sobre dias felizes

Eu tenho atendido um monte de pacientes. O posto de saúde estava cheio hoje, e vimos um pouco de tudo: pneumonia, conjuntivite, resfriado, sinusites… Além disso, agora que estamos ali há três semanas, já começamos a reencontrar pacientes anteriormente atendidos e que agora estão melhores. A sensação é ótima. Nossa preceptora elogiou a nossa ausculta pulmonar. Disse que está muito boa. De pequenas realizações é que vou me tornando médica: minha autoconfiança tem crescido devagarinho, minha curiosidade em aprender tem crescido absurdamente, e minha vontade de ajudar ainda mais.

Os projetos sociais tem avançado pouco a pouco. Começamos a estabelecer vínculo com a Associação de moradores da comunidade que pretendemos atender; semana que vem, a presidente nos levará para caminhar pela comunidade e conhecê-la. Estou ansiosíssima! O que me empolga nesse projeto é a visível possibilidade de fazer diferença na vida de crianças. De ter a oportunidade de interferir no seu destino, na sua formação, na sua saúde. Provavelmente não há nada na vida me deixe mais feliz do que essa perspectiva.

O TCC também teve avanços nessa semana. Muitas ideias excelentes foram acrescentadas pela chegada de um co-orientador, e estou cada vez mais apaixonada pelo tema.

Essa semana também acrescentei mais um detalhe a isso tudo: agora, participo de uma comissão de ação social, o que me dá a oportunidade de compartilhar o que já sei sobre o assunto e de aprender muito mais com outras pessoas. Estou empolgada.

Hoje fui caminhar na praia ao fim da tarde. Fez um dia lindíssimo! Sentei-me numa pedra para contemplar o mar e a minha vida. Voltei para casa feliz, muito feliz, pois a minha vida tem exatamente o formato que eu desejo que tenha. Sem tirar nem pôr. Eu sou hoje o que gosto de ser e vivo o que gosto de viver. Sou tão completamente apaixonada pelas coisas que me cercam!

Passei no mercado e fiz compras. Comprei um monte de coisas saudáveis e felizes. Vou cozinhar, descansar e me preparar  para o meu primeiro plantão como acadêmica do internato, amanhã, no pronto socorro. Tenho de estudar.

do mar, do vento e do que me faz feliz

Eu queria ver o mar; fui caminhar no deque.

Caminhei e caminhei e aí resolvi sentar num banco e olhar o mar. Ventava muito forte; o vento desenhava riscos na superfície do mar, e o lançava contra as pedras, e então a espuma branca subia, como que numa explosão – tão bonito! Não sei quanto tempo fiquei olhando, hipnotizada, para o movimento da água; sei que foi bastante. Estava tão concentrada que dei um pulo quando um casal me chamou, pedindo que eu tirasse uma foto deles. Depois que tirei as fotos (não sei tirar uma só, já quis fazer um book) eles me agradeceram, o homem esticou a mão para me cumprimentar e disse, com olhar pensativo:

– Que Deus ilumine seu pensamento para que você tome a decisão certa, seja lá o que você esteja refletindo.

Que coisa bonita!, eu pensei. Agradeci, sorrindo, e desejei algo do tipo a eles – não lembro direito, fiquei tão surpresa com o comentário dele que não consegui pensar em algo bonito também para dizer.

Na verdade, porém, eu não estava pensando em nada além do movimento da água e no modo como o sol fazia a espuma brilhar, quando ela estava no ar, e como, com os riscos causados pelo vento e pela sombra, o mar parecia ter três cores. Era só isso; não estava decidindo nada. Mas foi bonito.

Acho que meu jeito de meditar é esse: olhar o mar.

E, de qualquer modo, depois disso fiquei pensando o quão feliz ando com as decisões que tomei e continuo tomando para a minha vida. Ela tem ido para onde eu quero e planejo que ela vá; e isso me tem feito muito, muito feliz.

Quando deu vontade, levantei e continuei caminhando, devagarzinho. Já estava ventando bastante, mas quando passei por debaixo de algumas árvores, na praia do Buraco, o vento resolveu dizer olá: soprou ainda mais forte, e arrastou, balançou e agitou tudo! Sou fascinada, encantada por vento, desde criança. Quando ventava e eu estava dentro de casa, eu saía correndo feito doida, e ia para o quintal. Abria os braços e girava até ficar tonta e cair, e aí levantava e girava outra vez. Quis poder fazer isso ali também, mas infelizmente a gente cresce e fica com vergonha das pessoas, preocupada achando que vão pensar que a gente é doida. Vão mesmo, mas né? Todo mundo que se conhece bem se sabe doido.

Não girei, mas parei e fiquei observando o vento sacudir as árvores; depois saí, pisando alegremente nas folhas secas. Decidi, ao ver o sol desaparecendo atrás dos prédios, mas lançando um feixe dourado ao longe, que queria ver anoitecer. Então, sentei-me num banco à beira da praia central.

É tão lindo ver anoitecer! O céu vai ficando todo colorido: vermelho, amarelo, azul claro, alguma-coisa-talvez-meio-verde, azul escuro… E aí ao mesmo tempo meio reflete e meio contrasta com o mar – que estava calmo – e com a areia clarinha. E ventava, como ventava!

Queria poder carregar vento num frasquinho. Pra poder tirá-lo do bolso sempre que me sentisse meio deprimida ou entediada, e aí fazer o vento sair rodopiando, que isso sempre me faz rir. Vento sempre me faz rir…

Quando eu era criança, achava que podia causar ventania soprando numa folha – tipo efeito borboleta, sabe? Mas na verdade era só meu Narcisismo infantil, mesmo. Duvido que uma das “ventanias” que semeei tenham resultado em grandes coisas… Se bem que, na verdade, era a ideia de causar vento que me divertia. Tipo a do potinho de vento.

Enfim: foi bonito ver anoitecer. E me fez feliz. Mas de repente me senti tão, tão exausta! Então vou ali me agarrar no meu Erico Verissimo.

o dia de relaxar

Eu estava estressada. É…

Mas prometi a mim mesma que vou tomar mais cuidado pra não ficar desse jeito. Tentei repetir pra mim mesma que eu preciso continuar focando “naquela felicidade”, concentrada no momento que estou vivendo, e distraída de preocupações que não gerem resultado.

A propósito, a prova foi horrivelmente difícil e eu não poderia ter estudado mais do que estudei. Logo, minha preocupação e meu estresse não foram produtivos. Só me deixaram muito, muito cansada; com insônia; irritadiça; e com a minha somatização habitual dos grandes estresses (o aviso pra mim mesma que é pra sossegar): dispneia e sensação de aperto no peito.

Uma longa caminhada na praia foi necessária pra baixar os ânimos.

Cheiro de mar, vento de mar no cabelo (bagunçado, pra variar), pés molhados e cheios de areia. Engraçado de caminhar na beira da praia é que os mariscos, quando afundam na areia, fazem cócegas nos pés da gente. Mariscos me fizeram sorrir, hoje. Quer dizer, isso só pode ser prova de que a gente não precisa perder a capacidade de se divertir com pouco (característica que eu admiro nas crianças e me faz gostar tanto de conviver com elas).

Depois, um banho longo e quente. E agora, uma taça de vinho tinto, trezentas páginas de word de bobagens quaisquer que me vierem à mente e música.

 

Comecei a pensar em “amanhã começa tudo de novo”, mas interrompi. Tanto faz amanhã. Amanhã pode nem chegar, Paula! Agora. Só agora.

daquela felicidade

Hoje eu resolvi sair pra caminhar na praia com muita calma. Saí de casa com uma latinha de Coca, passei na padaria e comprei pães de queijo quentinhos, e fui a passos lentos e pensativos. Resolvi que levaria o tempo que fosse necessário para encontrá-la – aquela tal de felicidade intensa e cheia de paz que tenho de me concentrar em me distrair para desfrutar.

Caminhei pelo deque e observei a paisagem à minha frente. Sentei-me logo no início para ver o mar e comer meus pães de queijo. Aí, vem um pássaro com um peixe se debatendo no bico e pousa na areia, perto de mim. O peixe, no entanto, era grande demais. Ele passou a tentar despedaça-lo, bicando-o, arremessando-o contra as pedras; porém, sem sucesso. “A felicidade exige paciência”, filosofei. Enquanto isso, outros três pássaros o cercaram, observando. Ele por fim desistiu; os outros pássaros, um a um, fizeram suas tentativas.  Por fim, a morte e sofrimento do peixe foi inútil: não serviu de alimento pra ninguém. “Também na natureza a vida é cheia de frustrações. Não tá fácil pra ninguém”, filosofei outra vez. A partir daí eu havia atingido um nível máximo de tranquilidade e capacidade de observação; quero dizer, alguém capaz de filosofar sobre a morte de um peixe está realmente desprendida das grandes preocupações da vida.

“but all that lives is born to die…”

Levantei-me e caminhei muito pausadamente, observando o movimento da água. E ouvindo o barulho das ondas nas pedras. E como o sol, ao refletir no mar, fazia com que ele parecesse cintilar. Cantarolei baixinho, absorta numa mistura de mundo-da-Paula-com-o-mundo-exterior, naquele estado em que eu trago pra mim a paisagem ao redor: “tha’s the way… ohh, that’s the way it ought to be…”

A cerca viva estava forrada de flores vermelhas e surgiu um beija-flor. Parei enquanto ele bebericava e me percebi impressionada com a cena. Também acho muito bonito, por alguma razão, o modo como as flores caíram ao redor de um banco, como quem se esparrama pelo deque de madeira mas dá licença a quem quiser sentar.

A vida é mais bonita quando a gente se concentra em se distrair, é o que eu acho. Afastava qualquer pensamento que não estivesse relacionado à beleza do que estava ao meu redor. Tudo foi lindo: caminhar pela areia e sentir o vento bagunçar o cabelo, e subir nas pedras e ver o mar e ter a sensação de infinito. E olhar par o céu e ver as nuvens tingidas de dourado pelo por do sol. E lá longe surgiu uma tartaruga, flutuando tranquila. Eu invejei sua tranquilidade por um segundo, mas no segundo seguinte agradeci por poder ser eu, naquele momento. Inspirei fundo e tinha cheiro de mar. Cheiro de mar é feliz.

Descabelada, com os pés cheios de areia e tomada por uma imensa sensação de paz e gratidão, rumei de volta para casa – pois escurecia.

É impossível ser triste ou rabugento quando se está cheio de gratidão. Eu declarei mentalmente todas as coisas pelas quais sou grata, e percebi que tenho uma vida realmente muito, muito digna de felicidade. Pois tenho uma vida completa: de pessoas, de dúvidas (ah! não são as dúvidas que nos mantém vivos, sempre em busca de alguma coisa? pois eu sou grata por todas as minhas incertezas), de frustrações (que me ensinam a ter paciência, que é o que a felicidade exige)… Tenho uma vida preenchida, de tempo e de propósito.

Já em casa, tomei um banho longo e quente e fiz uma xícara de chá de morango. E aí, claro, abri o Cecil pra estudar o caso clínico. Feliz, porém!

o vento

Faz um dia maravilhoso: um sol lindo, um céu quase sem nuvens e, o meu favorito de todos, o vento quase constante e fresquinho. Adoro vento. Um dia de ventos é, pra mim, um dia feliz. Quase nada é capaz de tirar minha felicidade num dia em que venta.

Portanto, embora tenha de ficar em reclusão em casa estudando, abri todas as portas e janelas e prendi a cortina: pra deixar o vento entrar. Nem a prova iminente de cirurgia pediátrica e neonatologia é capaz de arrancar minha felicidade hoje.

E estudar feliz é mais produtivo, afinal.

sobre como tenho visto a felicidade

De minha parte vejo que é justamente a busca incessante e teimosa por uma felicidade gigantesca, plena e sublime que faz as pessoas infelizes. É muito difícil atingir tamanha expectativa, e então se torna, por outro lado, muito fácil se frustrar com tudo. Isso porque a vida diária não é em si, na verdade, tão cheia de grandes emoções que nos proporcionem tanta euforia o tempo todo.

Buscar a felicidade como a um prêmio, troféu ou qualquer coisa assim é frustrante. A felicidade não é um algo palpável, constante e definido.

A verdade, e é o que percebo e vivo agora, é que a vida acontece enquanto a gente se distrai… E é quando se distrai que a gente é mais feliz.

Sempre que penso nos momentos de maior felicidade da minha vida, percebo que nenhum deles foi construído apenas por mim num contexto de busca ou prêmio. Os maiores momentos de felicidade da minha vida se deram quase sem que eu percebesse. Como aquele dia na praia, quando eu era criança, eu que eu mal acreditava que o mar estava na minha frente, e saí correndo para a água, e fiquei pulando ondas tão completamente eufórica…

e distraída!

notícias sobre o retorno da aulas

É engraçado como depois de dois dias em BC, a impressão é de nunca ter saído e de nunca ter interrompido a rotina que tenho lá.

Os dois primeiros dias de aula foram bons; por enquanto, estou contente com a qualidade das aulas e gostando da matéria (vocês devem imaginar o quanto isso é bom depois do tanto que odiei algumas matérias do semestre passado). E também por enquanto as coisas estão tranquilas. Sabem como é, aulas iniciais de introdução à matéria, pouca coisa a estudar em casa.

Ontem a tarde, por exemplo, saí cedo da aula e fui à praia.Fomos eu, duas latinhas de cerveja num isopor, uma cadeira de praia e meu Machado de Assis. Foi um momento mágico sorver golinhos gelados de cerveja sentindo o ventão na cara, ouvindo o barulho das ondas e viajando no pensamento bonito de Machado.

A vida pode ser boa!

coisas que me trazem paz

– Sorriso de criança;

– Gargalhada de criança;

– Criança que, quando está aprendendo a andar, cai com as duas mãozinhas no chão, logo levanta, limpa as mãozinhas na roupa e continua caminhando;

– Criança com cotovelo gordinho que tem um furinho;

– Criança pulando ondas (e engolindo água, e sorrindo mesmo assim);

– Criança com o cabelo cheio de areia;

– Criança com a cara cheia de areia!;

– Criança enchendo as mãozinhas de areia e jogando no mar;

– Criança tomando sorvete com carinha de concentrada, enquanto ele escorre pelo cotovelo, pinga no peito, lambuza o rosto inteiro;

– Criança correndo atrás de bola;

– Criança me chamando de “tia Paulinha”;

– Criança suja depois de uma tarde inteira brincando;

– Criança com o nariz escorrendo e com a língua espichada pra cima, tentando lamber (ai, me deixa, eu acho engraçadinho, hahahahahahaha);

-Criança entretida com um brinquedo novo que ela ainda não sabe usar;

– Criança querendo te mostrar alguma coisa que ela fez ou achou, com o bracinho esticado e os olhinhos brilhantes;

– Criança dançando;

– Criança batendo palma;

– Criança cantando;

etc.

da minha felicidade

Hoje a noite eu saí pra jantar fora. Sozinha. Pedi um caldinho de camarão e um chope. Sentei na mesa à beira da calçada, pra poder ficar olhando o mar (eu gosto).

Muita gente passou, me olhou e depois de alguns passos virou pra olhar de novo (sabe?). Todo tipo de pessoas, homens, mulheres, uns mais pirralhinhos e outros mais velhinhos. Pelo que concluo que é meio incomum alguém como eu sentar sozinha num restaurante quase vazio pra tomar chope e comer caldinho de camarão (sei lá como é “alguém como eu”, mas deve ser incomum nessa situação, já que todo mundo estranhou). Eu me sentia, no entanto, completamente realizada, naquele momento. Aquilo era tudo o que eu precisava para ser feliz numa véspera de feriado.

Eu andava meio inquieta e angustiada e voltei me sentindo um pouco mais em paz. Tive longas conversas comigo mesma, e foram interessantes e necessárias.

E, é claro, eu passei uma hora inteirinha observando o mar. Morar na praia é uma delícia. Agora vou dormir ouvindo o barulhinho de chuva.