da maldita prova de cirurgia

Sei de cor as classificações de Gustillo e Anderson pra fraturas expostas, de Bosniak pra cistos renais, de Blaivas pra incontinência urinária, CEAP pra varizes, Hinchey pra abscessos da diverticulite, de Nyhus pra hérnias inguinais; sei de cor as estruturas que delimitam o triângulo de Hasselbach e o de Calot, sei as estruturas que passam pelo canal inguinal; sei os epônimos, mecanismos e definições das fraturas de punho e antebraço (Colles, Smith, Barton, Galeazzi, Monteggia, Chauffeur, etc.); sei os critérios para SIRS (taquicardia acima de 90, taquipneia acima de 20, leucócitos acima de 12.000 ou abaixo de 4.000, ou ainda bastões acima de 10%, temperatura maior de 38°C); os critérios de Ranson para prognóstico de pancreatite aguda nas primeiras 24 horas (idade acima de 55 anos, leucócitos maiores de 16.000, glicemia maior de 200, LDH acima de 350 e TGO acima de 250)  e mais um monte de outras decorebas e quilos de outras informações. Quando digo monte, é monte mesmo: na verdade, isso não deve ser 1/10 das decorebas contidas nas 200 páginas dos meus resumos. Quadros clínicos, exames, diagnósticos, tratamentos, prescrições, doses.

E o pior é que pode ser que nada disso seja suficiente pra me fazer ser aprovada na matéria. E não estou exagerando: o histórico da disciplina é esse. Isso já aconteceu a outros alunos antes.

Bom, que outro jeito, né?

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limite

Não tá nada fácil. E, pra variar, nada está correspondendo às minhas expectativas (eu não deveria ter me deixado contaminar por tanta confiança.. tenho de me lembrar de voltar a manter as expectativas baixas, muito baixas, no chão, praticamente).

Tive uma noite péssima: agitada, entremeada de pesadelos, entrecortada por momentos de acordar e sentir raiva de mim, da vida e do universo, e aí ter dificuldade em voltar a dormir. E, claro: a ansiedade. A maldita ansiedade.

Acordei, obviamente, cansada. Sentindo-me exausta. Física e emocionalmente exaurida, depois de três semanas vivendo nos limites da minha capacidade emocional e intelectual. Dando 100% em cada segundo de cada dia. E, mais uma vez, aqui me encontro, sozinha no quarto, tendo de lutar contra esse monte de sentimentos ruins, e torcendo pra que isso atrapalhe o menos possível nessa prova para a qual estudo há um mês. Por favor, meu Deus, me ajude a não deixar isso me atrapalhar. Sozinha não está dando certo.

 

Finalmente cedo às emoções e deixo as lágrimas escorrerem. O dia ainda vai ser longo e não me sinto preparada. Privação emocional e de sono, a pior prova da faculdade até agora e um plantão noturno logo em seguida, pra completar, que não vai me permitir descansar de tudo isso. Será mais um dia estressante seguido de uma noite estressante, e mais uma vez terei de arrancar Paula da onde não tem pra suprir as necessidades dos outros.

A chuva lá fora me deprime ainda mais e me faz ter vontade de esconder debaixo das cobertas e fingir que nada disso existe. Desistir. Chorar até que as lágrimas carreguem embora todo esse estoque de estresse, raiva, ansiedade, toda a carga emocional negativa com a qual eu tenho dificuldade de lidar.

Estou apavorada por não estar no estado de tranquilidade e equilíbrio emocional em que eu precisava estar pra essa prova. Eu estudei tanto, e agora corro o risco de deixar tudo cair por simplesmente não conseguir manter a calma.

 

Mas eu preciso encher minhas xícaras de café, varrer tudo o que sinto (outra vez) pra debaixo do tapete e estudar.

Os outros, mais uma vez. Os outros, sempre. E eu vou ficando pelo caminho

sobre ser a Paula

Aí, depois de 4 horas de cirurgia instrumentando com toda a concentração e afinco de sempre, o cirurgião me pede o fio tal  (que já tinha sido aberto e deveria estar na minha mesa de instrumentação). Enquanto me viro pra pegar, os dois cirurgiões presentes começam a elogiar minha instrumentação, dizendo que tinha sido muito boa, etc. O  engraçado é que eu mal estava ouvindo, já que o fio havia desaparecido da mesa, e logo mais eu descobri que tinha deixado ele cair no chão. Tive de interromper o discurso elogioso a meu respeito pra dizer “Dr… Eu, eu perdi o fio”. “Ah, não!”, respondeu ele. “Esquece tudo que eu disse. Menos 3 pontos pra ti.”

 

Hahahahahahaha. Só pra minha cara, mesmo.

Até fecharem o paciente ouvi piadas das mais variadas sobre a minha distração. Tem vezes em que eu acho que realmente não tenho jeito…

(apesar disso, mais tarde o residente me disse “mandou muito bem na instrumentação. os dois estavam aqui te elogiando”. “jura?! nem ouvi. tava preocupada com o fio. obrigada!!”)