dia da mulher

O dia da mulher me deixa meio melancólica. Primeiro, pelas dificuldades que eu mesmo passo por ser mulher, pelas irritações e tristezas do dia-a-dia.

E, aí… Penso nas milhões de mulheres ainda menos afortunadas que eu; vítimas de todo tipo de violência e opressão. Que enfrentam tanto sofrimento pelo simples fato de terem nascido mulheres.

Penso nas mulheres negras, que tem de lidar com tanto preconceito. Tanto mais do que eu, que já me irrito com os preconceitos machistas todos os dias.

Penso nas mulheres pobres; nas mulheres em desespero por gestações indesejadas; nas vítimas de estupro e abusos; nas mulheres vítimas de violência doméstica e que não tem como abandonar seus companheiros violentos.

Penso nas meninas que crescem sem serem empoderadas, sem perceberem que poderiam ir tão além.

Ainda há tanto a fazer! Tanta luta, tanto trabalho.

Fico tão triste pela falta de empatia que as pessoas costumam ter com a história dessas mulheres. Fecho os olhos e desejo com todas as forças que, um dia, eu possa fazer mais. Tomara que no futuro eu possa contribuir para melhorar a vida delas de alguma forma.

uma lição de empatia – no ônibus

O ônibus chegou, vazio. O ponto de ônibus, no entanto, estava lotado; nós, os passageiros, no amontoamos na porta, para passar pela catraca. O cobrador, pacientemente, utilizava o sistema da empresa para imprimir e entregar as passagens de cada um. O processo, no entanto, era super lento, e o ônibus ficou um tempão parado esperando as pessoas conseguirem entrar.

Nisso, um dos passageiros pergunta ao cobrador:

– Quem foi que colocou esse negócio aí?

– Ah, a empresa…

– Mas eles explicaram o porquê de fazer desse jeito? Se demora tanto e dá tanto trabalho?

– Não falaram, não.

– Hum. Deve ser por que não pegam ônibus!

 

Eis uma verdade natural: a única forma de entender completamente uma situação é passando por ela. Ouvir relatos não é o suficiente; apenas estando na pele de quem passa. Por isso jamais seremos conhecedores absolutos da vida e do universo:pois estamos presos ao corpo e ao contexto nos quais nascemos. E, por isso, pode-se adquirir maturidade emocional com a experiência: pois quanto mais vivemos (reparem que eu disse mais, e não por maior tempo), com mais situações diferentes e mais contextos nós entramos em contato.

Há, no entanto, uma interessante forma de ter alguma ideia do que é passar por uma determinada situação: tendo sensibilidade e… Amando!

Explico: não acontece que, quando amamos alguém, somos mais sensíveis à sua dor? O amor tem o poder de nos aproximar de uma realidade que não é a nossa. Às vezes, como até nosso amor é imperfeito, nem tendo alguém que se ama por perto pra enxergar; por isso incluo a sensibilidade e o olhar atento. Quando amamos alguém que sofre, por alguma razão, a situação não é nossa, mas nos é próxima. Ah, se todo branco amasse um negro! Ah, se toda família tivesse um homossexual! Ah, se todo homem visse alguma das mulheres que ama passando medo ou vergonha por causa de uma cantada na rua, ou sendo vítima de algum abuso! E se, os tendo por perto, dedicassem empatia, ouvidos, esforço, estudo e dedicação para promover mudança…

A informação muda o mundo.

O amor muda o mundo.

Mas, sozinhos, nenhum dos dois muda nada!

Dinheiro e instrução não nos libertam facilmente da secular lavagem cerebral da nossa cultura. Passivamente ninguém derruba paredes limitadoras. E o preconceito (a “cultura”) nos diz que ser ativo é coisa de homem. Que devemos ser gentis, conciliadoras, agradáveis, sedutoras, despertar no homem sentimentos de posse e proteção, controlar constantemente os filhos para mostrar o quanto somos dedicadas.

Em suma, precisamos mostrar que merecemos afeto.

Somos criadas em função do hipotético príncipe salvador que decidirá – e terá de gerir, ainda que lhe custe – o nosso futuro. E naturalmente vai nos tratar como crianças. Seremos sempre as despossuídas, sem espaço nem força de decisão. Seremos dos pais, depois do marido, dos filhos e dos netos.

Para nós sobrará o canto da mesa da sala de jantar quando quisermos escrever, o computador do filho quando nos arriscarmos pela Internet, o sofá com as outras mulheres nos jantares de casais.

 

Lia Luft em “Perdas e Ganhos”.

Fica claro pra mim, nessas leituras e encontros, a razão pela qual eu me sentia tão deslocada e não-mulher há alguns anos. Nem sempre sou gentil, não sou nada conciliadora, nem sedutora e nunca procurei (e acho que, se um dia tivesse tentado, não conseguiria) despertar sentimento de posse em homem algum. E eu quero e sou ativa. Essa aqui é a minha vida, pelamor.

E eu não sou de ninguém não, viu?

Erin Brockovich – “Uma Mulher de Talento”

Mais um filme de nome meio bobo, mas que é ótimo.

Um filme que contém dois elementos que eu curto: ser baseado em fatos reais e ter como protagonista uma mulher – sendo que a história central dessa mulher não está em romance algum, e sim, nos propósitos de vida dela.

Pessoas como ela me fazem acreditar, ainda, que vale mais trabalhar por um propósito, e não pra cumprir rotina e ganhar uma pilha de dinheiro pra gastar. E que “estudo formal” – tipo uma faculdade – não quer dizer absolutamente nada sobre a capacidade cognitiva de alguém.

tristeza

As pessoas me deixam muito triste, às vezes (muitas vezes).

São hipócritas, preconceituosas, julgadoras, machistas, homofóbicas, racistas… Pior de tudo é que não se dão conta da dimensão desses problemas. Na maioria das vezes, nem mesmo se enxergam como tal. E aí fico inconformada, enraivecida, porque esse tipo de postura faz muita, muuuuita gente sofrer.

Essa falta de empatia é algo que me irrita muito, mas infelizmente é assim que as pessoas são e é assim que o mundo é.

Tenho notado o quanto esse comportamento, essa falta de amor, não apenas é frequente dentro da igreja, como também as pessoas usam a igreja como um escudo para sua frieza. Elas pisam todos os finais de semana dentro de um prédio e pensam que, por isso, são seres superiores, intocados.

Pisam na igreja, mas ridicularizam e desejam o sofrimento de homossexuais. Abrem suas Bíblias em público, orgulhosamente, mas erguem a voz e as mãos contra mulheres – de seu convívio e de fora dele. Dizem-se cristão, falam de moral e ética, mas apoiam a agressão, a violência, todo tipo de coisa ruim que resulta do preconceito.

Jamais farei parte disso e jamais aceitarei isso calada. Enquanto viver, serei a chata a rebater qualquer atitude semelhante a essas.

O que me consola é que há gente cheia de sensibilidade e amor. Ainda há. E algumas delas estão muito perto de mim, e isso torna meus dias mais felizes. É por elas que vivo. É por elas que não desisto!

do que me mantem a sanidade

Nunca vi o feminismo ser tão discutido. É por isso que nunca o vi ser tão criticado. Mas estar em pauta, e as pessoas estarem vomitando sua ignorância, é consequência da mudança: há tempos que as mulheres não se reerguiam para continuar a luta, e agora isso torna a acontecer.

Se me irrito com as constantes manifestações machistas que me cercam por todos os lados? Sim. Mas a necessidade dos machistas em tentarem se defender ou justificar é consequência de se sentirem acuados, amedrontados e confrontados com a mudança. Se estivessem confortáveis, não precisavam manifestar sua opressão tão abertamente.

Bem como a minha irritação com essas manifestações é resultado da minha tomada de consciência e da minha luta pela minha liberdade. Minha e das mulheres ao meu redor, e das mulheres que estão pra nascer, inclusive.

O mesmo ocorre com o racismo: é debatido o tempo todo, e hoje mesmo me irritei com a opinião de um grupo de pessoas sobre o mesmo. Essas pessoas, não foi difícil perceber pelo nível de argumentação, nunca leram uma linha sequer sobre racismo (de qualidade, quero dizer) ou sobre o movimento negro. Nem mesmo convivem com o problema. Mas é preferível que esteja em discussão e algumas poucas pessoas corram atrás da informação, e se manifestem contra o racismo, do que não ser discutido de forma alguma. Enquanto houver debate, haverá um chato para dizer aos outros que eles estão agindo e falando baseados em ignorância. E aí, de um debate ou outro alguém vai se doer, chegar em casa e… estudar sobre. E isso já está valendo!

E o mesmo ocorre com a homofobia.

Tudo isso são coisas positivas disfarçadas de negatividade.

São a informação e o debate que mudam o mundo. Pensar é a primeira etapa. Libertar-se é a segunda.

Não há mudança confortável. Mas também não há nada mais doloroso do que permanecer numa condição que não se deve estar.

É o que me faz sorrir. E é o que tento mentalizar para não desistir, e para não me deixar tomar pelo desânimo sempre que vejo quanto ignorantes e sem empatia as pessoas agem.