a dor que a insensibilidade me causa

Eu não fiz medicina para assistir ao sofrimento das pessoas sem fazer nada.

O meu problema não é apenas ver pessoas sofrendo todos os dias.

Não que isso seja fácil, obviamente; mas eu me preparei – e me preparo todos os dias – para isso. Eu li sobre o assunto, falei sobre ele na terapia, conversei com diversas pessoas, fiz e ainda faço, rotineiramente, exaustivas autoanálises sobre minhas reações a ele e à minha forma de lidar com tudo isso. Sofrimento é algo que existe, estou disposta a conviver com ele e tenho trabalhado muito minha maturidade emocional para aceitar sua existência e suas condições. Sem negações, sem resistências – mas também sem conformismo. E a aceitação de toda essa realidade me tem feito muito bem.

Agora, o que eu não consigo, não aceito e não conseguirei nunca me sentir confortável, é com o fato de a vida acadêmica não me permitir exercer o cuidado que eu gostaria. Não conseguirei nunca não me entristecer ao observar os profissionais mais diversos, ao meu redor, e mesmo os meus professores, agirem de forma insensível e muitas vezes até grosseira com os pacientes. Ignorarem, zombarem, destratarem, atenderem de má vontade.

Eu não vou me acostumar.

E tenho estado sensível, por esses dias, muito sensível; depois de ter repentinamente me dado conta de ter, muitas vezes, compactuado e participado disso.

Chorei de arrependimento e culpa. Não era pra ser assim. Não foi pra isso que entrei nessa faculdade. Não foi com isso que eu sonhei.

E não é esse tipo de profissional que vou ser.

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