crianças

Todos os dias, eu espero minha carona num local próximo a uma escola.

Todos os dias, para um ônibus ali em frente. E, todos os dias, a mulher desce antes e chama, impaciente, o garotinho, parada na porta. Ele sempre:

– Volta pra buscar a mochila que esqueceu no banco;

– Volta pra dar tchau pro motorista;

– Quer descer os enormes degraus (enormes para ele) do ônibus, sem ajuda, sob os olhares impacientes e apelos da mãe.

A cena invariavelmente termina com a mãe puxando-o do último degrau, por um braço, e ele sacudindo as perninhas. Ela diz que o motorista não pode ficar esperando, que tem de sair logo. Tão logo ela o põe no chão, ele sai pulando ou correndo alegremente.

 

Os únicos chatos e impacientes dessa cena são os adultos. A criança não está incomodada com o tempo. Ela poderia levar o tempo que for para descer o degrau do ônibus, porque até assim ela está se divertindo.

 

Hoje, cheguei ao leito de uma das pacientes que acompanho, uma garotinha de 3 anos. Quando me aproximei do berço, ela se levantou, veio para a borda próxima de onde eu estava e abriu os bracinhos.

– Quer dar um “upa”, filha?! Perguntou a mãe dela.

– Upa, ela disse, e me envolveu com os bracinhos fofos.

Obviamente retribuí, abraçando-a, e beijando-lhe a testa. Ela sorriu.

Mais tarde, eu quis, no exame físico, fazer oroscopia. Mas ela me retrucou:

– Eu já tô cansada.

No dia em que a vi pela primeira vez, ela me disse com toda espontaneidade, quando lhe prometi não machucá-la durante o exame, que estava assustada. Pudera! Primeira internação na vida.

 

Os que mais apresentam dificuldade de demonstrar o que sentem e pensam são os adultos. As crianças são espontâneas e sinceras, na maior parte das vezes. Elas não disfarçam o que são e não tem vergonha do que sentem.

 

Evoluímos em algumas coisas, quando crescemos, mas também involuímos em tantas outras…

sobre a vida como ela realmente é

Duas vidas se iniciavam ali, quase juntas.

Era a sala da neonatologia, onde os recém nascidos são atendidos pelo pediatra logo após o nascimento. Eu estava de plantão no centro obstétrico, mas como sempre, saí da sala de parto para acompanhar os bebezinhos. Adoro eles.

Lá estava eu vestindo uma bela roupa cor-de-rosa, com rendas, babados, fitas e pedrinhas brilhantes, numa bebê que nasceu com 4.195kg, de parto cesáreo. A mãe e a avó aguardavam para vê-la, ansiosas. A avó carregava uma bolsa cheia de roupas e aparatos.

Enquanto eu a vestia, chegou uma outra bebezinha, envolta numa manta e em papel alumínio. Não chorava. Estranhei, pois dentre as gestantes que estavam lá, nenhuma estava em estágio avançado do trabalho de parto. Mas a enfermeira que a trouxe comenta que havia sido um “parto em trânsito”.

Saí para ver a mãe e presenciei a enfermeira conversando com ela.

– Que drogas você usa? Pra eu falar pro pediatra.

– Crack.

– Você usou hoje?

– Usei.

– Que horas?

– Faz umas quatro horas…

– Usou quantas pedras?

– Uma pedra e meia.

Sentada na cadeira de rodas, ela se retorcia. Magra, cansada.

Voltei para a sala da neonato.

A bebezinha que nasceu no trânsito pesava pouco mais de dois quilos. Estava enroladinha na sua manta, quietinha, tão menor e parecendo tão frágil. No berço ao lado, exatamente ao lado, uma bebê de quatro quilos se chacoalhava em sua roupinha rosa cheia de rendas.

A vida não é nada justa. Desde o primeiro segundo. Duas vidas acabavam de começar, lado a lado, e sem mérito de nenhuma das partes, uma delas já estava muito a frente em termos de vantagens.

A gente nunca sabe que tipo de reviravoltas podem acontecer no meio do caminho, é claro. E podem acontecer muitas reviravoltas. Pode ser que, por alguma delas, a bebezinha frágil, filha do crack, seja mais ou igualmente feliz. Se “dê bem” na vida e conquiste seus sonhos. Mas olhando assim, o que vocês acham?

 

Eu acho que tá tudo errado.

(e, não. eu absolutamente não culpo a mãe. enquanto pessoa que não a conhece e não conhece sua história de vida, parto do princípio de que ela é vítima do sistema tanto quanto a própria bebê que acaba de nascer).

queria saber o que escrever pra arrancar isso de mim, mas tá difícil

Tá chovendo, e

(subitamente fiquei decepcionada comigo mesma, por me permitir cair nessa… de me deixar abater e mau-humorar desse jeito. não consigo entender a razão pela qual deixamos de nos encantar pela vida, de verdade. quer dizer: entendo, mas acho que somos estúpidos nesse sentido. parece que involuímos em algumas coisas à medida em que crescemos… olhe para as crianças. olhe como sorriem com frequência. olhe como são espertas em usar seu tempo em coisas deliciosas e como comemoram suas descobertas! aí eu resolvi abrir a janela, e entrou o vento fresco e úmido pós-chuva e, então, de repente, percebi-me muito emotiva. ando emotiva por esses dias. emotiva por dentro, só pra mim, no caso. a gente cria uma casca pra viver e não mostra nem fala muito disso pros outros – que merda. queria que não fosse tão difícil. queria conseguir limpar minha mente, extinguir de dentro de mim essa angústia pequenininha porém incômoda, esse estresse e esse cansaço, e essa irritação com o fato de a vida não ser nem um pouco justa, e viver em absoluta sensação de paz e tranquilidade. eu sei que é um exercício diário e que dá certo trabalho. exige concentração, autocontrole, diversos momentos de autoterapia. mas não consigo deixar de acreditar que possa ser possível alcançar um estado quase pleno de amor, felicidade e tranquilidade… pode dizer que estou sendo utópica. pode dizer que estou tentando negar minha humanidade. ah, talvez seja algo assim, mesmo, que sou eu pra estar certa? mas eu passei por umas fases na vida nas quais aprendi que se pode sofrer em paz, e cara, como eu queria conseguir sempre sofrer em paz, estar cansada em paz, estar atarefada em paz. encontrar algum canto dentro de mim que se proteja dos fatores externos. um pedacinho intocável de paula. uma porção forte, segura e autoconfiante o suficiente. um pedacinho que não perca a capacidade de ver com olhos diferentes, de perceber, de captar. de lembrar que: os dias nunca são iguais; as pessoas nunca são iguais de um dia para outro; a vida é recheada de tantos fatores, que é impossível que eles todos se cruzem mais de uma vez, possibilitando situações idênticas mais de uma vez; que tudo nessa vida pode ser aprendizado, que tudo pode ser evolução. ah, queria poder me livrar dessas amarras tolas! permitir ser livre. não viver sentindo que o tempo todo estou sendo ‘obrigada a’. que tudo fossem minhas escolhas, feitas com o amor que merecem. talvez eu pareça uma boba escrevendo e pensando desse jeito, mas, talvez, também, sejamos bobos em não nos esforçamos pensando nisso. a gente cai na armadilha! deixa que outros tomem os rumos pela gente. outros fatores, outras pessoas, outras situações. a cada minuto, permitimos que nossa vida seja dominada pela enorme carga de ansiedade, irritabilidade, obrigação, seriedade e chatice que jogam sobre nossos ombros. será que estou mesmo tão presa quanto imagino? será que, talvez, não seja uma questão de apenas mudar a forma de enxergar as coisas? a rotina? e, quando mudar o jeito de encarar não funciona, será que não nos falta coragem pra tentar agir sobre os fatores externos? e, quando não podemos agir sobre fatores externos, será que não nos falta capacidade de aceitação, resiliência, percepção de que até o desagradável é crescimento – ou, pensando melhor, o desagradável proporciona mais crescimento ainda? caímos nessa, de torcer para que os dias passem rapidamente. vivemos esperando. a espera gera expectativas. as expectativas se transformam em frustrações. as frustrações nos tornam ainda mais amargos e prolongam a espera. vivemos com a cabeça cheia de mil coisas. pensamentos borbulham, transbordam, nos deixam malucos. as nossas suposições todas. nossas especulações, quase sempre tão erradas. mas acho que hoje eu só precisava conseguir acalmar o meu coração o suficiente pra poder olhar pra fora e sentir prazer em ver a chuva cair outra vez…)

deixo com vocês a pequena kayden, tão mais esperta em ser feliz do que tenho sido essa semana

sobre como o mundo nos aprisiona

Tenho lembranças muito vivas não apenas da minha infância, mas de como eu pensava quando era criança.

Eu lembro de ser uma criança espontânea, criativa e extrovertida. Lembro tão bem! Eu apresentava teatros pra família, cantava a plenos pulmões (meus avós costumavam comentar “eu estava lá atrás e conseguia te ouvir!”), dava minhas opiniões e tinha plena confiança na minha inteligência (é. eu me achava inteligente, sim), inventava e liderava um monte de brincadeiras, fazia o que desse vontade (independente de ser “coisa de menino”)… E eu tinha um monte de sonhos, sonhos de mudar o mundo e fazer dele melhor. E eu achava que conseguiria (que já estava conseguindo, na verdade).

Os adultos ao meu redor, aqueles, que achavam que conheciam o “mundo real”, foram cortando minhas asas, punindo minha espontaneidade e me espremendo para que eu coubesse na caixinha deles. Eles não fizeram por mal. Fizeram achando que era o correto, que eu não podia mesmo ser daquele jeito. Foram professores, foram pais de amiguinhos, foram familiares, foram até completos desconhecidos.

O pior é sabe o que?

Eles conseguiram.

Tornei-me uma adolescente tímida, insegura, com sensações de inferioridade, com dificuldades para falar em público. Deixei de gostar de mim e passei a tentar controlar tudo o que fazia pra não passar por ridícula. E sempre achava que não adiantava – que eu era ridícula e inadequada, mesmo.

Quando eu era criança, lembro-me de que costumava olhar para algumas atitudes dos adultos e pensar “Nunca serei como eles!”.

Aquela Paula criança tinha muita razão em não querer ser uma adulta como os adultos que ela via. Eles brigavam por motivos mesquinhos, pareciam nunca estar contentes e satisfeitos com nada, estavam sempre reclamando e achando que tudo estava errado e não tinham a menor paciência com a vida. Especialmente com a vida dos outros.

 

Ultimamente tenho pensado muito nisso. Em como me tornei uma pessoa travada. E não sou só eu, não! Em como todos nos tornamos travados e depois tornamos as crianças espontâneas, expressivas e criativas em pessoas sérias e travadas também. Pra que fazemos isso, mesmo?

 

Não quero mais ser assim. Eu quero ser livre

Pra me permitir sentir, me permitir expressar, me permitir cantar a plenos pulmões, me permitir considerar inteligente (a meu modo, que seja), me permitir brincar com a vida simplesmente porque é chato demais não fazer isso

pequena demonstração de empatia

Eu estava tomando café e ouvindo a conversa de dois garotos de, eu chuto, uns 10 anos.

– Sabe o Fulano, da tua sala?

– Sei.

– Viraram café quente na blusa dele. Ele chorou.

– Café quente?!

– Aham. O bicho tava chorando!

– Eu também ia chorar.

– Chorando, cara!

– E daí? Café quente!

– Porra, só café, cara…

 

 

Deposito minha fé na humanidade nessas crianças que admitem o choro, o riso, o sentimento e a empatia nas vidas delas.

o mundo inteiro

O braço, o ombro, o rosto, o queixo

Um buraco pra cavar e uma concha pra guardar

O mundo inteiro é um vasto lugar

O mel, a abelha, o favo, o zumbido

O sabugo, a espiga, o milho cozido!

O tomate vermelho, a erva de cheiro

O mundo inteiro é um canteiro

O tronco, o toco, o ramo, o carvalho

Trepar no alto, ficar sobre o galho

Ver a manhã passar neste abrigo

O mundo inteiro é novo e antigo

A rua, a via, a travessa, o caminho

O navio, a jangada, a vela, o barquinho

O ninho, a ave, a nuvem cinzenta

O mundo inteiro sopra e venta

Corre, tropeça, escorrega, olha a lama!

Vira o balde, derruba, esparrama

A sorte volta em outro momento

O mundo inteiro segue em movimento

A mesa, o prato, a faca, o saleiro

A barriga faminta, o jantar vem ligeiro

O pão, a farinha, o caldeirão fervente

O mundo inteiro é frio e quente

O sol se pondo, a sombra repentina

O fim do dia, o grilo, a cortina

Um fogo leva o frio embora

O mundo inteiro descansa uma hora

Os avós, os pais, os parentes, os primos

O piano, a harpa e o violino

De colo em colo segue o bebê

O mundo inteiro somos eu e você

Tudo que se escuta, sente e vê

O mundo inteiro é tudo isso

Tudo isso somos eu e você

A paz, a esperança e o amor verdadeiro

Nós somos o mundo inteiro

Livro infantil que recebi da Fundação Itaú Social. De Liz Garton Scanlon e Marla Frazee.

Lindo, lindo!

sobre amar o que faz

Era o dia de o bebezinho que acompanhei receber alta. Ele foi meu primeiro paciente (como acadêmica do internato) no Hospital Infantil. Como passamos todos os dias ao menos duas vezes para ver os pacientes, acabamos fazendo algum vínculo.

Hoje pela manhã  fui examiná-lo pela última vez.

– Tomara que ele fique com o olho azul, diz a mãe.

– Ainda não vi ele de olhinho aberto… Poxa, Davi! Abre o olhinho pra tia, vai? Você não pode ir embora sem eu ver! Hahaha.

– É verdade, tu não viu, né? Ele tava sempre dormindo por causa do remédio… Mas é lindo, azul bem escuro. Tomara que fique de olho azul, tem gente de olho azul na minha família.

– Ah! Então talvez fique mesmo!  Ah, Davi! Olha pra tia, olha?

E ele nem aí. Dormindo, preguiçoso, tranquilo.

Saí do quarto e fui para o computador fazer a evolução dele. Estou lá quando a enfermeira chega:

– Quem tá com o RN de Fulana?

– Eu!

Geralmente, quando elas perguntam isso, é por precisarem do prontuário para olhar alguma prescrição, ou anotar algum procedimento. Então rapidamente passamos o prontuário para elas. Eu já estava esticando ele, mas dessa vez… Dessa vez, não:

– A mãe tá te chamando. Ela disse que ele abriu o olhinho!

 

Larguei tudo e fui correndo, feliz, para o quarto. Lá estava um bebezinho lindo de olhos azuis escuros, me encarando…

love is all, from what i’ve heard

as perninhas que não firmavam e o choro fácil denunciavam um passado triste e a lembrança da dor. mas eu o segurei e levantei acima da minha cabeça, como que o fazendo voar, e ele gargalhou. então eu sorri também.

 

Algumas vezes eu acho que já aprendi a lidar; outras, que jamais vou me habituar a isso. O fato é que sou tomada dum misto de raiva, tristeza, impotência e… E felicidade – por ainda existir a possibilidade de sorrir. Sempre há a possibilidade de sorrir.

here come the tears
but like always, i let them go
just let them go

criança

Muito escutei na minha infância: “Criança não pensa.

Criança pensa. Mas faz também algo mais importante, que amadurecendo desaprendemos: ela é. Contemplando uma mancha na parede, um inseto no capim ou a revelação de uma rosa, ela não está apenas olhando. Está sendo tudo isso em que se concentra. Ela é o besouro, a figura na parede, ela é a flor, o vento e o silêncio.

 

Lya Luft em “Perdas e Ganhos”.