sumiço outra vez, eu sei

Anda difícil.

Vou explicar o que anda sendo minha rotina e o motivo de ser assim:

Vou viajar daqui 49 dias. Vou para: Uruguai, Argentina, Chile, Peru, Bolívia, Equador e Colômbia. Do extremo frio e neve de Ushuaia às praias incríveis de Cartagena.

Como vocês devem imaginar, percorrer esse longo trecho vai levar tempo. Vai levar, mais especificamente, uns 6 meses. É preciso juntar dinheiro pra sobreviver por 6 meses sem trabalhar (e olha que viajar pela América do Sul, e sem depender de hotel, como será nosso caso, é barato). Então, é preciso juntar esse dinheiro.

Bom… É isso que estou fazendo. Trabalhando. Muuuuuuuuuuuuuuito.

Trabalhando cerca de 11 horas por dia, na verdade. Fazendo de 30 a 45 minutos de almoço. Atendendo muuuitos pacientes por dia. Pra vocês terem ideia: certo dia desses, atendi num só dia 120 pessoas. A média tem ficado ali ao redor dos 70 atendimentos/dia.

Não bastando isso, venho fazendo academia 3 vezes por semana depois do trabalho.

Chego em casa e não resta tempo nem disposição pra fazer absolutamente mais nada! Há muito que não escrevo mais. Nem leio algo que gosto. Até pra assistir séries anda difícil. Tem sido o máximo quando podemos passar o final de semana em casa – isso nunca acontece.

Então, eu ando realmente cansada. O cansaço foi evoluindo com estresse. Até que, semana passada, após um atendimento particularmente difícil, voltei a ter sintomas de ansiedade (palpitação, tremores de extremidades, aperto no peito). E tive no dia seguinte de novo.

E essa semana de novo.

É muito difícil explicar o mal estar que uma crise de ansiedade causa. Mas a pior parte – pra mim, pelo menos – não são os sintomas físicos em si. É o medo de perder o controle de mim mesma outra vez e ter outra crise de Pânico. O “medo de ter medo” retroalimenta as crises de ansiedade.

Eu vi isso acontecer, outra vez. “puta merda, de novo! não acredito!” fiquei pensando comigo mesma. Ontem à noite, deitada na cama chorando,  começando a me culpar e sentir incapaz, Nikolas me alertou para o fato (óbvio, porém difícil de enxergar no meio dessa confusão) de que qualquer pessoa estaria exausta trabalhando tantas horas já há tanto tempo. E que a gente daria um jeito de fazer tudo o que queremos fazer mesmo se eu diminuir o ritmo.

Depois disso decidi que, ao invés de usar esses sintomas para me culpar e “brigar comigo mesma”, como fiz da última vez, e ao invés de ignorar os sintomas achando que “não dá pra parar, vou ter de levar assim mesmo”, resolvi frear.

É engraçado, pois uma das coisas que espero que essa viagem me ajude é a relaxar, lidar melhor com minha ansiedade. Mas aí, o ritmo que tenho levado pra poder viajar está me deixando doente de ansiedade de novo. Hahahaha

Isso não faz sentido. Então eu vou mudar. Tomei as primeiras medidas hoje mesmo. Afinal de contas, beleza, eu tenho uma porção de desgraçamentos de cabeça, mas eu tenho uma vontade ENORME, GIGANTESCA de evoluir, melhorar, crescer e mudar. E eu não tenho medo nem receio algum de fazer o que quer que seja necessário pra ficar bem e me tornar uma pessoa mais madura emocionalmente.

8M

Não tem nada de feliz no dia 8 de março. Sério.
 
Nem historicamente (pensando nos acontecimentos que levaram à sua existência), nem hoje.
 
Mas é um dia de pensar, ler, estudar, refletir.
Hoje eu passei o dia com esse cansaço do que “ser mulher” significa. Cansada das campanhas publicitárias, cansada das piadinhas machistas (elas não são engraçadas. parem. aqui é 2017, não 1950). Cansada dessa sensação de ter de provar minha capacidade e meu intelecto o tempo inteiro, já que muita gente ainda não me leva a sério pq eu sou mulher. Estou o tempo inteiro tentando provar que “sou mulher, mas entendo desse assunto” ou “sou mulher, mas tenho capacidade de fazer tal coisa”. Pior, ozomi ainda ficam tipo “nossa, não é com qualquer mulher que dá pra falar desse assunto” Como se fôssemos um bando de imbecis que, de vez em quando, fala uma coisa legal que preste.
 
Cansada desse medo que se tornou uma rotina na minha vida, que está presente todo.santo.dia; esse medo de ser abusada, estuprada e humilhada; desse hábito de andar na rua sempre olhando pra todos os lados ao mesmo tempo, pensando sempre em rotas de fuga e com medo de não conseguir gritar alto o suficiente caso precise chamar por ajuda. Até tenho medos de assalto. Até tenho medos de, sei lá, ser agredida ou levar um tiro num deles. Mas eu tenho PAVOR, HORROR a ser invadida. É CEM VEZES PIOR. Cansada de ser humilhada por cantadas imbecis na rua, responder (pq eu não consigo mais ficar quieta) e ainda ser xingada de volta como se fosse minha obrigação responder com educação a esse tipo de coisa.
 
Aliás, até no trabalho tenho de ouvir gracinhas. Inclusive, às vezes, tenho de ouvir grosserias e questionamentos que eu tenho certeza que um médico homem branco barbudo não ouviria.
 
Mas eu ainda sou privilegiada. Há nesse mundão de meu Deus dificuldades muito maiores. E eles também me deixam cansada.
Cansada de sofrer pelo sofrimento de tantas mulheres no Brasil. É de chorar, gente. É de chorar inconsolavelmente. Quando você se permite acessar esse universo e se aproximar de mulheres e, pasmem, MENINAS estupradas, espancadas, abusadas, humilhadas, subjugadas… POR SEREM MULHERES. Mulheres mantidas em regime de quase escravidão sem nenhum direito trabalhista em trabalhos domésticos, acabando com a própria saúde, ou mesmo desempregadas, ou ganhando muito menos e tento de sustentar sozinhas um filho que o genitor simplesmente abandonou. Cansada de saber que elas procuram ajuda e não recebem. Cansada de me sentir impotente frente a tanto sofrimento. Dói. Dói muito.
 
Cansada. Cansada de explicar as mesmas coisas 500 vezes pra gente que não tá nem aí pras dores alheias. Cansada de ouvir os mesmos argumentos clichês/senso comum 3000 vezes. Cansada de ver tanto sofrimento e ouvir machinho arrogante dizendo que é mimimi. É DOSE, MINHA GENTE. É DOSE! Injustiça é uma coisa difícil de engolir. Falta de empatia também. Dói. Dói lá na alma. Faz a gente chorar.
 
Cansada, cansada.
 
Às vezes dá vontade de simplesmente jogar a toalha.

a velhice

Não acho que a gente pense sobre isso o suficiente, quando somos jovens.

Quero dizer, as pessoas falam sobre aposentadoria, por exemplo. Falam sobre “passar o resto da vida” em algum lugar ou envelhecer com determinada pessoa.

Mas o quanto pensamos naquele – inevitável, se a gente viver até lá – momento em que perderemos nossa independência? Em que teremos algum grau de demência? E precisaremos de alguém pra cuidar da gente? Quando as pessoas que hoje conhecemos e convivemos (família, amigos, namorados, maridos…) estiverem muito velhinhas também ou já não estiverem mais vivas?

 

O quanto encaramos o FATO de que a maior parte de nós chegará a esse ponto na vida? E o que faremos quando estivermos lá?

Será que há alguma forma de nos prepararmos pra isso?

Envelhecer deve ser um processo solitário…

 

São só perguntas, mesmo. Eu não tenho resposta nenhuma…

música

Assisti um documentário lindíssimo no Netflix chamado “Alive Inside”.

Ele fala sobre como a música desperta pacientes com Alzheimer… Desperta seus sentimentos, memórias e afetos.

Também faz uma crítica ao sistema médico, em que você facilmente prescreve um antidepressivo caríssimo mas não pode prescrever.. Música.

Um sistema que aperta e desaperta botões (pressão alta? aumenta aqui o remédio… glicemia alterada? diminui aqui esse outro…) mas não se preocupa em tocar a alma, o coração das pessoas.

 

É maravilhoso. Se puderem, assistam. Estou encantada!

 

Fiquei pensando sobre como a música está envolvida em tantas fases da minha vida, em tantos momento marcantes, em como ela me serviu de conforto muitas vezes e expressão de felicidades em tantas outras.

 

E fiquei pensando, também, na finitude da vida e em como coisas aparentemente simples – como sua música favorita – é que são, no fim das contas, as coisas que dão sentido e sabor à existência humana.