da igualdade

“Lutar pela igualdade sempre que as diferenças nos discriminem,lutar pelas diferenças sempre que a igualdade nos descaracterize”.

(Boa ventura de Sousa Santos)

Mais uma citação genial que encontrei no Manual.

Anúncios

essa vida doida

Pela manhã, um senhor no fim da sua vida, na UTI.

Saí pensativa sobre esse momento (como toda vez fico, na verdade): estaria ele com medo? Será que estava completamente consciente daquela condição e daquele momento? Será que os momentos antes da sedação e intubação foram os últimos momentos conscientes que ele teve em toda sua vida? Uma vida inteira encerrada com aquele monte de gente estranha dentro da sala, com fios, tubos e agulhas…?

Não é difícil imaginar que o fim da vida não é algo muito bonito. Mas talvez ele não seja tão cheio de preparativos quanto a gente imagina. Não sei bem qual é o resultado disso…

A noite, faço plantão no Centro Obstétrico. Neste dia, especialmente, cheguei e me deparei com um monte de bebezinhos recém-nascidos. Alguns deles aninhados no colo das mães, mamando, aparentemente confortáveis. Outros choravam enquanto eram examinados pelo pediatra, aninhados não tão confortavelmente assim no berço de acrílico.

É que nem sempre o começo da vida é tão cheio de preparativos quanto a gente imagina.

Quais os significados disso?

Honestamente, não sei. Bom, talvez a vida não seja tão cheia de significados quanto a gente imagina…

sobre não ser obrigada

não sou obrigada a:

ser madura e equilibrada o tempo todo; estar sempre feliz, sorrindo e bem disposta; sacrificar-me para o bem dos outros sempre; amar incondicionalmente tudo o que todas as pessoas que convivem comigo fazem ou falam; entender e aceitar completamente todas as atitudes das outras pessoas; esforçar-me sempre para que os outros me compreendam, perdoem, amem; etc. etc. etc.

enfim, quero ser humana em paz. sério.

deixa eu ser meio defeituosa que tentar fazer tudo certo o tempo todo tá me dando uma canseeeeeeira…

e nem funciona, mesmo

sobre ser um ser humano e do retorno da felicidade

(que ela não tem demorado mais muito a voltar)

Engraçado como o simples fato de admitir algumas coisas pra mim mesma tem gigantesco poder de transformar meu sentimento com relação a algumas situações.

É que, né? É difícil admitir alguns sentimentos. A gente critica tanto as pessoas por sentimentos negativos que, na verdade, todos temos… Mas quem quer admitir pra si mesmo, por exemplo, ter sido invejoso (só que todo mundo é, em maior ou menor grau)? Quem gosta de admitir uma mentira (só que todos mentimos, embora uns mais e outros menos)? Quantas pessoas você conhece que dizem, sorrindo, serem teimosas como mulas (mas todos seremos mulas teimosas em algum momento da vida)? Quem gosta de admitir que é ciumento, raivoso, rancoroso? Etc.

Nãããao. Geralmente, o fazemos quando é com os outros. Quando é com a gente, a gente transforma em coisas tipo assim:

“Eu só minto para proteger as pessoas que amo….” – que basicamente é outra forma de dizer que você é um mentiroso.

“Se sinto ciúmes é porque cuido das pessoas que gosto…” – que basicamente é outra forma de dizer que você é um ciumento.

“Eu corro atrás do que quero e nunca desisto, sou uma pessoa de opiniões fortes” – que basicamente é uma outra forma de dizer que você é teimoso feito uma mula.

Mas é muito mais difícil admitir assim, no estilo da segunda frase. Aí a gente transforma em algo menos pior, pra não doer tanto.

Eu, por exemplo, sou. Fiz um curso, certa vez, em que trabalhávamos em equipe em diversas atividades e, em seguida, dávamos feedbacks uns para os outros. Ficou muito claro, no curso, que sou bastante teimosa. Mais de um participante mencionou o quanto era agradável trabalhar comigo, já que sou alegre, motivada e otimista; até que eu empacasse em algo com o qual o grupo não concordava – e que, pra mim, era muito óbvio que era o melhor a fazer. O instrutor mencionou que a diferença entre determinação e teimosia era muito sutil, e ter consciência dessa característica e trabalhar ela era minha chance de fazer a balança pender mais pro lado da determinação. Desde então, vivo me policiando. Às vezes tenho de rir de mim mesma, ao me pegar pensando “como é que essa galera não enxerga que eu é que tenho razão?”. Mas é claro que, se um grupo de pessoas não enxerga que eu tenho razão, é bom considerar a hipótese de eu realmente não tenho. E é um exercício trabalhoso entender o ponto de vista do grupo. A gente tem essa tendência de precisar se defender pra não se sentir muito inferior. Geralmente gostamos de alimentar nosso narcisismo, acreditando que somos muito especiais, além das outras pessoas. Que somos seres humanos únicos, iluminados, aquela coisa toda.

Mas a verdade é que:

1) Não somos;

2) Na maior parte das vezes, ter razão também não importa tanto assim. E foi com esse pensamento que eu realmente transformei a forma como lido com a minha teimosia (os problemas aparecem nas questões em que ainda não desapeguei da necessidade de ter razão – acontece…).

Isso porque admitir possuir características essencialmente humanas, ainda que negativas, não te faz uma pessoa inferior.

Meu professor de psicologia da faculdade costumava dizer coisas no sentido de que, se você não lida bem com alguma coisa que os outros fazem, provavelmente é por não ter resolvido essa mesma coisa dentro de você. Ele também dizia que nós temos a tendência de nos afastarmos de coisas e pessoas que nos incomodam, quando na verdade deveríamos nos aproximar – porque era ali que estava nosso autoconhecimento. Demorei um pouco pra entender o que isso significava; comecei a prestar atenção, nas minhas relações. Bingo! A maioria das coisas que mais me chateavam eram as que eu não conseguia lidar ou admitir em mim mesma. Descobri uma porção delas.

Foi aí, também, que começou a coisa de me perdoar e perdoar as pessoas com muito mais facilidade. É isso aí que somos: seres humanos. E eu não tenho de esperar que sejamos nada diferente disso, apenas porque não adianta – não conseguimos.

Bom. Já estou divagando, pra variar.

Mas, voltando.

Aí, tive esses dois dias de chateação e tristeza. Com uma situação a qual não posso mudar.

O interessante de situações que você não pode mudar é que elas te obrigam a aceitá-las de uma vez, ou mudar para se adaptar a elas. Não há outro jeito.

Andei fuçando nas razões reais de eu me incomodar tanto. Algumas óbvias, outras nem tanto. Ando introspectiva a respeito: explorando regiões sombrias da minha personalidade, regiões que, até então, analisei apenas superficialmente.

Como eu dizia: admitir já mudou bastante coisa. Rapidamente me perdoei e voltei a ser feliz. Empolgada o suficiente para descobrir mais.

Viver a si mesmo é uma aventura!

uma lição de empatia – no ônibus

O ônibus chegou, vazio. O ponto de ônibus, no entanto, estava lotado; nós, os passageiros, no amontoamos na porta, para passar pela catraca. O cobrador, pacientemente, utilizava o sistema da empresa para imprimir e entregar as passagens de cada um. O processo, no entanto, era super lento, e o ônibus ficou um tempão parado esperando as pessoas conseguirem entrar.

Nisso, um dos passageiros pergunta ao cobrador:

– Quem foi que colocou esse negócio aí?

– Ah, a empresa…

– Mas eles explicaram o porquê de fazer desse jeito? Se demora tanto e dá tanto trabalho?

– Não falaram, não.

– Hum. Deve ser por que não pegam ônibus!

 

Eis uma verdade natural: a única forma de entender completamente uma situação é passando por ela. Ouvir relatos não é o suficiente; apenas estando na pele de quem passa. Por isso jamais seremos conhecedores absolutos da vida e do universo:pois estamos presos ao corpo e ao contexto nos quais nascemos. E, por isso, pode-se adquirir maturidade emocional com a experiência: pois quanto mais vivemos (reparem que eu disse mais, e não por maior tempo), com mais situações diferentes e mais contextos nós entramos em contato.

Há, no entanto, uma interessante forma de ter alguma ideia do que é passar por uma determinada situação: tendo sensibilidade e… Amando!

Explico: não acontece que, quando amamos alguém, somos mais sensíveis à sua dor? O amor tem o poder de nos aproximar de uma realidade que não é a nossa. Às vezes, como até nosso amor é imperfeito, nem tendo alguém que se ama por perto pra enxergar; por isso incluo a sensibilidade e o olhar atento. Quando amamos alguém que sofre, por alguma razão, a situação não é nossa, mas nos é próxima. Ah, se todo branco amasse um negro! Ah, se toda família tivesse um homossexual! Ah, se todo homem visse alguma das mulheres que ama passando medo ou vergonha por causa de uma cantada na rua, ou sendo vítima de algum abuso! E se, os tendo por perto, dedicassem empatia, ouvidos, esforço, estudo e dedicação para promover mudança…

A informação muda o mundo.

O amor muda o mundo.

Mas, sozinhos, nenhum dos dois muda nada!

da bobagem (alheia)

Seres humanos, quando em situações de estresse emocional, são capazes das coisas mais absurdas – e às vezes, acho, nem se dão conta.

(na verdade as pessoas são capazes de coisas extraordinariamente absurdas o tempo inteiro)

Bom…. Alguns absurdos são minha incumbência diária. Para esses, toda minha paciência e capacidade de amor (inclusive para meus próprios absurdos).

Mas, quando isso me produz apenas malefício, sem nenhuma contrapartida, não há motivos para insistir. Eu pulo fora desse barco e largo essa mala (que não é minha) no chão.

as três fases do (meu?) entendimento

1) A ignorância:

Na ignorância, você não percebe uma porção de coisas sobre o mundo ao seu redor. Quase todo mundo vive essa fase em algum momento da vida, nem que seja ao longo da infância. Há quem diga que “a ignorância é uma benção”, já que muitos ignorantes vivem num estado de contentamento leve e bobo. Como não percebem que a vida é uma bosta, pensam que a vida é linda. Tocam suas vidas sem sair da bolha, fazem comentários vazios e sem embasamento, não conseguem enxergar a um palmo de distância deles mesmos. A ignorância resulta do egocentrismo, afinal, quando o que importa é o mundo ao meu redor, eu não saio do lugar pra procurar por mais. Se me contento com o que tenho, pouco importa o resto.

Mas, calma, isso não é uma crítica. Como disse, todo ser humano vive sua fase de narcisismo, nem que seja na infância. E, claro, há pessoas com acesso realmente limitado à informação, e que não vive na ignorância por egoísmo.

 

2) A indignação:

Em algum momento da vida, você se dá conta de dois fatos que mudam tudo:

– Existe mais no mundo do que o que você conheceu até o momento;

– A vida não está tão boa assim pra você, que foi colocado numa caixinha apertada cheia de expectativas; e muito menos está para pessoas que tem ainda menos recursos que os que você tem.

Triste fase. Quando começa a conhecer o mundo, é impossível não ficar muito indignado e muito puto. Quando conhece situações sociais precárias, quando começa a estudar os movimentos políticos, quando começa a estudar história por interesse, e não por te obrigarem na escola (e com senso crítico, aliás), quando começa a lidar com movimentos sociais (feminismo, movimento LGBT, por exemplo), e as vendas que te colocam nos nossos olhos desde sempre começam a cair… Dá raiva do que te fizeram. Dá raiva de não ter compreendido antes. Dá raiva, também, de quem continua oprimindo, julgando, vivendo dentro da caixinha. Você se dá conta de que muita gente vive na ignorância, e que a ignorância dos seres humanos faz com que mutuamente se prejudiquem, firam, e que julguem uns aos outros injustamente.

Você se dá conta de que, se o mundo é uma bosta, em grande parte ele é uma bosta por causa da ignorância das pessoas que vivem nele.

É uma fase triste, essa. Você também se sente sozinho em suas causas, já que ninguém mais parece se importar. Você ensaia gritar e se revoltar, você discorda do que todo mundo diz, fica irritado com o senso comum e os argumentos vazios… Mas, infelizmente, na maior parte das vezes você não será entendido ou mesmo levado à sério. Sendo mulher, corre-se ainda o risco de ser chamada de pitizenta, mimimi ou “feminazi” (isso aí – comparam a importância que você dá aos seus iguais e o seu amor a uma causa ao nazismo).

 

3) O lúdico:

Com o tempo, você se conforma. Compreende que, infelizmente, as pessoas não são mesmo ensinadas a raciocinar. Não se pode culpá-las inteiramente por isso. Embora ainda se irrite vez ou outra, que ninguém tem sangue de barata, e embora continue a se manifestar, muitos dos comentários ignorantes que antes te irritavam tornam-se bastante lúdicos. Você ri, que é o que tem. Também começa a aprender quando vale a pena entrar numa discussão e quando não.

Já habituado aos comentários a seu respeito (pois, se você realmente viveu a coisa toda, a essa altura já foi tachado de chato por uma porção de gente) você deixa de perder tempo se preocupando com o que vão pensar de você – e continua investindo seu tempo em viver ativamente e a cada momento sua militância. Até porque, agora, também já entendeu que simplesmente não importa. Seu pessoal passa a ser o seu político. O que importa é que você se sinta livre.

Você percebe que consegue mudar algo da realidade ao seu redor. Que algumas pessoas também compreendem, também passam a se sentir livres, também vivem o processo todo – e essa é uma sensação ótima, a de transformar.

E, nessa linda fase lúdica, você cresce e se sente ainda mais livre. Pois somente a informação liberta. Você compreende que tem um universo de possibilidades. Você aprende a pensar fora da caixinha. Você se torna sedento por conhecer, ler, entender, estudar. Agora, pensar de forma crítica e buscar informações confiáveis antes de julgar torna-se quase um hábito. Você aprende sobre paciência, tolerância e amor. Você se torna muitíssimo aberto a novas opiniões, especialmente quando nota que são bem embasadas. Discussões construtivas, reflexivas e não agressivas se tornam um grande prazer.

 

Você descobre um novo jeito de ser feliz e de ver leveza na vida. Você passa a discordar de quem diz que a ignorância é uma benção – ainda que os entenda…

O mundo é grande e é fascinante!

das observações

Algumas pessoas, parece-me às vezes, nunca estão satisfeitas com nada.

Nunca tem: dinheiro suficiente, roupas suficientes, tempo suficiente, amigos suficientes, namorados ou maridos suficientes, ou namoradas e esposas suficientes; corpos suficientes, cabelos suficientes, maquiagens suficientes, adereços suficientes, belezas suficientes; sono suficiente, diversão suficiente, felicidade suficiente, privilégios suficientes, celulares suficientes, computadores suficientes, casas ou apartamentos suficientes, carros suficientes. Passam a vida a reclamar. Não se passam 10 minutos sem que reclamem de alguma coisa.

Essas pessoas são, em sua maioria, de classe média a alta, tem bens materiais em quantidades perfeitamente adequadas para a sobrevivência com qualidade, são saudáveis, tem pessoas que as apoiam e uma perspectiva de futuro. Elas mal conseguem olhar para o lado, onde há gente com tanto, mas tanto menos que elas que  nem se pode comparar.

 

A verdade é que, embora elas não vejam isso, apenas UMA coisa lhes falta: gratidão.