Dinheiro e instrução não nos libertam facilmente da secular lavagem cerebral da nossa cultura. Passivamente ninguém derruba paredes limitadoras. E o preconceito (a “cultura”) nos diz que ser ativo é coisa de homem. Que devemos ser gentis, conciliadoras, agradáveis, sedutoras, despertar no homem sentimentos de posse e proteção, controlar constantemente os filhos para mostrar o quanto somos dedicadas.

Em suma, precisamos mostrar que merecemos afeto.

Somos criadas em função do hipotético príncipe salvador que decidirá – e terá de gerir, ainda que lhe custe – o nosso futuro. E naturalmente vai nos tratar como crianças. Seremos sempre as despossuídas, sem espaço nem força de decisão. Seremos dos pais, depois do marido, dos filhos e dos netos.

Para nós sobrará o canto da mesa da sala de jantar quando quisermos escrever, o computador do filho quando nos arriscarmos pela Internet, o sofá com as outras mulheres nos jantares de casais.

 

Lia Luft em “Perdas e Ganhos”.

Fica claro pra mim, nessas leituras e encontros, a razão pela qual eu me sentia tão deslocada e não-mulher há alguns anos. Nem sempre sou gentil, não sou nada conciliadora, nem sedutora e nunca procurei (e acho que, se um dia tivesse tentado, não conseguiria) despertar sentimento de posse em homem algum. E eu quero e sou ativa. Essa aqui é a minha vida, pelamor.

E eu não sou de ninguém não, viu?

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tristeza

As pessoas me deixam muito triste, às vezes (muitas vezes).

São hipócritas, preconceituosas, julgadoras, machistas, homofóbicas, racistas… Pior de tudo é que não se dão conta da dimensão desses problemas. Na maioria das vezes, nem mesmo se enxergam como tal. E aí fico inconformada, enraivecida, porque esse tipo de postura faz muita, muuuuita gente sofrer.

Essa falta de empatia é algo que me irrita muito, mas infelizmente é assim que as pessoas são e é assim que o mundo é.

Tenho notado o quanto esse comportamento, essa falta de amor, não apenas é frequente dentro da igreja, como também as pessoas usam a igreja como um escudo para sua frieza. Elas pisam todos os finais de semana dentro de um prédio e pensam que, por isso, são seres superiores, intocados.

Pisam na igreja, mas ridicularizam e desejam o sofrimento de homossexuais. Abrem suas Bíblias em público, orgulhosamente, mas erguem a voz e as mãos contra mulheres – de seu convívio e de fora dele. Dizem-se cristão, falam de moral e ética, mas apoiam a agressão, a violência, todo tipo de coisa ruim que resulta do preconceito.

Jamais farei parte disso e jamais aceitarei isso calada. Enquanto viver, serei a chata a rebater qualquer atitude semelhante a essas.

O que me consola é que há gente cheia de sensibilidade e amor. Ainda há. E algumas delas estão muito perto de mim, e isso torna meus dias mais felizes. É por elas que vivo. É por elas que não desisto!

as três fases do (meu?) entendimento

1) A ignorância:

Na ignorância, você não percebe uma porção de coisas sobre o mundo ao seu redor. Quase todo mundo vive essa fase em algum momento da vida, nem que seja ao longo da infância. Há quem diga que “a ignorância é uma benção”, já que muitos ignorantes vivem num estado de contentamento leve e bobo. Como não percebem que a vida é uma bosta, pensam que a vida é linda. Tocam suas vidas sem sair da bolha, fazem comentários vazios e sem embasamento, não conseguem enxergar a um palmo de distância deles mesmos. A ignorância resulta do egocentrismo, afinal, quando o que importa é o mundo ao meu redor, eu não saio do lugar pra procurar por mais. Se me contento com o que tenho, pouco importa o resto.

Mas, calma, isso não é uma crítica. Como disse, todo ser humano vive sua fase de narcisismo, nem que seja na infância. E, claro, há pessoas com acesso realmente limitado à informação, e que não vive na ignorância por egoísmo.

 

2) A indignação:

Em algum momento da vida, você se dá conta de dois fatos que mudam tudo:

– Existe mais no mundo do que o que você conheceu até o momento;

– A vida não está tão boa assim pra você, que foi colocado numa caixinha apertada cheia de expectativas; e muito menos está para pessoas que tem ainda menos recursos que os que você tem.

Triste fase. Quando começa a conhecer o mundo, é impossível não ficar muito indignado e muito puto. Quando conhece situações sociais precárias, quando começa a estudar os movimentos políticos, quando começa a estudar história por interesse, e não por te obrigarem na escola (e com senso crítico, aliás), quando começa a lidar com movimentos sociais (feminismo, movimento LGBT, por exemplo), e as vendas que te colocam nos nossos olhos desde sempre começam a cair… Dá raiva do que te fizeram. Dá raiva de não ter compreendido antes. Dá raiva, também, de quem continua oprimindo, julgando, vivendo dentro da caixinha. Você se dá conta de que muita gente vive na ignorância, e que a ignorância dos seres humanos faz com que mutuamente se prejudiquem, firam, e que julguem uns aos outros injustamente.

Você se dá conta de que, se o mundo é uma bosta, em grande parte ele é uma bosta por causa da ignorância das pessoas que vivem nele.

É uma fase triste, essa. Você também se sente sozinho em suas causas, já que ninguém mais parece se importar. Você ensaia gritar e se revoltar, você discorda do que todo mundo diz, fica irritado com o senso comum e os argumentos vazios… Mas, infelizmente, na maior parte das vezes você não será entendido ou mesmo levado à sério. Sendo mulher, corre-se ainda o risco de ser chamada de pitizenta, mimimi ou “feminazi” (isso aí – comparam a importância que você dá aos seus iguais e o seu amor a uma causa ao nazismo).

 

3) O lúdico:

Com o tempo, você se conforma. Compreende que, infelizmente, as pessoas não são mesmo ensinadas a raciocinar. Não se pode culpá-las inteiramente por isso. Embora ainda se irrite vez ou outra, que ninguém tem sangue de barata, e embora continue a se manifestar, muitos dos comentários ignorantes que antes te irritavam tornam-se bastante lúdicos. Você ri, que é o que tem. Também começa a aprender quando vale a pena entrar numa discussão e quando não.

Já habituado aos comentários a seu respeito (pois, se você realmente viveu a coisa toda, a essa altura já foi tachado de chato por uma porção de gente) você deixa de perder tempo se preocupando com o que vão pensar de você – e continua investindo seu tempo em viver ativamente e a cada momento sua militância. Até porque, agora, também já entendeu que simplesmente não importa. Seu pessoal passa a ser o seu político. O que importa é que você se sinta livre.

Você percebe que consegue mudar algo da realidade ao seu redor. Que algumas pessoas também compreendem, também passam a se sentir livres, também vivem o processo todo – e essa é uma sensação ótima, a de transformar.

E, nessa linda fase lúdica, você cresce e se sente ainda mais livre. Pois somente a informação liberta. Você compreende que tem um universo de possibilidades. Você aprende a pensar fora da caixinha. Você se torna sedento por conhecer, ler, entender, estudar. Agora, pensar de forma crítica e buscar informações confiáveis antes de julgar torna-se quase um hábito. Você aprende sobre paciência, tolerância e amor. Você se torna muitíssimo aberto a novas opiniões, especialmente quando nota que são bem embasadas. Discussões construtivas, reflexivas e não agressivas se tornam um grande prazer.

 

Você descobre um novo jeito de ser feliz e de ver leveza na vida. Você passa a discordar de quem diz que a ignorância é uma benção – ainda que os entenda…

O mundo é grande e é fascinante!

das observações

Algumas pessoas, parece-me às vezes, nunca estão satisfeitas com nada.

Nunca tem: dinheiro suficiente, roupas suficientes, tempo suficiente, amigos suficientes, namorados ou maridos suficientes, ou namoradas e esposas suficientes; corpos suficientes, cabelos suficientes, maquiagens suficientes, adereços suficientes, belezas suficientes; sono suficiente, diversão suficiente, felicidade suficiente, privilégios suficientes, celulares suficientes, computadores suficientes, casas ou apartamentos suficientes, carros suficientes. Passam a vida a reclamar. Não se passam 10 minutos sem que reclamem de alguma coisa.

Essas pessoas são, em sua maioria, de classe média a alta, tem bens materiais em quantidades perfeitamente adequadas para a sobrevivência com qualidade, são saudáveis, tem pessoas que as apoiam e uma perspectiva de futuro. Elas mal conseguem olhar para o lado, onde há gente com tanto, mas tanto menos que elas que  nem se pode comparar.

 

A verdade é que, embora elas não vejam isso, apenas UMA coisa lhes falta: gratidão.

da justiça

Ultimamente, tenho ouvido falar muito dessa tal de “justiça”.

Até entendo a voracidade com a qual as pessoas buscam por justiça (mas só quando é vantagem pra elas). Seres humanos tem gigantesca dificuldade em lidar com sofrimento e dor, e uma das formas mais automáticas de lidar é descarregando em cima de alguém. E acreditar que, tendo esse alguém recebido punição, o sofrimento vai passar (não vai).

Acontece, porém, que o mundo não é, nunca foi, não vai ser tornar justo. E é inviável que se torne, já que seres humanos são criaturas mentirosas, egoístas e bem espertinhas. Não é fácil ser justo. Quero ver você conseguir, se tentar! Tente fazer com que o que você pensa dos outros seja compatível com a realidade todas as vezes. Quero só ver.

 

Nessa nossa fome por justiça, saímos falando um monte de absurdos dos quais nem nos damos conta. Tipo desejar pena de morte com tortura para bandidos. Eu não defendo bandidos, veja bem. Mas torturar e matar uma pessoa é crime. Logo, entrando neste ciclo, todos seríamos, a bem da verdade um monte de bandidos. E não acertaremos o veredicto todas as vezes, então é certo que mataremos e torturaremos inocentes.

Além disso, se o mundo fosse justo, a sociedade de classe média e alta sofreria um bocado, pois teria de pagar pelo que faz às classes baixas. Querem falar de justiça? Falemos de justiça. Devolva tudo o que você sonegou de impostos, então, seu bandido miserável. Pague por todas as vezes em que enganou alguém pra se safar ou ganhar dinheiro. Criemos nosso filhos sob as mesmas condições, tanto classes altas quanto baixas, para que nenhum tenha vantagem sobre o outro nessa nossa amada meritocracia. Todos em escolas públicas, uniformizados, comendo a mesma comida e tendo o mesmo tipo de lazer. Não é assim que tem que ser? Não seria esse o justo?

Ah, sim. Mas é que, quando a justiça dificulta a nossa vida, aí não a queremos.

 

Não existe justiça. Justiça é uma ilusão.

Parece que não nos tornamos muito menos selvagens conforme a evolução da espécie.

 

Não tô dizendo que devemos largar todas as leis e nos conformar com o fato de que as coisas acontecem de forma errada.  Não. Mas temos de ser coerentes e um pouco menos irracionais. Temos de aprender a lidar melhor com contextos, e entender que o contexto social de alguém não é assim tão simples, que se compreenda em 5 minutos de leitura de jornal (com informações falsas).

A sociedade já condenou muita gente inocente nessa vida. Você pode estar fazendo parte disso. Então, cuidado com todo esse teu ódio. Ele pode estar sendo tão cruel e injusto quanto o que você acredita que foi a pessoa que chama de “marginal”.

a minha opinião sobre (a falta de) humor

Uma discussão recorrente é aquela história humoristas x feministas (e outras minorias). O assunto é bastante complexo em alguns sentidos, mas há algumas coisas que me deixam abismada. E o caso mais recente me deixou abismada.

Agora o alvo de piadas foi uma doadora de leite materno. Não uma doadora qualquer: a maior doadora de leite materno do Brasil. Doar leite materno é um gesto lindíssimo, um favor à vida de tantas crianças. Todos os seios do universo merecem respeito, mas até entendo a dificuldade de alguns em compreender isso. Estou longe de concordar, mas entendo: o machismo no Brasil ainda é muito arraigado e muita gente vive na idade da pedra. Agora, ter dificuldade em entender que se deve respeitar um seio que amamenta não apenas o próprio filho, mas os filhos dos outros também… Peraí. Parou. Nem estando na idade da pedra, por favor.

No entanto, discussões estão rolando e surpreende-me muito o assunto ser polêmico. Surpreende-me não ser óbvio para todo mundo que esse desrespeito é inaceitável. E que não tem a menor graça.

Mas quem é que está passando vergonha: a mulher, alvo das piadas de mau gosto, ou o homem, autor das piadas de mau gosto? A mulher! Ela, que não fez nada de errado, está passando vergonha! Ele, depois de agir com a inteligência de uma ostra em coma e com o raciocínio de um dinossauro, ainda passa por gostosão.

Não posso com isso. Fico irritadíssima.

 

 

 

Danilo Gentilli, Rafinha Bastos e caras que fazem piadas semelhantes: vocês são uns babacas machistas e sem caráter. São um desserviço à sociedade e às lutas das pessoas que usam seus cérebros. Beijos.

(mals aí. mas pessoas que não fazem uso de sua sutileza não merecem a minha)

das manifestações no país

Tô aqui quebrando a cabeça pra tentar entender da onde realmente isso tá vindo – e é difícil saber em quais informações confiar, afinal é tudo tão tendencioso – pra ver se tomo uma posição nessa coisa toda.

De todo modo, eu gosto de ver o povo nas ruas. Prefiro isso à inércia, de longe. Mas as repercussões políticas e econômicas preocupam… E as intenções de quem está por trás da coisa toda também. Sei lá. Será que ando desconfiada demais? É que parece tão… Utópico. Enfim, tomara que seja o povo acordando mesmo.Era o que eu queria que fosse.

Amanhã, de qualquer forma, estarei na praça para protestar contra o Estatuto do Nascituro. Esse troço não pode, simplesmente, ser aprovado, e vou fazer o que posso pra isso não acontecer (infelizmente posso tão, tão pouquinho… mas antes isso do que nada!).

as pérolas

Acabo de ler mais uma pérola no Facebook. Uma imagem dizia: “Só três coisas podem mudar o humor de uma mulher: Eu te amo; 50% de desconto; Você emagreceu.”

Tô nem aí se o objetivo era a piada, se eu levo as coisas a sério demais, etc. O blog é meu e vou reclamar.

1. Olha, “eu te amo” me deixa feliz, sim, mas não necessariamente vindo de um homem no contexto de um relacionamento romântico, como a imagem parecia sugerir. Não preciso, absolutamente, desse “eu te amo” pra ser feliz. Não mesmo. Tenho o da minha família e amigos. Sou uma pessoa completa, capaz de ser feliz “all by myself”, como já dizia o poeta.

2. 50% de desconto não muda em nada o meu humor. Nadinha. Tipo, absolutamente nada. Na verdade eu sempre acho que “50% de desconto” é só uma jogada e que nada me garante se realmente há um desconto, por que afinal nunca sei quanto custava antes. É só um cartaz, por favor! Então, não.

– “Você emagreceu” já me tirou do sério. “Você emagreceu” já me deixou doida. Já detestei ouvir “você emagreceu”, acabava com meu dia. Hoje em dia não me afeta nem altera nada do meu humor. Aprendi que minha felicidade está relacionada a coisas mais importantes que o formato do meu corpo. Tenho coisas mais legais pra me preocupar, muito obrigada. Então, não, de novo.

Mas o pior na frase, pra mim, foi o “apenas três coisas”… Olha, se você quiser saber que coisas alteram o humor da mulher que vos escreve, vou dar diversos exemplos:

1. Companhias boas/ter pessoas que amo por perto;

2.Contato prático com coisas relacionadas à medicina, especialmente psiquiatria;

3. Crianças;

4. Ganhar/comprar/pegar livros emprestados – enfim, ter um livro em mãos;

5. Discos;

6.  Chocolate;

7. Um dia lindo com muito vento e frio;

8. Uma taça de vinho tinto;

9. Ver o mar;

10. Cantar;

11. Escrever;

Lista que segue. Nunca vou acabar se continuar. Muita, muita coisa é capaz de mudar meu humor.

Adoraria que parassem de resumir a mulher a homem-roupa-corpo. Isso é um saco e somos bem mais do que isso. Obrigada!

ps: não, não vou parar de reclamar dessas tão cedo. Só a hora que parar de me deparar com essas situações lamentáveis.

da minha irritação constante

Falta de empatia me entristece e me chateia. Não entendo como um estudante de medicina quer exigir de um paciente o mesmo entendimento da vida que ele tem. Por que, só pra começar, somos um bando de pirralhos sustentados pelos pais. Não todos, claro, mas a grande maioria. Que não entende nada da vida. O que se pode entender da vida quando só se viveu o cursinho e a faculdade? Que te colocam numa bolha? Aí é muito fácil criticar algumas posturas, já que o dia-a-dia da faculdade não é (pasmem!!!!) o mundo real.

O mundo real é muito pior do que isso!!!!

 

Argh… Tá tudo errado. Tudo, tudo errado. O processo todo tá errado e isso me irrita.

(ocultar… altere quais atualizações você recebe de Fulanx – desabilitando todas pra poupar outras irritações já que obviamente manifestar minha irritação nunca funciona, então melhor nem ler de uma vez)

 

ps: considere-se que esse é um relato escrito enquanto a fúria da escritora ainda não havia acalmado, lembrando-se que a escritora frequentemente se irrita e indigna, etc. etc. claro que estou generalizando e há estudantes de medicina que se salvam. e há sempre outros lados da profissão, etc. etc. odeio ficar explicando mas antes que… bom, tanto faz.