da justiça

Ultimamente, tenho ouvido falar muito dessa tal de “justiça”.

Até entendo a voracidade com a qual as pessoas buscam por justiça (mas só quando é vantagem pra elas). Seres humanos tem gigantesca dificuldade em lidar com sofrimento e dor, e uma das formas mais automáticas de lidar é descarregando em cima de alguém. E acreditar que, tendo esse alguém recebido punição, o sofrimento vai passar (não vai).

Acontece, porém, que o mundo não é, nunca foi, não vai ser tornar justo. E é inviável que se torne, já que seres humanos são criaturas mentirosas, egoístas e bem espertinhas. Não é fácil ser justo. Quero ver você conseguir, se tentar! Tente fazer com que o que você pensa dos outros seja compatível com a realidade todas as vezes. Quero só ver.

 

Nessa nossa fome por justiça, saímos falando um monte de absurdos dos quais nem nos damos conta. Tipo desejar pena de morte com tortura para bandidos. Eu não defendo bandidos, veja bem. Mas torturar e matar uma pessoa é crime. Logo, entrando neste ciclo, todos seríamos, a bem da verdade um monte de bandidos. E não acertaremos o veredicto todas as vezes, então é certo que mataremos e torturaremos inocentes.

Além disso, se o mundo fosse justo, a sociedade de classe média e alta sofreria um bocado, pois teria de pagar pelo que faz às classes baixas. Querem falar de justiça? Falemos de justiça. Devolva tudo o que você sonegou de impostos, então, seu bandido miserável. Pague por todas as vezes em que enganou alguém pra se safar ou ganhar dinheiro. Criemos nosso filhos sob as mesmas condições, tanto classes altas quanto baixas, para que nenhum tenha vantagem sobre o outro nessa nossa amada meritocracia. Todos em escolas públicas, uniformizados, comendo a mesma comida e tendo o mesmo tipo de lazer. Não é assim que tem que ser? Não seria esse o justo?

Ah, sim. Mas é que, quando a justiça dificulta a nossa vida, aí não a queremos.

 

Não existe justiça. Justiça é uma ilusão.

Parece que não nos tornamos muito menos selvagens conforme a evolução da espécie.

 

Não tô dizendo que devemos largar todas as leis e nos conformar com o fato de que as coisas acontecem de forma errada.  Não. Mas temos de ser coerentes e um pouco menos irracionais. Temos de aprender a lidar melhor com contextos, e entender que o contexto social de alguém não é assim tão simples, que se compreenda em 5 minutos de leitura de jornal (com informações falsas).

A sociedade já condenou muita gente inocente nessa vida. Você pode estar fazendo parte disso. Então, cuidado com todo esse teu ódio. Ele pode estar sendo tão cruel e injusto quanto o que você acredita que foi a pessoa que chama de “marginal”.

sobre cafés e o que somos

Não é minha intenção discutir hoje, aqui, as indústrias da informação e do entretenimento (que já são uma só, o que empobrece a todos).  (…)

… na lógica fria da contabilidade de espectadores-curtidas-acessos, se falam disso é por que isso nos interessa, né? E, se é isso que nos interessa, o que nos tornamos? Por que tão embrutecidos?

(*)
O cheiro de café na sala me remeteu à casa de minha avó onde, em tempos idos, aquecia-se a xícara com água quente antes de servir o café. Hoje em dia, parece que qualquer água suja e morna em copo plástico tá valendo. Onde foi parar essa delicadeza? Por que tão embrutecidos?
BloGessinger. Sempre genial. Impossível não concordar: da falta de sensibilidade da indústria da informação ao café mal feito em copo de plástico, a pergunta que nos resta é só essa mesmo. No que foi que nos tornamos…
Recuso-me a seguir assim. Mesmo que seja difícil, vou tentar nadar contra a maré, até o último.