sobre ser médica do consultório na rua

Encontrei o emprego dos meus sonhos. Tô nisso há uma semana, mas não quero nunca mais fazer outra coisa. É tão incrível! Não tem rotina. Tem ligação com os pacientes, tem tempo para os pacientes, tem atender os pacientes no seu ambiente. Tem viver fora da caixinha. Tem atenção integral à saúde. Tem equipe maravilhosa atuando junta, de verdade. Tem aprendizado diário com histórias de vida “fora do padrão”.

 

Tô realizada.

 

 

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a gratidão

Diálogo com um paciente, jovem, em situação de rua.

– Você é médica?

– Isso mesmo.

– Agradeça por isso. Eu não tive chance de estudar…

(sobre como às vezes esquecemos de ser gratos por coisas que são “normais” pra gente, mas não tão normais assim fora do nosso universo)

vínculo

“Vínculo exige perseverança e permanência, estabilidade que gera segurança, previsibilidade mesmo nos desafios que enfrentamos no dia a dia do trabalho e do viver. Vínculo revela conhecimento e reconhecimento. Não estranheza, mas pertença! Só quem pertence ao nosso mundo de significados estabelece vínculos conosco, e só assim estabelecemos vínculos com o outro.”

Esse Manual é a coisa mais linda do mundo de se ler.

“não somos lixo”

Não somos lixo.

Não somos lixo e nem bicho.

Somos humanos.

Se na rua estamos é porque nos desencontramos.

Não somos bicho e nem lixo.

Nós somos anjos, não somos o mal.

Nós somos arcanjos no juízo final.

Nós pensamos e agimos, calamos e gritamos.

Ouvimos o silêncio cortante dos que afirmam serem santos.

Não somos lixo.

Será que temos alegria? Às vezes sim…

Temos com certeza o pranto, a embriaguez,

A lucidez dos sonhos da filosofia.

Não somos profanos, somos humanos.

Somos filósofos que escrevem

Suas memórias nos universos diversos urbanos.

A selva capitalista joga seus chacais sobre nós.

Não somos bicho nem lixo, temos voz.

Por dentro da caótica selva, somos vistos como fantasmas.

Existem aqueles que se assustam.

Não somos mortos, estamos vivos.

Andamos em labirintos.

Depende de nossos instintos.

Somos humanos nas ruas, não somos lixo.

Carlos Eduardo (Cadu), Morador de rua em Salvador.

O poema acima está no começo do Manual sobre cuidado à saúde junto à população de rua.

E sabem o que? A partir de hoje, oficialmente, eu sou médica do projeto “Consultório de rua”!

pois é difícil ser recém formada

Hoje, em mais de um momento me senti a pior médica do mundo.

Um deles foi no final de manhã. Após uma manhã relativamente bem sucedida de atendimentos, chegou uma senhora que cortou a mão com uma jarra de vidro. Dei uma examinada e constatei que seria necessário dar uns dois pontinhos.

A enfermeira me ajudou a prepara o material para a sutura. Começo. Dali a pouco, chega a segunda enfermeira, espiando o que eu estava fazendo. Comecei a ficar tensa, com duas pessoas paradas ao redor me olhando. Dali a mais um pouco, entra ainda o outro médico, mais experiente, para olhar também.

Eram só dois pontinhos.

Mas fiquei nervosa com a plateia e me atrapalhei. Consegui concluir o trabalho, mas acho que ficou evidente para todos na sala o meu nervosismo e atrapalho. Senti-me envergonhada.

Já na segunda consulta da tarde, mal havia me recuperado da vergonha do final da manhã, chega um senhor com dor abdominal já há 15 dias, que já havia passado por médicos e hospitais mil. Trouxe uma sacola de exames e outra de remédios. Na sacola de exames: ultrassom, tomografia, endoscopia digestiva alta… Na sacola de remédios, nem poderia descrever; mas todos os medicamentos possíveis estavam lá. Pensei: “vou começar tudo de novo e fazer uma boa anamnese e exame físico”. Fiz isso. Foram 40 minutos de consulta, nos quais me esforcei genuinamente para compreender o problema e ajudar o paciente.

Terminei a consulta admitindo para ele que não sabia o que dizer.

É muito difícil ser recém formada. É um desafio constante, diário, isso de aprender a ser médica. Lidar com as frustrações, com a complexidade que é o ser humano, com a complexidade que é a parte técnica da medicina. É tanta pressão, tanto medo de não ser boa o suficiente. Espera-se que você seja capaz de resolver tudo, que saiba tudo sempre, que jamais vacile.

Está difícil ser recém formada. Mas não tenho outra opção.

o mercado de trabalho

Antes de começar, quero esclarecer que falarei do mercado de trabalho:

  • Na minha visão;
  • Atual (no período de julho a outubro de 2015, mais espeficicamente);
  • Na região onde estou, ou seja aqui aqui nos arredores do litoral norte catarinense;
  • Para médicos recém-formados.

Eu não poderia falar de mercado sob outras condições, já que não as conheço.

Vamos lá. Estou fazendo este post pois o mercado de trabalho me surpreendeu um pouco, logo que me formei. E eu gostaria de ter tido uma noção mais clara da situação, à época, para não ter ficado tão ansiosa e preocupada. Então, estudantes de medicina que me leem, esse post é pra vocês, conforme o prometido (embora com algum atraso – mals). :)

Quando estava prestes a me formar, eu perguntava às pessoas (médicos que conhecia, professores, conhecidos…) sobre como fizeram para encontrar emprego, por onde eu começava, etc. Eu sou a primeira médica na família, então não tinha base alguma. E as pessoas me diziam coisas mais ou menos assim:

“Não se preocupa! Se você quiser, se forma hoje e está trabalhando amanhã”

“Se tem uma coisa que não existe é médico desempregado!”

“Olha, comigo foi assim: eu liguei para a cidade tal num dia, no dia seguinte fui lá levar documentos e no outro já estava trabalhando!”

“Nossa, mas médico precisa em todo lugar… Não importa a cidade que você for, acha emprego rapidinho!”

etc. etc. Ouvi essas coisas tantas vezes que me convenci.

Acrescento, aqui, que eu queria sair da faculdade e fazer ESF, que era (ainda é, na verdade) o que gosto e me sinto apta a exercer. Não tinha lá muitas intenções de sair fazendo plantão. Mas, voltando. Eu estava bem tranquila quando me formei. Certa de que conseguiria emprego logo em qualquer lugar que eu quisesse. Foi assim?

Nããããão.

Na segunda-feira após a formatura, como vocês que acompanham o blog puderam verificar, comecei a saga de ligar para Secretarias de Saúde de diversas cidades, dizendo que era médica e coletando informações. E o que eu comecei a ouvir foi:

“Ah, aqui estamos com o efetivo preenchido…”

“Até estamos sem médicos, mas estamos chamando os do concurso/Provab/Mais médicos”

“Não precisamos não, mas se quiser enviar seu e-mail para cá, entramos em contato assim que precisarmos de alguém”.

Em todas as cidades. TO-DAS. Nenhuma delas se interessou muito ou perguntou muita coisa.

Eu fiquei tipo “gente, como assim? não era só ligar e começar no dia seguinte?”

Cheguei, também, a visitar pessoalmente algumas dessas cidades, conversar com secretários de saúde, e a história era a mesma. Já haviam contratado, ou não tinham vagas, ou estavam chamando de concurso, ou prometiam um concurso uma hora dessas.

Aí sim comecei a ficar esperta. Fiz uma lista de todas as cidades que liguei e qual conversa havia tido, favoritei os sites de todas as cidades e fiquei à espera de concursos, processos seletivos e tudo mais. Ao mesmo tempo, comecei a procurar empresas de medicina do trabalho, visitando uma por uma com currículo debaixo do braço. A conversa era sempre a mesma: com a crise, foram diretamente atingidas, estavam atendendo pouco e o que atendiam era praticamente só exame demissional. Elas mesmas estavam demitindo médicos e outros funcionários.

Como foi que consegui meu primeiro emprego? Um processo seletivo emergencial. Pouco divulgado, no site da prefeitura. Descobri num dia, dois dias depois fui fazer a entrevista (isso foi uma sexta), na segunda fui levar os documentos e na terça foi meu primeiro dia de trabalho. Uma loucura. De uma hora para outra. E isso um mês depois de formada. Com meus colegas, até onde soube, a história foi mais ou menos a mesma, exceto para quem já tinha contatos antes ou foi pegando plantões em PA/PS.

Das cidades e empresas que eu havia entrado em contato antes? Nada.. Sumiram.

Depois de dois meses trabalhando (ou seja, três meses depois de ter iniciado a procura por emprego!), um secretário de saúde de uma dessas cidades me ligou. Nesse período de tempo, também, fui acompanhando processos seletivos e concursos que abriram na região. Todos relativamente concorridos, nada tao fácil assim.

Quando conversei com um secretário de saúde, por esses dias, ele comentou que houve um fenômeno, esse ano, que nunca havia acontecido: ele teve mais oferta de médicos do que vagas sobrando. Ele relacionou ao programa Mais Médicos.

Também é a leitura que eu e outros colegas fazemos. Da parte do ESF, o programa Mais Médicos levou muitos médicos para centros grandes, não só para pequenas cidades. Aí, quem se forma não tem mais emprego na cidade em que se formou. Todos tentam migrar para cidades menores ou fazer concursos. Há médicos do programa até em Itajaí e Florianópolis, cidades que formam duas turmas de médicos por ano cada uma. Ainda não decidi se acho isso completamente bom ou ruim, tenho leituras diversas a respeito do assunto. Mas vou deixar isso para outro post, ou esse aqui não vai acabar nunca.

Além disso, a crise. A crise atingiu empresas aqui da região, que começaram a utilizar menos a medicina do trabalho. Então a oferta de emprego em medicina do trabalho também caiu.

Estes dois fatores são os que consigo relacionar à diminuição da oferta de vagas para médicos que ocorreu de forma atípica (pelo que sei). Continua sendo mais fácil conseguir emprego como médico do que para a maior parte das profissões, isso com certeza; e nossos salários também continuam consideráveis na maior parte dos lugares.

Mas não é algo que cai do céu no nosso colo, não. Foi muita correria até eu conseguir meu emprego.

Minha dica: cerca de 2 a 3 meses antes da formatura, já fiquem de olho nos concursos e processos seletivos, atentos às notícias relacionadas à situação da saúde, enfim. Vão prestando atenção com mais antecedência, se possível, se querem estar empregados já na semana seguinte à formatura.

PS: dúvidas, estou à disposição!

acostumando

Completei uma semana de trabalho.

A ansiedade tem diminuído bastante. Estou me habituando à rotina, ao local, à equipe… E o principal, a atuar como médica.

Estou descobrindo mais algumas coisas sobre mim mesma, a esse respeito: sou bastante exigente com o processo todo. Gosto de fazer anamneses completas, ouvir o paciente e tirar suas dúvidas e falar de suas ansiedades; de fazer exames físicos detalhados; de registrar no prontuário de forma completa e organizada; gosto de escrever encaminhamentos bem explicados; gosto de solicitar exames apenas quando há indicação precisa; gosto de prescrever medicamentos conforme as diretrizes/cadernos de atenção básica. O primeiro problema é que tudo isso demanda tempo, de modo que é difícil fazer uma consulta minha durar menos de 30 minutos. O segundo problema é que isso demandado muuuito estudo.

Mas, de qualquer forma, tenho conseguido manter boas condutas até o momento (acredito), tenho sido franca com os pacientes quando minha inexperiência me limita (admitindo quando não tenho experiência com um determinado assunto ou não sei de algo – e até agora ninguém demonstrou se incomodar com isso), e tenho aprendido como nunca antes!

Os dias que se passaram desde 16/07/2015 tem sido os mais intensos da minha vida, eu acho. E também de intenso crescimento!

da responsabilidade

Tenho sentido o peso da responsabilidade. Apesar de estar controlando para não ficar ansiosa demais durante as consultas, estou constantemente um pouquinho ansiosa. Ansiedade que vem do medo de não saber o que fazer com o próximo paciente que entrar no consultório; por tomar alguma conduta errada; por não conseguir administrar adequadamente o tempo e não dar conta da demanda; enfim. Um processo natural de quem ainda está aprendendo a ser médica. De quem saiu dos cuidados e seguranças que a vida acadêmica proporciona – ter um professor responsável pelas condutas e pelos pacientes, por exemplo.

Agora sou eu. Eu é que decido. A enfermeira me pede ajuda com as condutas dela. A equipe faz perguntas. E, é claro, durante as minhas consultas: a decisão é minha, e a responsabilidade pelas decisões que eu tomar também são.

Tenho aprendido muito. Até o momento, não tive nenhuma dificuldade tão grande que eu realmente não fizesse ideia de que decisão tomar. As decisões que tomo são pautadas em critérios tecnicamente embasados. Se tenho alguma dúvida, pesquiso antes. Tenho aprendido bastante, lido bastante, revisado cada paciente e cada conduta depois das consultas. E estudado muito. E estudado de forma concentrada e efetiva (não é pra nenhuma prova, agora! é a vida real!).

Enfim… Estou me sentindo realizada, todos os pacientes até agora saíram satisfeitos, todos os dias recebi elogios… Mas estou me sentindo cansada. E eu chego em casa e tenho de estudar, já que vou fazer o ACLS daqui duas semanas e tenho de terminar de ler a apostila e fazer uma prova online antes do início do curso. Minha vida tem sido medicina 100% do tempo que passo acordada, nesses últimos dias.

Eu sei; é uma fase de adaptação. Vai melhorar. Vou ficando progressivamente mais calma, conforme for ficando cada pouquinho mais experiente.

Bom… Vou estudar, que a noite é curta!

PS: muitos vestibulandos e estudantes de medicina tem encontrado este blog, e uma porção deles me segue. Em breve, farei um texto a respeito do mercado de trabalho e o processo de procurar um emprego, que vai conter tudo o que eu queria que tivessem me avisado antes. Hahaha. Assim que a vida aqui ficar um pouco mais calma! Prometo!