da angústia de hoje

Ai, essas convenções que aprisionam…

Ai, essas coisas que os seres humanos inventam pra inflar o ego! Pra ser centro, pra ser notado, pra se sentir especial…

Se você olhar atentamente para as convenções, verá que elas são algo próximo de uma trapaça. Isso: trata-se de as pessoas quererem trapacear a vida, para que ela não lhes pregue as peças que prega em todo mundo. Baseiam-se numa ilusão: de que tudo será eternamente perfeito dali em diante, sem explicação racional alguma…

Mas não vai ser. E a vida não vai te poupar. É assim que ela é.

Então que tal a gente encarar tudo de maneira menos artificial, menos expositiva… E mais sincera?

tenho pensado muito e não vejo motivo nenhum nisso tudo

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porque a revolução é uma pátria e uma família

Sou apaixonada por Jorge Amado. Seus escritos de cunho social, suas obras cruas, reais e doloridas me tocam de modo que não sei explicar. Fazem de mim triste e feliz ao mesmo tempo, nem sei como. Sei que a cada livro dele que leio (ou releio), eu choro pelo menos uma vez (mas geralmente, são mais). Ele tem grande participação no meu modo de pensar as classes sociais. Não sei se há como ler algo dele sem se comover e sem parar pra pensar.

 

Hoje, terminei de reler “Capitães da Areia”. Jorge Amado é um de meus favoritos, e esse livro é um de meus favoritos dentre os de Jorge Amado (não posso dizer que é meu livro favorito, pois tenho muitos livros favoritos).

 

Fico comovida com a força de Pedro-Bala, com a pureza e a valentia de Dora, com a bondade de João Grande, com a fé do Pirulito, a sensibilidade do Professor, com o ódio sem fim de Sem-Pernas e até mesmo com a psicopatia (socialmente alimentada) de Volta Seca. Tornam-se como que meus conhecidos, amigos queridos, irmãos menores. Queria protegê-los, fazer algo que mudasse as vidas deles, que mudasse a nossa vida, que mudasse a vida inteira.

Mas a vida não muda, e nós – tanto eu quanto esse meninos, que são de livro mas também são reais – sabemos que não adianta. Que essa vida é caso perdido.

Que as pessoas são caso perdido.

Sinto raiva da nossa sociedade hipócrita, vazia, distante, arrogante e julgadora. Somos todos igualmente criminosos, só que uns social e moralmente aceitos, e outros não.

 

Mas ainda temos esperança na transformação (nas pequenas transformações, talvez), e sinto a mesma empolgação de Pedro-Bala ao pensar nas possíveis mudanças, na liberdade que é como o sol – o bem maior do mundo. Parece até que te conheço, Pedro-Bala. Desde que chorei contigo a morte (real e imaginária) de Dora.

Pois que todos nós choramos, vez ou outra, a morte (real e imaginária) de nossas expectativas…

sobre como o mundo nos aprisiona

Tenho lembranças muito vivas não apenas da minha infância, mas de como eu pensava quando era criança.

Eu lembro de ser uma criança espontânea, criativa e extrovertida. Lembro tão bem! Eu apresentava teatros pra família, cantava a plenos pulmões (meus avós costumavam comentar “eu estava lá atrás e conseguia te ouvir!”), dava minhas opiniões e tinha plena confiança na minha inteligência (é. eu me achava inteligente, sim), inventava e liderava um monte de brincadeiras, fazia o que desse vontade (independente de ser “coisa de menino”)… E eu tinha um monte de sonhos, sonhos de mudar o mundo e fazer dele melhor. E eu achava que conseguiria (que já estava conseguindo, na verdade).

Os adultos ao meu redor, aqueles, que achavam que conheciam o “mundo real”, foram cortando minhas asas, punindo minha espontaneidade e me espremendo para que eu coubesse na caixinha deles. Eles não fizeram por mal. Fizeram achando que era o correto, que eu não podia mesmo ser daquele jeito. Foram professores, foram pais de amiguinhos, foram familiares, foram até completos desconhecidos.

O pior é sabe o que?

Eles conseguiram.

Tornei-me uma adolescente tímida, insegura, com sensações de inferioridade, com dificuldades para falar em público. Deixei de gostar de mim e passei a tentar controlar tudo o que fazia pra não passar por ridícula. E sempre achava que não adiantava – que eu era ridícula e inadequada, mesmo.

Quando eu era criança, lembro-me de que costumava olhar para algumas atitudes dos adultos e pensar “Nunca serei como eles!”.

Aquela Paula criança tinha muita razão em não querer ser uma adulta como os adultos que ela via. Eles brigavam por motivos mesquinhos, pareciam nunca estar contentes e satisfeitos com nada, estavam sempre reclamando e achando que tudo estava errado e não tinham a menor paciência com a vida. Especialmente com a vida dos outros.

 

Ultimamente tenho pensado muito nisso. Em como me tornei uma pessoa travada. E não sou só eu, não! Em como todos nos tornamos travados e depois tornamos as crianças espontâneas, expressivas e criativas em pessoas sérias e travadas também. Pra que fazemos isso, mesmo?

 

Não quero mais ser assim. Eu quero ser livre

Pra me permitir sentir, me permitir expressar, me permitir cantar a plenos pulmões, me permitir considerar inteligente (a meu modo, que seja), me permitir brincar com a vida simplesmente porque é chato demais não fazer isso

sobre cafés e o que somos

Não é minha intenção discutir hoje, aqui, as indústrias da informação e do entretenimento (que já são uma só, o que empobrece a todos).  (…)

… na lógica fria da contabilidade de espectadores-curtidas-acessos, se falam disso é por que isso nos interessa, né? E, se é isso que nos interessa, o que nos tornamos? Por que tão embrutecidos?

(*)
O cheiro de café na sala me remeteu à casa de minha avó onde, em tempos idos, aquecia-se a xícara com água quente antes de servir o café. Hoje em dia, parece que qualquer água suja e morna em copo plástico tá valendo. Onde foi parar essa delicadeza? Por que tão embrutecidos?
BloGessinger. Sempre genial. Impossível não concordar: da falta de sensibilidade da indústria da informação ao café mal feito em copo de plástico, a pergunta que nos resta é só essa mesmo. No que foi que nos tornamos…
Recuso-me a seguir assim. Mesmo que seja difícil, vou tentar nadar contra a maré, até o último.

sobre ser ou não ser a paula

Esses dias entrei numa pira sobre o que é, ou não, ser a Paula. Começou por que me dei conta de que ando me permitindo uma porção de coisas que não me imaginava, há alguns meses. E isso se deve, principalmente, por ter passado pelo oitavo período; ele sugou tanto de minha energia, seriedade e comprometimento, que de repente me peguei “me permitindo pirar” em diversos momentos, que era pra extravasar o estresse todo.

Mas também se deve ao fato de que, desde comecei a ler sobre o movimento feminista, embarquei numa de ler sobre diversos outros movimentos de minorias e percebi que eu tinha, muitas vezes, uma atitude não apenas machista, mas também elitista e preconceituosa. Bom, acontece, né? É muito fácil agir assim quando crescemos cercados dessas ideias. O importante é a gente se dar conta e sair dessa em algum momento.

O funk é apenas uma, dentre tantas coisas, que tomarei de exemplo nesse post (já escrevo demais; se escrever sobre tudo, sai um livro).

Há poucos meses, a minha postura era achar o funk e quem ouvia/dançava imbecis. Havia, sim, um sentimento dum quê de superioridade só por que eu gosto e só ouvia rock-metal-músicaclássica-blues-outrasqueachoboas.

Aí percebi que esse discurso que eu fazia (“funk é uma merda, esse país não tem cultura, coisa de gente sem conteúdo, de homem sem noção e mulher vagabunda, blablaba”) era um típico discurso ignorante de alguém que foi criada na cultura da classe média (embora não tenha passado nela toda sua vida) e de origem Alemã/Austríaca (e portanto, herdeira dessa cultura). É muito fácil falar esse tipo de coisa, já que fui induzida pela minha criação a desenvolver esse gosto. O que é mérito meu aí, exatamente? Pelo que devo me sentir superior? Pela sorte de ter sido gerada por tal e tal pessoa? Eu, ein. Tenho mais do que me orgulhar.

É aquela coisa: só porque você não gosta, não significa que não seja cultura (pesquise a respeito, há muito textos bons sobre cultura na internet – ajuda procurar artigos acadêmicos, que são mais bem escritos e bem argumentados).

Declaro com felicidade que após constatações como essas, passei a deixar de ser chata e me permitir dançar e ser feliz com um grupo de amigas se quisesse, sem me preocupar com julgamentos. E adivinha só?! Continuei sendo completamente eu. Os mesmos propósitos de vida, as mesmas crenças, as mesmas ideologias e princípios, tudo. Dançar funk não me tornou uma pessoa pior – lide com isso, sociedade! É isso que tenho a declarar, minha gente: tenho me tornado cada vez menos hipócrita, e isso faz feliz. Por que aí tenho julgado muito menos os outros, tenho sido menos rasa. E tenho me julgado muito menos, também. Libertador.

Quanto menos hipócrita me torno (e espero que o processo continue a todo vapor, que ainda há muito a trabalhar!) mais me dou conta  de que é um absurdo definirmos uma pessoa como melhor-superior-pior-inferior só por que não gostamos das mesmas músicas que ela, por que achamos as roupas dela curtas demais ou por que pensamos que ela não poderia dançar de um jeito que não nos agrade. Qual é o nível de profundidade nesses critérios, para colocarmos como parâmetro de avaliação de alguém?

Aliás, acho que já deu de querer colocar qualquer parâmetro pra medir qualquer pessoa. Seres humanos não são avaliáveis por critérios objetivos.

Mas assim somos nós – sempre prepotentes, achando que o mundo gira conforme nossas regras. Infelizmente ainda carrego desses pesos. Espero, no entanto, continuar deixando eles pelo caminho… e seguir cada vez mais leve!

cultura, segundo o michaelis

cul.tu.ra
sf (lat cultura1 Ação, efeito, arte ou maneira de cultivar a terra ou certas plantas. 2 Terreno cultivado. Biol Propagação de microrganismos ou cultivação de tecido vivo em um meio nutritivo preparado. Biol Produto de tal cultivação. 5Biol O meio junto com o material cultivado. 6 Utilização industrial de certas produções naturais. 7 Aplicação do espírito a uma coisa; estudo. Desenvolvimento que, por cuidados assíduos, se dá às faculdades naturais. Desenvolvimento intelectual. 10 Adiantamento, civilização. 11 Apuro, esmero, elegância. 12 V culteranismo. 13 Sociol Sistema de ideias, conhecimentos, técnicas e artefatos, de padrões de comportamento e atitudes que caracteriza uma determinada sociedade. 14 Antrop Estado ou estágio do desenvolvimento cultural de um povo ou período, caracterizado pelo conjunto das obras, instalações e objetos criados pelo homem desse povo ou período; conteúdo social.15 Arqueol Conjunto de remanescentes recorrentes, como artefatos, tipos de casas, métodos de sepultamento e outros testemunhos de um modo de vida que diferenciam um grupo de sítios arqueológicos. C. alternativa, Agr: a que se faz alternando. C. esgotante: a que esteriliza ou depaupera o solo. C. física:desenvolvimento metódico do organismo humano por meio da ginástica e dos desportos. C. extensiva: a que explora a riqueza do solo sem cuidar da conservação deste, precisando, assim, de amplos territórios. C. geral: a constituída de conhecimentos básicos indispensáveis para o entendimento de qualquer ramo do saber humano. C. intensiva: a que acumula o trabalho e o capital num terreno relativamente pequeno, conservando-lhe a fertilidade.

Na verdade, a parte que me interessa nesta discussão está a partir do item 7.

Como tantas palavras, deve ser interpretada a partir do contexto na qual está inserida. E o que quero discutir é o que dizem muitos brasileiros: “esse país não tem cultura”.

Bem. Como dito nesta definição, a cultura pode estar inserida num contexto individual – e pode dizer respeito ao desenvolvimento intelectual, elegância, aos estudos, essa coisa toda. Daí falarmos em pessoas cultas, ou culturalmente ricas. E até aí, tudo bem. Mas temos de ter cuidado quando falamos da cultura num contexto social. Por que aí, ela não está relacionada ao nosso gosto individual, ao nosso próprio desenvolvimento intelectual. E, portanto, não podemos dizer que povo algum “não tem cultura”. Afinal: “conjunto das obras, instalações e objetos criados pelo homem desse povo ou período; conteúdo social”. As obras, criações, objetos e instalações estão aí, quer você goste delas ou não, quer concorde ou não, quer queira modificá-la ou não.

Dei-me conta, recentemente, de que minha cultura não é brasileira. Minha cultura, minha, da Paula, foi influenciada pela minha família, de descendência alemã e suíça. É por isso que, quando aos 7, coloquei na cabeça que queria tocar violino, fui incentivada. E passei a ganhar dos pais e avós CDs e mais CDs de música clássica. E é por isso que eu ouço o que? Músicos clássicos alemães. Mérito meu? Mas nem de longe! Herança cultural de um povo. Se eu tivesse tido outra “sorte” (por falta de palavra melhor como, sei lá, destino) e tivesse nascido numa favela no Rio de Janeiro, minha herança cultural seria outra e, por sinal, muito mais brasileira: funk. Menos cultural? Não mesmo! O funk é uma manifestação cultural rica, sim; ali está o conteúdo social de um povo. Merece tanto valor e atenção quanto Bach. De execução musical mais simples, talvez? É, pode ser. Mas o que está em discussão não é, afinal de contas, o contexto social?

Que graça tem dançar Bach, minha gente?! Baile tocando Bach? Não, não.

Então ó, vou dizer uma coisa: de se divertir, funkeiros entendem mais! Não tem mais ou menos valor. A manifestação cultural apenas está em outro foco; não são comparáveis, nem equivalentes. Existe prazer em dançar até o chão e existe prazer em apreciar uma peça, um concerto. E que cada um seja feliz como melhor lhe aprouver, ou mesmo de todas as formas possíveis!

ps: ainda estou no início dos estudos a respeito dessa coisa de manifestação cultural. e é um assunto bastaaaaante complexo. caso queiram me corrigir ou acrescentar, fiquem à vontade, por favor.

ps2: usei esse exemplo, por que era o que contrastava quando conversava com as pessoas sobre meu gosto musical. mas poderia ter usado qualquer outro, na verdade. e claro, não estou dizendo que necessariamente uma pessoa da favela vá gostar só de funk, nem que a cultura brasileira se resume a isso, etc.

viajando com sartre

Para alguns, a Filosofia aparece como um meio homogêneo: os pensamentos nascem e morrem nele, os sistemas nele se edificam para nele desmoronar. Outros consideram-na como uma certa atitude cuja adoção estaria sempre ao alcance de nossa liberdade. Ainda para outros, é vista como determinado setor da cultura. Em nossa opinião, a Filosofia não existe; sob qualquer forma que seja considerada, essa sombra da ciência, essa eminência parda da humanidade não passa de uma abstração hipostasiada. De fato, existem várias filosofias. Ou melhor – porque nunca encontrareis, em determinado momento mais do que uma que viva -, em certas circunstâncias bem definidas, uma filosofia se constitui para dar expressão ao movimento geral da sociedade; e, enquanto vive, é ela que serve de meio cultural aos contemporâneos. Esse objeto desconcertante apresenta-se, simultaneamente, sob aspectos profundamente distintos, cuja unificação opera constantemente.

(…)

Mas, para ser verdadeiramente filosófico, esse espelho deve apresentar-se como a totalização do Saber contemporâneo: o filósofo opera a unificação de todos os conhecimentos, utilizando como critério alguns esquemas diretores que traduzem as atitudes e as técnicas da classe ascendente diante de sua época e do mundo. Mais tarde, quando os detalhes desse Saber tiverem sido contestados um a um e destruídos pelo progresso das Luzes, o conjunto permanecerá como um conteúdo indiferenciado: depois de terem sido ligados por princípios, tais conhecimentos, esmagados, quase indecifráveis, ligarão, por sua vez, esses princípios.

(…)

Uma filosofia, quando está em sua plena virulência, nunca se apresenta como uma coisa inerte, como a unidade passiva e já terminada do Saber; nascida do movimento social, ela própria é movimento e age sobre o futuro

(…)

Se a filosofia deve ser, a uma só vez, totalização do Saber, método, Ideia reguladora, arma ofensiva e comunidade de linguagem; se essa “visão do mundo” é também um instrumento que trabalha as sociedades carcomidas, se essa concepção singular de um homem ou de um grupo de  homens torna-se a cultura e, às vezes, a natureza de uma classe inteira, fica bem claro que as épocas de criação filosófica são raras.

 

Jean-Paul Sartre em “Crítica da Razão”

Encontrei esse numa prateleira da biblioteca, enquanto procurava por nada específico, só qualquer coisa que me chamasse a atenção. E não é que estou achando tudo interessantíssimo? Descobri-me uma grande ignorante com relação à Filosofia (o que, pensando bem, é uma vergonha; tenho acesso a bibliotecas e informações há muito tempo e nunca fui atrás). E como acontece com os ignorantes curiosos, logo vieram as indagações: onde estão as produções filosóficas – pelo que estamos sendo influenciados? Que ideias regem, no momento, a cultura que vivemos? O que está agindo sobre o futuro, bem agora? E fiquei pensando que as respostas que eu desejaria provavelmente não correspondem à verdade.

 

da cultura

Não tinha prometido que ia ler sobre pra desmanchar meus preconceitos? Pois então. No meio da busca, eis que surge esse texto excelente. Então é isso, nunca, nunca mais vou proferir as barbaridades preconceituosas e ignorantes que eu costumava dizer a respeito de – só pra dar um exemplo dentre vários – funk.

 

“Dizer que produção de cultura vai do luxo ao lixo é de uma desonestidade intelectual sem tamanho. (…) Hierarquizar a cultura só prejudica. Essa hierarquia construída ao longo de séculos e baseada em um gosto de classe muito bem definido, no qual apenas o que elites definem o que é cultura e o que não é – ou, nas suas palavras, o que é ‘luxo’ e o que é ‘lixo’ – precisa ser COMBATIDA. Creio que a academia é SIM uma das trincheiras na luta pela desconstrução desse pensamento elitista, preconceituoso e, para não ser maldosa, desonesto.”

Completo em:

http://marivedder.wordpress.com/2013/04/21/carta-resposta-a-rachel-sheherazade/

 

Afinal, que arrogância a minha querer dizer ao mundo o que é culturalmente válido (ou o que é o “luxo”) e o que não é! Oras!

Dói um pouco admitir, mas fui maldosa e elitista. Droga! Desculpa, mundo.