ando sentimental

São dias de estar à flor da pele. Não tenho tentado bloquear o sentimento… Estou apenas observando, me deixando sentir.

A paciente está sentada na cadeira à minha frente falando sobre como, depois do câncer, ela “acordou pra vida”. “Claro que o câncer foi ruim que eu podia ter morrido, né? Mas por outro lado foi bom. Eu me dei conta de que eu não estava vivendo. Depois do câncer, eu acordei. Antes eu não saía de casa, só queria saber de limpar a casa, não fazia nada.” E aí ela segue me contando sobre como ela começou a dançar, e como ama dançar, e sobre como adora andar de ônibus na janela pra sentir o vento bater no rosto.

Sim, eu tinha dezenas de pacientes pra atender depois dela. Mas fiquei ali sentada, ouvindo. Aprendendo.

Antes de ela deixar o consultório, nos abraçamos forte, como duas amigas que há tempos não se viam. Fechei a porta e sequei as lágrimas que brotavam no cantinho dos olhos.

Estou no semáforo e vejo um senhor, de cerca de 60 anos, vendendo coisas no sinal. Ele tem um olhar cansado e um andar vacilante. Sinto uma profunda compaixão pela situação dele. A chuva fina caindo e aquele senhor, que a essa altura da vida deveria estar tranquilo, de pé, no meio da tarde, no meio dos carros. Meu coração dói. Sinto-me mal por estar no conforto de um carro, indo para minha casa confortável. Sinto, novamente, uma lágrima percorrer meu rosto e cair no meu colo.

Estou olhando o Facebook, casualmente, e surge um vídeo de um grupo feminista. Ele mostra uma multidão de mulheres segurando cartazes, gritando em coro: “Pela vida! O corpo é nosso! É nossa escolha! É pela vida das mulheres!” contra o PL 5069. Sinto um arrepio percorrer o meu corpo.

Orgulho! Orgulho dessas mulheres que foram à rua! Como queria estar lá, gritando junto!

Choro enquanto assisto. Repeti o vídeo várias vezes.

Pela vida das mulheres! Pois ninguém mais se importa conosco, a não ser nós mesmas. Homem nenhum está interessado em que tenhamos autonomia sobre nosso corpo. Homem nenhum está interessado no sofrimento que passamos por não termos essa autonomia – muito menos Eduardo Cunha e sua corja.

Essa vida, cheia de seus sofrimentos, cheia de suas coisas. Tão cheia de complexidades.

Me fez lembrar Drummond:

“Mundo, vasto mundo
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo, vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.”

Pois se não há solução pra esse sofrimento todo, vamos transformar parte dele em amor e arte

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sobre empregos, burocracias, números e a vida

O sumiço do blog se deve ao caos que tomou conta dos meus dias. Tarde dessas, perguntada por um amigo sobre onde estou morando, respondi: “Sabe que não sei?”

Cada dia numa cidade diferente, procurando empregos diferentes em outras cidades ainda (e nas cidades em que me revezo em estar também), ficando ansiosa com a ausência de respostas concretas e me apavorando com a minha ignorância. Medo de não saber prescrever tudo, medo de deixar de diagnosticar coisas, medo de não ser competente o suficiente. De não saber o suficiente.

Tantos medos e ansiedades!

E, além disso, resolvendo burocracias. É levar documentos no CRM num dia, (re)fazer carteira de trabalho, buscar carteira de médico pronta no CRM no outro, fazer currículo, imprimir currículo, procurar certificados, procurar no Google outras oportunidades de emprego que ainda não tenha olhado, fazer ligações, mandar e-mails, bater perna com currículos debaixo do braço, mandar fazer carimbo, ir buscar carimbo… Uma loucura. Uma completa loucura.

Subitamente jogada nessa vida real, com todos os seus números (os financeiros, inclusive), já quase não sei mais meu nome – quem dirá a profissão! Nessas correrias, vez ou outra me chamam de “doutura” e eu não olho, achando que não é comigo (e, vejam só vocês, é comigo). Fora todas as vezes em que me apresentei como acadêmica para rapidamente corrigir para médica.

Toda essa instabilidade só não me deixa constantemente maluca porque sou uma pessoa focada em momentos. Fico maluca agora, quando as coisas estão acontecendo, dali a pouco relaxo, dali a outro pouco fico maluca de novo, e assim vamos. Tentando controlar minhas intensidades, todas momentâneas, todas misturadas.

Assim tenho vivido: bolhas, calos e band-aids. Nos pés e na alma

uma lição de empatia – no ônibus

O ônibus chegou, vazio. O ponto de ônibus, no entanto, estava lotado; nós, os passageiros, no amontoamos na porta, para passar pela catraca. O cobrador, pacientemente, utilizava o sistema da empresa para imprimir e entregar as passagens de cada um. O processo, no entanto, era super lento, e o ônibus ficou um tempão parado esperando as pessoas conseguirem entrar.

Nisso, um dos passageiros pergunta ao cobrador:

– Quem foi que colocou esse negócio aí?

– Ah, a empresa…

– Mas eles explicaram o porquê de fazer desse jeito? Se demora tanto e dá tanto trabalho?

– Não falaram, não.

– Hum. Deve ser por que não pegam ônibus!

 

Eis uma verdade natural: a única forma de entender completamente uma situação é passando por ela. Ouvir relatos não é o suficiente; apenas estando na pele de quem passa. Por isso jamais seremos conhecedores absolutos da vida e do universo:pois estamos presos ao corpo e ao contexto nos quais nascemos. E, por isso, pode-se adquirir maturidade emocional com a experiência: pois quanto mais vivemos (reparem que eu disse mais, e não por maior tempo), com mais situações diferentes e mais contextos nós entramos em contato.

Há, no entanto, uma interessante forma de ter alguma ideia do que é passar por uma determinada situação: tendo sensibilidade e… Amando!

Explico: não acontece que, quando amamos alguém, somos mais sensíveis à sua dor? O amor tem o poder de nos aproximar de uma realidade que não é a nossa. Às vezes, como até nosso amor é imperfeito, nem tendo alguém que se ama por perto pra enxergar; por isso incluo a sensibilidade e o olhar atento. Quando amamos alguém que sofre, por alguma razão, a situação não é nossa, mas nos é próxima. Ah, se todo branco amasse um negro! Ah, se toda família tivesse um homossexual! Ah, se todo homem visse alguma das mulheres que ama passando medo ou vergonha por causa de uma cantada na rua, ou sendo vítima de algum abuso! E se, os tendo por perto, dedicassem empatia, ouvidos, esforço, estudo e dedicação para promover mudança…

A informação muda o mundo.

O amor muda o mundo.

Mas, sozinhos, nenhum dos dois muda nada!

turbilhão

Às vezes as coisas vão acontecendo e te carregando, te engolindo, te sugando pro meio do caos todo. E essa foi a minha semana. A coisa, que vinha se acumulando perigosamente dentro de mim, finalmente explodiu onde não devia, hoje.

Mas a verdade é que eu não queria chegar nesse ponto, de explodir, de não conseguir controlar minha raiva. Queria descarregar alguns pesos no caminho; mas parecem tão firmemente amarrados às minhas costas que nem mesmo encontro o nó, quanto mais o desato. Tenho tido, repetidamente, pensamentos negativos, que danificam minha autoestima e minha vontade.

Eu só queria ser mais livre. Mas não sei nem por onde começar.

Eu não sei se devo pensar melhor a respeito ou parar de pensar tanto, se devo me ocupar ou parar de fazer trinta coisas ao mesmo tempo, se devo me concentrar mais ou me distrair um pouco da vida… Não sei. Queria fazer uma reforma emocional em mim mesma, mas não sei como.

 

Não consigo sozinha. Mas não sei bem nem a que recorrer.

Ai, vida… Pra que tão difícil?

as três fases do (meu?) entendimento

1) A ignorância:

Na ignorância, você não percebe uma porção de coisas sobre o mundo ao seu redor. Quase todo mundo vive essa fase em algum momento da vida, nem que seja ao longo da infância. Há quem diga que “a ignorância é uma benção”, já que muitos ignorantes vivem num estado de contentamento leve e bobo. Como não percebem que a vida é uma bosta, pensam que a vida é linda. Tocam suas vidas sem sair da bolha, fazem comentários vazios e sem embasamento, não conseguem enxergar a um palmo de distância deles mesmos. A ignorância resulta do egocentrismo, afinal, quando o que importa é o mundo ao meu redor, eu não saio do lugar pra procurar por mais. Se me contento com o que tenho, pouco importa o resto.

Mas, calma, isso não é uma crítica. Como disse, todo ser humano vive sua fase de narcisismo, nem que seja na infância. E, claro, há pessoas com acesso realmente limitado à informação, e que não vive na ignorância por egoísmo.

 

2) A indignação:

Em algum momento da vida, você se dá conta de dois fatos que mudam tudo:

– Existe mais no mundo do que o que você conheceu até o momento;

– A vida não está tão boa assim pra você, que foi colocado numa caixinha apertada cheia de expectativas; e muito menos está para pessoas que tem ainda menos recursos que os que você tem.

Triste fase. Quando começa a conhecer o mundo, é impossível não ficar muito indignado e muito puto. Quando conhece situações sociais precárias, quando começa a estudar os movimentos políticos, quando começa a estudar história por interesse, e não por te obrigarem na escola (e com senso crítico, aliás), quando começa a lidar com movimentos sociais (feminismo, movimento LGBT, por exemplo), e as vendas que te colocam nos nossos olhos desde sempre começam a cair… Dá raiva do que te fizeram. Dá raiva de não ter compreendido antes. Dá raiva, também, de quem continua oprimindo, julgando, vivendo dentro da caixinha. Você se dá conta de que muita gente vive na ignorância, e que a ignorância dos seres humanos faz com que mutuamente se prejudiquem, firam, e que julguem uns aos outros injustamente.

Você se dá conta de que, se o mundo é uma bosta, em grande parte ele é uma bosta por causa da ignorância das pessoas que vivem nele.

É uma fase triste, essa. Você também se sente sozinho em suas causas, já que ninguém mais parece se importar. Você ensaia gritar e se revoltar, você discorda do que todo mundo diz, fica irritado com o senso comum e os argumentos vazios… Mas, infelizmente, na maior parte das vezes você não será entendido ou mesmo levado à sério. Sendo mulher, corre-se ainda o risco de ser chamada de pitizenta, mimimi ou “feminazi” (isso aí – comparam a importância que você dá aos seus iguais e o seu amor a uma causa ao nazismo).

 

3) O lúdico:

Com o tempo, você se conforma. Compreende que, infelizmente, as pessoas não são mesmo ensinadas a raciocinar. Não se pode culpá-las inteiramente por isso. Embora ainda se irrite vez ou outra, que ninguém tem sangue de barata, e embora continue a se manifestar, muitos dos comentários ignorantes que antes te irritavam tornam-se bastante lúdicos. Você ri, que é o que tem. Também começa a aprender quando vale a pena entrar numa discussão e quando não.

Já habituado aos comentários a seu respeito (pois, se você realmente viveu a coisa toda, a essa altura já foi tachado de chato por uma porção de gente) você deixa de perder tempo se preocupando com o que vão pensar de você – e continua investindo seu tempo em viver ativamente e a cada momento sua militância. Até porque, agora, também já entendeu que simplesmente não importa. Seu pessoal passa a ser o seu político. O que importa é que você se sinta livre.

Você percebe que consegue mudar algo da realidade ao seu redor. Que algumas pessoas também compreendem, também passam a se sentir livres, também vivem o processo todo – e essa é uma sensação ótima, a de transformar.

E, nessa linda fase lúdica, você cresce e se sente ainda mais livre. Pois somente a informação liberta. Você compreende que tem um universo de possibilidades. Você aprende a pensar fora da caixinha. Você se torna sedento por conhecer, ler, entender, estudar. Agora, pensar de forma crítica e buscar informações confiáveis antes de julgar torna-se quase um hábito. Você aprende sobre paciência, tolerância e amor. Você se torna muitíssimo aberto a novas opiniões, especialmente quando nota que são bem embasadas. Discussões construtivas, reflexivas e não agressivas se tornam um grande prazer.

 

Você descobre um novo jeito de ser feliz e de ver leveza na vida. Você passa a discordar de quem diz que a ignorância é uma benção – ainda que os entenda…

O mundo é grande e é fascinante!

das observações

Algumas pessoas, parece-me às vezes, nunca estão satisfeitas com nada.

Nunca tem: dinheiro suficiente, roupas suficientes, tempo suficiente, amigos suficientes, namorados ou maridos suficientes, ou namoradas e esposas suficientes; corpos suficientes, cabelos suficientes, maquiagens suficientes, adereços suficientes, belezas suficientes; sono suficiente, diversão suficiente, felicidade suficiente, privilégios suficientes, celulares suficientes, computadores suficientes, casas ou apartamentos suficientes, carros suficientes. Passam a vida a reclamar. Não se passam 10 minutos sem que reclamem de alguma coisa.

Essas pessoas são, em sua maioria, de classe média a alta, tem bens materiais em quantidades perfeitamente adequadas para a sobrevivência com qualidade, são saudáveis, tem pessoas que as apoiam e uma perspectiva de futuro. Elas mal conseguem olhar para o lado, onde há gente com tanto, mas tanto menos que elas que  nem se pode comparar.

 

A verdade é que, embora elas não vejam isso, apenas UMA coisa lhes falta: gratidão.

pois o mundo é o que é

Diálogo número 1 – o almoço

– Quantos pacientes o professor atende por dia?

– São 10. Cinco de manhã e cinco a tarde.

– Ih! Não é cansativo? Pela duração das consultas…

– Duram em torno de 40 a 50 minutos.

– Nossa…

– Não é cansativo, não. Já foi mais cansativo!

E, aqui, eu achei que ele ia dizer que já teve de atender em mais quantidade. Mas ele continuou:

– Na época em que a gente era mais novo e não tinha material interno pra trabalhar as coisas. Agora que a gente tem material ficou mais lúdico, assim.

 

Diálogo número 2 – o filme

Sabine está tentando defender Jung para Freud. Ele responde que não se pode almejar mudar completamente as pessoas:

– Ele esta tentando achar uma maneira para não termos que dizer aos nossos pacientes, “É por isso que você é do jeito que você é”. Ele quer poder dizer, “Podemos lhe mostrar aquilo que você quer se tornar.”

– Brincar de Deus, em outras palavras. Não temos o direito de agir assim. O mundo é como é. Compreender e aceitar isso é o caminho para a saúde psíquica. Que bem poderemos fazer, se o que queremos é trocar uma ilusão por outra?

 

 

Conclusão

O mundo é o que é.  Não há muito que eu possa fazer a respeito. Seria no mínimo um tanto narcisista da minha parte imaginar que eu, sozinha, pessoa tão comum, fosse capaz de transformar as coisas e as pessoas. Não sou. Vamos começar a deixar esses pesos pra trás! Não tenho a obrigação de mudar ninguém. De tornar ninguém “melhor” (tem isso?). De “converter”, convencer, transformar ninguém. Cada um que seja resultado da vida que teve. Cada um tem de lidar com si mesmo.

Afinal, “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”, como dizem por aí

 

E

Com o tempo, experiência e paciência, terei mais “material interno” para lidar com as questões que surgem no consultório, no hospital, nas visitas domiciliares, enfim… No contato com os pacientes e com a vida.

Tudo a seu tempo. Maturidade não vem rápido, nem de graça e nem com pouco esforço.

 

mundo, vasto mundo

Escrevo meu Portfólio do estágio de medicina da família e comunidade (MFC).

Por tanto escrever e tanto pensar, por fim saio do documento do word e migro para cá. É preciso arrancar alguma coisa de dentro de mim.

Foi um estágio de lidar com uma porção de pesos emocionais (está sendo, na verdade). Sentada aqui perante as páginas em branco do word, revivo uma porção de momentos e chego a uma conclusão: não é estranho que eu esteja me sentindo tão diferente por esses dias. É humano, apenas.

Conheci tantos contextos! Nem todos felizes. Alguns de muito, muito sofrimento. A gente pobre está aí, embora o resto das pessoas se recuse a admitir; e a gente pobre tenta viver sua vida, essa vida que o resto das pessoas não faz ideia que exista.

Entrei em tantas casas de uma humildade tão grande. Caminhei por becos de terra batida, cheios de lixo, cachorros abandonados e esgoto a céu aberto. Casas de um cômodo só. Casas com cômodos cujas “paredes” são pedaços de pano. Casas que sofrem com a chuva, impedindo seus moradores de dormirem.

Ouvi pacientes falarem de seu sofrimento – ali, impotente, sentada numa cadeira, podendo fazer tão pouco senão consolar momentaneamente.

É vasto, esse mundo. É cheio de coisa, cheio de gente, cheio de história. Se por um lado me alegra e fascina que as pessoas sejam universos incríveis nos quais tenho a oportunidade de mergulhar, também me entristece que tão pouco se possa fazer para mudar esses destinos e aliviar o tanto de sofrimento que existe.

Tenho vontade, muita vontade, de me aproximar, de desvendar esse mundo e essas pessoas, de fazer parte dele. Mas temo que jamais compreenderei totalmente.

Ainda assim, sinto-me misturada a isso tudo. Estou misturada a tudo que vivi nesse estágio, a toda frustração que vivi ao longo desse ano de internato. Estou misturada à essa medicina que me ensinaram, na qual acredito apenas parcialmente, e cuja outra metade que impregnou quero destruir para construir novamente, mais bonita. Agora, tenho essa missão de separar essa colcha de retalhos que me tornei. De lidar comigo, com meus pacientes internos e demais barulhos. Trabalho minucioso, eu sei. Mas é hora de retomar minha faxina na alma.

porque a revolução é uma pátria e uma família

Sou apaixonada por Jorge Amado. Seus escritos de cunho social, suas obras cruas, reais e doloridas me tocam de modo que não sei explicar. Fazem de mim triste e feliz ao mesmo tempo, nem sei como. Sei que a cada livro dele que leio (ou releio), eu choro pelo menos uma vez (mas geralmente, são mais). Ele tem grande participação no meu modo de pensar as classes sociais. Não sei se há como ler algo dele sem se comover e sem parar pra pensar.

 

Hoje, terminei de reler “Capitães da Areia”. Jorge Amado é um de meus favoritos, e esse livro é um de meus favoritos dentre os de Jorge Amado (não posso dizer que é meu livro favorito, pois tenho muitos livros favoritos).

 

Fico comovida com a força de Pedro-Bala, com a pureza e a valentia de Dora, com a bondade de João Grande, com a fé do Pirulito, a sensibilidade do Professor, com o ódio sem fim de Sem-Pernas e até mesmo com a psicopatia (socialmente alimentada) de Volta Seca. Tornam-se como que meus conhecidos, amigos queridos, irmãos menores. Queria protegê-los, fazer algo que mudasse as vidas deles, que mudasse a nossa vida, que mudasse a vida inteira.

Mas a vida não muda, e nós – tanto eu quanto esse meninos, que são de livro mas também são reais – sabemos que não adianta. Que essa vida é caso perdido.

Que as pessoas são caso perdido.

Sinto raiva da nossa sociedade hipócrita, vazia, distante, arrogante e julgadora. Somos todos igualmente criminosos, só que uns social e moralmente aceitos, e outros não.

 

Mas ainda temos esperança na transformação (nas pequenas transformações, talvez), e sinto a mesma empolgação de Pedro-Bala ao pensar nas possíveis mudanças, na liberdade que é como o sol – o bem maior do mundo. Parece até que te conheço, Pedro-Bala. Desde que chorei contigo a morte (real e imaginária) de Dora.

Pois que todos nós choramos, vez ou outra, a morte (real e imaginária) de nossas expectativas…