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Para criaturas pequenas como nós, a vastidão só é suportável através do amor

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ando pensando…

Tem sido dias muito reflexivos. Estes últimos meses tem modificado muitas coisas que já foram, para mim, verdades inabaláveis. Sinto aquela vontadezinha de mudança e percebo que ela ocorre. A dúvida toma conta de mim, e isso me deixa muito satisfeita. Pois dúvida gera curiosidade, que gera vontade de conhecer, estudar e entender; e o conhecimento e a informação tem a belíssima capacidade de transformar as pessoas e o mundo. Acredito eu, para melhor. Tenho tudo isso como muito saudável. Estou aberta, receptiva. Deixando a minha caixinha para trás, cada vez mais longe. Sentindo que o amadurecimento é um processo – tranquilo, calmo, sereno e constante… 

unbreakable

Growth is painful. Change is painful. But nothing is as painful as staying stuck somewhere you don’t belong.

Mandy Hale

 

Li no http://projectunbreakable.tumblr.com/

Válido para o foco do projeto, é claro, mas válido também para tantas outras coisas que resultam da opressão que nos causam.

 

Não fique onde não merece estar.

Não acredite se te disserem que é bobagem, exagero, ‘piti’, tpm ou ‘mimimi’. Não acredite no que dizem quando tentarem menosprezar o que você sente.

Enquanto sentir que algo está errado, questione. Você tem esse direito. Seus sentimentos são importantes.

Those who do not move do not notice their chains

É isso, sabe? Quem não se movimenta, quem não pensa, não questiona, não vê. Simples desse jeito.

Então, não. Não deixe que continuem te prendendo.

Mudar é difícil e traz desconforto, é claro. Mas é possível, é preciso e faz feliz. E começa por você.

 

 

 

as três fases do (meu?) entendimento

1) A ignorância:

Na ignorância, você não percebe uma porção de coisas sobre o mundo ao seu redor. Quase todo mundo vive essa fase em algum momento da vida, nem que seja ao longo da infância. Há quem diga que “a ignorância é uma benção”, já que muitos ignorantes vivem num estado de contentamento leve e bobo. Como não percebem que a vida é uma bosta, pensam que a vida é linda. Tocam suas vidas sem sair da bolha, fazem comentários vazios e sem embasamento, não conseguem enxergar a um palmo de distância deles mesmos. A ignorância resulta do egocentrismo, afinal, quando o que importa é o mundo ao meu redor, eu não saio do lugar pra procurar por mais. Se me contento com o que tenho, pouco importa o resto.

Mas, calma, isso não é uma crítica. Como disse, todo ser humano vive sua fase de narcisismo, nem que seja na infância. E, claro, há pessoas com acesso realmente limitado à informação, e que não vive na ignorância por egoísmo.

 

2) A indignação:

Em algum momento da vida, você se dá conta de dois fatos que mudam tudo:

– Existe mais no mundo do que o que você conheceu até o momento;

– A vida não está tão boa assim pra você, que foi colocado numa caixinha apertada cheia de expectativas; e muito menos está para pessoas que tem ainda menos recursos que os que você tem.

Triste fase. Quando começa a conhecer o mundo, é impossível não ficar muito indignado e muito puto. Quando conhece situações sociais precárias, quando começa a estudar os movimentos políticos, quando começa a estudar história por interesse, e não por te obrigarem na escola (e com senso crítico, aliás), quando começa a lidar com movimentos sociais (feminismo, movimento LGBT, por exemplo), e as vendas que te colocam nos nossos olhos desde sempre começam a cair… Dá raiva do que te fizeram. Dá raiva de não ter compreendido antes. Dá raiva, também, de quem continua oprimindo, julgando, vivendo dentro da caixinha. Você se dá conta de que muita gente vive na ignorância, e que a ignorância dos seres humanos faz com que mutuamente se prejudiquem, firam, e que julguem uns aos outros injustamente.

Você se dá conta de que, se o mundo é uma bosta, em grande parte ele é uma bosta por causa da ignorância das pessoas que vivem nele.

É uma fase triste, essa. Você também se sente sozinho em suas causas, já que ninguém mais parece se importar. Você ensaia gritar e se revoltar, você discorda do que todo mundo diz, fica irritado com o senso comum e os argumentos vazios… Mas, infelizmente, na maior parte das vezes você não será entendido ou mesmo levado à sério. Sendo mulher, corre-se ainda o risco de ser chamada de pitizenta, mimimi ou “feminazi” (isso aí – comparam a importância que você dá aos seus iguais e o seu amor a uma causa ao nazismo).

 

3) O lúdico:

Com o tempo, você se conforma. Compreende que, infelizmente, as pessoas não são mesmo ensinadas a raciocinar. Não se pode culpá-las inteiramente por isso. Embora ainda se irrite vez ou outra, que ninguém tem sangue de barata, e embora continue a se manifestar, muitos dos comentários ignorantes que antes te irritavam tornam-se bastante lúdicos. Você ri, que é o que tem. Também começa a aprender quando vale a pena entrar numa discussão e quando não.

Já habituado aos comentários a seu respeito (pois, se você realmente viveu a coisa toda, a essa altura já foi tachado de chato por uma porção de gente) você deixa de perder tempo se preocupando com o que vão pensar de você – e continua investindo seu tempo em viver ativamente e a cada momento sua militância. Até porque, agora, também já entendeu que simplesmente não importa. Seu pessoal passa a ser o seu político. O que importa é que você se sinta livre.

Você percebe que consegue mudar algo da realidade ao seu redor. Que algumas pessoas também compreendem, também passam a se sentir livres, também vivem o processo todo – e essa é uma sensação ótima, a de transformar.

E, nessa linda fase lúdica, você cresce e se sente ainda mais livre. Pois somente a informação liberta. Você compreende que tem um universo de possibilidades. Você aprende a pensar fora da caixinha. Você se torna sedento por conhecer, ler, entender, estudar. Agora, pensar de forma crítica e buscar informações confiáveis antes de julgar torna-se quase um hábito. Você aprende sobre paciência, tolerância e amor. Você se torna muitíssimo aberto a novas opiniões, especialmente quando nota que são bem embasadas. Discussões construtivas, reflexivas e não agressivas se tornam um grande prazer.

 

Você descobre um novo jeito de ser feliz e de ver leveza na vida. Você passa a discordar de quem diz que a ignorância é uma benção – ainda que os entenda…

O mundo é grande e é fascinante!

das observações

Algumas pessoas, parece-me às vezes, nunca estão satisfeitas com nada.

Nunca tem: dinheiro suficiente, roupas suficientes, tempo suficiente, amigos suficientes, namorados ou maridos suficientes, ou namoradas e esposas suficientes; corpos suficientes, cabelos suficientes, maquiagens suficientes, adereços suficientes, belezas suficientes; sono suficiente, diversão suficiente, felicidade suficiente, privilégios suficientes, celulares suficientes, computadores suficientes, casas ou apartamentos suficientes, carros suficientes. Passam a vida a reclamar. Não se passam 10 minutos sem que reclamem de alguma coisa.

Essas pessoas são, em sua maioria, de classe média a alta, tem bens materiais em quantidades perfeitamente adequadas para a sobrevivência com qualidade, são saudáveis, tem pessoas que as apoiam e uma perspectiva de futuro. Elas mal conseguem olhar para o lado, onde há gente com tanto, mas tanto menos que elas que  nem se pode comparar.

 

A verdade é que, embora elas não vejam isso, apenas UMA coisa lhes falta: gratidão.

pois o mundo é o que é

Diálogo número 1 – o almoço

– Quantos pacientes o professor atende por dia?

– São 10. Cinco de manhã e cinco a tarde.

– Ih! Não é cansativo? Pela duração das consultas…

– Duram em torno de 40 a 50 minutos.

– Nossa…

– Não é cansativo, não. Já foi mais cansativo!

E, aqui, eu achei que ele ia dizer que já teve de atender em mais quantidade. Mas ele continuou:

– Na época em que a gente era mais novo e não tinha material interno pra trabalhar as coisas. Agora que a gente tem material ficou mais lúdico, assim.

 

Diálogo número 2 – o filme

Sabine está tentando defender Jung para Freud. Ele responde que não se pode almejar mudar completamente as pessoas:

– Ele esta tentando achar uma maneira para não termos que dizer aos nossos pacientes, “É por isso que você é do jeito que você é”. Ele quer poder dizer, “Podemos lhe mostrar aquilo que você quer se tornar.”

– Brincar de Deus, em outras palavras. Não temos o direito de agir assim. O mundo é como é. Compreender e aceitar isso é o caminho para a saúde psíquica. Que bem poderemos fazer, se o que queremos é trocar uma ilusão por outra?

 

 

Conclusão

O mundo é o que é.  Não há muito que eu possa fazer a respeito. Seria no mínimo um tanto narcisista da minha parte imaginar que eu, sozinha, pessoa tão comum, fosse capaz de transformar as coisas e as pessoas. Não sou. Vamos começar a deixar esses pesos pra trás! Não tenho a obrigação de mudar ninguém. De tornar ninguém “melhor” (tem isso?). De “converter”, convencer, transformar ninguém. Cada um que seja resultado da vida que teve. Cada um tem de lidar com si mesmo.

Afinal, “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”, como dizem por aí

 

E

Com o tempo, experiência e paciência, terei mais “material interno” para lidar com as questões que surgem no consultório, no hospital, nas visitas domiciliares, enfim… No contato com os pacientes e com a vida.

Tudo a seu tempo. Maturidade não vem rápido, nem de graça e nem com pouco esforço.

 

das discussões

Seguimos aprendendo com pequenas coisas do dia. Eu me deixo afetar facilmente por atitudes minhas que tem uma repercussão não esperada; e isso porque quase todas as coisas que digo tem um propósito, alguma expectativa de reação. Não é que planeje tudo o que digo; é que, quando me manifesto, tenho objetivos. Quando as pessoas reagem de forma muito diferente à que espero (especialmente quando me interpretam da pior forma possível), sinto-me muito mal. Dificilmente espero reações muito negativas, já que dificilmente calculo atingir alguém de modo a causar isso.

 

Mas, como também sou o tipo de pessoa que adora se manifestar, dar sua opinião e defender seu ponto de vista (às vezes de forma mais ferrenha do que deveria), vez ou outra essas coisas acontecem. Deixam-me muito chateada. Mas a lição fica: apenas vale a pena discutir com quem está aberto a. Não adianta gastar energia com quem não está afim de abrir a cabeça.

 

Eu tenho esse meu “espírito revolucionário”, essa minha coisa de ser inconformada com a vida como ela é e com as coisas como elas são. Quero acreditar que os seres humanos são capazes de coisas maiores e melhores. Mas: 1) Nem sempre minhas opiniões estão certas; 2) Nem sempre existe uma opinião certa; 3) Mesmo que eu esteja certa, as pessoas podem e vão discordar, bem como podem e vão continuar fazendo e falando merda. Gente é assim.

 

De todo modo, vivo uma fase de aprender a lidar com minha personalidade impetuosa, cheia de vontade e “cheia de ideias” (pra não dizer teimosa). Tenho de reconhecer que ceder não é meu forte. E que controlar meu emocional quando me agridem sem razão também não. Felizmente, a convivência com outros estilos de pessoas abriu meus olhos pra outras formas de lidar com as coisas… É nos relacionamentos que mais aprendemos, afinal, né? Há várias formas de se aprender com as pessoas.

 

Então, respiro fundo, pratico aquela coisa chamada perdão e sigo.

da trajetória

Pela manhã, recebi minha nota da prova de cirurgia (8,32) e, sendo assim, descobri também que fui aprovada.  Lá se vai o temido estágio mais difícil de todos (a primeira parte dele – nos encontramos novamente no 12°  período).

Hoje a tarde, indo pra casa depois do ambulatório de otorrino, dei de cara com os calouros que saiam do anatômico.

Comecei a pensar no tanto de coisa que já passei, nessa faculdade…

A adaptação do primeiro período, tão difícil. Aprender e aceitar que a medicina ia exigir 100% de mim, começar a abrir mão dos finais de semana, feriados, amigos, diversões; habituar a morar sozinha numa cidade estranha. Ficar longe da família à qual eu era tão apegada. As primeiras provas! A primeira prova de anatomia, de ossos, e o meu sucesso (9, a maior nota da sala), fruto de dedicação e tranquilidade. Acertar o osso esfenoide na radiografia por pura dedução, questão essa que ninguém mais acertou! Nesse sentido, acho que a convivência no curso de medicina me fez mal: nunca fui do tipo que fica nervosa com nada. Nunca fiquei nervosa em prova nenhuma antes da faculdade, nem mesmo no vestibular. A novela da ansiedade começou na segunda prova de anatomia, a prova de músculos (e o resultado do nervosismo foi um decepcionante 5). Isso é algo que estou tentando retomar: a autoconfiança na minha inteligência (que alimentei ao longo de toda vida estudantil, por sempre ter sido considerada “CDF” pelos colegas e uma das melhores alunas pelos professores).

Mas, de uma forma geral, cresci tanto! As longas horas dissecando, e descobrir que tinha talento empunhando um bisturi (minhas dissecações eram frequentemente elogiadas pelo detalhismo, perfeccionismo e habilidade). A semiologia, os primeiros passos dentro do hospital, a felicidade do primeiro jaleco e o primeiro esteto. Aquela vergonha de vesti-los, por não me considerar digna o suficiente para tanto. A primeira anamnese! Faltou tudo. Ficou péssima. Era uma senhorinha poliqueixosa, que largou sobre a cama sua sacola de remédios, e eu fiquei totalmente perdida na história.  A segunda anamnese, novo desastre: um senhor, alcoolista, que não queria papo e falava super baixo. Como não conseguia ouvi-lo, ajoelhei-me na beira do leito pra ficar mais próxima. A professora veio chamar minha atenção, pois aquilo era “meio esquisito”…

Coisas que só a inocência de uma caloura, mesmo.

E aí, o início do ciclo clínico. Lembro-me de que foi aí que começou a bater o desespero de “não sei nada!! será que serei uma boa médica?”. Conversava com os professores, frequentava mais ambulatórios do que precisava. Pegava livros enormes, escrevia resumos. Tardes inteiras estudando… Horas e mais horas, e quantas xícaras de café! Passou a farmaco. Quantos feriados decorando medicamentos… Achando que jamais saberia.

Chegou o oitavo período, aquele, de que falavam pra gente desde o primeiro. O temido, o reprovador, o que deixava todo mundo doido. Foram tantos dias sem descanso, tantas semanas emendadas  uma na outra, que eu ficava perdida no tempo – se era segunda, sexta ou domingo, tanto fazia. Os dias eram todos iguais. E eu passei por ele. Ficávamos tão doidos estudando, que quando saíamos juntos… Foi o período mais louco da minha vida. O paradoxo: nunca estudei tanto, mas também nunca bebi tanto. A Paula-que-detesta-baladas-e-festas-da-medicina não suportou a pressão. E foi. E não se arrepende (a vida tem dessas fases). O pouco tempo de vida social que tivemos foi muito intenso. Tinha de ser.

 

E aí… O tão sonhado internato. Que me fez reafirmar meu amor gigantesco pela profissão que escolhi. A cada dia me identifico e apaixono mais. Os primeiros pacientes, o carinho com que retribuem a atenção. Nesse pouco tempo atendendo, já recebi beijos de senhorinhas no PS, já fui convidada a tomar café na casa de pacientes que atendi no hospital, já fui elogiada, já ouvi muitos “muito obrigada!”. Já ouvi coisas desagradáveis também, afinal, gente doente não está de bom humor. Mas a oportunidade que a medicina me dá de conhecer pessoas e viver por elas é fantástica. Nesse exato momento, pensar nisso tudo enche meu peito de uma sensação de paz tão grande, tão profunda, que tenho certeza de que, só por isso, minha existência já não foi em vão.

Eu não poderia ter feito outra escolha.