pequena (grande) constatação

tenho sido a cada dia mais e mais feliz, completa e realizada com a minha vida

quanto mais feliz, completa e realizada tenho sido com a minha vida…

menos tenho me importado com a opinião dos outros a respeito dela.

e longe de isso me tornar egoísta ou me afastar das pessoas!

na verdade…

isso tem me feito sentir cada vez menos: rancor, raiva, impaciência, etc.

e cada vez mais: gratidão, amor, paz, plenitude, etc.

(conclusão: eu me preocupava demais pensando que “nunca era suficiente para os outros”, que os outros “sempre esperavam o pior de mim”, e coisas semelhantes, mas… a verdade é que eu dava valor demais à opinião alheia pela insegurança que causava não me bastar. estava em mim, não nas outras pessoas, a solução. gratidão liberta…)

Anúncios

vários momentos de um mesmo (longo) dia

O fato é que, se a gente quiser, cada dia é um aprendizado.

Hoje ouvi, num momento, que não deveríamos nos comover com os pacientes.

Instantes depois, deu entrada a senhora G., encaminhada para que a traqueostomia fosse recolocada – aparentemente, a cuidadora tirou do lugar sem querer, ao tentar limpá-la.

Felizmente, por um lado, não foi muito grande a dificuldade para arrumar. Mas a dona G. demonstrava-se agitada. Quando lhe aspiraram a traqueo, agitou-se na maca, com lágrimas nos olhos e as mãos no ar, trêmulas.

Eu me aproximei e segurei sua mão, e essa foi, talvez, a melhor coisa que fiz no dia inteiro. Ela apertou minha mão de volta; e me encheu de uma sensação de plenitude.

Uma lição sobre as coisas que realmente importam nessa vida

o perdão, a paz e a liberdade

as coisas que te incomodam não estão do lado de fora – por mais que você pense que sim e prefira culpar o meio externo (sempre parece mais confortável)

se você pensar com serenidade e atenção, notará que as coisas que te incomodam estão do lado de dentro

tive um professor que nos dizia: “você não é tão importante que as coisas só aconteçam com você nem tão importante para que nada aconteça com você”

a vida está aí: imperfeita, inconstante, cheia de percalços, alegrias e oportunidades – pra mim, pra você e pra todas as pessoas do mundo. sofrimento e felicidade são coisas muito relativas para serem quantificadas, e pensar que nosso sofrimento ou nossa alegria são maiores ou mais importantes que dos outros seria arrogante…

então, aí está você e aqui estou eu – todos tentando sobreviver nesse mundo gigante e cheio de variedades. a vida o tempo inteiro tentando nos mostrar o quanto somos pequenininhos.

viver é um constante exercício de humildade…

e, quando você enxerga assim, e para de culpar as pessoas e as coisas que te cercam pelas suas dores, e assume a responsabilidade pela própria saúde emocional apesar de tudo o que a vida te impôs (afinal, você não é o único), quão libertador isso pode ser!

mas só enxerga quem quer ver…

(e é preciso ser forte, pois olhar para dentro e ser sincero consigo mesmo, muitas vezes, pode doer)

autoperdão é único caminho para a paz e a liberdade!

que bom que a vida tem sido generosa comigo, ensinando-me continuamente a perdoar os outros e a mim mesma…

plenitude

Não me sinto meia. Não sou uma pessoa incompleta. Nova, talvez; inexperiente; mas com todos os pedaços, em pleno funcionamento e harmonia!

Há apenas 8 meses de me formar, finalmente me dei conta de que não sou apenas uma “quase médica”. E que, ao me formar, não precisarei me resumir a uma “recém-formada com tudo pela frente”. Não, não. Nada disso. Bem, eu posso nem chegar a viver o “tudo pela frente”, não é mesmo? Pois melhor seria se aprendêssemos a não esperar tanto por um futuro que pode jamais chegar. Eu quero estar contente com o que sou e tenho agora.

O fato é: eu poderia largar tudo agora, e a experiência de fazer medicina teria valido enormemente. Eu poderia me formar e aí, resolver fazer algo inteiramente diferente da minha vida – que não teria problema.

Eu aprendi tanto cursando medicina! Tornei-me alguém completamente diferente. Tive essa oportunidade fantástica e impagável (mesmo com o valor que devo ao FIES) de ter contato com todo tipo de gente, de ouvir suas histórias. Os pacientes me ensinaram tanto… Eu cresci tanto! Evoluí tanto como pessoa. Aprendi tanto sobre os relacionamentos e sobre a vida. Eu suguei tanto cada segundo que vivi na faculdade!

 

Calma – não vou largar a carreira, não (não ainda. hahaha).

O que quero dizer é que estou felicíssima por estar onde estou. Que vir até aqui valeu tudo. Que o retorno financeiro não é tão importante assim. Que a futura residência será um detalhe, e não uma aflição, até que eu esteja pronta para ela. E que a vida tem sido generosa comigo.

E sei disso por que me sinto um ser humano plenamente realizado, aos 24 anos de idade. Isso me enche de uma paz e uma felicidade que não tem tamanho!

as três fases do (meu?) entendimento

1) A ignorância:

Na ignorância, você não percebe uma porção de coisas sobre o mundo ao seu redor. Quase todo mundo vive essa fase em algum momento da vida, nem que seja ao longo da infância. Há quem diga que “a ignorância é uma benção”, já que muitos ignorantes vivem num estado de contentamento leve e bobo. Como não percebem que a vida é uma bosta, pensam que a vida é linda. Tocam suas vidas sem sair da bolha, fazem comentários vazios e sem embasamento, não conseguem enxergar a um palmo de distância deles mesmos. A ignorância resulta do egocentrismo, afinal, quando o que importa é o mundo ao meu redor, eu não saio do lugar pra procurar por mais. Se me contento com o que tenho, pouco importa o resto.

Mas, calma, isso não é uma crítica. Como disse, todo ser humano vive sua fase de narcisismo, nem que seja na infância. E, claro, há pessoas com acesso realmente limitado à informação, e que não vive na ignorância por egoísmo.

 

2) A indignação:

Em algum momento da vida, você se dá conta de dois fatos que mudam tudo:

– Existe mais no mundo do que o que você conheceu até o momento;

– A vida não está tão boa assim pra você, que foi colocado numa caixinha apertada cheia de expectativas; e muito menos está para pessoas que tem ainda menos recursos que os que você tem.

Triste fase. Quando começa a conhecer o mundo, é impossível não ficar muito indignado e muito puto. Quando conhece situações sociais precárias, quando começa a estudar os movimentos políticos, quando começa a estudar história por interesse, e não por te obrigarem na escola (e com senso crítico, aliás), quando começa a lidar com movimentos sociais (feminismo, movimento LGBT, por exemplo), e as vendas que te colocam nos nossos olhos desde sempre começam a cair… Dá raiva do que te fizeram. Dá raiva de não ter compreendido antes. Dá raiva, também, de quem continua oprimindo, julgando, vivendo dentro da caixinha. Você se dá conta de que muita gente vive na ignorância, e que a ignorância dos seres humanos faz com que mutuamente se prejudiquem, firam, e que julguem uns aos outros injustamente.

Você se dá conta de que, se o mundo é uma bosta, em grande parte ele é uma bosta por causa da ignorância das pessoas que vivem nele.

É uma fase triste, essa. Você também se sente sozinho em suas causas, já que ninguém mais parece se importar. Você ensaia gritar e se revoltar, você discorda do que todo mundo diz, fica irritado com o senso comum e os argumentos vazios… Mas, infelizmente, na maior parte das vezes você não será entendido ou mesmo levado à sério. Sendo mulher, corre-se ainda o risco de ser chamada de pitizenta, mimimi ou “feminazi” (isso aí – comparam a importância que você dá aos seus iguais e o seu amor a uma causa ao nazismo).

 

3) O lúdico:

Com o tempo, você se conforma. Compreende que, infelizmente, as pessoas não são mesmo ensinadas a raciocinar. Não se pode culpá-las inteiramente por isso. Embora ainda se irrite vez ou outra, que ninguém tem sangue de barata, e embora continue a se manifestar, muitos dos comentários ignorantes que antes te irritavam tornam-se bastante lúdicos. Você ri, que é o que tem. Também começa a aprender quando vale a pena entrar numa discussão e quando não.

Já habituado aos comentários a seu respeito (pois, se você realmente viveu a coisa toda, a essa altura já foi tachado de chato por uma porção de gente) você deixa de perder tempo se preocupando com o que vão pensar de você – e continua investindo seu tempo em viver ativamente e a cada momento sua militância. Até porque, agora, também já entendeu que simplesmente não importa. Seu pessoal passa a ser o seu político. O que importa é que você se sinta livre.

Você percebe que consegue mudar algo da realidade ao seu redor. Que algumas pessoas também compreendem, também passam a se sentir livres, também vivem o processo todo – e essa é uma sensação ótima, a de transformar.

E, nessa linda fase lúdica, você cresce e se sente ainda mais livre. Pois somente a informação liberta. Você compreende que tem um universo de possibilidades. Você aprende a pensar fora da caixinha. Você se torna sedento por conhecer, ler, entender, estudar. Agora, pensar de forma crítica e buscar informações confiáveis antes de julgar torna-se quase um hábito. Você aprende sobre paciência, tolerância e amor. Você se torna muitíssimo aberto a novas opiniões, especialmente quando nota que são bem embasadas. Discussões construtivas, reflexivas e não agressivas se tornam um grande prazer.

 

Você descobre um novo jeito de ser feliz e de ver leveza na vida. Você passa a discordar de quem diz que a ignorância é uma benção – ainda que os entenda…

O mundo é grande e é fascinante!

calma

Nunca tinha acreditado nessa coisa de “troca de energia” até recentemente. Não sei bem ainda se acredito é nisso ou em algo parecido; mas acredito, ultimamente, que se transfere calma, se transfere paz, se transmite coisas. E essas coisas podem ser ruins e boas, e podem transformar as pessoas (e, sei lá – animais?) ao seu redor.

Algumas pessoas e suas transferências me tem feito tão bem

(obrigada)

as senhorinhas do meu dia

manhã

Paciente em tratamento pra câncer de mama há 2 anos. Interna pra tratamento sintomático dos efeitos colaterais de mais uma quimioterapia (ela já fez diversas). Cabelos ralos, miúda e simpática. Fico preocupada que ela ainda esteja passando dor, mas ela tem surpreendente serenidade no rosto, mesmo quando fala dos sintomas – diarreia e fortes dores abdominais, contínuas, já há mais de uma semana. Antes de deixarmos o quarto, ela agradece a atenção várias vezes. Tenho súbita vontade de abraçá-la, de tão querida.

 

tarde

Paciente com lesão de pele; veio para fazer uma biópsia.

Como ela sentiu muita dor na aplicação da anestesia, segurei a mão dela durante o resto da biópsia. Ela olhava pra mim, apertava minha mão, dizia alguma coisa e… Ria!

Eu ria junto.

Ao fim, a enfermeira ajudou a colocá-la na cadeira de rodas; ela puxou a enfermeira, agradeceu e lhe tacou um beijo no rosto. Depois disso, olhando pra mim, esticou as duas mãos na minha direção. Quem resiste, né? Aproximando-me dela, ganhei também um beijo, um abraço e um “Deus te abençoe, menina. Obrigada”.

 

o que elas tem em comum

Fizeram-me pensar “foda-se se eu sofro junto quando eles sofrem… a proximidade emocional aos pacientes vale muito a pena!”

queria saber o que escrever pra arrancar isso de mim, mas tá difícil

Tá chovendo, e

(subitamente fiquei decepcionada comigo mesma, por me permitir cair nessa… de me deixar abater e mau-humorar desse jeito. não consigo entender a razão pela qual deixamos de nos encantar pela vida, de verdade. quer dizer: entendo, mas acho que somos estúpidos nesse sentido. parece que involuímos em algumas coisas à medida em que crescemos… olhe para as crianças. olhe como sorriem com frequência. olhe como são espertas em usar seu tempo em coisas deliciosas e como comemoram suas descobertas! aí eu resolvi abrir a janela, e entrou o vento fresco e úmido pós-chuva e, então, de repente, percebi-me muito emotiva. ando emotiva por esses dias. emotiva por dentro, só pra mim, no caso. a gente cria uma casca pra viver e não mostra nem fala muito disso pros outros – que merda. queria que não fosse tão difícil. queria conseguir limpar minha mente, extinguir de dentro de mim essa angústia pequenininha porém incômoda, esse estresse e esse cansaço, e essa irritação com o fato de a vida não ser nem um pouco justa, e viver em absoluta sensação de paz e tranquilidade. eu sei que é um exercício diário e que dá certo trabalho. exige concentração, autocontrole, diversos momentos de autoterapia. mas não consigo deixar de acreditar que possa ser possível alcançar um estado quase pleno de amor, felicidade e tranquilidade… pode dizer que estou sendo utópica. pode dizer que estou tentando negar minha humanidade. ah, talvez seja algo assim, mesmo, que sou eu pra estar certa? mas eu passei por umas fases na vida nas quais aprendi que se pode sofrer em paz, e cara, como eu queria conseguir sempre sofrer em paz, estar cansada em paz, estar atarefada em paz. encontrar algum canto dentro de mim que se proteja dos fatores externos. um pedacinho intocável de paula. uma porção forte, segura e autoconfiante o suficiente. um pedacinho que não perca a capacidade de ver com olhos diferentes, de perceber, de captar. de lembrar que: os dias nunca são iguais; as pessoas nunca são iguais de um dia para outro; a vida é recheada de tantos fatores, que é impossível que eles todos se cruzem mais de uma vez, possibilitando situações idênticas mais de uma vez; que tudo nessa vida pode ser aprendizado, que tudo pode ser evolução. ah, queria poder me livrar dessas amarras tolas! permitir ser livre. não viver sentindo que o tempo todo estou sendo ‘obrigada a’. que tudo fossem minhas escolhas, feitas com o amor que merecem. talvez eu pareça uma boba escrevendo e pensando desse jeito, mas, talvez, também, sejamos bobos em não nos esforçamos pensando nisso. a gente cai na armadilha! deixa que outros tomem os rumos pela gente. outros fatores, outras pessoas, outras situações. a cada minuto, permitimos que nossa vida seja dominada pela enorme carga de ansiedade, irritabilidade, obrigação, seriedade e chatice que jogam sobre nossos ombros. será que estou mesmo tão presa quanto imagino? será que, talvez, não seja uma questão de apenas mudar a forma de enxergar as coisas? a rotina? e, quando mudar o jeito de encarar não funciona, será que não nos falta coragem pra tentar agir sobre os fatores externos? e, quando não podemos agir sobre fatores externos, será que não nos falta capacidade de aceitação, resiliência, percepção de que até o desagradável é crescimento – ou, pensando melhor, o desagradável proporciona mais crescimento ainda? caímos nessa, de torcer para que os dias passem rapidamente. vivemos esperando. a espera gera expectativas. as expectativas se transformam em frustrações. as frustrações nos tornam ainda mais amargos e prolongam a espera. vivemos com a cabeça cheia de mil coisas. pensamentos borbulham, transbordam, nos deixam malucos. as nossas suposições todas. nossas especulações, quase sempre tão erradas. mas acho que hoje eu só precisava conseguir acalmar o meu coração o suficiente pra poder olhar pra fora e sentir prazer em ver a chuva cair outra vez…)

deixo com vocês a pequena kayden, tão mais esperta em ser feliz do que tenho sido essa semana