o defeito que sustenta o prédio inteiro

Todo mundo tem. Aquele defeito insuportável que ao mesmo tempo sustenta o que você tem de melhor.

Eu tenho. E tenho andado muito pensativa, principalmente desde que me formei, sobre ele.

Sou uma pessoa absurdamente sensível.

Chego a quase sentir o cheiro de uma pessoa sofrendo a quilômetros de distância de mim. Tenho imensa facilidade em compreender os sentimentos e reações das pessoas. E imensa facilidade em ultrapassar a barreira das pessoas mais fechadas e desvendar a razão de serem o que são, e descobrir suas histórias. Tenho uma grande aptidão para “ler” os sentimentos das pessoas e lidar com eles. É a qualidade minha de que mais gosto, e ela foi construída ao longo de anos e mais anos. Não é algo de agora. Foi, ao mesmo tempo, fruto de uma história pessoal de algum sofrimento e fruto de um exercício exaustivo e constante.

A história pessoal foi o que me fez abrir os olhos, primeiro, para pessoas com sofrimentos parecidos com os meus. E, com o passar dos anos, para pessoas com sofrimentos diversos, e muitos deles muito maiores do que eu jamais conseguiria imaginar sozinha.

Aí aconteceu que eu me dei conta de quanto meus sofrimentos eram pequenininhos em comparação com o de alguns grupos de pessoas, e isso deu sequência ao exercício exaustivo para entender as pessoas, com todas as suas complexidades. É um exercício que continuo fazendo, dia após dia, e posso afirmar com certeza que se tornou meu propósito de vida (embora de forma meio involuntária): desenvolver minha empatia e meu amor pelas pessoas. Não julgar, não tirar conclusões precipitadas, conseguir me colocar no lugar das pessoas mais difíceis, olhar o mundo como elas olham, e não conforme o que eu acredito.

Só que, por mais bonito que isso possa soar, é motivado por algo nada nobre, que é meu imenso sentimento de culpa por ter uma vida tão boa, enquanto há tanta gente sofrendo por aí. Bem como alimentar uma criança interior ávida por afeto e atenção (pois todos tem uma criança que não conseguiu crescer ainda dentro de si).

Essa minha característica também desencadeia uma séria perturbadora de defeitos. Minha imensa sensibilidade me torna algo instável emocionalmente – posso estar perfeitamente feliz numa manhã de domingo, e aí subitamente me tornar sombria e triste por ter visto alguém na rua em situação vulnerável. Me torna explosiva e eternamente indignada, pois vejo e absorvo todo o sofrimento ao meu redor, todos os dias, e todo o sofrimento que vejo me dói, e isso vai crescendo e acumulando dentro de mim até escapar por alguma porta no caminho: um rio de lágrimas, um surto de raiva, uma discussão fervorosa. A Paula sendo “ativista”, “chata”, implicando com as piadas das pessoas, fazendo cara feia para certos comentários, ficando brava, levando tudo a sério. Me torna inquieta, teimosa, cheia de “opiniões fortes” das quais tenho imensa dificuldade em abrir mão. Certas coisas, pra mim, não questão de opinião, e eu fico chateada quando não concordam comigo em alguns pontos – que considero cruciais. Mas, por outro lado, e se não forem?

Tenho atitudes nesta linha por acreditar que essa “luta” pode aliviar a vida das pessoas que estão em maior sofrimento do que as outras. Que basta eu ir “mudando a opinião” de alguns grupos de pessoas, e aí isso poderia se alastrar e causar mudanças maiores com o tempo. Mas e se não mudar? E se a vida não aliviar pra quem sofre? E se não tiver solução? E se eu nem tiver razão? (e considerar isso me causa uma dor que vocês nem imaginam) E se, independente das minhas indignações, o mundo simplesmente continuar sendo uma merda? Afinal de contas, somos todos seres humanos, e continuaremos nos fazendo sofrer continuamente. É o que somos, não conseguirmos evitar isso. Eu mesma faço outras pessoas sofrerem. Mas, também, como não ficar indignada com um sofrimento que presencio e sinto de forma tão constante e real? Como não acreditar no que acredito, como não manter minhas convicções diante do que vivencio todos os dias?

Ainda não descobri estes equilíbrios todos. A minha briga interna atual tem sido conseguir manter minha sensibilidade e, ao mesmo tempo, lidar com os problemas que ela ocasiona. Não tem sido nada fácil. Serenidade não é bem uma característica minha. Também não tenho lá muita habilidade em abstrair de questões quando me envolvo com elas.

O que vou fazer? Continuar tentando

(por via das dúvidas, hoje a tarde vou ligar para a psicóloga… são tempos, definitivamente, de retomar a terapia)

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aniversários

Amanhã, dia 16, completo 25 anos.

Dia 17, completo 2 meses de formada.

E dia 18, um mês de trabalho.

Tenho aprendido tanto e mudado tão rapidamente, nesses últimos tempos, que quase nem me reconheço mais. E tenho vivido tão fora da minha zona de conforto que  é como se nesses últimos meses tivessem ocorrido anos e anos! Que o futuro continue seguindo esses rumos… Evoluir

acostumando

Completei uma semana de trabalho.

A ansiedade tem diminuído bastante. Estou me habituando à rotina, ao local, à equipe… E o principal, a atuar como médica.

Estou descobrindo mais algumas coisas sobre mim mesma, a esse respeito: sou bastante exigente com o processo todo. Gosto de fazer anamneses completas, ouvir o paciente e tirar suas dúvidas e falar de suas ansiedades; de fazer exames físicos detalhados; de registrar no prontuário de forma completa e organizada; gosto de escrever encaminhamentos bem explicados; gosto de solicitar exames apenas quando há indicação precisa; gosto de prescrever medicamentos conforme as diretrizes/cadernos de atenção básica. O primeiro problema é que tudo isso demanda tempo, de modo que é difícil fazer uma consulta minha durar menos de 30 minutos. O segundo problema é que isso demandado muuuito estudo.

Mas, de qualquer forma, tenho conseguido manter boas condutas até o momento (acredito), tenho sido franca com os pacientes quando minha inexperiência me limita (admitindo quando não tenho experiência com um determinado assunto ou não sei de algo – e até agora ninguém demonstrou se incomodar com isso), e tenho aprendido como nunca antes!

Os dias que se passaram desde 16/07/2015 tem sido os mais intensos da minha vida, eu acho. E também de intenso crescimento!

da minha ambição

Estou num momento incrivelmente fértil da minha vida, em termos de crescimento.

Recém formada e procurando emprego em lugares e instituições variadas, são muitas as possibilidades que surgem em minha mente o tempo inteiro.

São tempos em que tenho de lidar com minhas ansiedades, medos e desejos mais profundos. No meio desse caos emocional todo, tenho descoberto muitas coisas em mim. Já que essa é uma experiência pela qual eu nunca havia passado e, portanto, uma maturidade nova a ser desenvolvida.

Algo que está muito claro para mim nesse momento é que sou uma pessoa ambiciosa. Mais do que eu imaginei que fosse. O que me deixa absolutamente feliz, no entanto, com essa minha ambição, é que também está claro para mim (pelo menos nesse momento) que ela pouco tem a ver com dinheiro. É claro que dinheiro tem sido uma questão importante e muito presente nesses dias; mas o meu desejo e minha ambição não estão direcionados para ele. Ele não é o fim em si, não é o objetivo.

Eu tenho em mim uma ávida vontade de crescer. De ser uma pessoa melhor, uma profissional melhor, uma filha, irmão, namorada, enfim… Melhor. Evoluir, aprender, ver coisas, pessoas e cidades novas. Absorver do mundo tudo o que é possível. Sugar todo o conhecimento que passar perto de mim. Viver intensamente todo tipo de experiência pela qual eu passo. Sou intensa desse jeito, percebo, pois o maior combustível que há em mim, o que mais arde no meu peito e me faz levantar animada todos dias é essa vontade. O que me faz viver é isso: eu querer ser uma pessoa cada vez melhor.

ai ele disse… [2]

relações onde há muita culpa não podem ser saudáveis

(foi triste ouvir isso, a princípio. é tipo tacar sal e limão nas minhas feridas. mas, depois, foi também meio reconfortante, de uma forma engraçada. primeiro que é bom saber que não sou culpada ou má pessoa por não querer mais nutrir a culpa nas relações que me culpavam excessivamente (????!!!!)… na verdade, é um sinal de crescimento emocional que eu tenha mudado isso. segundo que estou me recuperando cada vez mais, cada vez mais forte, dos sentimentos excessivos de culpa, de modo que isso já não me atinge como atingiria antigamente. estou reeditando essa história de um modo positivo. nutrindo relações saudáveis. crescendo em relacionamentos lindos, sinceros e emocionalmente edificantes. usando o sal e o limão pra fazer caipirinha!)

ai ele disse…

geralmente as pessoas que fazem medicina para “salvar as pessoas” o fazem porque precisam salvar algo dentro delas mesmas

Toda terça a tarde temos uma espécie de reunião com um professor de psicologia. Sentamos em grupo e… Falamos. Ele recomenda livros, nós lemos, conversamos sobre o que lemos, misturamos com a nossa vida e de repente estamos falando dos nossos dramas e dos dramas do universo inteiro. É sempre instigante e saio com a mente inquieta. Foi um dia interessante, hoje. O professor costuma dizer que espera “fazer barulho na gente”, e consegue toda vez. Saio de lá com a mente num turbilhão.

Saí para correr, depois de chegar em casa com a cabeça fervendo. Quando corro, deixo meus pensamentos passearem livremente de uma forma que não consigo fazer em outras situações. E fico apenas a observá-los, admirá-los.

Então, enquanto corria e observava o mar, tive subitamente o insight sobre as razões que me levaram a escolher medicina. Quero dizer a vocês que elas não são nem um pouco nobres. Incluem coisas tipo ter dentro de mim uma criança sedenta por atenção e tals. Felizmente (muito felizmente, na verdade), não sou um ser superior que resolveu abdicar de sua felicidade para salvar ninguém.

Também não tenho mais a ilusão de “salvar vidas”, que a medicina não chegou nesse nível, não. A gente não salva ninguém. A gente não “cura doenças”. Nós, quando conseguimos, tratamos. Ajudamos e consolamos quando possível. Mas nós não temos poder de salvar ninguém! As pessoas alucinam demais sobre o que é a medicina… E não é nada disso que passa na novela ou nos filmes.

Chega o momento em que é preciso admitir isso e fico muito feliz de ter conseguido alcançar essa sinceridade comigo mesma antes da formatura. Se faço medicina pois sou tão altruísta e especial que resolvi dedicar tanto de mim para “salvar vidas” e “curar doenças”, estou em outro patamar, acima dos outros. Essa visão coloca uma barreira entre nós e os pacientes. Mas se compreendo que escolhi medicina por razões bastante egoístas ou até infantis, e que meu “poder” enquanto médico é uma completa ilusão, eu volto a ser igual.

É libertador ser apenas um ser humano!

Aliás, longe de isso diminuir minha paixão ou dedicação pela profissão que escolhi; na verdade, acho que o fantástico da vida é isso: transformarmos nossas dores, frustrações e infantilidades em coisas melhores. Em coisas bonitas. Crescimento, resiliência!