uma lição de empatia – no ônibus

O ônibus chegou, vazio. O ponto de ônibus, no entanto, estava lotado; nós, os passageiros, no amontoamos na porta, para passar pela catraca. O cobrador, pacientemente, utilizava o sistema da empresa para imprimir e entregar as passagens de cada um. O processo, no entanto, era super lento, e o ônibus ficou um tempão parado esperando as pessoas conseguirem entrar.

Nisso, um dos passageiros pergunta ao cobrador:

– Quem foi que colocou esse negócio aí?

– Ah, a empresa…

– Mas eles explicaram o porquê de fazer desse jeito? Se demora tanto e dá tanto trabalho?

– Não falaram, não.

– Hum. Deve ser por que não pegam ônibus!

 

Eis uma verdade natural: a única forma de entender completamente uma situação é passando por ela. Ouvir relatos não é o suficiente; apenas estando na pele de quem passa. Por isso jamais seremos conhecedores absolutos da vida e do universo:pois estamos presos ao corpo e ao contexto nos quais nascemos. E, por isso, pode-se adquirir maturidade emocional com a experiência: pois quanto mais vivemos (reparem que eu disse mais, e não por maior tempo), com mais situações diferentes e mais contextos nós entramos em contato.

Há, no entanto, uma interessante forma de ter alguma ideia do que é passar por uma determinada situação: tendo sensibilidade e… Amando!

Explico: não acontece que, quando amamos alguém, somos mais sensíveis à sua dor? O amor tem o poder de nos aproximar de uma realidade que não é a nossa. Às vezes, como até nosso amor é imperfeito, nem tendo alguém que se ama por perto pra enxergar; por isso incluo a sensibilidade e o olhar atento. Quando amamos alguém que sofre, por alguma razão, a situação não é nossa, mas nos é próxima. Ah, se todo branco amasse um negro! Ah, se toda família tivesse um homossexual! Ah, se todo homem visse alguma das mulheres que ama passando medo ou vergonha por causa de uma cantada na rua, ou sendo vítima de algum abuso! E se, os tendo por perto, dedicassem empatia, ouvidos, esforço, estudo e dedicação para promover mudança…

A informação muda o mundo.

O amor muda o mundo.

Mas, sozinhos, nenhum dos dois muda nada!

da justiça

Ultimamente, tenho ouvido falar muito dessa tal de “justiça”.

Até entendo a voracidade com a qual as pessoas buscam por justiça (mas só quando é vantagem pra elas). Seres humanos tem gigantesca dificuldade em lidar com sofrimento e dor, e uma das formas mais automáticas de lidar é descarregando em cima de alguém. E acreditar que, tendo esse alguém recebido punição, o sofrimento vai passar (não vai).

Acontece, porém, que o mundo não é, nunca foi, não vai ser tornar justo. E é inviável que se torne, já que seres humanos são criaturas mentirosas, egoístas e bem espertinhas. Não é fácil ser justo. Quero ver você conseguir, se tentar! Tente fazer com que o que você pensa dos outros seja compatível com a realidade todas as vezes. Quero só ver.

 

Nessa nossa fome por justiça, saímos falando um monte de absurdos dos quais nem nos damos conta. Tipo desejar pena de morte com tortura para bandidos. Eu não defendo bandidos, veja bem. Mas torturar e matar uma pessoa é crime. Logo, entrando neste ciclo, todos seríamos, a bem da verdade um monte de bandidos. E não acertaremos o veredicto todas as vezes, então é certo que mataremos e torturaremos inocentes.

Além disso, se o mundo fosse justo, a sociedade de classe média e alta sofreria um bocado, pois teria de pagar pelo que faz às classes baixas. Querem falar de justiça? Falemos de justiça. Devolva tudo o que você sonegou de impostos, então, seu bandido miserável. Pague por todas as vezes em que enganou alguém pra se safar ou ganhar dinheiro. Criemos nosso filhos sob as mesmas condições, tanto classes altas quanto baixas, para que nenhum tenha vantagem sobre o outro nessa nossa amada meritocracia. Todos em escolas públicas, uniformizados, comendo a mesma comida e tendo o mesmo tipo de lazer. Não é assim que tem que ser? Não seria esse o justo?

Ah, sim. Mas é que, quando a justiça dificulta a nossa vida, aí não a queremos.

 

Não existe justiça. Justiça é uma ilusão.

Parece que não nos tornamos muito menos selvagens conforme a evolução da espécie.

 

Não tô dizendo que devemos largar todas as leis e nos conformar com o fato de que as coisas acontecem de forma errada.  Não. Mas temos de ser coerentes e um pouco menos irracionais. Temos de aprender a lidar melhor com contextos, e entender que o contexto social de alguém não é assim tão simples, que se compreenda em 5 minutos de leitura de jornal (com informações falsas).

A sociedade já condenou muita gente inocente nessa vida. Você pode estar fazendo parte disso. Então, cuidado com todo esse teu ódio. Ele pode estar sendo tão cruel e injusto quanto o que você acredita que foi a pessoa que chama de “marginal”.

de “à espera de um milagre” e minhas reflexões a respeito

A vida tem gosto de injustiça. Esse é o primeiro ponto.

Muita gente, no entanto, vive sem se dar conta disso. E então, quando algo acontece a elas, ficam revoltadíssimas.

Certa vez, fui assaltada num ponto de ônibus em Itajaí, pela manhã, indo para a faculdade. O cara pediu meu celular e o mp4 que eu ouvia.  Eu os entreguei, meio resistente, e fiquei surpresa ao perceber que ninguém, dentre as tantas pessoas que estavam ao redor, tentou me ajudar. As pessoas vivem apavoradas.

Nos momentos seguintes ao assalto, depois de tomadas as providências básicas – encontrar um telefone público e informar às pessoas mais próximas que eu estava sem celular, sentar para tomar uma água e me acalmar, B.O. – eu fui à aula. Lá os comentários foram diversos;  tive de ouvir de uns que deveria ter reagido, que não deveria ter entregado; de outros, que aquilo era mesmo um absurdo; que eu fiz certo, e ainda bem que ele não levou mais coisas, etc. As pessoas deram seus julgamentos, a mim e ao assaltante, de acordo com seus valores.

Fiquei refletindo longamente sobre o episódio. Nos momentos seguintes ao assalto fui tomada de uma gigantesca raiva. Sentimos raiva quando acreditamos que algum acontecido vai contra o que julgamos como “certo”, não é? E aquilo não estava certo. Depois, no entanto, concluí: eu voltei à minha vida normalmente. Fui à aula logo em seguida; logo providenciei um celular substituto e, pouco depois, ganhei de aniversário um novo; e cá estou, ainda cursando medicina, vivendo minha vida sem nem mesmo lembrar que tudo isso aconteceu.

E o rapaz, onde está? Ele ultrapassou minha “bolha”; fez com que eu entrasse em contato com a realidade dele. A realidade dele é essa: que ele provavelmente não saiu do crime por que não sabe como. Provavelmente usuário de drogas, vive sua vida em função de consegui-las. Eu vivo minha vidinha tranquila como se essas coisas não existissem.

Quando me dei conta disso a raiva passou, pois não havia mais como sentir raiva de um rapaz que é, na verdade, vítima de um sistema do qual eu não apenas faço parte, mas para o qual eu contribuo. Não faço tudo “certinho”, como me ensinaram a fazer? Não me acabo estudando pra poder me acabar trabalhando depois?

É. Faço tudo bem bonitinho, conforme me ensinaram, e aí não dá tempo de ser sensitiva o suficiente para atentar os olhos, os ouvidos e a mente para quem ficou às margens desse tal sistema. Estou sempre ocupada demais para poder fazer muita coisa. Vez ou outra tiro um tempo para isso – geralmente nas férias – mas que resultados reais, será, estou obtendo? Não muitos por enquanto, provavelmente.

Por outro lado, também, a ignorância é um mecanismo de defesa.

Os sensitivos, os envolvidos, sofrem. Não há como não sofrer. Algumas pessoas tem equilíbrio emocional para lidar com o sofrimento, outras não tanto e, aí, tenho de dizer sinceramente ainda não compreendo bem por que isso acontece.

E esse é o grande segundo ponto deste filme: não há como não sofrer quando você sabe. Quando você conhece a capacidade que o ser humano tem de ser cruel, por diversas razões – e alguns por razão nenhuma, talvez.

Eu sofri quando comecei a ouvir as histórias, e ainda sofro. O primeiro bebê abrigado com quem fiquei no hospital – um de meus primeiros contatos com a vida real – era filho de uma drogadita e chorava absurdamente. Nunca vou esquecer aquele choro, claramente desesperado. Ele foi a óbito alguns dias depois, e fui ao enterro (longe de me fazer desistir, isso só me fez ter mais vontade pelo trabalho social). Naquele dia, no carro, ao voltar de lá, eu escrevi: “Como pode, numa manhã tão linda quanto essa? Mas foi melhor Deus ter levado aquele anjinho pra junto de si. Faz-me parar pra pensar na sorte que tenho de ser quem sou. Aquela criança era de muitos e não era de ninguém. Tinha a muitos, mas não tinha ninguém.”

Eu estava começando a entender… Que muita gente indefesa não tem ninguém. É dever do Estado protegê-las, mas até onde o Estado consegue ir? Muitas vezes depois disso, eu chorei. Li o ECA, vi o quanto era bonito em teoria mas o quanto, na verdade, tudo aquilo parecia vazio.

Com o tempo, começou um fenômeno engraçado: dei-me conta de que apesar do sofrimento, muitas crianças conseguiam mudar o rumo de suas histórias; conheci a superação, e vi que, pra ser tão fantástica, ela tinha de vir acompanhada de sofrimento. E ela brotava nas pessoas das formas mais inimagináveis!

E então veio o tempo em que percebi que não precisava ir tão longe para conhecer o sofrimento (a periferia, os abrigos, as instituições); que ele cercava gente com quem eu convivia diariamente e, de uma forma absurda, as pessoas simplesmente não o viam – seria negação, mais uma vez, como mecanismo de defesa? Era.

Reiniciou a fase da revolta: as pessoas fecham os olhos! Elas não querem ver e, então, não veem mesmo. E aí, o que fazem? Elas julgam. Não veem, por exemplo, que as pessoas que se excluem nos meio sociais (como numa sala de aula) não o fazem por que querem ser assim, mas geralmente por terem histórias de sofrimento. Mas as pessoas não querem ver. Então elas julgam, inventam histórias para justificar seus julgamentos, e continuam excluindo e fazendo sofrer.

E aí o fantástico: geralmente as pessoas que também já sofreram se tornam sensitivas para aquele e outros modos de sofrimento, trazendo a ele algum significado, ajudando outras pessoas a encontrarem a superação, compreendendo, enxergando, sentindo junto.

E o ciclo está completo! Exatamente como nosso sistema social moldou.

Entendem? Nós também somos culpados.

Mas estamos sempre à espera de milagres; de que as mudanças aconteçam sozinhas, só por acontecer. Estamos sempre reclamando e esperando que a vida nos carregue para onde achamos que as coisas deveriam estar. E, como adoramos opinar, estamos sempre dizendo nossas frases de efeito (como aquela “Direitos humanos para Humanos direitos” – mas quem são os humanos direitos?!), pouco fazendo realmente para que as mudanças venham. E justificamos nossa falta de atitude com julgamentos a respeito de uma realidade que não conhecemos.

Hoje em dia lido melhor com tudo isso. A revolta e a raiva  passaram justamente por que eu finalmente compreendi que o ciclo  sempre se completa, e somos simplesmente envolvidos pelo sistema, sem nos dar conta – então, não se pode exigir muito das pessoas. Simplesmente tive de me conformar de que a vida é assim. E que o pouco que eu puder fazer já é tão melhor do que nada, que vamos lá, não é? Meio no sistema meio fora dele, meio cambaleando, meio fazendo o que dá. Nós seguimos e aprendemos a ser felizes apesar de conhecer o sofrimento, por que afinal quando em sofrimento não conseguimos ajudar. Foi isso que fiz: aprendi a ser feliz por que eu preciso ser feliz pra cumprir meu propósito; e tenho motivos de sobra que me tornam feliz. Se tudo “der certo”, um dia poderei viver exclusivamente pra isso, e tenho de me preparar pra lidar com o sofrimento ainda mais de perto, então é melhor solidificar essas razões. Eu faço como o Jonh – que sorriu ao ver o céu estrelado; depois juntou um punhado de folhas do chão e cheirou, maravilhado. Tão sensitivo!

Por isso acredito que esse filme é uma metáfora fantástica do que a vida é. E a genialidade dele está contida justamente no fato de que ele ressalta a realidade utilizando do fantasioso, da fé. E por mostrar tantas faces do julgamento, do sofrimento, da realidade, e de como estão tão misturados! Com certeza esse se tornou meu filme favorito.

 

cultura, segundo o michaelis

cul.tu.ra
sf (lat cultura1 Ação, efeito, arte ou maneira de cultivar a terra ou certas plantas. 2 Terreno cultivado. Biol Propagação de microrganismos ou cultivação de tecido vivo em um meio nutritivo preparado. Biol Produto de tal cultivação. 5Biol O meio junto com o material cultivado. 6 Utilização industrial de certas produções naturais. 7 Aplicação do espírito a uma coisa; estudo. Desenvolvimento que, por cuidados assíduos, se dá às faculdades naturais. Desenvolvimento intelectual. 10 Adiantamento, civilização. 11 Apuro, esmero, elegância. 12 V culteranismo. 13 Sociol Sistema de ideias, conhecimentos, técnicas e artefatos, de padrões de comportamento e atitudes que caracteriza uma determinada sociedade. 14 Antrop Estado ou estágio do desenvolvimento cultural de um povo ou período, caracterizado pelo conjunto das obras, instalações e objetos criados pelo homem desse povo ou período; conteúdo social.15 Arqueol Conjunto de remanescentes recorrentes, como artefatos, tipos de casas, métodos de sepultamento e outros testemunhos de um modo de vida que diferenciam um grupo de sítios arqueológicos. C. alternativa, Agr: a que se faz alternando. C. esgotante: a que esteriliza ou depaupera o solo. C. física:desenvolvimento metódico do organismo humano por meio da ginástica e dos desportos. C. extensiva: a que explora a riqueza do solo sem cuidar da conservação deste, precisando, assim, de amplos territórios. C. geral: a constituída de conhecimentos básicos indispensáveis para o entendimento de qualquer ramo do saber humano. C. intensiva: a que acumula o trabalho e o capital num terreno relativamente pequeno, conservando-lhe a fertilidade.

Na verdade, a parte que me interessa nesta discussão está a partir do item 7.

Como tantas palavras, deve ser interpretada a partir do contexto na qual está inserida. E o que quero discutir é o que dizem muitos brasileiros: “esse país não tem cultura”.

Bem. Como dito nesta definição, a cultura pode estar inserida num contexto individual – e pode dizer respeito ao desenvolvimento intelectual, elegância, aos estudos, essa coisa toda. Daí falarmos em pessoas cultas, ou culturalmente ricas. E até aí, tudo bem. Mas temos de ter cuidado quando falamos da cultura num contexto social. Por que aí, ela não está relacionada ao nosso gosto individual, ao nosso próprio desenvolvimento intelectual. E, portanto, não podemos dizer que povo algum “não tem cultura”. Afinal: “conjunto das obras, instalações e objetos criados pelo homem desse povo ou período; conteúdo social”. As obras, criações, objetos e instalações estão aí, quer você goste delas ou não, quer concorde ou não, quer queira modificá-la ou não.

Dei-me conta, recentemente, de que minha cultura não é brasileira. Minha cultura, minha, da Paula, foi influenciada pela minha família, de descendência alemã e suíça. É por isso que, quando aos 7, coloquei na cabeça que queria tocar violino, fui incentivada. E passei a ganhar dos pais e avós CDs e mais CDs de música clássica. E é por isso que eu ouço o que? Músicos clássicos alemães. Mérito meu? Mas nem de longe! Herança cultural de um povo. Se eu tivesse tido outra “sorte” (por falta de palavra melhor como, sei lá, destino) e tivesse nascido numa favela no Rio de Janeiro, minha herança cultural seria outra e, por sinal, muito mais brasileira: funk. Menos cultural? Não mesmo! O funk é uma manifestação cultural rica, sim; ali está o conteúdo social de um povo. Merece tanto valor e atenção quanto Bach. De execução musical mais simples, talvez? É, pode ser. Mas o que está em discussão não é, afinal de contas, o contexto social?

Que graça tem dançar Bach, minha gente?! Baile tocando Bach? Não, não.

Então ó, vou dizer uma coisa: de se divertir, funkeiros entendem mais! Não tem mais ou menos valor. A manifestação cultural apenas está em outro foco; não são comparáveis, nem equivalentes. Existe prazer em dançar até o chão e existe prazer em apreciar uma peça, um concerto. E que cada um seja feliz como melhor lhe aprouver, ou mesmo de todas as formas possíveis!

ps: ainda estou no início dos estudos a respeito dessa coisa de manifestação cultural. e é um assunto bastaaaaante complexo. caso queiram me corrigir ou acrescentar, fiquem à vontade, por favor.

ps2: usei esse exemplo, por que era o que contrastava quando conversava com as pessoas sobre meu gosto musical. mas poderia ter usado qualquer outro, na verdade. e claro, não estou dizendo que necessariamente uma pessoa da favela vá gostar só de funk, nem que a cultura brasileira se resume a isso, etc.

da cultura

Não tinha prometido que ia ler sobre pra desmanchar meus preconceitos? Pois então. No meio da busca, eis que surge esse texto excelente. Então é isso, nunca, nunca mais vou proferir as barbaridades preconceituosas e ignorantes que eu costumava dizer a respeito de – só pra dar um exemplo dentre vários – funk.

 

“Dizer que produção de cultura vai do luxo ao lixo é de uma desonestidade intelectual sem tamanho. (…) Hierarquizar a cultura só prejudica. Essa hierarquia construída ao longo de séculos e baseada em um gosto de classe muito bem definido, no qual apenas o que elites definem o que é cultura e o que não é – ou, nas suas palavras, o que é ‘luxo’ e o que é ‘lixo’ – precisa ser COMBATIDA. Creio que a academia é SIM uma das trincheiras na luta pela desconstrução desse pensamento elitista, preconceituoso e, para não ser maldosa, desonesto.”

Completo em:

http://marivedder.wordpress.com/2013/04/21/carta-resposta-a-rachel-sheherazade/

 

Afinal, que arrogância a minha querer dizer ao mundo o que é culturalmente válido (ou o que é o “luxo”) e o que não é! Oras!

Dói um pouco admitir, mas fui maldosa e elitista. Droga! Desculpa, mundo.