sobre ser estranho

Ronnie me conta aquilo que acredita ser a história de como Tiffany perdeu o emprego, mas a maneira de contar demonstra que ele está sendo tendencioso. Ele conta a história exatamente como faria o Dr. Timbers, expondo aquilo que ele chamaria de “fatos”, sem se importar com o que estava acontecendo na cabeça da Tiffany. Ele me diz o que os colegas de trabalho dela escreveram em seus relatórios, ele me diz o que o chefe disse para os pais dela e o que o terapeuta tem dito para Veronica – que é o contato de apoio da Tiffany e, portanto, tem conversas telefônicas semanais com o terapeuta dela -, mas ele não me diz o que Tiffany pensa ou o que está acontecendo no coração dela: os sentimentos horríveis, os impulsos conflitantes, as necessidades, o desespero, tudo que a torna diferente de Ronnie e Veronica, que têm um ao outro, têm a filha Emily, um bom salário e uma casa e tudo mais que evita que as pessoas os chamem de “estranhos”. O que me espanta é que Ronnie está me dizendo tudo isso de uma forma amigável, como se estivesse tentando me salvar da Tiffany, como se soubesse mais sobre esse tipo de coisa do que eu, como se eu não tivesse passado os últimos meses em uma instituição para doentes mentais. Ele não entende Tiffany e com certeza não me entende, mas não digo isso para Ronnie, porque estou praticando ser gentil em vez de ter razão.

 

(Mattew Quick em “O lado bom da vida”)

 

O personagem principal desse livro, Pat, é um paciente psiquiátrico que sai do hospital depois de 4 anos e retorna ao convívio familiar e social. A história, como deve ter dado pra perceber, é narrada segundo o ponto de vista dele, o que a torna bem interessante. O que é ser alguém “fora dos padrões” nesse mundo em que ser normal é ter uma vida tediosamente traçada?

Num diálogo imaginário com Pat, eu provavelmente lhe diria algo como “Exatamente isso, Pat! E não é quase sempre assim?!”

E aí ele concordaria e imagino até tomar uma cerveja discutindo sobre como as pessoas consideradas estranhas podem ser emocionalmente mais maduras que as que se pensam normais, e as pessoas que se pensam normais tem essa tendência a expor os outros a constrangimentos justamente por não praticarem essa coisa de gentileza ao invés de razão, e que razão nem sempre muda muita coisa (geralmente não muda nada) e sobre como as pessoas podem ser cegas a coisas simples e até óbvias, como os sentimentos dos outros.