de como a medicina de família é linda e a minha nova descoberta

Estava estudando o capitulo de Saúde Mental para a prova da semana que vem, quando encontro este trecho:

Neste exemplo de intervenção psicoterápica, feita aos moldes do “médico de família”, este utiliza a sua própria capacidade de perceber e de se identificar empaticamente, de forma a auxiliar na evolução de um período de luto normal, não acrescentando elementos potencialmente iatrogênicos, tanto biológicos (fármacos) quanto psicológicos (psicoterapia).

A paciente transfere para o médico suas antigas figuras protetoras: ele é como a mãe/pai que ouve e consola; o médico reage com sua própria bagagem de experiência humana e profissional, mantendo-se alerta ao papel de contratransferência nas suas ações e, dentro do possível, neutro (não condena, nem absolve; ouve e acolhe). Cabe ao médico, além dos procedimentos habituais (anamnese, exame físico e complementares), fazer um balanço dos recursos pessoais e familiares com que o paciente conta para lidar com a crise do impacto dela a partir da natureza e intensidade dos estressores envolvidos.

(Medicina Ambulatorial: Condutas de Ação Primária Baseadas em Evidências, de Bruce Duncan)

 

Uma das minhas grandes dificuldades quando me perguntam “e no que você quer se especializar?” é que eu gosto de tudo! Eu sou apaixonada por crianças e por psiquiatria, acho geriatria o máximo e me divirto atendendo idosos, adoro atender gestantes e puérperas, amo fazer visitas domiciliares e conhecer as famílias inteiras dos pacientes, e, não bastasse, também adoro pequenas cirurgias. Ah! Eu adoro fazer educação em saúde – grupos de conversa, brincadeiras com as crianças, essas coisas todas.

Fico felicíssima em criar vínculo, em reconhecer pacientes nos corredores, chamá-los pelo nome e já saber da história deles.  Hoje encontrei uma senhorinha no corredor, que atendi ontem, e ela estava com uma menininha no colo. Lembrei de ela ter mencionado uma netinha de 5 anos e perguntei: “Essa é a Fulaninha?”. E ela respondeu toda feliz que sim. A menininha, vendo que a avó me conhecia e que eu até sabia o nome dela, foi simpaticíssima comigo. Nós três conversamos e rimos.

E, pra completar o quadro, acredito com todas as forças que a Atenção Primária é a solução para a saúde e sou apaixonadíssima pelos princípios do SUS.

Acho que nasci pra ser médica de família.

da psiquiatria

Acabei de ler um relato, num blog, sobre o relacionamento de uma paciente com sua psiquiatra e psicoterapeuta. Da confiança e de como ela foi importante na construção da terapêutica. De como o tratamento medicamentoso e a psicoterapia são complementares, e ambos absolutamente indispensáveis. Sobre como, num momento difícil para a paciente, ao fim da sessão, a psiquiatra lhe deu um abraço.

Psiquiatria é tão lindo, gente. É impossível não se apaixonar por ela (ao menos pra mim)!

das minhas vontades e propósitos

Estava aqui relendo um livro chamado “Direitos Humanos – Uma amostra das unidades psiquiátricas brasileiras”.

Os relatos de uma equipe que fiscalizou hospitais psiquiátricos em todo Brasil. Há situações deprimentes: higiene precária, características que envolvem o pior de um presídio e o pior de um manicômio – falta de água potável, de água quente para banho, de alimentação adequada, cobertores, roupas… Pacientes seminus e de havaianas numa temperatura de 15 °C. E o relato curiosíssimo da equipe de que as visitas de fiscalização faziam “aparecer milagrosamente” cobertores que anteriormente a instituição afirmava não ter, bem como iniciativas fortes quanto a faxinas (que não conseguiam, porém, disfarçar o odor forte de, por exemplo, urina e fezes). Maus tratos incluem, inclusive, espancamento, contensões desnecessárias, uso de medicamentos para fins punitivos, e não terapêuticos. Desumanidade para todos os lados. Sob as vistas de montes de profissionais da saúde! Médicos, psicólogos, enfermeiros, assistentes sociais, terapeutas ocupacionais. Todos coniventes com a situação! Como é possível?!

Pacientes psiquiátricos sem condições mínimas. Pessoas que não fizeram nada para merecer isso senão nascer com ou desenvolver uma enfermidade psiquiátrica. Eles não tem culpa disso.

Eu sei que não posso mudar o mundo. Mas posso (e quero e, me aguardem, eu vou) mudar a realidade de alguns pacientes. E, se tudo der certo, de quantas instituições eu conseguir. É questão de boa vontade, organização. Empenho. Amor pela profissão, interesse pelas pessoas. Coisas que, embora aparentemente simples e que deveriam ser óbvias para qualquer profissional da saúde, andam escassas.

 

Mas ok. Faltam só dois anos pra eu me formar e começar a fazer tudo o que quero tanto fazer. Mudar o rumo da vida de tantas pessoas quanto eu conseguir. Às vezes é frustrante o quanto a faculdade me afasta de poder fazer alguma coisa agora. Mas vontade não me falta!

(não há nada na vida que eu queira mais do que isso)

do amor

Estive pensando muito na fúria cega com que os homens se atiram à caça do dinheiro. É essa a causa principal dos dramas, das injustiças, da incompreensão da nossa época. Eles esquecem o que têm de mais humano e sacrificam o que a vida lhes oferece de melhor: as relações de criatura para criatura. De que serve construir arranha-céus se não há mais almas humanas para morar neles? É indispensável trabalhar, pois um mundo de criaturas passivas seria também triste e sem beleza. Precisamos, entretanto, dar um sentido humano às nossas construções. E quando o amor ao dinheiro, ao sucesso, nos estiver deixando cegos, saibamos fazer pausas para olhar os lírios do campo e as aves do céu. Há na terra um grande trabalho a realizar. É tarefa para seres fortes, para corações corajosos. Não podemos cruzar os braços. É indispensável que conquistemos este mundo, não com as armas do ódio e da violência, e sim com as do amor e da persuasão. Quando falo em conquistas, quero dizer a conquista duma situação decente para todas as criaturas humanas, a conquista da paz digna, através do espírito de cooperação.

 

“Olhai os Lírios do Campo” é um dos meus livros favoritos de todos, se não o favorito realmente…

Eu tenho tentado muito ser uma pessoa para pessoas. Fico cá comigo mesma torcendo e esforçando que é pra não deixar isso fugir (às vezes é tão difícil, né?!). Por que eu sei que no fim de contas são os relacionamentos, todos os relacionamentos possíveis, que fazem valer a pena. O que me dá saudades do estágio do regional não é tanto o que aprendi (embora também), mas os pacientes e a equipe, aos quais muito me apeguei. O que me faz ter saudade de Joinville é a família. O que me faz querer ir a lugares legais é a companhia. E os meus amigos são da minha vida uma das partes mais felizes de todas. E o que me faz apaixonada pela medicina são as pessoas. Pensando bem, não tem nada melhor no mundo do que ser útil pra alguém de alguma forma…

 

das motivações para a medicina

Outra motivação interna possível é a necessidade de reparação. A escolha de profissões que exigem grande abnegação, como a medicina, já foi estudada por vários autores como Osório (2003) e Meleiro (1999). Uma das motivações por eles encontrada foi a possibilidade de reparação, isto é, a possibilidade de consertar algo que se julga haver destruído ou estragado na fantasia ou na realidade. (…) Em nossa fantasia infantil somos muitas vezes movidos a interpretar fatos traumáticos da infância como frutos de nossas omissões, ou mesmo de nossas fantasias destrutivas. É possível que na história de cada um de nós exista um desejo de reparação. (…) Todos nós temos característica de alguém que precisa devotar sua vida, pelo menos em parte, a ajudar os outros.

Trecho adaptado de “Crianças e adolescentes vulneráveis”, de Maria Lucrécia Scherer Zavaschi e colaboradores

Opa. Sabe quando você se lê em textos de outras pessoas? Pois é.

Pois é… Ai, minhas reparações!

estágio em psiquiatria – o fim

Hoje foi meu último dia do estágio em psiquiatria.

O estágio foi uma experiência fantástica. A psiquiatria é linda; os dias nunca são iguais, sempre tem uma história pra contar. Incrivelmente, a gente se identifica em várias características dos pacientes. Pode-se conhecer muito a respeito da natureza humana quando estamos numa ala psiquiátrica, afinal, eles mostram de forma exacerbada coisas que todo ser humano tem. Ok, às vezes muuuito exagerada.

A equipe da ala foi incrível e me acolheu totalmente. Estou praticamente decidida pela psiquiatria. Mas vamos ver por que caminhos a vida ainda pode me carregar!

Eu tenho a vida como uma enorme folha em branco na minha frente.

a esquizofrenia

“A esquizofrenia é um problema de saúde pública cuja importância vem crescendo em países em desenvolvimento. Aproximadamente 1% da população é afetada por esta condição. Seu índice de morbidade é alto (60% dos paciente recebem benefícios por invalidez após um ano de doença nos Estados Unidos), assim como sua mortalidade (índice de suicídio de 10%). É uma doença que ocorre em todas as sociedades e localidades ao redor do mundo em proporção equivalente, um pouco maior nas áreas urbanas e de baixo nível socioeconômico.”

(Síndromes Psiquiátricas – Mario R. Neto, Yara Azevedo e Gamaliel C. de Macedo).

 

Medo deles? Não. Eu tenho é medo dessa sociedade que adora ignorar problemas importantes que precisem de algum esforço para lidar, afinal de contas, se você ignorar o problema ele não existe, não é mesmo?

Não.

A sociedade é mais perigosa para os esquizofrênicos do que os esquizofrênicos são para a sociedade. Na minha opinião de quem está convivendo com isso há algumas semanas e começando a enxergar o problema.

 

 

 

a indignação

Ele estava muito indignado por que sentia-se como se tivesse sido “jogado” ali. Queria sair logo, ver a (ex?) mulher e os filhos. Na verdade, eu pouco posso fazer por ele pois, além de ser mera estagiária, do modo como ele está – postura agressiva, fala acelerada e tangencial, ameaçador e manipulador – ele dificilmente sairá em breve.

Mas o fato é que fui obrigada a olhar para ele e dizer “eu compreendo o senhor”. No lugar dele quem não se sentiria “jogado” ali? Quem  não sente saudade da família? Quem não se preocupa com o emprego que ficou pra trás e com os filhos? E nesse momento o olhar dele mudou (por pouco tempo, é claro; logo tornou a repetir os mesmos pedidos e ameaças).

Realmente compreendo. Só que a minha compreensão não muda nada (ainda), infelizmente.

E é assim que a vida é. Enquanto eu não posso fazer alguma coisa (esse dia vai chegar, ah, se vai).

dos aprendizados muito necessários

Eu sabia que o momento pelo qual passo agora inevitavelmente aconteceria. E sempre soube que esse momento seria crucial. Você fez com que ele surgisse na hora certa (como sempre): quando eu tive maturidade suficiente para começar a lidar com a situação, e quanto tive tempo suficiente para pensar e orar a respeito.

Pois o fato é que é um desafio lidar com as mazelas humanas sem perder a sensibilidade… Que é o que acontece com muita gente, como forma de defesa – mas aí, perde-se a capacidade do altruísmo.

Mas, afinal, como manter o altruísmo E a sanidade quando se está em frequente contato com o sofrimento?

É essa sabedoria que busco agora.

Por enquanto, tenho me permitido sair da bolha e olhar o mundo – mas olhar o mundo como ele é de verdade. Não a parte dos contos de fada. Aliás, a parte que está muito longe dos contos de fada… O resultado disso é que as pessoas que não conhecem a parte além dos contos de fada ou, que seja, de um palmo de seu próprio nariz, tem me irritado.

Tem me irritado muito. E não deveria me irritar, visto que o fato de simplesmente conhecer a realidade não me torna uma pessoa melhor ou qualquer coisa do tipo. O que nos leva à etapa seguinte…

Eu ainda não compreendo, Deus, por que esse tipo de coisa tem de existir. Não entendo a razão de tanta discrepância. Ainda não compreendo e ainda me dá raiva saber que há crianças ganhando pilhas e pilhas de presentes (e reclamando deles) e há outras que pedem coisas como comida ou um botijão de gás como presente de Natal.  Ainda me irrita que existam crianças privadas de afeto e direitos básicos. Ainda me irrita saber que há crianças sendo violentadas e adultos fechando seus olhos para isso. Ainda me dá muita, muita raiva que tantas mulheres sofram na mão de homens; ainda me dá raiva lembrar que há por aí homens que veem mulheres como meros pedaços de carne, desprovidas de cérebro ou sentimentos. E que justificam suas atitudes imbecis com “ah, mas ela era muito feia” ou “com uma roupa daquelas, ela estava pedindo para ser violentada”. ARGH. (meu sangue ferve no momento em que escrevo isso). Entristece-me que existam pessoas que não se importam nem um pouco, nem um pouquinho em ajudar quem precisa, que não fazem o mínimo esforço – mesmo que esteja debaixo do seu nariz! E mesmo que tenham muitas condições para fazê-lo!

(esse ano, descobri que as pessoas que menos tem são as mais propensas a dividir).

Ainda sinto gosto de injustiça quando vejo pessoas sofrerem com doenças crônicas, degenerativas ou de difícil tratamento (ou os três juntos). Dependendo de medicamentos caríssimos aos quais dificilmente tem acesso. Abandonadas, muitas vezes, por familiares. Ou, mesmo, no sofrimento dos familiares cuja rotina vira cuidar, que veem uma pessoa que amam sofrendo…

É. Essa é a vida real. Que eu possa ajudar ao menos um pouquinho já será um consolo.