sobre desaprender a sonhar

Durante toda a existência da humanidade na Terra, o céu estrelado havia sido uma companhia e uma inspiração. As estrelas eram reconfortantes. Pareciam demonstrar que o firmamento fora criado para a alegria e a instrução dos seres humanos. Essa patética presunção tornou-se a sabedoria convencional em todo o planeta. Nenhuma cultura estava livre dela. Algumas pessoas encontravam no céu uma saída para a sensibilidade religiosa. Muitas se sentiam esmagadas e apequenadas pela glória e pela escala do universo. Outras ainda eram estimuladas aos mais absurdos desvarios da imaginação.

No mesmo momento em que o homem descobriu a escala do universo e verificou que suas mais loucas fantasias eram, na realidade, insignificantes em comparação às verdadeiras dimensões até de nossa própria galáxia, a Via Láctea, ele como que tomou medidas para que seus descendentes ficassem inteiramente impossibilitados de ver as estrelas. Durante 1 milhão de anos, os seres humanos haviam crescido com um conhecimento pessoal cotidiano da abóbada do firmamento. Nos últimos milhares de anos tinham começado a construir cidades e emigrar para elas. Nas últimas décadas a maior parte da humanidade abandonara a vida rural. À proporção que a tecnologia avançava e as cidades se poluíam, as estrelas desapareciam das noites. Novas gerações chegavam à maturidade desconhecendo inteiramente o céu que havia transfixado seus antepassados e estimulado a era moderna da ciência e da tecnologia. Sem sequer perceberem, no momento em que a astronomia entrou numa época áurea, a maioria das pessoas se afastou do céu, num isolamento cósmico que só terminou com o alvorecer da exploração espacial.

 

Carl Sagan – Contato

sobre flores, corridas, chuva e cortes de árvores

Voltei a correr.

Tem feito um bem gigantesco e me preenche de gigantesca sensação de liberdade ter o vento na cara, muito ar nos pulmões e sentir as pernas queimarem. Adoro correr.

 

Na última semana, indo correr, observei com encantamento uma árvore cheia de flores amarelas. Passar correndo por debaixo dela era um pequeno momento feliz do dia, eu o fazia olhando pra cima e sorrindo.

 

Hoje, quando passei pela árvore, fiquei desapontada: lhe cortaram muitos galhos. Como alguém teve coragem de cometer tamanha atrocidade, eu não sei; mas o sorriso, que já preparava para ocupar muitos centímetros da minha face, murchou.

 

No caminho, peguei chuva. Tomar banho de chuva me deixa feliz, pois a sensação dos pingos frescos contra a pele me faz sentir muito viva.

Passando por debaixo da árvore e com os cabelos encharcados, eu pensei:

 

“Eis uma lição importante: olhe sempre com carinho para as flores. Os outros podem cortá-las muito rapidamente se você não o fizer logo”

das estrelas

– Algumas dessas estrelas já pararam de brilhar há muito tempo. Você sabia disso?

O garotinho fez que não.

– Elas estão mortas?

– Sim… Estão mortas.

– E como a gente sabe quais estão mortas?

– É impossível. Não dá pra saber.

Os dois olham para cima.

– É um belo mistério, não é?

 

(Diálogo do filme “O Impossível”)

sobre dias felizes

Eu tenho atendido um monte de pacientes. O posto de saúde estava cheio hoje, e vimos um pouco de tudo: pneumonia, conjuntivite, resfriado, sinusites… Além disso, agora que estamos ali há três semanas, já começamos a reencontrar pacientes anteriormente atendidos e que agora estão melhores. A sensação é ótima. Nossa preceptora elogiou a nossa ausculta pulmonar. Disse que está muito boa. De pequenas realizações é que vou me tornando médica: minha autoconfiança tem crescido devagarinho, minha curiosidade em aprender tem crescido absurdamente, e minha vontade de ajudar ainda mais.

Os projetos sociais tem avançado pouco a pouco. Começamos a estabelecer vínculo com a Associação de moradores da comunidade que pretendemos atender; semana que vem, a presidente nos levará para caminhar pela comunidade e conhecê-la. Estou ansiosíssima! O que me empolga nesse projeto é a visível possibilidade de fazer diferença na vida de crianças. De ter a oportunidade de interferir no seu destino, na sua formação, na sua saúde. Provavelmente não há nada na vida me deixe mais feliz do que essa perspectiva.

O TCC também teve avanços nessa semana. Muitas ideias excelentes foram acrescentadas pela chegada de um co-orientador, e estou cada vez mais apaixonada pelo tema.

Essa semana também acrescentei mais um detalhe a isso tudo: agora, participo de uma comissão de ação social, o que me dá a oportunidade de compartilhar o que já sei sobre o assunto e de aprender muito mais com outras pessoas. Estou empolgada.

Hoje fui caminhar na praia ao fim da tarde. Fez um dia lindíssimo! Sentei-me numa pedra para contemplar o mar e a minha vida. Voltei para casa feliz, muito feliz, pois a minha vida tem exatamente o formato que eu desejo que tenha. Sem tirar nem pôr. Eu sou hoje o que gosto de ser e vivo o que gosto de viver. Sou tão completamente apaixonada pelas coisas que me cercam!

Passei no mercado e fiz compras. Comprei um monte de coisas saudáveis e felizes. Vou cozinhar, descansar e me preparar  para o meu primeiro plantão como acadêmica do internato, amanhã, no pronto socorro. Tenho de estudar.

das partidas e dos vazios

Quando eu era criança, tinha uma não-aceitação de algumas coisas.

Por exemplo, eu ficava muito triste ao ver um dia daquelas meus favoritos (os frios, de céu azul sem nuvens e muito vento) ir embora; queria fazer com que ele durasse para sempre, e tentava a todo custo fazê-lo ficar, nem que fosse como parte de mim, de minha história. Era o mesmo com lugares que eu achasse bonitos: nunca queria ir embora, ou então queria passar neles um momento que os fizesse eternos em mim. Momentos significativos.

Eu cresci com essa coisinha me cutucando.

Ultimamente, no entanto, tenho aprendido da beleza do desprendimento. Do saber que as coisas vão, algumas voltam, outras vem no lugar das que foram pra sempre. Às vezes nada vem no lugar e tudo bem também: vazio é bom, faz bem, e é até bonito. Só não se agrada do vazio quem não se preenche (ou coisa assim)

Tenho me agradado imensamente dos meus vazios, das idas e vindas, do movimento todo. Tenho aceitado as coisas bonitas que passam e que isso faz parte da beleza delas, e as torna ainda mais lindas e preciosas.

O vazio tem me ajudado a lidar comigo mesma

parênteses

(se me permitem, deixarei de lado a política por enquanto – embora esteja, ainda, pensando e estudando muito a respeito)

Hoje fez um lindo dia de inverno. Saí pra caminhar.

Sair pra caminhar virou uma terapia, nos últimos tempos (vocês podem perceber pela quantidade de posts descrevendo algumas delas). É um caminhar lento, que é pra exercitar a capacidade de ver beleza nas coisas e reencontrar “aquela” felicidade, tão interior, que exige esforço e concentração. Engraçado que, com um pouco de prática, pode-se ver beleza e encontrar paz com uma porção de coisas pequenas e aparentemente bobas.

Uma das minhas partes favoritas é quando abro a porta e saio – adoro sentir o vento, que é a primeira coisa que me faz feliz nessas caminhadas. Também acho linda a forma como a natureza consegue se embrenhar no nosso cinza-feito-por-gente: plantas crescendo nas rachaduras da calçada e dos muros, subindo nas paredes; folhas caindo no chão e tomando o asfalto. Se tem uma coisa que me deixa encantada é quando passa algum carro e levanta as folhas todas, deixando-as num redemoinho de vento e pó. As pequenas belezas dessas caminhadas me distraem da vida.

Quando me distraio da vida, sinto-me como se tivesse absoluto controle sobre mim e minhas emoções. Brinco de conversar com elas e organizá-las, categorizá-las, colocá-las nos seus devidos lugares. Explicá-las, especialmente, e justificar a presença delas pra minha consciência. É bom. Volto das caminhadas me sentindo mais equilibrada, mais tranquila e mais feliz.

Hoje aproveitei pra organizar algumas coisas que andavam me entristecendo e confundindo. Mais uma vez, concluí: ainda é por amor. Do meu jeito assim meio torto, que é o único jeito que sei ser, mas ainda é amor. Perdoei-me; é impossível tomar sempre atitudes que deixem todos felizes de imediato.

Lembrete: sempre desconfiar da felicidade imediata, instantânea! A felicidade é uma construção. Lancei sob a minha alicerces muito fortes: de que a vida é cheia de surpresas e tem a mania de nos tirar aquilo a que somos apegados. No entanto, isso nos dá a incrível chance de descobrir que podemos, sim, ser felizes sem as nossas “seguranças”. Hoje sei que, não importa o que me seja tirado, terei sempre de novo a chance de redescobrir essa estranha senhora, que se faz de cega e surda – a dona Felicidade.

dessas coisas pequenas que fazem a gente feliz

Meu humor continuava meio desagradável hoje, ao longo de todo dia. Eu ainda não havia descoberto a razão, mas tenho como principal palpite a tal da prova. Sinto-me a ponto de explodir, como se estudar só mais um pouco fosse tomar um espaço insuficiente, e me romper como que numa bomba, lançando ao ar quilos de letras confusas.

Mas ao fim do dia fui tomar sorvete de doce de leite em companhias agradáveis. Depois, coloquei os fones de ouvido e vim caminhando devagarzinho para casa. Olhei para cima e lá estava um céu que começava a anoitecer, meio laranjado e meio cinza, chuvoso.  O vento que soprou logo em seguida me vez fechar os olhos e sorrir.

Parei numa casa de produtos naturais, no caminho, e saí de lá com um pote de mel. Mel, para mim, tem gosto de conforto e de infância. E ao sair da loja com minha sacolinha verde, reparei que os primeiros pingos de chuva tomavam a calçada de pedras, e brilhavam à luz dos postes como se tentassem imitar estrelas.

E aí começou a tocar “Bron-yr-aur”. E eu vim pra casa, tomei meu banho quente, fiz chá de limão com mel, me enrolei numa coberta e fiquei a desfrutar da companhia de Erico Verissimo e seus personagens encantadores.

Momentos como esses me deixam a sensação de que eu posso ser feliz independente do que aconteça na minha vida. Que eu sempre vou dar um jeito de sorrir de novo.

do mar, do vento e do que me faz feliz

Eu queria ver o mar; fui caminhar no deque.

Caminhei e caminhei e aí resolvi sentar num banco e olhar o mar. Ventava muito forte; o vento desenhava riscos na superfície do mar, e o lançava contra as pedras, e então a espuma branca subia, como que numa explosão – tão bonito! Não sei quanto tempo fiquei olhando, hipnotizada, para o movimento da água; sei que foi bastante. Estava tão concentrada que dei um pulo quando um casal me chamou, pedindo que eu tirasse uma foto deles. Depois que tirei as fotos (não sei tirar uma só, já quis fazer um book) eles me agradeceram, o homem esticou a mão para me cumprimentar e disse, com olhar pensativo:

– Que Deus ilumine seu pensamento para que você tome a decisão certa, seja lá o que você esteja refletindo.

Que coisa bonita!, eu pensei. Agradeci, sorrindo, e desejei algo do tipo a eles – não lembro direito, fiquei tão surpresa com o comentário dele que não consegui pensar em algo bonito também para dizer.

Na verdade, porém, eu não estava pensando em nada além do movimento da água e no modo como o sol fazia a espuma brilhar, quando ela estava no ar, e como, com os riscos causados pelo vento e pela sombra, o mar parecia ter três cores. Era só isso; não estava decidindo nada. Mas foi bonito.

Acho que meu jeito de meditar é esse: olhar o mar.

E, de qualquer modo, depois disso fiquei pensando o quão feliz ando com as decisões que tomei e continuo tomando para a minha vida. Ela tem ido para onde eu quero e planejo que ela vá; e isso me tem feito muito, muito feliz.

Quando deu vontade, levantei e continuei caminhando, devagarzinho. Já estava ventando bastante, mas quando passei por debaixo de algumas árvores, na praia do Buraco, o vento resolveu dizer olá: soprou ainda mais forte, e arrastou, balançou e agitou tudo! Sou fascinada, encantada por vento, desde criança. Quando ventava e eu estava dentro de casa, eu saía correndo feito doida, e ia para o quintal. Abria os braços e girava até ficar tonta e cair, e aí levantava e girava outra vez. Quis poder fazer isso ali também, mas infelizmente a gente cresce e fica com vergonha das pessoas, preocupada achando que vão pensar que a gente é doida. Vão mesmo, mas né? Todo mundo que se conhece bem se sabe doido.

Não girei, mas parei e fiquei observando o vento sacudir as árvores; depois saí, pisando alegremente nas folhas secas. Decidi, ao ver o sol desaparecendo atrás dos prédios, mas lançando um feixe dourado ao longe, que queria ver anoitecer. Então, sentei-me num banco à beira da praia central.

É tão lindo ver anoitecer! O céu vai ficando todo colorido: vermelho, amarelo, azul claro, alguma-coisa-talvez-meio-verde, azul escuro… E aí ao mesmo tempo meio reflete e meio contrasta com o mar – que estava calmo – e com a areia clarinha. E ventava, como ventava!

Queria poder carregar vento num frasquinho. Pra poder tirá-lo do bolso sempre que me sentisse meio deprimida ou entediada, e aí fazer o vento sair rodopiando, que isso sempre me faz rir. Vento sempre me faz rir…

Quando eu era criança, achava que podia causar ventania soprando numa folha – tipo efeito borboleta, sabe? Mas na verdade era só meu Narcisismo infantil, mesmo. Duvido que uma das “ventanias” que semeei tenham resultado em grandes coisas… Se bem que, na verdade, era a ideia de causar vento que me divertia. Tipo a do potinho de vento.

Enfim: foi bonito ver anoitecer. E me fez feliz. Mas de repente me senti tão, tão exausta! Então vou ali me agarrar no meu Erico Verissimo.

she goes her own way

(chove e faz silêncio. eu gosto quando os caminhos são tranquilos. gosto de chuva, sim… e gosto desses dias frios e meio escuros, que parecem feitos pra deixar a gente deprimida – mas não acho deprimente. eu gosto… larguei o violão e silenciei a voz, que era um desperdício barulhar um silêncio bonito desses. até o som dos dedos no teclado parecem feri-lo, então, o que farei agora é

da natureza, dos relacionamentos e da paz

Engraçado como tomar banho de cachoeira pode te deixar num estado de relaxamento e tranquilidade sem explicação! E quão bem pode fazer um piquenique à beira de um rio, com alguém que você ama – no meu caso, minha irmã. Cultivar relacionamentos com momentos assim é uma oportunidade que não podemos deixar a correria da vida nos roubar… Então, sim, eu resolvi deixar de estudar e não me preocupar com a faculdade naquele momento – peguei o carro e fui, simplesmente. Amanhã, feliz e tranquila, eu estudo.

Aquela felicidade tem estado por perto; às vezes mais, às vezes menos perceptível. Frequentemente meu superego atrapalha tudo e tenta mandá-la embora, dizendo que fiz tudo errado e não a mereço, mas tenho tentado trabalhar isso (mais, no caso, que faz tempo que essa briga interna ocorre). Acho que estou tendo bons resultados.

Não é irônico termos de “lutar internamente” para experimentarmos paz de espírito?

 

Hoje tomei banho de cachoeira que nem criança: deixei-me levar pela corrente, com os braços para cima, e gargalhava. Que assim seja também na vida. Que eu aprenda a me deixar levar pela corrente sem me torturar tanto – apenas agitando os braços, feliz, e gargalhando. Que a vida é assim mesmo.