sobre ser médica do consultório na rua

Encontrei o emprego dos meus sonhos. Tô nisso há uma semana, mas não quero nunca mais fazer outra coisa. É tão incrível! Não tem rotina. Tem ligação com os pacientes, tem tempo para os pacientes, tem atender os pacientes no seu ambiente. Tem viver fora da caixinha. Tem atenção integral à saúde. Tem equipe maravilhosa atuando junta, de verdade. Tem aprendizado diário com histórias de vida “fora do padrão”.

 

Tô realizada.

 

 

SIM!

Dezenas de nãos depois, sexta passada, eu ouvi um sim! Fui contratada como médica de ESF em uma Unidade Básica de Saúde. Foi uma correria de burocracias; documentos, abertura de conta, ir para um lado e para outro. E a euforia! E a ansiedade!

Hoje foi meu primeiro dia de trabalho. Estava ansiosa ontem a noite… E estava um pouco nervosa hoje de manhã. Quanto chamei o primeiro paciente  (Seu Antonio! Duvido que um dia vá esquecer esse nome), sentia tremer por dentro, mas me esforcei para transparecer calma.

Expliquei para todos os pacientes, hoje, que sou a médica nova da Unidade, que ainda estou me adaptando e que talvez eu tenha de tirar dúvidas com a equipe ou me atrapalhe em alguma coisa. Nenhum deles se chateou com isso! Todos sorriam e disseram que claro, é normal ficar meio perdida no começo.

Foi um dia lindo, lindo. Ainda não abriram agenda pra mim; então, o volume de atendimentos foi pequeno (atendi só acolhimentos). Mas é indescritível a sensação de estar ali, atuando, realizando o sonho de ser médica (agora sim!). Só ouvi coisas bonitas: “tomara que você fique, que você é maravilhosa!”; “Deus te abençoe, doutora!”; e um deles, depois de eu dizer que queria vê-lo em breve: “que ótimo! vai ser um prazer!”.

A população estava sem médico a tempos, e parece ter uma enorme carência por atenção nesse sentido. Fiz tão pouquinho, e senti tanta gratidão.

E, felizmente, meu medo de não ser boa o suficiente está começando a diminuir. A facilidade em me relacionar eu já sabia que tinha. Quanto à parte técnica… Saber tudo, ninguém jamais saberá; mas quem se importa vai atrás, estuda e aprende. Como eu fiz hoje. Eu me importo. Me importo muito!

Acho, sinceramente, que hoje foi um dos dias mais felizes da minha vida.

as últimas (ou as primeiras?) reflexões

Hoje é o dia pelo qual eu esperei cerca de 8 anos (desde que comecei a sonhar com medicina).

Eu não fui daquelas que quis medicina desde criança. Na verdade, nunca tinha nem mesmo me passado pela cabeça fazer medicina, até o terceirão. Eu passei a infância inteira querendo fazer veterinária. Já sabia até a faculdade.

Aí veio o ensino médio, aquela fase cheia de dúvidas. E eu já não sabia o que queria da minha vida, não sabia mais no que eu era boa, pelo que eu poderia me apaixonar… Não queria fazer “uma coisa qualquer”: queria fazer AQUELA coisa, para a qual eu nasci.

E, não sabendo que isso não existe ( e que é tudo uma questão de escolhas) eu me torturava quanto a fazer “a escolha certa”.

Fiz curso técnico em análises clínicas e, tendo concluído, estagiei num laboratório que ficava dentro de uma maternidade. Eu comecei dentro do laboratório, mesmo; e aos poucos fui pegando mão para coletar sangue. Com o tempo, eu fui liberada para fazer as “rondas” – que era quando o técnico saia do laboratório e ia coletar sangue pelo hospital.

Foi aí que eu descobri o que fazia o tempo voar, meu coração pulsar e um sorriso aparecer facilmente no meu rosto.

Eu caminhava pelos corredores, pedia licença às pacientes, me apresentava, conversava, explicava… E tentava fazer tudo isso da forma mais amorosa possível. O retorno veio: elogiavam minha “mão levinha” e meu cuidado. Não era nenhum esforço para mim. Na verdade, eu apenas não conseguiria fazer diferente.

Certa feita, um amigo, ouvindo de mim relatos do trabalho no laboratório, comentou “Você deveria fazer medicina. Seria uma médica foda”. E eu, que já vinha reparando nos médicos que via no hospital, comecei a deixar essa sementinha chamada “medicina” crescer no meu coração…

Uma noite, enquanto passava pelo pré-parto, eu vi uma médica ajudando uma paciente, em trabalho de parto, a caminhar até a sala. Ela dizia “você vai conhecer o seu bebê!” e segurava sua mão. A cena me marcou… E, mais do que me marcar, fez nascer em mim o seguinte pensamento:

“É isso aí que eu quero fazer. Cuidar das pessoas”.

Acontece que eu tinha medo de duas coisas:

1) Achava que não tinha capacidade para ser médica;

2) Tinha medo de “não ter vida”.

Sentia necessidade de conversar com um médico sobre isso. E, não tendo nenhum médico dentre família e amigos, marquei uma consulta com o médico com o qual eu mais tinha vínculo: meu pediatra.

Lá estava eu, 17 anos na cara, sentada na sala de espera do pediatra. Ele riu quando entrei e expliquei a razão de ter vindo. E aí, ele começou a me falar sobre medicina. Sobre como foi pra ele… Sobre como tudo tinha seu tempo, e como realmente era difícil conciliar uma vida pessoal, porém possível.

Foi nesse dia aí. Eu saí do consultório e fui direto para o cursinho. Chegando lá, anunciei para os colegas:

– Decidi. Quero medicina.

O problema, agora, era passar no vestibular… Eu não achava que conseguiria, então formulava “planos B”: fono, enfermagem… Eu não conseguia considerar muito que iria passar.

Só que aconteceu. A vida tem dessas surpresas, desses caminhos que a gente não entende direito e não consegue acreditar. Eu passei. Eu concluí o curso. Eu estou me tornando médica.

Eu, que achava que não conseguiria “ver alguém todo aberto na minha frente”. Eu, que jamais conseguiria passar no vestibular – imagina, tão concorrido. Eu, que tinha medo de “não ter vida”.

E tive os seis anos de vida mais intensos de todos!

E, hoje a noite, minha família vai chegar para comemorar tudo isso comigo ao longo de três dias maravilhosos.

Eu nunca estive tão feliz!

sim, é verdade!

Começa amanhã! A tão esperada saga formatura… Começa amanhã, dia 16 de julho de 2015!

E terá início com o culto ecumênico, ao qual minha família virá. Vai ser rapidinho, vai ser de leve, vai ser o dia “menos intenso”… É o aquecimento. Mas é isso. É amanhã que começam os dias que, há 6 anos, eu ao mesmo tempo esperava tanto e achava que jamais chegariam.

(estou surpreendente calma, depois de semanas pirando de ansiedade… vai entender)

ai ele disse…

geralmente as pessoas que fazem medicina para “salvar as pessoas” o fazem porque precisam salvar algo dentro delas mesmas

Toda terça a tarde temos uma espécie de reunião com um professor de psicologia. Sentamos em grupo e… Falamos. Ele recomenda livros, nós lemos, conversamos sobre o que lemos, misturamos com a nossa vida e de repente estamos falando dos nossos dramas e dos dramas do universo inteiro. É sempre instigante e saio com a mente inquieta. Foi um dia interessante, hoje. O professor costuma dizer que espera “fazer barulho na gente”, e consegue toda vez. Saio de lá com a mente num turbilhão.

Saí para correr, depois de chegar em casa com a cabeça fervendo. Quando corro, deixo meus pensamentos passearem livremente de uma forma que não consigo fazer em outras situações. E fico apenas a observá-los, admirá-los.

Então, enquanto corria e observava o mar, tive subitamente o insight sobre as razões que me levaram a escolher medicina. Quero dizer a vocês que elas não são nem um pouco nobres. Incluem coisas tipo ter dentro de mim uma criança sedenta por atenção e tals. Felizmente (muito felizmente, na verdade), não sou um ser superior que resolveu abdicar de sua felicidade para salvar ninguém.

Também não tenho mais a ilusão de “salvar vidas”, que a medicina não chegou nesse nível, não. A gente não salva ninguém. A gente não “cura doenças”. Nós, quando conseguimos, tratamos. Ajudamos e consolamos quando possível. Mas nós não temos poder de salvar ninguém! As pessoas alucinam demais sobre o que é a medicina… E não é nada disso que passa na novela ou nos filmes.

Chega o momento em que é preciso admitir isso e fico muito feliz de ter conseguido alcançar essa sinceridade comigo mesma antes da formatura. Se faço medicina pois sou tão altruísta e especial que resolvi dedicar tanto de mim para “salvar vidas” e “curar doenças”, estou em outro patamar, acima dos outros. Essa visão coloca uma barreira entre nós e os pacientes. Mas se compreendo que escolhi medicina por razões bastante egoístas ou até infantis, e que meu “poder” enquanto médico é uma completa ilusão, eu volto a ser igual.

É libertador ser apenas um ser humano!

Aliás, longe de isso diminuir minha paixão ou dedicação pela profissão que escolhi; na verdade, acho que o fantástico da vida é isso: transformarmos nossas dores, frustrações e infantilidades em coisas melhores. Em coisas bonitas. Crescimento, resiliência!

mais relatos sobre o que a vida tem sido

Meu blog se transformou num punhado de relatos. Mas é que tem sido tudo tão intenso… Que sinto urgência em escrever sobre. Por precisar descarregar um pouco de tanta carga emocional, por ter medo de esquecer, pra reler depois e sentir saudades…

Minha pré-banca correu conforme o esperado: muitas correções a fazer até a banca; porém, embora muitas, são correções estéticas, pontuais, nada de muito estrutural. Recebemos elogios ao trabalho num geral (modéstia a parte, o trabalho é mesmo lindo e sou apaixonada por ele).

Amanhã, começo do fim: primeiro dia do último estágio. Porém, é meu estágio optativo, que farei num lugar que escolhi, com uma equipe ótima, professor que adoro e área que amo (medicina familiar e comunitária!).

Tive um final de semana de descanso, finalmente! Foi ótimo. Dormir bastante, tomar cafés, vinhos e cervejas, cantar, passear, aproveitar a companhia linda do namorado. Todos esses, o último em especial, tem uma capacidade surpreendente de me encher de paz e tranquilidade.

Cheguei em casa hoje, após o último dia de estágio de clínica médica e comi umas 5 ou 6 fatias de pão enquanto assistia “The Big Bang Theory”.

O valor desses momentos de ócio é gigantescamente maior quando você é privado deles por muito tempo…

Quando penso no que está para me acontecer nos próximos dias, sou tomada de uma gigantesca empolgação. Muitas coisas especiais, empolgantes e importantes estão pra acontecer. Na minha vida profissional e pessoal. Tudo é muito lindo. É tanta felicidade junta que chega a encher meus olhos de lágrimas.

Eu esperei muito por esses momentos.

Depois, vi que estava errado ficar só esperando esses momentos e vivi muito tudo o que passei até chegar aqui.

Tem sido tudo tão fantástico.

Sou tão grata.

Que vida linda, meu Deus.

Obrigada, obrigada, obrigada!

da canseira

Quando me olhei no espelho, hoje de manhã, tomei um susto: estou com olheiras profundas e escuras.

Há semanas que não durmo em quantidade suficiente ou com qualidade suficiente. Acordo me sentindo exausta.

Os dias tem sido absurdamente malucos! E a tendência é que continuem sendo.

Hoje, janta de despedida do nosso Grupão. No internato, a sala se divide em 3 grupos de 10 pessoas, para passar pelos estágios. Criamos um laço muito forte… Convivemos todos os dias, submetidos à uma carga gigantesca de estresse, nos envolvemos com os dramas emocionais de cada um, brigamos e fazemos as pazes repetidamente, aprendemos a nos aturar. Somos quase que uma família.

Semana que vem, cada um irá para seu estágio optativo. Como nosso optativo é o ÚLTIMO estágio da faculdade, muitos voltarão para suas casas, nas suas cidades, em vários cantos diferentes.

Nós não vamos conviver mais… Seis anos de convivência diária depois, ficaremos separados!

Está fazendo doer meu coração. Eu amo demais aquelas pessoas. Mas assim é a vida: um eterno encontrar, despedir, às vezes reencontrar e às vezes perder definitivamente… Um eterno movimento.

É só que esse parecia que ia demorar mais a chegar. E agora está aí.

De todo modo, fica minha gratidão por ter convivido com tanta gente maravilhosa e diferente de mim. E meu amor sincero por cada um!

sensível

Tenho andado muito sensível, estas últimas semanas. Tenho diversas razões para isso, na verdade…

Amanhã entrego meu TCC para a pré-banca. Sexta o apresento para a mesma.

Em um mês o apresento de verdade.

Em dois meses, me formo.

Minha vida vai virar de pernas pro ar: não sei onde vou morar, o que vou estar fazendo, onde vou trabalhar, que novos projetos terei. É, ao mesmo tempo, empolgante e assustador.

Minha cabeça está num turbilhão. Está chegando o momento tão esperado de realizar meu sonho. E estou mais apaixonada do que nunca e mais emocionalmente envolvida do que nunca na minha profissão. Sei muito bem o tipo de médica que quero ser e tenho me empenhado pra isso. Mas as coisas não tem sido fáceis…

Eu sei que a reta final não é fácil nunca. Se não foi fácil até aqui, eu não esperava que fosse ficar.

Mas são tantas coisas acontecendo ao mesmo tempo! Tanto exterior quanto interiormente…