dia da mulher

O dia da mulher me deixa meio melancólica. Primeiro, pelas dificuldades que eu mesmo passo por ser mulher, pelas irritações e tristezas do dia-a-dia.

E, aí… Penso nas milhões de mulheres ainda menos afortunadas que eu; vítimas de todo tipo de violência e opressão. Que enfrentam tanto sofrimento pelo simples fato de terem nascido mulheres.

Penso nas mulheres negras, que tem de lidar com tanto preconceito. Tanto mais do que eu, que já me irrito com os preconceitos machistas todos os dias.

Penso nas mulheres pobres; nas mulheres em desespero por gestações indesejadas; nas vítimas de estupro e abusos; nas mulheres vítimas de violência doméstica e que não tem como abandonar seus companheiros violentos.

Penso nas meninas que crescem sem serem empoderadas, sem perceberem que poderiam ir tão além.

Ainda há tanto a fazer! Tanta luta, tanto trabalho.

Fico tão triste pela falta de empatia que as pessoas costumam ter com a história dessas mulheres. Fecho os olhos e desejo com todas as forças que, um dia, eu possa fazer mais. Tomara que no futuro eu possa contribuir para melhorar a vida delas de alguma forma.

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vários momentos de um mesmo (longo) dia

O fato é que, se a gente quiser, cada dia é um aprendizado.

Hoje ouvi, num momento, que não deveríamos nos comover com os pacientes.

Instantes depois, deu entrada a senhora G., encaminhada para que a traqueostomia fosse recolocada – aparentemente, a cuidadora tirou do lugar sem querer, ao tentar limpá-la.

Felizmente, por um lado, não foi muito grande a dificuldade para arrumar. Mas a dona G. demonstrava-se agitada. Quando lhe aspiraram a traqueo, agitou-se na maca, com lágrimas nos olhos e as mãos no ar, trêmulas.

Eu me aproximei e segurei sua mão, e essa foi, talvez, a melhor coisa que fiz no dia inteiro. Ela apertou minha mão de volta; e me encheu de uma sensação de plenitude.

Uma lição sobre as coisas que realmente importam nessa vida

o processo silencioso do adoecimento

Ao negar a dor do outro, o profissional da saúde não apenas nega a dor do seu semelhante, como também a própria condição humana, pois dentre as virtudes humanas, uma das que mais nos diferencia de outras espécies é justamente aquela que nos capacita a compreender e a apreender a dor do outro naqueles momentos em que a fragilidade humana deveria evocar outra virtude humana: a fraternidade.

Do livro “Psicossomática e suas interfaces”

Humanizar é preciso! Não apenas nós, profissionais de saúde (embora a gente tenha motivos especiais pra isso). Mas a humanização deveria ser um processo ensinado a todos, desde que somos pequenininhos.

Aprender a lidar com a própria condição de humanidade – e suas limitações – pra poder olhar para os outros tendo todos como seus semelhantes

(em tudo o que aprendo, tenho visto amor)

tristeza

As pessoas me deixam muito triste, às vezes (muitas vezes).

São hipócritas, preconceituosas, julgadoras, machistas, homofóbicas, racistas… Pior de tudo é que não se dão conta da dimensão desses problemas. Na maioria das vezes, nem mesmo se enxergam como tal. E aí fico inconformada, enraivecida, porque esse tipo de postura faz muita, muuuuita gente sofrer.

Essa falta de empatia é algo que me irrita muito, mas infelizmente é assim que as pessoas são e é assim que o mundo é.

Tenho notado o quanto esse comportamento, essa falta de amor, não apenas é frequente dentro da igreja, como também as pessoas usam a igreja como um escudo para sua frieza. Elas pisam todos os finais de semana dentro de um prédio e pensam que, por isso, são seres superiores, intocados.

Pisam na igreja, mas ridicularizam e desejam o sofrimento de homossexuais. Abrem suas Bíblias em público, orgulhosamente, mas erguem a voz e as mãos contra mulheres – de seu convívio e de fora dele. Dizem-se cristão, falam de moral e ética, mas apoiam a agressão, a violência, todo tipo de coisa ruim que resulta do preconceito.

Jamais farei parte disso e jamais aceitarei isso calada. Enquanto viver, serei a chata a rebater qualquer atitude semelhante a essas.

O que me consola é que há gente cheia de sensibilidade e amor. Ainda há. E algumas delas estão muito perto de mim, e isso torna meus dias mais felizes. É por elas que vivo. É por elas que não desisto!

do que me mantem a sanidade

Nunca vi o feminismo ser tão discutido. É por isso que nunca o vi ser tão criticado. Mas estar em pauta, e as pessoas estarem vomitando sua ignorância, é consequência da mudança: há tempos que as mulheres não se reerguiam para continuar a luta, e agora isso torna a acontecer.

Se me irrito com as constantes manifestações machistas que me cercam por todos os lados? Sim. Mas a necessidade dos machistas em tentarem se defender ou justificar é consequência de se sentirem acuados, amedrontados e confrontados com a mudança. Se estivessem confortáveis, não precisavam manifestar sua opressão tão abertamente.

Bem como a minha irritação com essas manifestações é resultado da minha tomada de consciência e da minha luta pela minha liberdade. Minha e das mulheres ao meu redor, e das mulheres que estão pra nascer, inclusive.

O mesmo ocorre com o racismo: é debatido o tempo todo, e hoje mesmo me irritei com a opinião de um grupo de pessoas sobre o mesmo. Essas pessoas, não foi difícil perceber pelo nível de argumentação, nunca leram uma linha sequer sobre racismo (de qualidade, quero dizer) ou sobre o movimento negro. Nem mesmo convivem com o problema. Mas é preferível que esteja em discussão e algumas poucas pessoas corram atrás da informação, e se manifestem contra o racismo, do que não ser discutido de forma alguma. Enquanto houver debate, haverá um chato para dizer aos outros que eles estão agindo e falando baseados em ignorância. E aí, de um debate ou outro alguém vai se doer, chegar em casa e… estudar sobre. E isso já está valendo!

E o mesmo ocorre com a homofobia.

Tudo isso são coisas positivas disfarçadas de negatividade.

São a informação e o debate que mudam o mundo. Pensar é a primeira etapa. Libertar-se é a segunda.

Não há mudança confortável. Mas também não há nada mais doloroso do que permanecer numa condição que não se deve estar.

É o que me faz sorrir. E é o que tento mentalizar para não desistir, e para não me deixar tomar pelo desânimo sempre que vejo quanto ignorantes e sem empatia as pessoas agem.

sobre a vida como ela realmente é

Duas vidas se iniciavam ali, quase juntas.

Era a sala da neonatologia, onde os recém nascidos são atendidos pelo pediatra logo após o nascimento. Eu estava de plantão no centro obstétrico, mas como sempre, saí da sala de parto para acompanhar os bebezinhos. Adoro eles.

Lá estava eu vestindo uma bela roupa cor-de-rosa, com rendas, babados, fitas e pedrinhas brilhantes, numa bebê que nasceu com 4.195kg, de parto cesáreo. A mãe e a avó aguardavam para vê-la, ansiosas. A avó carregava uma bolsa cheia de roupas e aparatos.

Enquanto eu a vestia, chegou uma outra bebezinha, envolta numa manta e em papel alumínio. Não chorava. Estranhei, pois dentre as gestantes que estavam lá, nenhuma estava em estágio avançado do trabalho de parto. Mas a enfermeira que a trouxe comenta que havia sido um “parto em trânsito”.

Saí para ver a mãe e presenciei a enfermeira conversando com ela.

– Que drogas você usa? Pra eu falar pro pediatra.

– Crack.

– Você usou hoje?

– Usei.

– Que horas?

– Faz umas quatro horas…

– Usou quantas pedras?

– Uma pedra e meia.

Sentada na cadeira de rodas, ela se retorcia. Magra, cansada.

Voltei para a sala da neonato.

A bebezinha que nasceu no trânsito pesava pouco mais de dois quilos. Estava enroladinha na sua manta, quietinha, tão menor e parecendo tão frágil. No berço ao lado, exatamente ao lado, uma bebê de quatro quilos se chacoalhava em sua roupinha rosa cheia de rendas.

A vida não é nada justa. Desde o primeiro segundo. Duas vidas acabavam de começar, lado a lado, e sem mérito de nenhuma das partes, uma delas já estava muito a frente em termos de vantagens.

A gente nunca sabe que tipo de reviravoltas podem acontecer no meio do caminho, é claro. E podem acontecer muitas reviravoltas. Pode ser que, por alguma delas, a bebezinha frágil, filha do crack, seja mais ou igualmente feliz. Se “dê bem” na vida e conquiste seus sonhos. Mas olhando assim, o que vocês acham?

 

Eu acho que tá tudo errado.

(e, não. eu absolutamente não culpo a mãe. enquanto pessoa que não a conhece e não conhece sua história de vida, parto do princípio de que ela é vítima do sistema tanto quanto a própria bebê que acaba de nascer).

a minha opinião sobre (a falta de) humor

Uma discussão recorrente é aquela história humoristas x feministas (e outras minorias). O assunto é bastante complexo em alguns sentidos, mas há algumas coisas que me deixam abismada. E o caso mais recente me deixou abismada.

Agora o alvo de piadas foi uma doadora de leite materno. Não uma doadora qualquer: a maior doadora de leite materno do Brasil. Doar leite materno é um gesto lindíssimo, um favor à vida de tantas crianças. Todos os seios do universo merecem respeito, mas até entendo a dificuldade de alguns em compreender isso. Estou longe de concordar, mas entendo: o machismo no Brasil ainda é muito arraigado e muita gente vive na idade da pedra. Agora, ter dificuldade em entender que se deve respeitar um seio que amamenta não apenas o próprio filho, mas os filhos dos outros também… Peraí. Parou. Nem estando na idade da pedra, por favor.

No entanto, discussões estão rolando e surpreende-me muito o assunto ser polêmico. Surpreende-me não ser óbvio para todo mundo que esse desrespeito é inaceitável. E que não tem a menor graça.

Mas quem é que está passando vergonha: a mulher, alvo das piadas de mau gosto, ou o homem, autor das piadas de mau gosto? A mulher! Ela, que não fez nada de errado, está passando vergonha! Ele, depois de agir com a inteligência de uma ostra em coma e com o raciocínio de um dinossauro, ainda passa por gostosão.

Não posso com isso. Fico irritadíssima.

 

 

 

Danilo Gentilli, Rafinha Bastos e caras que fazem piadas semelhantes: vocês são uns babacas machistas e sem caráter. São um desserviço à sociedade e às lutas das pessoas que usam seus cérebros. Beijos.

(mals aí. mas pessoas que não fazem uso de sua sutileza não merecem a minha)

das manifestações no país

Tô aqui quebrando a cabeça pra tentar entender da onde realmente isso tá vindo – e é difícil saber em quais informações confiar, afinal é tudo tão tendencioso – pra ver se tomo uma posição nessa coisa toda.

De todo modo, eu gosto de ver o povo nas ruas. Prefiro isso à inércia, de longe. Mas as repercussões políticas e econômicas preocupam… E as intenções de quem está por trás da coisa toda também. Sei lá. Será que ando desconfiada demais? É que parece tão… Utópico. Enfim, tomara que seja o povo acordando mesmo.Era o que eu queria que fosse.

Amanhã, de qualquer forma, estarei na praça para protestar contra o Estatuto do Nascituro. Esse troço não pode, simplesmente, ser aprovado, e vou fazer o que posso pra isso não acontecer (infelizmente posso tão, tão pouquinho… mas antes isso do que nada!).