a fúria

Não estava mais habituada a lidar com enxurradas de ódio desse tipo.

Ele bateu na minha porta, vociferou seus absurdos – a despeito dos meus pedidos de conversarmos de forma mais tranquila, sem indisposições – e invadiu a paz dos meus últimos dias.

Já fazem algumas horas, e ainda não me recuperei. Estou aqui sentada, confusa e desorientada, tentando digerir a coisa toda. Raiva é uma coisa tão triste. Tão destrutiva.

Engraçado o que acontece, quando sou alvo de um ataque enfurecido desses. Sinto-me uma criança, pequenininha e encolhida num canto, sem saber o que responder. Querendo arrumar logo a solução que mais agrade o (como eu o vejo, na hora em que ocorre) adulto enfurecido. Fazer-lhe todas as vontades, para que não me odeie mais. Por que não posso ser odiada – ainda que a pessoa é que esteja sendo escrota comigo! Preciso dar um jeito nisso…

Não posso me submeter às incoerências dos outros desse jeito. Ferir meu espaço dessa forma.

Sei que não posso ser perfeita… Mas alguns dos meus defeitos me deixam tão triste

turbilhão

Às vezes as coisas vão acontecendo e te carregando, te engolindo, te sugando pro meio do caos todo. E essa foi a minha semana. A coisa, que vinha se acumulando perigosamente dentro de mim, finalmente explodiu onde não devia, hoje.

Mas a verdade é que eu não queria chegar nesse ponto, de explodir, de não conseguir controlar minha raiva. Queria descarregar alguns pesos no caminho; mas parecem tão firmemente amarrados às minhas costas que nem mesmo encontro o nó, quanto mais o desato. Tenho tido, repetidamente, pensamentos negativos, que danificam minha autoestima e minha vontade.

Eu só queria ser mais livre. Mas não sei nem por onde começar.

Eu não sei se devo pensar melhor a respeito ou parar de pensar tanto, se devo me ocupar ou parar de fazer trinta coisas ao mesmo tempo, se devo me concentrar mais ou me distrair um pouco da vida… Não sei. Queria fazer uma reforma emocional em mim mesma, mas não sei como.

 

Não consigo sozinha. Mas não sei bem nem a que recorrer.

Ai, vida… Pra que tão difícil?

mundo, vasto mundo

Escrevo meu Portfólio do estágio de medicina da família e comunidade (MFC).

Por tanto escrever e tanto pensar, por fim saio do documento do word e migro para cá. É preciso arrancar alguma coisa de dentro de mim.

Foi um estágio de lidar com uma porção de pesos emocionais (está sendo, na verdade). Sentada aqui perante as páginas em branco do word, revivo uma porção de momentos e chego a uma conclusão: não é estranho que eu esteja me sentindo tão diferente por esses dias. É humano, apenas.

Conheci tantos contextos! Nem todos felizes. Alguns de muito, muito sofrimento. A gente pobre está aí, embora o resto das pessoas se recuse a admitir; e a gente pobre tenta viver sua vida, essa vida que o resto das pessoas não faz ideia que exista.

Entrei em tantas casas de uma humildade tão grande. Caminhei por becos de terra batida, cheios de lixo, cachorros abandonados e esgoto a céu aberto. Casas de um cômodo só. Casas com cômodos cujas “paredes” são pedaços de pano. Casas que sofrem com a chuva, impedindo seus moradores de dormirem.

Ouvi pacientes falarem de seu sofrimento – ali, impotente, sentada numa cadeira, podendo fazer tão pouco senão consolar momentaneamente.

É vasto, esse mundo. É cheio de coisa, cheio de gente, cheio de história. Se por um lado me alegra e fascina que as pessoas sejam universos incríveis nos quais tenho a oportunidade de mergulhar, também me entristece que tão pouco se possa fazer para mudar esses destinos e aliviar o tanto de sofrimento que existe.

Tenho vontade, muita vontade, de me aproximar, de desvendar esse mundo e essas pessoas, de fazer parte dele. Mas temo que jamais compreenderei totalmente.

Ainda assim, sinto-me misturada a isso tudo. Estou misturada a tudo que vivi nesse estágio, a toda frustração que vivi ao longo desse ano de internato. Estou misturada à essa medicina que me ensinaram, na qual acredito apenas parcialmente, e cuja outra metade que impregnou quero destruir para construir novamente, mais bonita. Agora, tenho essa missão de separar essa colcha de retalhos que me tornei. De lidar comigo, com meus pacientes internos e demais barulhos. Trabalho minucioso, eu sei. Mas é hora de retomar minha faxina na alma.

limite

Não tá nada fácil. E, pra variar, nada está correspondendo às minhas expectativas (eu não deveria ter me deixado contaminar por tanta confiança.. tenho de me lembrar de voltar a manter as expectativas baixas, muito baixas, no chão, praticamente).

Tive uma noite péssima: agitada, entremeada de pesadelos, entrecortada por momentos de acordar e sentir raiva de mim, da vida e do universo, e aí ter dificuldade em voltar a dormir. E, claro: a ansiedade. A maldita ansiedade.

Acordei, obviamente, cansada. Sentindo-me exausta. Física e emocionalmente exaurida, depois de três semanas vivendo nos limites da minha capacidade emocional e intelectual. Dando 100% em cada segundo de cada dia. E, mais uma vez, aqui me encontro, sozinha no quarto, tendo de lutar contra esse monte de sentimentos ruins, e torcendo pra que isso atrapalhe o menos possível nessa prova para a qual estudo há um mês. Por favor, meu Deus, me ajude a não deixar isso me atrapalhar. Sozinha não está dando certo.

 

Finalmente cedo às emoções e deixo as lágrimas escorrerem. O dia ainda vai ser longo e não me sinto preparada. Privação emocional e de sono, a pior prova da faculdade até agora e um plantão noturno logo em seguida, pra completar, que não vai me permitir descansar de tudo isso. Será mais um dia estressante seguido de uma noite estressante, e mais uma vez terei de arrancar Paula da onde não tem pra suprir as necessidades dos outros.

A chuva lá fora me deprime ainda mais e me faz ter vontade de esconder debaixo das cobertas e fingir que nada disso existe. Desistir. Chorar até que as lágrimas carreguem embora todo esse estoque de estresse, raiva, ansiedade, toda a carga emocional negativa com a qual eu tenho dificuldade de lidar.

Estou apavorada por não estar no estado de tranquilidade e equilíbrio emocional em que eu precisava estar pra essa prova. Eu estudei tanto, e agora corro o risco de deixar tudo cair por simplesmente não conseguir manter a calma.

 

Mas eu preciso encher minhas xícaras de café, varrer tudo o que sinto (outra vez) pra debaixo do tapete e estudar.

Os outros, mais uma vez. Os outros, sempre. E eu vou ficando pelo caminho

da frustração de sempre

Há vezes em que me pego pensando em como é difícil ser uma pessoa.

Hoje é um daqueles dias. Essa avalanche de sentimentos ruins que tomou conta de mim (tudo como sempre: sem aviso, sem razões explícitas ou claras pra acontecer – inconstante, impaciente e repentino)… me deixou inquieta, pensativa e frustrada. Não conseguir lidar com meus sentimentos ruins sempre é frustrante.

Eu coloquei pra mim mesma essa expectativa, de sempre conseguir lidar e controlar as coisas. Como toda perfeccionista, é difícil  aceitar completamente que sou um ser humano, que vou ter sentimentos como esses as vezes, e que tudo bem. Vai passar, e pronto. Não consigo.

Aquela vozinha crítica me pune por não ser emocionalmente madura o suficiente, por não estar aproveitando meu tempo com coisas produtivas, por ter perdido o foco, por não estar conseguindo fazer uma autoterapia efetiva o suficiente pra compreender e arrumar toda essa bagunça (é assim que me sinto nessas horas: bagunçada).

 

Esse é o sentimento avassalador: estar tão desapontada comigo mesma. Minhas cobranças ainda me corroem. Pois a essa altura, eu já deveria ter aprendido a lidar com certas coisas da vida.

 

Tem tanta coisa que eu queria que fosse diferente. Mas infelizmente a vida não é o que idealizamos. Ela é o que é, e há pouco que se possa fazer a respeito.

 

Eu deveria estar tentando relaxar e dormir, afinal de contas um plantão de 12 horas num PS me aguarda, amanhã – e tenho de levantar às 06 horas.

Mas a cabeça não deixa. E aí aquela Paula pequenininha, fraca, insegura e indefesa vem e se senta ao meu lado

e não tenho ânimo pra mandar ela ir embora. E eu deixo ela ficar. E ela sempre me dói.

mal estar

De repente me invadiu essa onda incontrolável e péssima – me sinto mal pela situação toda, por ter me sujeitado a isso, por… É que teria sido melhor simplesmente ignorar (vejo agora), mas eu não consigo. Não tem jeito.

Enfim, a conclusão é apenas que, por me importar demais com as pessoas e teimar em não mudar essa característica (eu gosto dela), vou ter de simplesmente aceitar o quanto isso é arriscado. Pois me expõe. Mas, afinal, as pessoas não pedem pra eu me importar, eu o faço por que quero (vem a dúvida cruel: será que devo?). Então não posso esperar que me tratem bem. Não posso esperar é nada. E esperar alguma hostilidade vez ou outra também não seria exagero – assim as coisas são… Talvez eu nem devesse… Ai, não sei… É tão confuso, tão difícil saber o que seria a “atitude certa”! Mas assim pode acontecer quando a gente dá a cara pra bater. Não é culpa de ninguém. Não precisa ser culpa de ninguém. Como vivo pensando, dizendo e escrevendo, somos todos seres humanos no mesmo barco, tentando sobreviver da melhor forma possível. O sofrimento é comum a todos nós e os sentimentos nos fazem agir das formas mais improváveis.

Mas apesar dessas reflexões todas, a situação me encheu de mal estar e estou aqui, sentindo-me horrível (outra vez – achei que já tinha passado). O fato é que não consigo imaginar de que outra forma eu poderia ter reagido. De que outra forma eu poderia ter feito. Eu sei lá. É tão difícil! Que outro jeito, sabe?! Que outras justificativas ou explicações?! Não há…

É que também sou ser humano e também é difícil pra mim ser humana e sentir tanta coisa

das minhas vontades e propósitos

Estava aqui relendo um livro chamado “Direitos Humanos – Uma amostra das unidades psiquiátricas brasileiras”.

Os relatos de uma equipe que fiscalizou hospitais psiquiátricos em todo Brasil. Há situações deprimentes: higiene precária, características que envolvem o pior de um presídio e o pior de um manicômio – falta de água potável, de água quente para banho, de alimentação adequada, cobertores, roupas… Pacientes seminus e de havaianas numa temperatura de 15 °C. E o relato curiosíssimo da equipe de que as visitas de fiscalização faziam “aparecer milagrosamente” cobertores que anteriormente a instituição afirmava não ter, bem como iniciativas fortes quanto a faxinas (que não conseguiam, porém, disfarçar o odor forte de, por exemplo, urina e fezes). Maus tratos incluem, inclusive, espancamento, contensões desnecessárias, uso de medicamentos para fins punitivos, e não terapêuticos. Desumanidade para todos os lados. Sob as vistas de montes de profissionais da saúde! Médicos, psicólogos, enfermeiros, assistentes sociais, terapeutas ocupacionais. Todos coniventes com a situação! Como é possível?!

Pacientes psiquiátricos sem condições mínimas. Pessoas que não fizeram nada para merecer isso senão nascer com ou desenvolver uma enfermidade psiquiátrica. Eles não tem culpa disso.

Eu sei que não posso mudar o mundo. Mas posso (e quero e, me aguardem, eu vou) mudar a realidade de alguns pacientes. E, se tudo der certo, de quantas instituições eu conseguir. É questão de boa vontade, organização. Empenho. Amor pela profissão, interesse pelas pessoas. Coisas que, embora aparentemente simples e que deveriam ser óbvias para qualquer profissional da saúde, andam escassas.

 

Mas ok. Faltam só dois anos pra eu me formar e começar a fazer tudo o que quero tanto fazer. Mudar o rumo da vida de tantas pessoas quanto eu conseguir. Às vezes é frustrante o quanto a faculdade me afasta de poder fazer alguma coisa agora. Mas vontade não me falta!

(não há nada na vida que eu queira mais do que isso)

da fidelidade

Marido fiel até o último segundo ao desejo e amor de sua esposa, ao lhe entregarem uma rosa vermelha para jogar sobre o caixão, protestou:

– Não. Ela queria uma flor roxa…

Foi muito emocionada e com lágrimas nos olhos que o observei largar o buquê de flores roxas, realizando, provavelmente, o último desejo da esposa.

“Se isso não é fidelidade, então realmente não sei o que é”, pensei. Já que ela nunca saberá se ele realmente fez o que ela pediu, e ainda assim, ele optou por fazer. 

tragédia em santa maria

Muito me surpreende a capacidade que temos de culpabilizar as vítimas. Li no G1 diversos comentários nada sensíveis a respeito da tragédia em Santa Maria dizendo que “é isso que acontece com quem vai pra muquifo”, “vai pra balada dá nisso, tem mais é que morrer mesmo”, etc. É isso mesmo, gente? Será que não percebem que, enquanto culparem quem é vítima, estão protegendo o verdadeiro culpado de pagar pela merda que fez? Claro, pois é muito mais fácil culpar quem não pode mais se manifestar do que ir atrás de quem pode mudar a situação. Oras…

a fossa

É estranho o que acontece quando se está “na fossa”. Eu digo que estou “na fossa” quando começo a sentir um aperto no peito, vontade de chorar, coitadismo e uma horrível sensação de que a felicidade está completamente fora de meu alcance.

Nessas horas, sinto-me irremediavelmente sozinha. Por um lado há verdade nessa sensação, pois a única pessoa que pode lidar com esse sentimento e que tem de enfrentá-lo sou eu. E tenho de enfrentar ele sozinha pois ainda não inventaram forma de outra pessoa assumir minha alma, minhas dores, meus sentidos.

Por outro lado, porém, eu sei que estou rodeada de gente que me ama, tenta me ajudar e quer me ver feliz. Mas é engraçado pois, quando estou “na fossa”, eu não consigo sentir isso. Sinto apenas como se estivesse sozinha, sozinha. Como se fosse ficar sozinha para sempre.

E, bem, no fundo eu sei que isso não é verdade.

 

Mas, como dizia o Josué, essas são daquelas coisas “muito fáceis de falar, mas não tanto de sentir e fazer”…