mais momentos de outro (longo) dia

(os dias no PS são sempre de intensidade, mesmo nos dias menos movimentados. parece até que vivo várias vidas dentro daquelas 12 horas… e talvez viva, mesmo!)

cena 1

Paciente com obstrução intestinal baixa, com vômitos fecaloides incoercíveis. Peço à enfermagem para passar a sonda nasogástrica; enfermagem permite. No momento em que introduzo a ponta da sonda no nariz da paciente, ela segura minha mão e não permite que eu continue. Conversamos com a paciente, orientamos; tento novamente. Infelizmente, não sou capaz de vencer a resistência que o simples toque da mão dela no meu punho faz. Antes que eu continue, além disso, paciente torna a vomitar, enchendo a sala (apinhada de outros pacientes) de um odor fétido. Enfermagem pede, com o olhar, que eu deixe para a próxima. Imediatamente, eu cedo. A gente tem de saber a hora de não tentar mais… Especialmente quando se trata do corpo de um ser humano. Rapidamente lido com os sentimentos de frustração por não ter conseguido e de repulsa que o odor da sala causava – e também rapidamente os processo e supero. Às vezes é difícil ser apenas uma acadêmica, tão inexperiente para tantas coisas; mas faz parte, e todo bom médico já o foi um dia.

(ando trabalhando bastante nos sentimentos de frustração e autocrítica, pontos nos quais costumava ser bastante severa comigo mesma)

cena 2

Paciente jovem, masculino, chega para suturar o dedo indicador da mão direita. Converso com ele e com o médico da sala, o qual me orienta a fazer a sutura. Viro-me para preparar o material; quando volto a ele, vejo que está jogando “Clash of Clans” no celular – que, aliás, eu também jogo. Não pensei muito antes de me ver perguntando “Você está jogando Clash, é?” e ele abriu um sorriso divertido: “Você joga?”. Conversamos animadamente enquanto eu suturava o dedo dele.

No fim das contas, depois que o liberei ele esqueceu o celular em cima da maca. Sai correndo pelos corredores com o celular na mão, atrás dele. Topei com ele no corredor, voltando da saída, depois de ter se dado falta. “Teu jogo, cara!!!” Gargalhou.

cena 3

Senhora de 93 anos chega após queda da própria altura, com suspeita de fratura de colo de fêmur. Chego ao lado da maca para conversar com ela; após alguns minutos de conversa, ela, muito simpática, já tinha conquistado a mim e a todas as pessoas da sala de trauma. Em determinado momento, ela pega minha mão e eu seguro sua mãozinha fofa e enrugada dentro das minhas. Conversamos longamente – dei sorte de a sala estar vazia – e ela me contou sobre como era independente, orgulhosa.

Minha vontade era colocá-la num potinho e levá-la comigo, para sentir esperança nos momentos em que me sentir chateada com a humanidade.

cena 4

Atendo uma suspeita de apendicite e sento-me à mesa para escrever a anamnese. Escrevo, mais ou menos: “paciente apresentando, há tantos dias, dor periumbilical de moderada intensidade, acompanhada de náuseas. Há tantas horas, evolui com localização em FID (fossa ilíaca direita), aumento progressivo da intensidade e vômitos”, etc.

Depois de ter escrito mais ou menos isso, fiquei refletindo sobre como me parecia meio poético escrever uma anamnese. Que coisa bonita. Não o sofrimento do paciente, é claro; mas a sonoridade das palavras. Refleti sobre como fazemos arte com sofrimento, e que engraçado seria considerar anamnese uma arte no sentido de captar e transcrever os sentimentos e acontecimentos e…

cena 5

Muitas outras cenas depois, deixo o hospital. Tiro o jaleco, na recepção, sentindo que a Paula acadêmica de medicina ficou lá atrás, e agora vai tranquila para o lar. Que sensação gostosa de missão cumprida. Novamente, sou tomada de imensa gratidão aos pacientes que me emprestaram um pedacinho deles ao longo dessas horas, para que eu aprendesse, repartisse, crescesse e tudo o mais. A vida me pareceu linda, poética e maravilhosa.

Algumas horas depois, é claro, eu me largava exausta na minha cama, agradecendo, também, por finalmente poder descansar!

da liberdade

Os homens dizem amar a liberdade, mas, de posse dela, são tomados por um grande medo e fogem para abrigos seguros. A liberdade dá medo. Os homens são pássaros que amam o voo, mas têm medo dos abismos. Por isso abandonam o voo e se trancam em gaiolas.
Somos assim: sonhamos o voo mas tememos a altura . Para voar é preciso ter coragem para enfrentar o terror do vazio. Porque é só no vazio que o voo acontece. O vazio é o espaço da liberdade, a ausência de certezas. Mas é isso o que tememos: o não ter certezas. Por isso trocamos o voo por gaiolas. As gaiolas são o lugar onde as certezas moram.
É um engano pensar que os homens seriam livres se pudessem, que eles não são livres porque um estranho os engaiolou, que eles voariam se as portas estivessem abertas. A verdade é oposto. Não há carcereiros. Os homens preferem as gaiolas aos voos. São eles mesmos que constroem as gaiolas em que se aprisionam…
Deus dá a nostalgia pelo voo.
As religiões constroem gaiolas
Os hereges são aqueles que odeiam as gaiolas e abrem as suas portas para que o Pássaro Encantado voe livre. Esse pecado, abrir as portas das gaiolas para que o Pássaro voe livre, não tem perdão. O seu destino é a fogueira.

Rubem Alves

da arte

– Seja-me permitido meter a colher torta nessa panela tão mexida, para dizer: Arte pelo amor da vida. Pinta-se, compõe-se música, escreve-se romance ou poesia, faz-se escultura, enfim, praticam-se todas as formas de arte, parece-me, num desejo de imitar a vida, corrigi-la, compreendê-la, ampliá-la ou fruí-la da maneira mais sensualmente larga. E não devemos esquecer que nisso, como em tudo mais, há sempre a presença do mistério.

 

Erico Verissimo