pirando com Sartre e Hegel

A mais ampla totalização filosófica é o hegelianismo. É nele que o Saber é elevado à sua dignidade mais eminente: ele não se limita a visar o Ser de fora, mas o incorpora a si e o dissolve em si mesmo: o espírito se objetiva, se aliena e se retoma incessantemente, se realiza através de sua própria história. O homem exterioriza-se e se perde nas coisas, mas toda alienação é superada pelo saber absoluto do filósofo. Assim, nossos dilaceramentos, as contradições que fazem nossa infelicidade, são momentos que se apresentam para serem superados, não somos apenas eruditos: no triunfo da consciência de si intelectual, parece que somos sabidos; o saber atravessa-nos de ponta a ponta e nos situa antes de nos dissolver, somos integrados vivos à totalização suprema: assim, o puro vivido de  uma experiência trágica, de um sofrimento que leva à morte é absorvido pelo sistema como uma determinação relativamente abstrata que deve ser mediatizada, como uma passagem que conduz ao absoluto, único concreto verdadeiro.

Ainda com dificuldade em entender esse “saber absoluto do filósofo” – afinal, existe isso, de saber absoluto? Somos alienados quando indiferentes, ignorantes com relação a algo. Sempre seremos alienados em algum aspecto da vida, na verdade. Então, talvez, seja isso: nos dissolvemos em nós, nos exteriorizamos, nos perdemos, e o tempo todo nos revezamos em estados de alienação e estados de saber. Quanto às experiências, é a sabedoria que nos leva à superação, ao “puro vivido” – a conformação com o que foi e não pode ser mudado? a superação do puramente emocional, da vitimização que nos empurra para baixo e nos impede de progredir? estou apenas supondo, na verdade… vish!

Millôr tem razão: quanto mais lemos, maior o universo de nossa ignorância!

Estou torrando neurônios pra entender esse livro (“Críticas da Razão dialética”, como já mencionei em posts anteriores).

Aí, por causa dos questionamentos acima, fui pesquisar e achei Hegel bem interessante. Pra quem quiser pirar comigo: http://ghiraldelli.files.wordpress.com/2008/07/silveira_hegel.pdf

viajando com sartre

Para alguns, a Filosofia aparece como um meio homogêneo: os pensamentos nascem e morrem nele, os sistemas nele se edificam para nele desmoronar. Outros consideram-na como uma certa atitude cuja adoção estaria sempre ao alcance de nossa liberdade. Ainda para outros, é vista como determinado setor da cultura. Em nossa opinião, a Filosofia não existe; sob qualquer forma que seja considerada, essa sombra da ciência, essa eminência parda da humanidade não passa de uma abstração hipostasiada. De fato, existem várias filosofias. Ou melhor – porque nunca encontrareis, em determinado momento mais do que uma que viva -, em certas circunstâncias bem definidas, uma filosofia se constitui para dar expressão ao movimento geral da sociedade; e, enquanto vive, é ela que serve de meio cultural aos contemporâneos. Esse objeto desconcertante apresenta-se, simultaneamente, sob aspectos profundamente distintos, cuja unificação opera constantemente.

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Mas, para ser verdadeiramente filosófico, esse espelho deve apresentar-se como a totalização do Saber contemporâneo: o filósofo opera a unificação de todos os conhecimentos, utilizando como critério alguns esquemas diretores que traduzem as atitudes e as técnicas da classe ascendente diante de sua época e do mundo. Mais tarde, quando os detalhes desse Saber tiverem sido contestados um a um e destruídos pelo progresso das Luzes, o conjunto permanecerá como um conteúdo indiferenciado: depois de terem sido ligados por princípios, tais conhecimentos, esmagados, quase indecifráveis, ligarão, por sua vez, esses princípios.

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Uma filosofia, quando está em sua plena virulência, nunca se apresenta como uma coisa inerte, como a unidade passiva e já terminada do Saber; nascida do movimento social, ela própria é movimento e age sobre o futuro

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Se a filosofia deve ser, a uma só vez, totalização do Saber, método, Ideia reguladora, arma ofensiva e comunidade de linguagem; se essa “visão do mundo” é também um instrumento que trabalha as sociedades carcomidas, se essa concepção singular de um homem ou de um grupo de  homens torna-se a cultura e, às vezes, a natureza de uma classe inteira, fica bem claro que as épocas de criação filosófica são raras.

 

Jean-Paul Sartre em “Crítica da Razão”

Encontrei esse numa prateleira da biblioteca, enquanto procurava por nada específico, só qualquer coisa que me chamasse a atenção. E não é que estou achando tudo interessantíssimo? Descobri-me uma grande ignorante com relação à Filosofia (o que, pensando bem, é uma vergonha; tenho acesso a bibliotecas e informações há muito tempo e nunca fui atrás). E como acontece com os ignorantes curiosos, logo vieram as indagações: onde estão as produções filosóficas – pelo que estamos sendo influenciados? Que ideias regem, no momento, a cultura que vivemos? O que está agindo sobre o futuro, bem agora? E fiquei pensando que as respostas que eu desejaria provavelmente não correspondem à verdade.