sobre ser médica do consultório na rua

Encontrei o emprego dos meus sonhos. Tô nisso há uma semana, mas não quero nunca mais fazer outra coisa. É tão incrível! Não tem rotina. Tem ligação com os pacientes, tem tempo para os pacientes, tem atender os pacientes no seu ambiente. Tem viver fora da caixinha. Tem atenção integral à saúde. Tem equipe maravilhosa atuando junta, de verdade. Tem aprendizado diário com histórias de vida “fora do padrão”.

 

Tô realizada.

 

 

as três fases do (meu?) entendimento

1) A ignorância:

Na ignorância, você não percebe uma porção de coisas sobre o mundo ao seu redor. Quase todo mundo vive essa fase em algum momento da vida, nem que seja ao longo da infância. Há quem diga que “a ignorância é uma benção”, já que muitos ignorantes vivem num estado de contentamento leve e bobo. Como não percebem que a vida é uma bosta, pensam que a vida é linda. Tocam suas vidas sem sair da bolha, fazem comentários vazios e sem embasamento, não conseguem enxergar a um palmo de distância deles mesmos. A ignorância resulta do egocentrismo, afinal, quando o que importa é o mundo ao meu redor, eu não saio do lugar pra procurar por mais. Se me contento com o que tenho, pouco importa o resto.

Mas, calma, isso não é uma crítica. Como disse, todo ser humano vive sua fase de narcisismo, nem que seja na infância. E, claro, há pessoas com acesso realmente limitado à informação, e que não vive na ignorância por egoísmo.

 

2) A indignação:

Em algum momento da vida, você se dá conta de dois fatos que mudam tudo:

– Existe mais no mundo do que o que você conheceu até o momento;

– A vida não está tão boa assim pra você, que foi colocado numa caixinha apertada cheia de expectativas; e muito menos está para pessoas que tem ainda menos recursos que os que você tem.

Triste fase. Quando começa a conhecer o mundo, é impossível não ficar muito indignado e muito puto. Quando conhece situações sociais precárias, quando começa a estudar os movimentos políticos, quando começa a estudar história por interesse, e não por te obrigarem na escola (e com senso crítico, aliás), quando começa a lidar com movimentos sociais (feminismo, movimento LGBT, por exemplo), e as vendas que te colocam nos nossos olhos desde sempre começam a cair… Dá raiva do que te fizeram. Dá raiva de não ter compreendido antes. Dá raiva, também, de quem continua oprimindo, julgando, vivendo dentro da caixinha. Você se dá conta de que muita gente vive na ignorância, e que a ignorância dos seres humanos faz com que mutuamente se prejudiquem, firam, e que julguem uns aos outros injustamente.

Você se dá conta de que, se o mundo é uma bosta, em grande parte ele é uma bosta por causa da ignorância das pessoas que vivem nele.

É uma fase triste, essa. Você também se sente sozinho em suas causas, já que ninguém mais parece se importar. Você ensaia gritar e se revoltar, você discorda do que todo mundo diz, fica irritado com o senso comum e os argumentos vazios… Mas, infelizmente, na maior parte das vezes você não será entendido ou mesmo levado à sério. Sendo mulher, corre-se ainda o risco de ser chamada de pitizenta, mimimi ou “feminazi” (isso aí – comparam a importância que você dá aos seus iguais e o seu amor a uma causa ao nazismo).

 

3) O lúdico:

Com o tempo, você se conforma. Compreende que, infelizmente, as pessoas não são mesmo ensinadas a raciocinar. Não se pode culpá-las inteiramente por isso. Embora ainda se irrite vez ou outra, que ninguém tem sangue de barata, e embora continue a se manifestar, muitos dos comentários ignorantes que antes te irritavam tornam-se bastante lúdicos. Você ri, que é o que tem. Também começa a aprender quando vale a pena entrar numa discussão e quando não.

Já habituado aos comentários a seu respeito (pois, se você realmente viveu a coisa toda, a essa altura já foi tachado de chato por uma porção de gente) você deixa de perder tempo se preocupando com o que vão pensar de você – e continua investindo seu tempo em viver ativamente e a cada momento sua militância. Até porque, agora, também já entendeu que simplesmente não importa. Seu pessoal passa a ser o seu político. O que importa é que você se sinta livre.

Você percebe que consegue mudar algo da realidade ao seu redor. Que algumas pessoas também compreendem, também passam a se sentir livres, também vivem o processo todo – e essa é uma sensação ótima, a de transformar.

E, nessa linda fase lúdica, você cresce e se sente ainda mais livre. Pois somente a informação liberta. Você compreende que tem um universo de possibilidades. Você aprende a pensar fora da caixinha. Você se torna sedento por conhecer, ler, entender, estudar. Agora, pensar de forma crítica e buscar informações confiáveis antes de julgar torna-se quase um hábito. Você aprende sobre paciência, tolerância e amor. Você se torna muitíssimo aberto a novas opiniões, especialmente quando nota que são bem embasadas. Discussões construtivas, reflexivas e não agressivas se tornam um grande prazer.

 

Você descobre um novo jeito de ser feliz e de ver leveza na vida. Você passa a discordar de quem diz que a ignorância é uma benção – ainda que os entenda…

O mundo é grande e é fascinante!

as senhorinhas do meu dia

manhã

Paciente em tratamento pra câncer de mama há 2 anos. Interna pra tratamento sintomático dos efeitos colaterais de mais uma quimioterapia (ela já fez diversas). Cabelos ralos, miúda e simpática. Fico preocupada que ela ainda esteja passando dor, mas ela tem surpreendente serenidade no rosto, mesmo quando fala dos sintomas – diarreia e fortes dores abdominais, contínuas, já há mais de uma semana. Antes de deixarmos o quarto, ela agradece a atenção várias vezes. Tenho súbita vontade de abraçá-la, de tão querida.

 

tarde

Paciente com lesão de pele; veio para fazer uma biópsia.

Como ela sentiu muita dor na aplicação da anestesia, segurei a mão dela durante o resto da biópsia. Ela olhava pra mim, apertava minha mão, dizia alguma coisa e… Ria!

Eu ria junto.

Ao fim, a enfermeira ajudou a colocá-la na cadeira de rodas; ela puxou a enfermeira, agradeceu e lhe tacou um beijo no rosto. Depois disso, olhando pra mim, esticou as duas mãos na minha direção. Quem resiste, né? Aproximando-me dela, ganhei também um beijo, um abraço e um “Deus te abençoe, menina. Obrigada”.

 

o que elas tem em comum

Fizeram-me pensar “foda-se se eu sofro junto quando eles sofrem… a proximidade emocional aos pacientes vale muito a pena!”

da sensibilidade, outra vez

Sou uma pessoa sensível.

Essa é uma constatação bem óbvia pra quem me conhece. Deixo-me afetar facilmente por seres humanos e suas situações, pelo mundo e seus acontecimentos. Como todas as características, essas tem vantagens e desvantagens, e tem de ser trabalhada para que se possa tirar proveito dela.

 

A medicina é um campo difícil nesse sentido, e eu vivo nesse drama. O mais fácil seria me afastar emocionalmente dos pacientes, pois convivo diariamente, cerca de 12 horas por dia, com sofrimento. E convivo de perto.

Por outro lado, não quero me afastar completamente; quero ter empatia. Acho que isso ajuda o paciente, tanto pela confiança que depositará em mim se sentir que eu o compreendo, quanto pelo valor terapêutico que existe em ser ouvido e compreendido. E saber que sou útil me trás uma sensação gigantesca de estar cumprindo meu propósito, de realização – enfim, me faz feliz.

 

Ainda não consegui encontrar equilíbrio suficiente entre o distanciamento que preciso pra poder “sobreviver” e a proximidade que preciso para ajudar e ser feliz.

Eu tento doar o máximo de mim sempre, mas… Isso cansa! É tão desgastante, que me sinto exausta. E então, por mais que esteja feliz, o cansaço me vence. Acabo me sentindo sozinha e sobrecarregada, levando sobre os ombros um peso enorme. Sem falar que, toda vez que contemplo um caso muito complicado (e sempre há casos complicados), a sensação de impotência me derruba.

 

Além disso, as pessoas com as quais convivo fora da medicina tem vivências tão diferentes! E, embora eu tenha essa enorme necessidade de falar, sempre, sobre tudo o que vivi com cada paciente, eu me tornaria uma chata falando da minha rotina na medicina o tempo todo. E essa percepção só faz aumentar o sentimento de solidão e o vazio – dentro do hospital uma vida, outra completamente diferente fora dele. É tão difícil separar as duas coisas! É tão difícil sair do hospital sem repassar mentalmente cada paciente com o qual me envolvi! Como impor um limite?

 

Eu vivo tendo brigas internas, e essa não é uma briga fácil. Preciso encontrar um limite, porque tem sido desgastante. Sensibilidade e empatia podem ser coisas muito bonitas, mas também é muito destrutivo eu deixar isso tomar conta da minha vida. Assim, não vou conseguir ajudar ninguém. Só vou me sentir cada vez mais cansada e frustrada.

 

Tão difícil…

queria saber o que escrever pra arrancar isso de mim, mas tá difícil

Tá chovendo, e

(subitamente fiquei decepcionada comigo mesma, por me permitir cair nessa… de me deixar abater e mau-humorar desse jeito. não consigo entender a razão pela qual deixamos de nos encantar pela vida, de verdade. quer dizer: entendo, mas acho que somos estúpidos nesse sentido. parece que involuímos em algumas coisas à medida em que crescemos… olhe para as crianças. olhe como sorriem com frequência. olhe como são espertas em usar seu tempo em coisas deliciosas e como comemoram suas descobertas! aí eu resolvi abrir a janela, e entrou o vento fresco e úmido pós-chuva e, então, de repente, percebi-me muito emotiva. ando emotiva por esses dias. emotiva por dentro, só pra mim, no caso. a gente cria uma casca pra viver e não mostra nem fala muito disso pros outros – que merda. queria que não fosse tão difícil. queria conseguir limpar minha mente, extinguir de dentro de mim essa angústia pequenininha porém incômoda, esse estresse e esse cansaço, e essa irritação com o fato de a vida não ser nem um pouco justa, e viver em absoluta sensação de paz e tranquilidade. eu sei que é um exercício diário e que dá certo trabalho. exige concentração, autocontrole, diversos momentos de autoterapia. mas não consigo deixar de acreditar que possa ser possível alcançar um estado quase pleno de amor, felicidade e tranquilidade… pode dizer que estou sendo utópica. pode dizer que estou tentando negar minha humanidade. ah, talvez seja algo assim, mesmo, que sou eu pra estar certa? mas eu passei por umas fases na vida nas quais aprendi que se pode sofrer em paz, e cara, como eu queria conseguir sempre sofrer em paz, estar cansada em paz, estar atarefada em paz. encontrar algum canto dentro de mim que se proteja dos fatores externos. um pedacinho intocável de paula. uma porção forte, segura e autoconfiante o suficiente. um pedacinho que não perca a capacidade de ver com olhos diferentes, de perceber, de captar. de lembrar que: os dias nunca são iguais; as pessoas nunca são iguais de um dia para outro; a vida é recheada de tantos fatores, que é impossível que eles todos se cruzem mais de uma vez, possibilitando situações idênticas mais de uma vez; que tudo nessa vida pode ser aprendizado, que tudo pode ser evolução. ah, queria poder me livrar dessas amarras tolas! permitir ser livre. não viver sentindo que o tempo todo estou sendo ‘obrigada a’. que tudo fossem minhas escolhas, feitas com o amor que merecem. talvez eu pareça uma boba escrevendo e pensando desse jeito, mas, talvez, também, sejamos bobos em não nos esforçamos pensando nisso. a gente cai na armadilha! deixa que outros tomem os rumos pela gente. outros fatores, outras pessoas, outras situações. a cada minuto, permitimos que nossa vida seja dominada pela enorme carga de ansiedade, irritabilidade, obrigação, seriedade e chatice que jogam sobre nossos ombros. será que estou mesmo tão presa quanto imagino? será que, talvez, não seja uma questão de apenas mudar a forma de enxergar as coisas? a rotina? e, quando mudar o jeito de encarar não funciona, será que não nos falta coragem pra tentar agir sobre os fatores externos? e, quando não podemos agir sobre fatores externos, será que não nos falta capacidade de aceitação, resiliência, percepção de que até o desagradável é crescimento – ou, pensando melhor, o desagradável proporciona mais crescimento ainda? caímos nessa, de torcer para que os dias passem rapidamente. vivemos esperando. a espera gera expectativas. as expectativas se transformam em frustrações. as frustrações nos tornam ainda mais amargos e prolongam a espera. vivemos com a cabeça cheia de mil coisas. pensamentos borbulham, transbordam, nos deixam malucos. as nossas suposições todas. nossas especulações, quase sempre tão erradas. mas acho que hoje eu só precisava conseguir acalmar o meu coração o suficiente pra poder olhar pra fora e sentir prazer em ver a chuva cair outra vez…)

deixo com vocês a pequena kayden, tão mais esperta em ser feliz do que tenho sido essa semana

limite

Não tá nada fácil. E, pra variar, nada está correspondendo às minhas expectativas (eu não deveria ter me deixado contaminar por tanta confiança.. tenho de me lembrar de voltar a manter as expectativas baixas, muito baixas, no chão, praticamente).

Tive uma noite péssima: agitada, entremeada de pesadelos, entrecortada por momentos de acordar e sentir raiva de mim, da vida e do universo, e aí ter dificuldade em voltar a dormir. E, claro: a ansiedade. A maldita ansiedade.

Acordei, obviamente, cansada. Sentindo-me exausta. Física e emocionalmente exaurida, depois de três semanas vivendo nos limites da minha capacidade emocional e intelectual. Dando 100% em cada segundo de cada dia. E, mais uma vez, aqui me encontro, sozinha no quarto, tendo de lutar contra esse monte de sentimentos ruins, e torcendo pra que isso atrapalhe o menos possível nessa prova para a qual estudo há um mês. Por favor, meu Deus, me ajude a não deixar isso me atrapalhar. Sozinha não está dando certo.

 

Finalmente cedo às emoções e deixo as lágrimas escorrerem. O dia ainda vai ser longo e não me sinto preparada. Privação emocional e de sono, a pior prova da faculdade até agora e um plantão noturno logo em seguida, pra completar, que não vai me permitir descansar de tudo isso. Será mais um dia estressante seguido de uma noite estressante, e mais uma vez terei de arrancar Paula da onde não tem pra suprir as necessidades dos outros.

A chuva lá fora me deprime ainda mais e me faz ter vontade de esconder debaixo das cobertas e fingir que nada disso existe. Desistir. Chorar até que as lágrimas carreguem embora todo esse estoque de estresse, raiva, ansiedade, toda a carga emocional negativa com a qual eu tenho dificuldade de lidar.

Estou apavorada por não estar no estado de tranquilidade e equilíbrio emocional em que eu precisava estar pra essa prova. Eu estudei tanto, e agora corro o risco de deixar tudo cair por simplesmente não conseguir manter a calma.

 

Mas eu preciso encher minhas xícaras de café, varrer tudo o que sinto (outra vez) pra debaixo do tapete e estudar.

Os outros, mais uma vez. Os outros, sempre. E eu vou ficando pelo caminho

relatos de uma tarde feliz

O senhor caiu de moto e estava na sala de procedimentos aguardando uma sutura na perna e outra num dedo da mão.

O cirurgião me olhou, sorriu, e disse:

– Vou deixar meus acadêmicos fazerem.

Pegando a deixa, eu prontamente sorri também e respondi “Deixa que eu faço!” e corri a preparar o material.

Comecei pela perna. Tranquilo, uma sutura fácil. Fui conversando com o paciente e o cirurgião plantonista, e o clima era ameno. Terminei minha sutura e estava limpando as coisas para começar a próxima. Perguntei ao paciente se estava tudo bem, se tinha sido tranquilo.

– Essa foi a anestesia menos dolorida que eu já levei, respondeu ele, rindo.

O cirurgião entrou na sala e espiou a sutura:

– Ficou bom. Só não vou dizer que ficou ótimo por que, quem acha que está sempre ótimo nunca chega à excelência!

– Hahaha. Obrigada!

Chegou o momento de suturar o dedo. Permitam-me descrevê-lo: a ponta estava presa apenas por um pedacinho de pele, formando quase um capuz sobre o mesmo; a unha estava meio caindo; e não era um corte reto – estava com os bordos irregulares, como que mordidos.

Comecei a abrir o novo material.

– Vamos reconstruir esse dedo!, disse o cirurgião ao paciente.

Este respondeu com uma careta de dor.

Fiz a anestesia. Analisei e discuti com o cirurgião o que faríamos, por onde poderíamos começar. Formamos nossa estratégia.

Primeiro, eu arranquei fora a unha.

Depois, montei agulha, empunhei o porta-agulha e a pinça anatômica e dei o primeiro ponto.

– Você tem jeito pra isso, disse o cirurgião.

Sorri por fora, mas sorri muito mais por dentro. Como eu quero ter jeito pra isso! Eu adoro isso.

– Obrigada!

E enquanto eu fazia o segundo ponto, o paciente comentou:

– Essa menina vai ser uma ótima médica. Tem as mãos tão levinhas! Mãos de fada.

E eu agradecendo, sentindo aquele calor gostoso no peito de quando você faz algo que ama e recebe um feedback positivo.

(e isso que era só uma sutura!)

Terminei. O paciente deu uma olhada no novo dedo e disse, rindo:

– Paula Pitanguy!

Todos rimos.

Mais tarde, o cirurgião passou por mim no corredor, deu tapinhas nas minhas costas e comentou, rindo:

– Paulinha Pitanguy…

“Deus lhes ouça!”, pensei.

Que delícia é a vida nessas horas em que me sinto capaz

(talvez eu tenha que treinar meu empoderamento)

da vida, das férias, do que aprendi nesse semestre

Hoje  foi o último dia de atendimentos do semestre. Pra fechar, ambulatório de mastologia. Saí de lá, após atender duas pacientes com câncer de mama, refletindo sobre tudo o que passei e observei pessoas passarem esse semestre.

Eu aprendi muita coisa nesse início de internato. Minha desenvoltura no atendimento melhorou em 200%. A capacidade de conversar, preencher um prontuário e concentrar-me num raciocínio clínico (tudo ao mesmo tempo) cresceu consideravelmente, também. Ainda falta muito pra ser médica; a cada dia me dou mais conta de como sou ignorante. Mas isso é bom.

Também foi mais um semestre de aprender a lidar com o sofrimento. Há muito, muito sofrimento no mundo. Eu o vejo na medicina, vejo nos abrigos, vejo nas ruas. O sofrimento está ao nosso redor. Mas o que me impressiona muito é que, onde há grande sofrimento, geralmente também brota grande capacidade de superar e de sorrir apesar de. Pessoas que são verdadeiras lições de vida cruzaram meu caminho com frequência.

Nesse semestre, aprendi a dar notícias ruins. Aprendi a dizer “a equipe fez tudo o que podia, mas ele teve uma parada cardíaca e não resistiu”. Aprendi a dizer “a senhora tem um tumor na mama”. Aprendi a dizer “a doença voltou”. E, ao mesmo tempo, também aprendi a dizer “Eu entendo a sua irritação/frustração/tristeza”. Aprendi a observar as reações mantendo algum nível de serenidade e seriedade, numa tentativa de ser apoio (é muito difícil!). Tudo isso veio junto, no pacote. Só o que ainda está muito difícil aprender é me distanciar um pouco e não me emocionar ou envolver tanto com algumas histórias. Mas é difícil não se comover quando você diz pra’quela senhora que veio trazer um exame de acompanhamento que o câncer está de volta e ela responde:

– Não posso me deixar abater. Tenho que manter a cabeça erguida. Não adianta me desesperar. Vou ter paciência, como da outra vez.

Também me dei conta, ao longo do semestre, de quanta responsabilidade já tenho e do quanto posso fazer, mesmo sem ter um  CRM.

Por exemplo, no PS, quando aquela mulher  me puxou no corredor perguntando se eu sabia por que a mãe dela ainda estava ali se nada estava sendo feito por ela. Eu fui atrás da ficha, investiguei sua situação, examinei, passei ao médico e descobri que ela poderia ser liberada. Enquanto isso, conversava com a senhorinha (com sequelas de AVC) e a filha frequentemente. Na hora de liberá-la, ela balbuciava sons incompreensíveis. A filha traduziu, sorrindo:

– Ela está te agradecendo.

E aí a senhorinha esticou a mão e, me puxando pra perto, me beijou a bochecha. Eu retribuí o beijo e me afastei, segurando lágrimas.

Mas não foi um semestre só de histórias bonitas ou emocionantes.

Também foi um semestre de cometer erros. Em receitas aqui e ali, em lapsos na hora de passar casos. Em chegar em casa cansada e não ter vontade de estudar. Em deixar passar coisas importantes na anamnese e no exame físico. Foi um semestre de levar muita patada dos professores. Todas necessárias… Foi um semestre de me deparar com a minha ignorância e desesperar-me com ela. Queria saber tanto mais!

Além disso, alguns pacientes são muito difíceis. São desrespeitosos e grosseiros pois estão em situação de fragilidade; acabamos levando broncas por coisas pelas quais não somos nem um pouco culpados. Acabamos ouvindo um monte de coisas que temos de simplesmente engolir, já que não há nada que possamos fazer. Também foi um pouco frustrante essa sensação de impotência perante algumas situações, especialmente de ordem administrativa e/ou política.

Como vocês podem ver, a vida tem sido muito intensa.

E eu tenho na minha essa oportunidade incrível de conviver com todo tipo de gente em situações das mais inusitadas. Ainda bem que eu faço medicina. Que incrível isso é!

das bobagens, dos acontecimentos, do ‘o que as pessoas vão pensar’ e dos comentários alheios

Comecei a lidar mais com isso, particularmente nos últimos dois anos, pois antes eu basicamente aceitava as torturas que as pessoas me impunham. Retorcia-me numa tentativa de caber no que esperavam de mim. Criava mil teorias mirabolantes, entrando na pilha das pessoas.

 

Então eu aprendi que uma excelente resposta mental era:

– Olha, por mim, tanto faz. Tenho tanta coisa melhor de que me ocupar e gastar minha energia! Tantas coisas lindas e incríveis a fazer! Tantos projetos! Tanta coisa pra aprender! Há pessoas por aí precisando muito mais de mim, e é nelas que quero investir meu tempo…

 

 

Eu tinha esquecido dessa resposta nos últimos dias. Mas grudei ela na cabeça que é pra não esquecer nunca mais!

Os propósitos da minha vida estão muito acima de tudo isso.

de como a medicina tomou conta do meu final de semana

Sábado: angina, IAM, TEP, TVP, edema agudo de pulmão, pneumonia, úlcera gástrica, colelitíase, nefrolitíase, TCE, fraturas, pacientes e familiares reclamando, pacientes querendo ir embora, acompanhantes chorando enquanto pacientes sofriam e eu dizia “agora vai ficar tudo bem, ele já vai melhorar” enquanto abraçava, coloca soro, tira soro, recebe paciente, libera paciente, leva paciente psiquiátrico contido no leito pra fazer tomografia de crânio, passa sonda, jorra suco gástrico pela sonda, paciente bêbado quebrado vomitando a sala de sutura inteirinha, paciente acidentado com talho na testa, faço sutura, limpo rosto sujo de sangue… Ufa! Doze horas se passam.

Domingo: durmo por dez horas seguidas, acordo com preguiça, tomo um banho longo e quente, tomo café da manhã tranquilamente, assisto o jogo de vôlei da seleção, pego meu livro de semiologia, sento com meu computador no colo e começo a estudar o caso clínico de dislipidemia que vamos apresentar essa semana.

 

Eu? Tô felicíssima! A cada dia mais apaixonada pela profissão que escolhi.