o primeiro pede desculpas, o segundo perdoa, e fim. Simples assim. Relacionamentos podem ser simples. Extremamente simples.

Com a simplicidade em lidar com relacionamentos vários, veio como consequência fácil uma crescente sensação de liberdade e ausência de preocupação com a opinião alheia a meu respeito. Tipo, por mais clichê que isso possa parecer.. Genuinamente não me preocupo mais da mesma forma com a opinião das pessoas sobre quem eu sou. Pois consigo concluir sempre, de forma bastante racional, que isso simplesmente não faz diferença na minha vida de força prática.

Quer dizer, as expectativas que as pessoas colocam sobre mim são um problema delas, não meu. Elas que lidem com isso, portanto. Vez ou outra, se você convive comigo, eu vou te decepcionar. Desculpa. É o que as pessoas fazem. O que posso prometer é que vou me arrepender e sentir muito (mas não me martirizar).

Assim como as expectativas que eu coloco nas pessoas são problema meu. Então eu simplesmente comecei a me responsabilizar por elas e lidar com elas. E a me irritar, decepcionar e entristecer muito menos com as pessoas.

Eu também espero muito menos das pessoas hoje em dia, consequentemente, mas é o preço, né não?

Não que eu tenha conseguido mudar tudo isso 100%. O que eu sou é uma complexa construção de uma pitada de genética e um mundo de ambientes e acontecimentos. Eu tenho mecanismos profundos e marcantes demais, que provavelmente vão fazer parte de mim pelo resto da minha vida. Coisas que eu vou continuar driblando.

O legal é que todo dia faço uma descoberta nova a meu respeito, encontro um jeito novo de melhorar e lidar melhor com minhas questões. Eu ainda estou tentando lidar melhor com minha ansiedade, com minha sensação constante de não ser boa ou capaz o suficiente, de ser uma farsa – mas vamos lá, estou caminhando e me esforçando pra melhorar isso também.

Enfim. Eu poderia continuar escrevendo, mas seria um texto infinito. Não dá pra mensurar o tanto de mudanças que ocorrem numa pessoa. E as mudanças vão continuar acontecendo, certeza. Ano que vem olharei pra trás e pensarei “caralho, olha só como eu era ano passado! como pode? ainda bem que eu mudei”

O importante é que essa sensação de “ainda bem que eu mudei” continue presente, sempre

tanta gente buzinando esqueceu de andar

veio ao mundo por engano

eu vim passeaaaarrr

 

 

disseram que a vida nesse lugar
depende da temperatura do ar
televisão, teto solar para ver
cerveja e cama para sobreviveeeeerrrr

mas vai ficar tudo certo – já está ficando

Cheguei na clínica, hoje cedo, e conversei com uma colega para ela ficar com uns horários meus, pra eu trabalhar menos. Aí, falei uns necessários e libertadores nãos que eu não vinha dizendo. Quando saí pra almoçar, o clima estava ótimo, o sol quentinho e um vento fresco, e encontrei um sebo numa calçada (coisas de Floripa…). Lá, sob o sol, dois exemplares de Jorge Amado, antigos, de capa dura. “Moço.. Vou levar esses dois”. O movimento da clínica estava suuuper fraco, insuficiente para as duas médicas que estavam lá. A administradora da clínica ligou dizendo que a agenda estava bem vazia e que, se eu quisesse ir pra casa… Quis, né?! Vim pra casa, fiz Yoga no meio da sala, meditei. Fiz uma xícara de café. Corri meus olhos pelas linhas de “Terras do Sem Fim”. E aí, finalmente, depois de tanto tempo, tive vontade de sentar, ouvir músicas aleatórias e escrever. Coisa boa escrever e ouvir músicas aleatórias, meu Deus.

apenas o momento presente importa… é preciso aprender a ser feliz com o que se tem agora

não espero acabar tão sério

 

não tenha medo

largue o emprego

(vivendo à vista

pagando em prestação)

sumiço outra vez, eu sei

Anda difícil.

Vou explicar o que anda sendo minha rotina e o motivo de ser assim:

Vou viajar daqui 49 dias. Vou para: Uruguai, Argentina, Chile, Peru, Bolívia, Equador e Colômbia. Do extremo frio e neve de Ushuaia às praias incríveis de Cartagena.

Como vocês devem imaginar, percorrer esse longo trecho vai levar tempo. Vai levar, mais especificamente, uns 6 meses. É preciso juntar dinheiro pra sobreviver por 6 meses sem trabalhar (e olha que viajar pela América do Sul, e sem depender de hotel, como será nosso caso, é barato). Então, é preciso juntar esse dinheiro.

Bom… É isso que estou fazendo. Trabalhando. Muuuuuuuuuuuuuuito.

Trabalhando cerca de 11 horas por dia, na verdade. Fazendo de 30 a 45 minutos de almoço. Atendendo muuuitos pacientes por dia. Pra vocês terem ideia: certo dia desses, atendi num só dia 120 pessoas. A média tem ficado ali ao redor dos 70 atendimentos/dia.

Não bastando isso, venho fazendo academia 3 vezes por semana depois do trabalho.

Chego em casa e não resta tempo nem disposição pra fazer absolutamente mais nada! Há muito que não escrevo mais. Nem leio algo que gosto. Até pra assistir séries anda difícil. Tem sido o máximo quando podemos passar o final de semana em casa – isso nunca acontece.

Então, eu ando realmente cansada. O cansaço foi evoluindo com estresse. Até que, semana passada, após um atendimento particularmente difícil, voltei a ter sintomas de ansiedade (palpitação, tremores de extremidades, aperto no peito). E tive no dia seguinte de novo.

E essa semana de novo.

É muito difícil explicar o mal estar que uma crise de ansiedade causa. Mas a pior parte – pra mim, pelo menos – não são os sintomas físicos em si. É o medo de perder o controle de mim mesma outra vez e ter outra crise de Pânico. O “medo de ter medo” retroalimenta as crises de ansiedade.

Eu vi isso acontecer, outra vez. “puta merda, de novo! não acredito!” fiquei pensando comigo mesma. Ontem à noite, deitada na cama chorando,  começando a me culpar e sentir incapaz, Nikolas me alertou para o fato (óbvio, porém difícil de enxergar no meio dessa confusão) de que qualquer pessoa estaria exausta trabalhando tantas horas já há tanto tempo. E que a gente daria um jeito de fazer tudo o que queremos fazer mesmo se eu diminuir o ritmo.

Depois disso decidi que, ao invés de usar esses sintomas para me culpar e “brigar comigo mesma”, como fiz da última vez, e ao invés de ignorar os sintomas achando que “não dá pra parar, vou ter de levar assim mesmo”, resolvi frear.

É engraçado, pois uma das coisas que espero que essa viagem me ajude é a relaxar, lidar melhor com minha ansiedade. Mas aí, o ritmo que tenho levado pra poder viajar está me deixando doente de ansiedade de novo. Hahahaha

Isso não faz sentido. Então eu vou mudar. Tomei as primeiras medidas hoje mesmo. Afinal de contas, beleza, eu tenho uma porção de desgraçamentos de cabeça, mas eu tenho uma vontade ENORME, GIGANTESCA de evoluir, melhorar, crescer e mudar. E eu não tenho medo nem receio algum de fazer o que quer que seja necessário pra ficar bem e me tornar uma pessoa mais madura emocionalmente.

8M

Não tem nada de feliz no dia 8 de março. Sério.
 
Nem historicamente (pensando nos acontecimentos que levaram à sua existência), nem hoje.
 
Mas é um dia de pensar, ler, estudar, refletir.
Hoje eu passei o dia com esse cansaço do que “ser mulher” significa. Cansada das campanhas publicitárias, cansada das piadinhas machistas (elas não são engraçadas. parem. aqui é 2017, não 1950). Cansada dessa sensação de ter de provar minha capacidade e meu intelecto o tempo inteiro, já que muita gente ainda não me leva a sério pq eu sou mulher. Estou o tempo inteiro tentando provar que “sou mulher, mas entendo desse assunto” ou “sou mulher, mas tenho capacidade de fazer tal coisa”. Pior, ozomi ainda ficam tipo “nossa, não é com qualquer mulher que dá pra falar desse assunto” Como se fôssemos um bando de imbecis que, de vez em quando, fala uma coisa legal que preste.
 
Cansada desse medo que se tornou uma rotina na minha vida, que está presente todo.santo.dia; esse medo de ser abusada, estuprada e humilhada; desse hábito de andar na rua sempre olhando pra todos os lados ao mesmo tempo, pensando sempre em rotas de fuga e com medo de não conseguir gritar alto o suficiente caso precise chamar por ajuda. Até tenho medos de assalto. Até tenho medos de, sei lá, ser agredida ou levar um tiro num deles. Mas eu tenho PAVOR, HORROR a ser invadida. É CEM VEZES PIOR. Cansada de ser humilhada por cantadas imbecis na rua, responder (pq eu não consigo mais ficar quieta) e ainda ser xingada de volta como se fosse minha obrigação responder com educação a esse tipo de coisa.
 
Aliás, até no trabalho tenho de ouvir gracinhas. Inclusive, às vezes, tenho de ouvir grosserias e questionamentos que eu tenho certeza que um médico homem branco barbudo não ouviria.
 
Mas eu ainda sou privilegiada. Há nesse mundão de meu Deus dificuldades muito maiores. E eles também me deixam cansada.
Cansada de sofrer pelo sofrimento de tantas mulheres no Brasil. É de chorar, gente. É de chorar inconsolavelmente. Quando você se permite acessar esse universo e se aproximar de mulheres e, pasmem, MENINAS estupradas, espancadas, abusadas, humilhadas, subjugadas… POR SEREM MULHERES. Mulheres mantidas em regime de quase escravidão sem nenhum direito trabalhista em trabalhos domésticos, acabando com a própria saúde, ou mesmo desempregadas, ou ganhando muito menos e tento de sustentar sozinhas um filho que o genitor simplesmente abandonou. Cansada de saber que elas procuram ajuda e não recebem. Cansada de me sentir impotente frente a tanto sofrimento. Dói. Dói muito.
 
Cansada. Cansada de explicar as mesmas coisas 500 vezes pra gente que não tá nem aí pras dores alheias. Cansada de ouvir os mesmos argumentos clichês/senso comum 3000 vezes. Cansada de ver tanto sofrimento e ouvir machinho arrogante dizendo que é mimimi. É DOSE, MINHA GENTE. É DOSE! Injustiça é uma coisa difícil de engolir. Falta de empatia também. Dói. Dói lá na alma. Faz a gente chorar.
 
Cansada, cansada.
 
Às vezes dá vontade de simplesmente jogar a toalha.