pois é preciso colocar as coisas outra vez nos eixos

Já estou correndo atrás da terapia. Conversando com profissionais, pedindo indicações. Amanhã devo ter, já, algumas indicações mais precisas.

Amanhã, também, vou cortar meu cabelo. Coisa boba? Pode parecer, mas será a primeira vez em semanas que tirarei um tempo para fazer algo para mim que eu queria muito fazer. Só pra mim. Me esticarei na cadeira e pensarei unicamente em quão legal meu cabelo vai ficar e na felicidade que esse tipo de mudança me trás (enjoo rápido da minha cara). Não pensarei em nenhuma grande questão da vida, universo, medicina e tudo mais.

O próximo final de semana, esse que terá um feriado, servirá unicamente para descansar e resolver coisas legais, que me deixam animada.

É preciso voltar a ser feliz. Minha cabeça continua uma completa bagunça, mas ficando parada é que não vou me resolver

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acostumando

Completei uma semana de trabalho.

A ansiedade tem diminuído bastante. Estou me habituando à rotina, ao local, à equipe… E o principal, a atuar como médica.

Estou descobrindo mais algumas coisas sobre mim mesma, a esse respeito: sou bastante exigente com o processo todo. Gosto de fazer anamneses completas, ouvir o paciente e tirar suas dúvidas e falar de suas ansiedades; de fazer exames físicos detalhados; de registrar no prontuário de forma completa e organizada; gosto de escrever encaminhamentos bem explicados; gosto de solicitar exames apenas quando há indicação precisa; gosto de prescrever medicamentos conforme as diretrizes/cadernos de atenção básica. O primeiro problema é que tudo isso demanda tempo, de modo que é difícil fazer uma consulta minha durar menos de 30 minutos. O segundo problema é que isso demandado muuuito estudo.

Mas, de qualquer forma, tenho conseguido manter boas condutas até o momento (acredito), tenho sido franca com os pacientes quando minha inexperiência me limita (admitindo quando não tenho experiência com um determinado assunto ou não sei de algo – e até agora ninguém demonstrou se incomodar com isso), e tenho aprendido como nunca antes!

Os dias que se passaram desde 16/07/2015 tem sido os mais intensos da minha vida, eu acho. E também de intenso crescimento!

da minha ambição

Estou num momento incrivelmente fértil da minha vida, em termos de crescimento.

Recém formada e procurando emprego em lugares e instituições variadas, são muitas as possibilidades que surgem em minha mente o tempo inteiro.

São tempos em que tenho de lidar com minhas ansiedades, medos e desejos mais profundos. No meio desse caos emocional todo, tenho descoberto muitas coisas em mim. Já que essa é uma experiência pela qual eu nunca havia passado e, portanto, uma maturidade nova a ser desenvolvida.

Algo que está muito claro para mim nesse momento é que sou uma pessoa ambiciosa. Mais do que eu imaginei que fosse. O que me deixa absolutamente feliz, no entanto, com essa minha ambição, é que também está claro para mim (pelo menos nesse momento) que ela pouco tem a ver com dinheiro. É claro que dinheiro tem sido uma questão importante e muito presente nesses dias; mas o meu desejo e minha ambição não estão direcionados para ele. Ele não é o fim em si, não é o objetivo.

Eu tenho em mim uma ávida vontade de crescer. De ser uma pessoa melhor, uma profissional melhor, uma filha, irmão, namorada, enfim… Melhor. Evoluir, aprender, ver coisas, pessoas e cidades novas. Absorver do mundo tudo o que é possível. Sugar todo o conhecimento que passar perto de mim. Viver intensamente todo tipo de experiência pela qual eu passo. Sou intensa desse jeito, percebo, pois o maior combustível que há em mim, o que mais arde no meu peito e me faz levantar animada todos dias é essa vontade. O que me faz viver é isso: eu querer ser uma pessoa cada vez melhor.

era preciso acalmar

Se fez necessário mais do que nunca viver o presente. Ou – temia – perderia a sanidade. Resolveu ficar na cama mais um pouco, aninhada debaixo dos cobertores a ouvir a chuva; tomar um banho quente longo depois de levantar; servir uma generosa xícara de café; abrir a janela para ver o sol que surgia por entre nuvens.

Ligou o computador, colocou alguma música que a compreendesse (Schubert, com suas intensidades imprevisíveis) e deixou as ideias passearem. Aí a pouco já tinha algumas páginas de devaneios redigidos no word.

E se sentia bem melhor…

indecisão

Faz um dia maravilhoso lá fora. Um céu daqueles que chega a doer os olhos, de tão azul. Sem uma nuvenzinha. Um frio bom, um solão e o vento.

Estou aqui dividida, com vontade de me enfiar debaixo de cobertas e dormir; e com vontade de ir caminhar na beira da praia, pensar, escrever talvez, deixar a cabeça flutuar um pouco…

(aquele dia que você se pergunta se quer ficar feliz ou não)

ai ele disse…

geralmente as pessoas que fazem medicina para “salvar as pessoas” o fazem porque precisam salvar algo dentro delas mesmas

Toda terça a tarde temos uma espécie de reunião com um professor de psicologia. Sentamos em grupo e… Falamos. Ele recomenda livros, nós lemos, conversamos sobre o que lemos, misturamos com a nossa vida e de repente estamos falando dos nossos dramas e dos dramas do universo inteiro. É sempre instigante e saio com a mente inquieta. Foi um dia interessante, hoje. O professor costuma dizer que espera “fazer barulho na gente”, e consegue toda vez. Saio de lá com a mente num turbilhão.

Saí para correr, depois de chegar em casa com a cabeça fervendo. Quando corro, deixo meus pensamentos passearem livremente de uma forma que não consigo fazer em outras situações. E fico apenas a observá-los, admirá-los.

Então, enquanto corria e observava o mar, tive subitamente o insight sobre as razões que me levaram a escolher medicina. Quero dizer a vocês que elas não são nem um pouco nobres. Incluem coisas tipo ter dentro de mim uma criança sedenta por atenção e tals. Felizmente (muito felizmente, na verdade), não sou um ser superior que resolveu abdicar de sua felicidade para salvar ninguém.

Também não tenho mais a ilusão de “salvar vidas”, que a medicina não chegou nesse nível, não. A gente não salva ninguém. A gente não “cura doenças”. Nós, quando conseguimos, tratamos. Ajudamos e consolamos quando possível. Mas nós não temos poder de salvar ninguém! As pessoas alucinam demais sobre o que é a medicina… E não é nada disso que passa na novela ou nos filmes.

Chega o momento em que é preciso admitir isso e fico muito feliz de ter conseguido alcançar essa sinceridade comigo mesma antes da formatura. Se faço medicina pois sou tão altruísta e especial que resolvi dedicar tanto de mim para “salvar vidas” e “curar doenças”, estou em outro patamar, acima dos outros. Essa visão coloca uma barreira entre nós e os pacientes. Mas se compreendo que escolhi medicina por razões bastante egoístas ou até infantis, e que meu “poder” enquanto médico é uma completa ilusão, eu volto a ser igual.

É libertador ser apenas um ser humano!

Aliás, longe de isso diminuir minha paixão ou dedicação pela profissão que escolhi; na verdade, acho que o fantástico da vida é isso: transformarmos nossas dores, frustrações e infantilidades em coisas melhores. Em coisas bonitas. Crescimento, resiliência!

dessa loucura que é a vida

A vida é uma bosta

A vida é divertidíssima

Tem muita gente sofrendo o tempo inteiro – e as pessoas que não estão sofrendo tanto assim não se importam com isso

Tem muita gente se divertindo, sorrindo, sendo feliz – e ajudando outras pessoas e confortando e sendo legal

Tem gente que passa a vida sendo escravo de algo: do trabalho, de uma doença, de uma outra pessoa…

Tem gente que foge dos padrões – e larga um emprego confortável pra viajar, e troca de profissão, cidade e pessoas sem medo

Tem tanto lugar maravilhoso nesse mundo! Paisagens impressionantes, seres vivos de todas as cores e formas, uma variedade de coisas lindas pra se ver

Tem tanta destruição, pobreza, casebres, esgotos, lixo – e gente vivendo nessas condições insalubres

Tem dias em que me sinto privilegiada de ver tanta coisa, tanta gente, tanta história – que oportunidade, ter a confiança e o acesso às particularidades, aos segredos de tantos pacientes!

Tem dias que sinto um peso. Tanta tristeza, tanto sofrimento, tanta injustiça. Tão pouca possibilidade de mudar esse mundo doido.

Tem dias em que me sinto sortuda. Tenho uma vida fantástica em tantos sentidos! Tenho uma condição financeira nem pequena demais que me traga dificuldades nem farta demais que me faça escrava de dinheiro. Tenho ao meu redor um monte de gente que me ama. Faço a faculdade dos meus sonhos – vivo o meu sonho todos os dias. Recebo sorrisos e gratidão por coisas tão pequenas, dos pacientes! Meu coração transborda de gratidão e carinho por eles. Tenho acesso a muita informação e muito conhecimento, e tive a chance de me dedicar durante 6 anos a acumular tanto conhecimento quanto me fosse possível. E eu aproveitei.

Tem dias em que a minha vida fantástica me faz sentir mal. Eu tenho demais. Eu gostaria de poder espalhar tanto mais. Eu tenho tanta felicidade enquanto tanta gente sofre tanto. E eu queria poder fazer tanto mais… Mas eu não tenho superpoderes. Não está ao meu alcance transformar o Universo conforme a minha própria vontade.

Tem dias em que me sinto esperançosa e penso que as coisas, de certa forma, caminham para serem melhores.

Tem dias em que penso que os seres humanos já não tem jeito; não há o que fazer. São egoístas, julgadores, pouco tolerantes, preguiçosos em abrir a cabeça, mudar de ideia, sair dos paradigmas, difíceis de lidar..

E aí eu conheço mais uma pessoa surpreendente com enorme poder de superação. E ai eu vejo gente que convive com sofrimento na base do bom humor.

E aí esse mesmo ser humano que me desaponta me surpreende, o mesmo ser humano que me causa as maiores tristezas é a razão de eu ser feliz.

E aí essa vida com tantas pessoas e mundos e universos diferentes, com tantas possibilidades, tantas diferenças, é ao mesmo tempo meu fascínio, curiosidade e empolgação; e também a razão de eu desejar secretamente num fim de tarde cansado que tudo exploda, pra começar de novo, que parece ser o único jeito de fazer as coisas direito.

da angústia de hoje

Ai, essas convenções que aprisionam…

Ai, essas coisas que os seres humanos inventam pra inflar o ego! Pra ser centro, pra ser notado, pra se sentir especial…

Se você olhar atentamente para as convenções, verá que elas são algo próximo de uma trapaça. Isso: trata-se de as pessoas quererem trapacear a vida, para que ela não lhes pregue as peças que prega em todo mundo. Baseiam-se numa ilusão: de que tudo será eternamente perfeito dali em diante, sem explicação racional alguma…

Mas não vai ser. E a vida não vai te poupar. É assim que ela é.

Então que tal a gente encarar tudo de maneira menos artificial, menos expositiva… E mais sincera?

tenho pensado muito e não vejo motivo nenhum nisso tudo