pois é preciso colocar as coisas outra vez nos eixos

Já estou correndo atrás da terapia. Conversando com profissionais, pedindo indicações. Amanhã devo ter, já, algumas indicações mais precisas.

Amanhã, também, vou cortar meu cabelo. Coisa boba? Pode parecer, mas será a primeira vez em semanas que tirarei um tempo para fazer algo para mim que eu queria muito fazer. Só pra mim. Me esticarei na cadeira e pensarei unicamente em quão legal meu cabelo vai ficar e na felicidade que esse tipo de mudança me trás (enjoo rápido da minha cara). Não pensarei em nenhuma grande questão da vida, universo, medicina e tudo mais.

O próximo final de semana, esse que terá um feriado, servirá unicamente para descansar e resolver coisas legais, que me deixam animada.

É preciso voltar a ser feliz. Minha cabeça continua uma completa bagunça, mas ficando parada é que não vou me resolver

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sobre quando as coisas desandam

Eu já sabia que esse problema iria aparecer.

Tenho problemas para lidar com meus erros. Costumo achar (não é assim tão consciente e óbvio, é apenas minha forma de funcionar) que preciso: acertar sempre; agir com maturidade sempre; ser compreensiva com as pessoas sempre; enfim. Tenho de fazer “a coisa certa” sempre.

Assim, eu sabia que, depois de formada, enfrentaria um período de crise em função de cometer erros com meus pacientes. Já que não há como não cometer erros, especialmente sendo recém formada e inexperiente.

Só não previ que a crise viria tão cedo.

Fui para Porto Alegre fazer um curso de ACLS (Advanced Cardiovascular Life Support) esse final de semana. Foi tudo cansativo: sai do trabalho na sexta direto para a viagem; cheguei no hotel passando da uma da manhã; o quarto do hotel dava para uma rua cheia de baladas, e o barulho não me deixou dormir; acordei 05h40min, depois de quase não dormir, para um curso no qual cheguei às 07h30min e sai após as 19h.

Mas, de qualquer forma, eu estava acompanhando tudo e aproveitando o curso.

Acontece que o curso tem uma série e provas – duas provas práticas menores, uma prova teórica e, por fim, uma grande prova prática que reúne todo o conhecimento construído ao longo do curso. Reprovei nessa prova, apesar de saber cada etapa de cor. Me atrapalhei. Não consegui recuperar. Acontece, né? Mas… Não é bem assim que as coisas funcionam na minha cabeça. Não poderia me atrapalhar. Não poderia reprovar. Não poderia ter cometido erros.

O episódio me fez entrar numa crise profunda comigo mesma. Abalou minha confiança como médica e me fez questionar minha capacidade de exercer a profissão com competência. Trouxe uma avalanche de problemas que eu vinha tentando esconder. Uma avalanche que me pegou desprevenida, cansada e emocionalmente vulnerável. Imediatamente me dei conta de que não consigo mais resolver sozinha uma porção dessas coisas.

Foi dada a largada: voltarei para a terapia. Dessa vez, pelo menos, com meu próprio dinheiro. E dessa vez, também, numa abordagem mais profunda que a que fiz na outra vez (a cognitivo comportamental). E tô achando que não saio de lá tão cedo: só paro a hora que tiver revirado e resolvido esse monte de coisas.

Pois é preciso ser emocionalmente madura e estável para ser uma boa médica. É preciso estar bem para poder cuidar dos outros. E é preciso lidar com os problemas e as coisas da vida para me tornar uma pessoa melhor. E estou vivendo um período muito intenso e cheio de mudanças.

Eu preciso de ajuda. Não há problema nenhum em precisar de ajuda.

uma profunda tristeza

Se as pessoas ao menos tivessem ideia do quanto me esforço dia após dia pra ser uma pessoa melhor…

(mas elas não tem)

Uma das coisas com maior potencial pra me ferir é quando me demonizam por erros que qualquer ser humano poderia cometer. Eu simplesmente não suporto mais lidar com tanta culpa. Não sei por quantas vezes ainda vou aguentar esse tipo de coisa.

Aaaaah, como eu queria ser enxergada e tratada como um ser humano comum que apenas comete seus erros, e nem por isso é um ser desprezível e inferior!

sensível

Tenho andado muito sensível, estas últimas semanas. Tenho diversas razões para isso, na verdade…

Amanhã entrego meu TCC para a pré-banca. Sexta o apresento para a mesma.

Em um mês o apresento de verdade.

Em dois meses, me formo.

Minha vida vai virar de pernas pro ar: não sei onde vou morar, o que vou estar fazendo, onde vou trabalhar, que novos projetos terei. É, ao mesmo tempo, empolgante e assustador.

Minha cabeça está num turbilhão. Está chegando o momento tão esperado de realizar meu sonho. E estou mais apaixonada do que nunca e mais emocionalmente envolvida do que nunca na minha profissão. Sei muito bem o tipo de médica que quero ser e tenho me empenhado pra isso. Mas as coisas não tem sido fáceis…

Eu sei que a reta final não é fácil nunca. Se não foi fácil até aqui, eu não esperava que fosse ficar.

Mas são tantas coisas acontecendo ao mesmo tempo! Tanto exterior quanto interiormente…

dessa loucura que é a vida

A vida é uma bosta

A vida é divertidíssima

Tem muita gente sofrendo o tempo inteiro – e as pessoas que não estão sofrendo tanto assim não se importam com isso

Tem muita gente se divertindo, sorrindo, sendo feliz – e ajudando outras pessoas e confortando e sendo legal

Tem gente que passa a vida sendo escravo de algo: do trabalho, de uma doença, de uma outra pessoa…

Tem gente que foge dos padrões – e larga um emprego confortável pra viajar, e troca de profissão, cidade e pessoas sem medo

Tem tanto lugar maravilhoso nesse mundo! Paisagens impressionantes, seres vivos de todas as cores e formas, uma variedade de coisas lindas pra se ver

Tem tanta destruição, pobreza, casebres, esgotos, lixo – e gente vivendo nessas condições insalubres

Tem dias em que me sinto privilegiada de ver tanta coisa, tanta gente, tanta história – que oportunidade, ter a confiança e o acesso às particularidades, aos segredos de tantos pacientes!

Tem dias que sinto um peso. Tanta tristeza, tanto sofrimento, tanta injustiça. Tão pouca possibilidade de mudar esse mundo doido.

Tem dias em que me sinto sortuda. Tenho uma vida fantástica em tantos sentidos! Tenho uma condição financeira nem pequena demais que me traga dificuldades nem farta demais que me faça escrava de dinheiro. Tenho ao meu redor um monte de gente que me ama. Faço a faculdade dos meus sonhos – vivo o meu sonho todos os dias. Recebo sorrisos e gratidão por coisas tão pequenas, dos pacientes! Meu coração transborda de gratidão e carinho por eles. Tenho acesso a muita informação e muito conhecimento, e tive a chance de me dedicar durante 6 anos a acumular tanto conhecimento quanto me fosse possível. E eu aproveitei.

Tem dias em que a minha vida fantástica me faz sentir mal. Eu tenho demais. Eu gostaria de poder espalhar tanto mais. Eu tenho tanta felicidade enquanto tanta gente sofre tanto. E eu queria poder fazer tanto mais… Mas eu não tenho superpoderes. Não está ao meu alcance transformar o Universo conforme a minha própria vontade.

Tem dias em que me sinto esperançosa e penso que as coisas, de certa forma, caminham para serem melhores.

Tem dias em que penso que os seres humanos já não tem jeito; não há o que fazer. São egoístas, julgadores, pouco tolerantes, preguiçosos em abrir a cabeça, mudar de ideia, sair dos paradigmas, difíceis de lidar..

E aí eu conheço mais uma pessoa surpreendente com enorme poder de superação. E ai eu vejo gente que convive com sofrimento na base do bom humor.

E aí esse mesmo ser humano que me desaponta me surpreende, o mesmo ser humano que me causa as maiores tristezas é a razão de eu ser feliz.

E aí essa vida com tantas pessoas e mundos e universos diferentes, com tantas possibilidades, tantas diferenças, é ao mesmo tempo meu fascínio, curiosidade e empolgação; e também a razão de eu desejar secretamente num fim de tarde cansado que tudo exploda, pra começar de novo, que parece ser o único jeito de fazer as coisas direito.

cansaço

Saí de casa às 07:30h, há dois dias.

Fiz plantão a noite passada; passei a noite num hospital. Levantei e fui direto para o estágio, em outro hospital. Emendei o estágio com um congresso de UTI. Voltei para casa ainda há pouco. Aí vocês imaginam o estado que me encontro no momento.

Engraçado eu ter perdido o sono.

Amanhã é sábado, e eu estarei no Congresso novamente, às 08h. Ficarei lá até o meio dia, e depois virei para casa estudar. Estudarei por todo o final de semana, já que tenho prova de cirurgia na próxima sexta, e a matéria é infinita.

Algumas vezes, por mais apaixonada que eu seja pela profissão e por mais que eu ame e seja feliz com a rotina que tenho, sinto-me sinceramente saturada. Tenho vontade de apenas sentar no sofá, colocar as pernas pra cima e assistir alguma bobagem que estivesse passando na TV, sem pensar em nada. Ou de poder sair com meus amigos, beber e me divertir. De ter uma vida social normal.

Quantos finais de semana já sacrifiquei! E não um dia do final de semana; não uma noite. Finais de semana inteirinhos, totalmente dedicados a estudar, dar plantão ou as duas coisas.

Mas essa foi a vida que eu escolhi. Ninguém tem culpa por isso; eu tomei essa decisão sozinha, e sabia de tudo isso. Foi por minha conta e risco que me coloquei nessa história. Na verdade, mesmo, eu amo de verdade minha quase-profissão. E, como diz meu pai: “Fica tranquila, filha. Você sabe que vai ter dias melhores. E que vai ter dias piores, também”.

E é…

Minha vida é incrível, minha rotina é encantadora. Mas como todo ser humano, tenho minhas crises, né? E dessa vez eu só queria poder descansar…

Daqui a pouco passa. Logo, logo, estarei sendo feliz e plena outra vez!

mais um dia

Ainda triste. Consciente, porém, de que assumir uma posição “coitadista” e ficar apenas reclamando não resolve nada.

A situação está aí, e não há nada que se possa fazer para mudá-la (agora, pelo menos). Não tenho opção a não ser treinar pra ser paciente e… Esperar. Detesto esse tipo de pensamento – de que não há nada que eu possa fazer a não ser esperar. Não sou dessas, sabe? De ficar sentada olhando a vida passar… Prefiro ir lá e resolver logo, de uma vez. E mudar. E fazer coisas.

Só que dessa vez, não dá, mesmo.

Cinco meses determinantes na minha vida estão por vir. Talvez seja bom aproveitar esse restinho de estabilidade, já que minha vida virará de pernas pro ar em breve (embora eu anseie por mudanças, tenho de estar preparada pra elas).

Depois desses cinco meses, poderei mudar muitas dessas coisas que agora me angustiam. Mas sempre existirá, na minha vida, coisas sobre as quais eu não terei controle. E que exigirão de mim nada além de… Paciência.

E é isso.

angústia

coração apertado. talvez eu não seja tão boa assim em lidar com isso quanto pensei que estivesse ficando…

e nem mesmo sei por onde começar a mudar.

como melhorar? não encontro caminho.

perco o sono. sinto-me, subitamente, muito sozinha.

não entendo: como é que me dói tanto?!

só queria que, num passe de mágica, fosse preenchida de toda paciência e tranquilidade para com tudo isso.

(o problema é que isso não vai acontecer, é claro)

ah, dos males de ser tão imediatista…

tristeza

As pessoas me deixam muito triste, às vezes (muitas vezes).

São hipócritas, preconceituosas, julgadoras, machistas, homofóbicas, racistas… Pior de tudo é que não se dão conta da dimensão desses problemas. Na maioria das vezes, nem mesmo se enxergam como tal. E aí fico inconformada, enraivecida, porque esse tipo de postura faz muita, muuuuita gente sofrer.

Essa falta de empatia é algo que me irrita muito, mas infelizmente é assim que as pessoas são e é assim que o mundo é.

Tenho notado o quanto esse comportamento, essa falta de amor, não apenas é frequente dentro da igreja, como também as pessoas usam a igreja como um escudo para sua frieza. Elas pisam todos os finais de semana dentro de um prédio e pensam que, por isso, são seres superiores, intocados.

Pisam na igreja, mas ridicularizam e desejam o sofrimento de homossexuais. Abrem suas Bíblias em público, orgulhosamente, mas erguem a voz e as mãos contra mulheres – de seu convívio e de fora dele. Dizem-se cristão, falam de moral e ética, mas apoiam a agressão, a violência, todo tipo de coisa ruim que resulta do preconceito.

Jamais farei parte disso e jamais aceitarei isso calada. Enquanto viver, serei a chata a rebater qualquer atitude semelhante a essas.

O que me consola é que há gente cheia de sensibilidade e amor. Ainda há. E algumas delas estão muito perto de mim, e isso torna meus dias mais felizes. É por elas que vivo. É por elas que não desisto!