da arte da terapêutica

Certa vez, ouvi o desabafo de um professor:

“Trabalho na linha de frente há muitos anos. Ano após ano, é merda atrás de merda. É triste, viu? Você não fica triste pelo paciente. Você fica triste por você mesmo. O triste é saber que, amanhã, pode ser você.”

Hoje, leio o trecho abaixo, ainda do “Psicossomática e suas interfaces”:

“Não se envolva com o paciente”, “É preciso ter sangue frio”, “Para aprender é assim mesmo”, “São apenas corpos”,”Se você ficar sofrendo a cada morte de paciente, você não aguenta e larga a medicina”. Estes são alguns dos elementos introjetados para se atravessar o batismo de fogo, um verdadeiro ritual de iniciação na Medicina, que poderá ser responsável, no futuro, por relações mortas entre paciente e terapeuta.

(…) Mostrando a presença do papel do médico como o Senhor da Vida e da Morte; revelando também a fragilidade do médico em lidar com um paciente que lembra a sua própria finitude, a sua humanidade. (…) Ele nos convida a pensar a nossa morte, ou melhor, na nossa vida, nossos planos, sonhos.

É fato que a morte, no contexto hospitalar, simboliza o fracasso, rompe o poder, retira os profissionais do Olimpo. É comum o relato de profissionais que afirmam se sentirem impotentes diante do paciente incurável: “não tenho nada a fazer”. Diante disso, a negação, o distanciamento, é muitas vezes a resposta para não lidar com o sentimento de fragilidade, com a reflexão sobre a própria finitude. Os pacientes à morte são uma ameaça ao poder médico.

Eu tenho falado tanto, nesse blog, sobre como nossos problemas estão dentro de nós mesmos.

Não é só o sofrimento do paciente que me faz sofrer. Também é, é claro; exercito empatia o máximo que posso e é dificílimo me aproximar do sofrimento das pessoas.

Mas não é só.

A relação que o médico tem com a morte e o sofrimento é o ponto crucial para o modo como ele irá lidar (ou não) com o sofrimento e a morte de seus pacientes.

Porém, tendo sido cultualmente estimulados a negarem a morte e a esconderem o sofrimento, de que modo serão capazes de se aproximar do sofrimento de alguém? De alguém que os fará lembrar que eles também podem sofrer, e que também irão morrer? Eles não querem. Portanto, distanciam-se. Pensam-se diferentes. Imaginam-se superiores… Estão acima da morte, estão acima do sofrimento, estão acima da condição de humanidade.

Quem não se vê como humano, quem não é capaz de admitir a própria fragilidade… Será incapaz de lidar com a fragilidade dos outros.

Pois temos dificuldade de lidar com o meio externo quando ele atinge algo que, internamente, não lidamos bem. E isso tem ficado cada vez mais óbvio para mim.

Então, as coisas finalmente estão ficando claras pra mim. Eu posso me aproximar. Posso ser lembrada do sofrimento e da morte. Posso ser lembrada da fragilidade humana… Posso permanecer ao lado dos meus pacientes.

Mas, pra isso, tenho de aprender a lidar e aceitar com meu próprio sofrimento e com a minha própria morte – que, cedo ou tarde, vai chegar.

distanciamento crítico

Merleau-Ponty coloca que na verdade sabemos aquilo que a interrogação pura não deve ser; o que será só o saberemos tentando. O encontro é indubitável, pois sem ele não nos proporíamos nenhuma questão. Não temos que interpretá-la, de entrada, seja como uma inclusão naquilo que existe, seja como conclusão daquilo que é em nós. Uma intervenção do profissional da saúde junto ao paciente terá efeitos inatingíveis pela percepção, ou seja, é algo que se tornará real apenas quando de sua efetivação.

Dessa forma, o encontro permeado pelo distanciamento crítico do profissional da saúde certamente será um encontro onde a dor do paciente será uma interrogação e nunca uma projeção feita a partir do contato realizado com outros pacientes em outros momentos e circunstâncias. Será uma descoberta, uma inclusão naquilo que existe, ou ainda, como conclusão daquilo que se transforma em nós mesmos diante de cada encontro e contato existencial e experienciado ao longo da vida.

Ao expor o seu sofrimento, o paciente não apenas revela a sua dor, mas também a sua configuração de valores, ou até mesmo a maneira como toca tangencialmente o seu próprio universo perceptivo. Embora não possamos abarcar a totalidade de sua dor no dimensionamento daquilo que ele sente, ainda assim temos como compreendê-lo em sua configuração de desespero. Torno esse encontro decididamente humano, em que a dor tangível na relação será aliviada, não apenas pela sua compreensão, mas também, e principalmente, pelo aspecto humano e humanitário que esse encontro apresentará.

(…)

De outra parte, ter-se a conformidade de que, embora se viva em um contato estreito com a dor e o desespero humano, ainda assim é preciso manter o desempenho profissional que nos permite atuar em condições tão adversas

Ainda do “Psicossomática e suas interfaces”.

o processo silencioso do adoecimento

Ao negar a dor do outro, o profissional da saúde não apenas nega a dor do seu semelhante, como também a própria condição humana, pois dentre as virtudes humanas, uma das que mais nos diferencia de outras espécies é justamente aquela que nos capacita a compreender e a apreender a dor do outro naqueles momentos em que a fragilidade humana deveria evocar outra virtude humana: a fraternidade.

Do livro “Psicossomática e suas interfaces”

Humanizar é preciso! Não apenas nós, profissionais de saúde (embora a gente tenha motivos especiais pra isso). Mas a humanização deveria ser um processo ensinado a todos, desde que somos pequenininhos.

Aprender a lidar com a própria condição de humanidade – e suas limitações – pra poder olhar para os outros tendo todos como seus semelhantes

(em tudo o que aprendo, tenho visto amor)

o tédio

E Ema esperava, todos os dias, com uma espécie de ansiedade, a infalível repetição dos mínimos acontecimentos, os quais, todavia, já não a interessavam mais.

(Gustave Flaubert – Madame Bovary)

Engraçado o livro ter sido escrito em 1857, ter inaugurado o realismo e ser tão… Tão hoje. Tão gente de hoje

o índice da felicidade

Uma das coisas que mais amo fazer na vida é ler. Aprendi a ler aos 6 anos e, desde então, nunca mais larguei. Leio qualquer coisa que caia nas minhas mãos – de panfleto de loja e revistinhas da Turma da Mônica a romances, livros de medicina  e enciclopédias.

Criei, um tempo atrás, uma conta no Skoob. Comecei a cadastrar todos os livros que já li na vida, pra ter uma noção. Inclusive os infantis, tudo. Há alguma margem de erro, pois nem todos os livros que já li estão cadastrados no site, tirando os que li e jamais lembrarei o título.

Mas tenho, no Skoob, 204 livros lidos. Considerando minha idade atual (24 anos) e que comecei a ler aos 6 (tenho, portanto, 18 anos de leitura), minha média anual é de 11,33 livros ao ano. Se somarmos aos que poderiam entrar nessa margem de erro anteriormente citada, eu passei os últimos 18 anos lendo, basicamente, um livro ao mês.

Que bom eu dedicar tempo a algo que gosto tanto – e que me faz crescer tanto!

Dinheiro e instrução não nos libertam facilmente da secular lavagem cerebral da nossa cultura. Passivamente ninguém derruba paredes limitadoras. E o preconceito (a “cultura”) nos diz que ser ativo é coisa de homem. Que devemos ser gentis, conciliadoras, agradáveis, sedutoras, despertar no homem sentimentos de posse e proteção, controlar constantemente os filhos para mostrar o quanto somos dedicadas.

Em suma, precisamos mostrar que merecemos afeto.

Somos criadas em função do hipotético príncipe salvador que decidirá – e terá de gerir, ainda que lhe custe – o nosso futuro. E naturalmente vai nos tratar como crianças. Seremos sempre as despossuídas, sem espaço nem força de decisão. Seremos dos pais, depois do marido, dos filhos e dos netos.

Para nós sobrará o canto da mesa da sala de jantar quando quisermos escrever, o computador do filho quando nos arriscarmos pela Internet, o sofá com as outras mulheres nos jantares de casais.

 

Lia Luft em “Perdas e Ganhos”.

Fica claro pra mim, nessas leituras e encontros, a razão pela qual eu me sentia tão deslocada e não-mulher há alguns anos. Nem sempre sou gentil, não sou nada conciliadora, nem sedutora e nunca procurei (e acho que, se um dia tivesse tentado, não conseguiria) despertar sentimento de posse em homem algum. E eu quero e sou ativa. Essa aqui é a minha vida, pelamor.

E eu não sou de ninguém não, viu?

contato

E se grande parte do que aceitamos como verdadeiro fosse um erro de interpretação, um caso especial ou um erro de lógica? – Carl Sagan

 

Eis um interessante exercício: tentar observar a vida ao seu redor como se você não a conhecesse, como se não fosse daqui. Como se não fosse da Terra, quero dizer. Como se você tivesse pousado por aqui hoje, e estivesse tentando entender os seres humanos. E os observasse em tarefas cotidianas, e avaliasse o modo como vivem e com pensam a vida. Imagine que você nunca teve contato com pessoas, que sua percepção de mundo está zerada. Quão bizarros não pareceríamos, quando vistos dessa forma? Por que comemos, bebemos, trabalhamos, dormimos, nos vestimos, acreditamos e vivemos da forma como fazemos? Por que não de outro modo inteiramente diferente? 

Pior: será que a forma como encaramos a vida faz tanto sentido quanto nos parece fazer? Seremos assim tão lógicos e inteligentes quanto nos pensamos?  Ou estaremos simplesmente deixando a corrente nos levar, por pura preguiça de pensar de verdade no que acontece com a gente?

Não faço a menor ideia das respostas. Mas tenho me divertido com as possibilidades!

porque a revolução é uma pátria e uma família

Sou apaixonada por Jorge Amado. Seus escritos de cunho social, suas obras cruas, reais e doloridas me tocam de modo que não sei explicar. Fazem de mim triste e feliz ao mesmo tempo, nem sei como. Sei que a cada livro dele que leio (ou releio), eu choro pelo menos uma vez (mas geralmente, são mais). Ele tem grande participação no meu modo de pensar as classes sociais. Não sei se há como ler algo dele sem se comover e sem parar pra pensar.

 

Hoje, terminei de reler “Capitães da Areia”. Jorge Amado é um de meus favoritos, e esse livro é um de meus favoritos dentre os de Jorge Amado (não posso dizer que é meu livro favorito, pois tenho muitos livros favoritos).

 

Fico comovida com a força de Pedro-Bala, com a pureza e a valentia de Dora, com a bondade de João Grande, com a fé do Pirulito, a sensibilidade do Professor, com o ódio sem fim de Sem-Pernas e até mesmo com a psicopatia (socialmente alimentada) de Volta Seca. Tornam-se como que meus conhecidos, amigos queridos, irmãos menores. Queria protegê-los, fazer algo que mudasse as vidas deles, que mudasse a nossa vida, que mudasse a vida inteira.

Mas a vida não muda, e nós – tanto eu quanto esse meninos, que são de livro mas também são reais – sabemos que não adianta. Que essa vida é caso perdido.

Que as pessoas são caso perdido.

Sinto raiva da nossa sociedade hipócrita, vazia, distante, arrogante e julgadora. Somos todos igualmente criminosos, só que uns social e moralmente aceitos, e outros não.

 

Mas ainda temos esperança na transformação (nas pequenas transformações, talvez), e sinto a mesma empolgação de Pedro-Bala ao pensar nas possíveis mudanças, na liberdade que é como o sol – o bem maior do mundo. Parece até que te conheço, Pedro-Bala. Desde que chorei contigo a morte (real e imaginária) de Dora.

Pois que todos nós choramos, vez ou outra, a morte (real e imaginária) de nossas expectativas…