da arte, da razão e da medicina

A produção de conhecimento, como resultado exclusivo da razão, a busca pelo ideal ascético e a negação da influência dos sentimentos, das emoções, nas construções que fazemos da realidade, exigem revisão.

Cabe a pergunta: e na Medicina, qual foi o lugar encontrado para a razão e a paixão?

Luz (1988) nos responde apontando que a medicina apenas exprime e ilustra, com radicalidade, um processo de racionalidade amplo que atingiu o Ocidente desde o classicismo grego, mais crescentemente com o capitalismo moderno.

A separação entre ciência e arte, sob o predomínio da primeira, a expulsão do Deu Dionísio (paixão) do nosso cosmos e o enaltecimento do Deus Apolo (razão) contaminam a Medicina de forma hegemônica no Ocidente, sendo responsável por um tipo de racionalidade que desloca do saber sobre o doente para o saber sobre a doença.

Trecho de “Psicossomática e suas interfaces – o processo silencioso do adoecimento”

Livro lindo

o processo silencioso do adoecimento

Ao negar a dor do outro, o profissional da saúde não apenas nega a dor do seu semelhante, como também a própria condição humana, pois dentre as virtudes humanas, uma das que mais nos diferencia de outras espécies é justamente aquela que nos capacita a compreender e a apreender a dor do outro naqueles momentos em que a fragilidade humana deveria evocar outra virtude humana: a fraternidade.

Do livro “Psicossomática e suas interfaces”

Humanizar é preciso! Não apenas nós, profissionais de saúde (embora a gente tenha motivos especiais pra isso). Mas a humanização deveria ser um processo ensinado a todos, desde que somos pequenininhos.

Aprender a lidar com a própria condição de humanidade – e suas limitações – pra poder olhar para os outros tendo todos como seus semelhantes

(em tudo o que aprendo, tenho visto amor)

Dinheiro e instrução não nos libertam facilmente da secular lavagem cerebral da nossa cultura. Passivamente ninguém derruba paredes limitadoras. E o preconceito (a “cultura”) nos diz que ser ativo é coisa de homem. Que devemos ser gentis, conciliadoras, agradáveis, sedutoras, despertar no homem sentimentos de posse e proteção, controlar constantemente os filhos para mostrar o quanto somos dedicadas.

Em suma, precisamos mostrar que merecemos afeto.

Somos criadas em função do hipotético príncipe salvador que decidirá – e terá de gerir, ainda que lhe custe – o nosso futuro. E naturalmente vai nos tratar como crianças. Seremos sempre as despossuídas, sem espaço nem força de decisão. Seremos dos pais, depois do marido, dos filhos e dos netos.

Para nós sobrará o canto da mesa da sala de jantar quando quisermos escrever, o computador do filho quando nos arriscarmos pela Internet, o sofá com as outras mulheres nos jantares de casais.

 

Lia Luft em “Perdas e Ganhos”.

Fica claro pra mim, nessas leituras e encontros, a razão pela qual eu me sentia tão deslocada e não-mulher há alguns anos. Nem sempre sou gentil, não sou nada conciliadora, nem sedutora e nunca procurei (e acho que, se um dia tivesse tentado, não conseguiria) despertar sentimento de posse em homem algum. E eu quero e sou ativa. Essa aqui é a minha vida, pelamor.

E eu não sou de ninguém não, viu?

da liberdade

Os homens dizem amar a liberdade, mas, de posse dela, são tomados por um grande medo e fogem para abrigos seguros. A liberdade dá medo. Os homens são pássaros que amam o voo, mas têm medo dos abismos. Por isso abandonam o voo e se trancam em gaiolas.
Somos assim: sonhamos o voo mas tememos a altura . Para voar é preciso ter coragem para enfrentar o terror do vazio. Porque é só no vazio que o voo acontece. O vazio é o espaço da liberdade, a ausência de certezas. Mas é isso o que tememos: o não ter certezas. Por isso trocamos o voo por gaiolas. As gaiolas são o lugar onde as certezas moram.
É um engano pensar que os homens seriam livres se pudessem, que eles não são livres porque um estranho os engaiolou, que eles voariam se as portas estivessem abertas. A verdade é oposto. Não há carcereiros. Os homens preferem as gaiolas aos voos. São eles mesmos que constroem as gaiolas em que se aprisionam…
Deus dá a nostalgia pelo voo.
As religiões constroem gaiolas
Os hereges são aqueles que odeiam as gaiolas e abrem as suas portas para que o Pássaro Encantado voe livre. Esse pecado, abrir as portas das gaiolas para que o Pássaro voe livre, não tem perdão. O seu destino é a fogueira.

Rubem Alves

contato

E se grande parte do que aceitamos como verdadeiro fosse um erro de interpretação, um caso especial ou um erro de lógica? – Carl Sagan

 

Eis um interessante exercício: tentar observar a vida ao seu redor como se você não a conhecesse, como se não fosse daqui. Como se não fosse da Terra, quero dizer. Como se você tivesse pousado por aqui hoje, e estivesse tentando entender os seres humanos. E os observasse em tarefas cotidianas, e avaliasse o modo como vivem e com pensam a vida. Imagine que você nunca teve contato com pessoas, que sua percepção de mundo está zerada. Quão bizarros não pareceríamos, quando vistos dessa forma? Por que comemos, bebemos, trabalhamos, dormimos, nos vestimos, acreditamos e vivemos da forma como fazemos? Por que não de outro modo inteiramente diferente? 

Pior: será que a forma como encaramos a vida faz tanto sentido quanto nos parece fazer? Seremos assim tão lógicos e inteligentes quanto nos pensamos?  Ou estaremos simplesmente deixando a corrente nos levar, por pura preguiça de pensar de verdade no que acontece com a gente?

Não faço a menor ideia das respostas. Mas tenho me divertido com as possibilidades!

unbreakable

Growth is painful. Change is painful. But nothing is as painful as staying stuck somewhere you don’t belong.

Mandy Hale

 

Li no http://projectunbreakable.tumblr.com/

Válido para o foco do projeto, é claro, mas válido também para tantas outras coisas que resultam da opressão que nos causam.

 

Não fique onde não merece estar.

Não acredite se te disserem que é bobagem, exagero, ‘piti’, tpm ou ‘mimimi’. Não acredite no que dizem quando tentarem menosprezar o que você sente.

Enquanto sentir que algo está errado, questione. Você tem esse direito. Seus sentimentos são importantes.

Those who do not move do not notice their chains

É isso, sabe? Quem não se movimenta, quem não pensa, não questiona, não vê. Simples desse jeito.

Então, não. Não deixe que continuem te prendendo.

Mudar é difícil e traz desconforto, é claro. Mas é possível, é preciso e faz feliz. E começa por você.

 

 

 

diálogo interior…

Ante o infinito,
Cismo e medito.
Mas vou pensando
E interrogando.

Dialogo a esmo
Comigo mesmo.

— Tudo convida
A amar a vida.

— E amar se deve
A um bem tão breve?

A vida é bela
No que revela…

— Mas como existe
O homem tão triste?

— A vida é a luta
Divina e bruta.

— Onde o heroísmo:
Páramo ou abismo?

— A vida encerra
Os bens da terra.

— Se esses dons temos,
Por que sofremos?

— A vida inquieta
É a mais completa.

— Mas por que a alma
Aspira à calma?

— A vida é intensa
Para quem pensa.

— E onde a esperança,
Que não descansa?

— A vida é pura
Quando há ventura.

— E por que sinto
A ânsia do instinto?

— A vida é chama,
Que apura e inflama.

— Por que a resumo
Em névoa e fumo?

— A vida é a glória
Sempre ilusória.

— Mas como é insano
O sonho humano?

— A eterna esfinge
Ninguém atinge…

— Que reticências
Nas existências!

Alberto da Costa e Silva.